Como
núcleos de pesquisa no Brasil levam universidades para além do Ocidente?
Professores explicam
Apesar
da forte influência de discursos midiáticos enviesados e de think tanks
financiados pelo eixo Washington-Bruxelas, a sociedade civil tem reagido em
busca de outras fontes de conhecimento. No âmbito acadêmico, diversas
iniciativas propõem uma abordagem diferenciada para pensar política, economia,
tecnologia, cultura, entre outros temas.
Nesse
cenário, constroem-se pontes por meio do diálogo e de estudos elaborados por
grupos que atuam nos campi universitários, como na Universidade Federal da
Bahia (UFBA), em Salvador. A Sputnik Brasil conversou com Jonnas Vasconcelos,
professor da instituição e coordenador do Centro de Pesquisa BRICS+ (NEPBRICS),
que implementou uma iniciativa que surge como alternativa ao eixo eurocêntrico
na formação dos estudantes.
"Venho
trabalhando com a temática do BRICS há quase 15 anos e, em 2021, tomei a
iniciativa de reunir pesquisadores e estudantes interessados na cooperação
Sul-Sul, para pensar o direito, o desenvolvimento e as relações internacionais
a partir de uma perspectiva não colonial, ou seja, pensar os nossos desafios
globais a partir de outros olhares. E a temática do BRICS dialoga muito com
isso", disse.
Já na
região Sul do país, em Florianópolis, a reportagem entrevistou Fred Leite
Siqueira Campos, professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e
coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre a Rússia (PRORUS), que fundou
por demanda de seus alunos.
"Alguns
de meus alunos do curso de relações internacionais entraram na minha sala e,
quando viram a bandeira da Rússia na minha mesa na universidade, me
perguntaram: 'Por que o senhor não constrói um grupo de pesquisa? Porque aqui
existem muitas pessoas que gostam da Rússia.' Então foi assim que surgiu o
grupo [PRORUS], que existe desde 2014 e vem atuando de maneira bastante
profícua na universidade", comenta.
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Atividades que ultrapassam os muros das faculdades
Paralelamente
às discussões e produções acadêmicas, o NEPBRICS promove atividades que
extrapolam o campo teórico. O núcleo realiza eventos importantes, como a
projeção de filmes produzidos nos países que compõem o grupo, voltada para
jovens, acompanhada de cinedebate, conforme detalha Jonnas.
"Infelizmente,
temos muito desconhecimento das culturas dos povos de países fora do eixo
Europa e EUA. Então, por meio do cinema misturado com debate, fazemos uma
articulação com estudantes bem jovens, de 12 e 14 anos, para formar uma nova
geração de pessoas que conheçam um pouco de cada um desses países a partir da
produção cinematográfica dos próprios países. Isso faz parte do NEPBRICS",
destaca.
©
Sputnik / Sputnik Brasil / Rennan Rebello
O
PRORUS também acaba sendo um elo entre o Brasil e a Rússia, uma vez que mantém
diálogo com pesquisadores do país e coordena convênios com universidades
russas, inclusive para o ensino do idioma aos alunos, como elucida Fred.
"Estamos
acertando um convênio com a Universidade Estatal de São Petersburgo para o
ensino da língua russa na UFSC, intercâmbio de colegas russos no Brasil e de
alunos brasileiros na Rússia. Por causa do PRORUS, coordeno convênios de
cooperação entre a UFSC e a Universidade de Rostov-on-Don e já conversei com
colegas de Kazan e de Moscou. Enfim, isso acabou acontecendo
naturalmente", observa.
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Intercâmbio internacional acontece com frequência
Outro
ponto levantado por Jonnas é a BRICS+ Salvador Summer School, um curso de verão
sediado anualmente na capital baiana, organizado pelo NEPBRICS, que reúne
pesquisadores de diversas nações interessados em apresentar e aprofundar seus
conhecimentos sobre assuntos referentes ao BRICS e ao Novo Banco de
Desenvolvimento (NBD).
"A
Summer School, voltada exclusivamente para a temática BRICS, é um projeto
pioneiro aqui na Bahia, e eu diria até no Nordeste do Brasil. Na primeira
Summer School [em 2025], recebemos candidaturas de mais de 20 países para virem
a Salvador e ficarem mais de 20 dias aqui. Eu visualizo que existem mudanças
acontecendo no campo da juventude e da universidade, mas que ainda estão
ganhando seu espaço", pontua.
Com o
avanço das pesquisas sobre a Rússia em diversos segmentos econômicos e
políticos, entre outras áreas do saber, Fred relata que tais investigações
despertam nos estudantes integrantes do PRORUS o desejo de conhecer o país
investigado in loco.
"Hoje,
no PRORUS, temos colegas russos, brasileiros e até pessoas de fora da
universidade. Nosso principal objetivo é prover um estudo sobre a Rússia em
amplo aspecto, desde economia, filosofia, relações internacionais etc. Eu já
perdi as contas, sinceramente, de quantos alunos que participaram do PRORUS já
foram para a Rússia e desenvolveram atividades lá", conclui.
Em um
mundo cada vez mais multipolar, além das relações na ordem política e
econômica, entre outros setores vitais para a soberania de um Estado, a
cooperação técnico-científica se torna imprescindível, sobretudo no contexto de
uma transição sistêmica na qual a cooperação fora da esfera governamental
também se torna fundamental.
• Inspiração no 14-Bis: Brasil avança no
domínio das tecnologias de voo hipersônico
Poucos
países dominam tecnologias de voo hipersônico, capazes de ultrapassar cinco
vezes a velocidade do som. O Brasil quer entrar nesse seleto grupo por meio do
projeto 14-X, desenvolvido pela Força Aérea Brasileira (FAB), que ganhou
prioridade estratégica no programa Nova Indústria Brasil.
Era o
centenário do primeiro voo oficialmente reconhecido na história mundial — em
1906, o brasileiro Santos Dumont fez o icônico 14-Bis decolar, voar e pousar em
Paris sem o auxílio de catapultas — quando, em comemoração à data, a FAB
batizava um projeto que prometia colocar o Brasil mais uma vez na história, com
o 14-X. A proposta era iniciar os estudos para que o país desenvolvesse as
tecnologias necessárias para dominar o voo hipersônico, atualmente restrito a
um grupo seleto de países, como Rússia, China e Estados Unidos.
O
projeto Propulsão Hipersônica 14-X (PropHiper) é desenvolvido pelo Departamento
de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) e pelo Instituto de Estudos
Avançados (IEAv), vinculados à FAB. O primeiro voo-teste foi realizado em
dezembro de 2021, no Centro de Lançamento de Alcântara, ocasião em que alcançou
mais de 30 quilômetros de altitude e velocidades próximas a Mach 6 (cerca de
7.350 quilômetros/hora). Para garantir a continuidade do projeto, o governo do
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) incluiu, no ano passado, a meta de
concluir a plataforma nacional para voos hipersônicos até 2033, por meio do
programa Nova Indústria Brasil (NIB).
Atualmente,
o projeto 14-X concentra esforços no desenvolvimento do motor scramjet
(Supersonic Combustion Ramjet, em inglês), que permite alcançar velocidades de
até dez vezes a do som ao usar o ar da própria atmosfera para a combustão do
hidrogênio. Além disso, a FAB inaugurou no último mês o Túnel Hipersônico T5,
localizado na sede do IEAv, em São José dos Campos (SP). Com 50 metros de
comprimento e considerado um dos mais avançados do hemisfério Sul, o
equipamento permitirá a realização de pesquisas de ponta na engenharia
aeroespacial.
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Brasil ainda engatinha rumo à tecnologia hipersônica?
Apesar
dos avanços recentes, especialistas afirmam que o Brasil ainda está nos
estágios iniciais do domínio dessa tecnologia. À Sputnik Brasil, o professor de
engenharia aeroespacial da Universidade Federal do ABC (UFABC) Annibal Hetem
Junior compara esse processo a uma caminhada de 100 passos e avalia que o país
está atualmente por volta do quinto.
"É
muito no começo, mas não é zero. Havia um túnel de vento hipersônico antes, que
também ficava em São José dos Campos, mas ele tinha restrições. Conseguia
trabalhar com modelos e peças pequenas por um intervalo de tempo extremamente
curto, coisa de milissegundos. Esse novo túnel permite aumentarmos a escala dos
experimentos", afirma. Segundo ele, o equipamento também permitirá validar
teorias já desenvolvidas, mas que ainda precisavam ser testadas.
Conforme
o especialista, o voo hipersônico representa um regime distinto da engenharia
aeroespacial. Isso porque, à medida que uma aeronave aumenta sua velocidade, as
características físicas do escoamento do ar e as forças que atuam sobre o
veículo mudam significativamente, exigindo novas soluções de engenharia.
Enquanto o regime supersônico compreende velocidades acima da velocidade do som
até cerca de Mach 5, o hipersônico abrange velocidades superiores, que
atualmente podem ultrapassar Mach 14 (cerca de 17 mil quilômetros/hora).
"O
voo hipersônico é importante para o Brasil por representar um avanço
científico, tecnológico e de engenharia. Neste momento, acredito que seu
principal papel não seja o uso maciço como sistema de defesa, mas o
desenvolvimento de tecnologias, a formação de profissionais e o fortalecimento
da indústria aeroespacial para atender às demandas desse tipo de projeto",
afirma.
Sobre a
meta estabelecida pelo governo brasileiro, Hetem acredita que há condições de
cumprir o cronograma, desde que o orçamento seja contínuo e sem cortes,
incluindo os insumos e equipamentos necessários para a realização das
pesquisas. "Se tudo isso se mantiver, acredito que esse prazo é razoável.
Por outro lado, sabemos da história de outros projetos brasileiros em que os
prazos vão sendo adiados em função de problemas como a indisponibilidade
orçamentária."
Já o
doutor em ciências militares e pesquisador do Grupo de Pesquisa Geopolítica,
Economia de Defesa e Desenvolvimento (GEDD) Erick Andrade compara o desafio de
desenvolver essa tecnologia a acender uma fogueira na base de um furacão.
"O
mais difícil é o desenvolvimento do próprio motor scramjet, que, diferentemente
dos convencionais, usa o ar da atmosfera em altíssimas velocidades para a
combustão. Não há compressores: o ar é comprimido por sua própria velocidade de
entrada na câmara de combustão, em velocidades supersônicas, o que resulta em
gases de altíssima pressão e velocidade", enfatiza.
Em
relação ao aporte de R$ 93 milhões concedido pela Financiadora de Estudos e
Projetos (Finep) ao 14-X, Andrade afirma que o recurso deu uma sobrevida ao
projeto, mas considera essencial a destinação de novos investimentos para
garantir a continuidade dos estudos.
"Não
creio que o Brasil esteja tão atrasado assim nessa corrida tecnológica, já que
pouquíssimos países possuem de fato mísseis hipersônicos ativos e testados.
Contudo, temos que ficar atentos: o avanço tecnológico ocorre hoje em um piscar
de olhos e, sem planejamento e investimento robusto nessas tecnologias
disruptivas, ficaremos mais uma vez para trás", alerta.
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Voos hipersônicos no setor de defesa
Dos
mísseis aos veículos planadores hipersônicos, que combinam velocidades extremas
com elevada capacidade de manobra, essa tecnologia é relativamente recente no
setor militar, com a Rússia operando o primeiro equipamento em 2018. Além de
permitir ataques rápidos, ela também pode ser empregada em sistemas de defesa
antimísseis, permitindo a interceptação de ameaças. Segundo o professor da
UFABC, o Brasil é o único país da América do Sul que desenvolve pesquisas na
área.
"Na
lista [de países que possuem ao menos protótipos voando], temos Estados Unidos,
China, Rússia, Índia, França, Japão e Austrália. Este último, inclusive, é um
caso interessante, porque iniciou os estudos praticamente na mesma época que o
Brasil, mas conseguiu avançar rapidamente", compara.
Questionado
sobre o motivo de o país ter ficado para trás em relação ao caso australiano,
Annibal Hetem Junior aponta justamente a capacidade de financiamento, sobretudo
em tecnologias sensíveis ligadas ao setor de defesa. Como exemplo, o professor
lembra que o Brasil possui excelência em diversas áreas de inovação, como o
sistema bancário e o agronegócio, no qual domina técnicas de melhoramento
genético e culturas especiais, sendo considerado referência mundial.
"Claro
que isso está diretamente ligado ao nível de financiamento. Ciência custa
dinheiro, não tem outro jeito. Quando se investe mais em determinadas áreas do
que em outras, isso reflete o interesse estratégico do país. Não significa que
as demais parem de avançar, mas elas evoluem em um ritmo mais lento."
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Brasil e a reação das potências
Na
avaliação do especialista, o avanço brasileiro no desenvolvimento de
tecnologias hipersônicas também pode despertar a atenção de outras potências,
já que a competição internacional é cada vez mais pautada pelo domínio
tecnológico. Segundo ele, é natural que países que já dominam esse tipo de
capacidade acompanhem com cautela a entrada de novos atores nesse segmento.
Apesar
disso, ele ressalta que a tecnologia hipersônica não deve ser encarada apenas
sob a ótica militar. Para o pesquisador, caso o Brasil alcance um elevado nível
de desenvolvimento e produção, poderá transformar esse conhecimento em um ativo
estratégico também sob a perspectiva econômica.
"Se
a gente chegar à excelência de fabricação, poderá, no futuro, negociar e vender
essa tecnologia para parceiros com os quais temos afinidade. Não devemos
enxergar a tecnologia hipersônica apenas como um instrumento de defesa ou
bélico, mas também como um produto que pode ser comercializado", finaliza.
Fonte:
Sputnik Brasil

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