sábado, 25 de julho de 2026

O fujimorismo retorna ao Peru. E agora?

A vitória eleitoral de Keiko Fujimori, cuja legitimidade é amplamente questionada devido às graves irregularidades que marcaram o segundo turno, constitui um ponto de inflexão na política peruana. Após mais de uma década de crise, caracterizada pela instabilidade governamental, pela fragmentação extrema do sistema partidário, pela derrubada do governo de Pedro Castillo e pela crescente captura das instituições estatais pelo bloco dominante, a ultradireita recuperou o controle direto do Poder Executivo. O resultado do segundo turno foi, além disso, extremamente apertado: apenas 49.641 votos separaram as duas candidaturas.

Esse desfecho sinaliza o esgotamento do autoritarismo parlamentar instaurado após o golpe de Estado de dezembro de 2022. Em seu lugar, começa a se delinear uma estratégia destinada a consolidar um regime autoritário de caráter presidencialista, que procura restabelecer, adaptando-o às condições atuais, o projeto político inaugurado por Alberto Fujimori na década de 1990.

O que está em jogo excede, portanto, uma simples mudança de governo. Trata-se de uma tentativa de reorganizar o bloco no poder mediante uma nova articulação entre o Executivo, as elites econômicas, os aparelhos coercitivos do Estado e os setores mais reacionários do sistema político.

Seria um erro, no entanto, interpretar esse resultado como uma resolução da crise do regime ou como a consolidação definitiva de uma nova hegemonia conservadora. As profundas contradições sociais, a crise de representação política, o deterioramento da legitimidade estatal e as disputas persistentes entre as distintas frações do bloco dominante indicam que a crise orgânica do Estado peruano permanece em aberto, embora tenha ingressado em uma nova fase sob a condução da ultradireita.

<><> Passado e presente do fujimorismo

Para compreender o novo cenário, é útil recuperar a interpretação do cientista social peruano Aníbal Quijano sobre o fujimorismo. Segundo Quijano, o regime instaurado por Alberto Fujimori foi muito mais do que um governo encarregado de aplicar um programa neoliberal. Representou uma nova modalidade de dominação autoritária, orientada a reorganizar o Estado peruano após o esgotamento da ordem oligárquica e a crise do Estado desenvolvimentista durante a década de 1980.

A liberalização econômica, a concentração do poder na Presidência, a subordinação das instituições, a militarização da política, a corrupção sistemática e a desarticulação de movimentos sociais fizeram parte de um mesmo projeto histórico. O fujimorismo transformou profundamente o regime político: enfraqueceu os partidos, erodiu as organizações sociais e consolidou uma forma de dominação plebiscitária e autoritária, apoiada no personalismo, no clientelismo e na promessa de restabelecer a ordem.

Essa tradição política, no entanto, nunca operou exclusivamente dentro das fronteiras peruanas. Diversas análises têm apontado a existência de redes transnacionais de assessoramento, financiamento e circulação de estratégias que vinculam as direitas latino-americanas a centros internacionais de poder. Keiko Fujimori e seu entorno fazem parte de uma constelação que articula think tanks, consultorias eleitorais e espaços de formação política conectados a circuitos externos, particularmente nos Estados Unidos.

Essa dimensão internacional não substitui as determinações internas nem a função que o fujimorismo cumpre dentro do bloco dominante peruano. Permite, em contrapartida, compreender a profissionalização recente da extrema direita, sua capacidade de adaptação eleitoral e a renovação de seus instrumentos de intervenção política. O fujimorismo contemporâneo é herdeiro do regime autoritário da década de 1990, mas constitui também uma reconfiguração daquela matriz: incorpora novas tecnologias de comunicação, redes midiáticas e estratégias conservadoras que circulam internacionalmente, em um contexto marcado pelo avanço global da ultradireita.

<><> Crise pós-eleitoral e estatismo autoritário

O novo cenário expressa uma recomposição do bloco dominante e, ao mesmo tempo, a persistência de uma disputa profunda em torno da legitimidade da ordem política. Os processos eleitorais recentes dificilmente podem ser compreendidos como mecanismos neutros de disputa democrática. Em um contexto marcado pela concentração midiática, pelas enormes assimetrias materiais entre as forças políticas e pelo uso intensivo de recursos públicos e privados, a contenda eleitoral se desenvolve em um terreno profundamente desigual.

Diversas análises jornalísticas e políticas têm examinado os mecanismos pelos quais o desenvolvimento e o desfecho de uma eleição podem ser condicionados dentro dos próprios marcos institucionais. Entre eles, estão a cooptação do senso comum, a judicialização de candidaturas, o controle da agenda midiática e a intervenção direta dos grandes poderes econômicos. O problema, portanto, não se limita a determinar se houve fraude em sentido técnico. Abrange também a qualidade democrática do processo, a igualdade efetiva da competição e a capacidade do sistema político de representar a vontade popular.

Essas disputas aprofundam a distância entre a legalidade formal e a legitimidade social, um dos traços característicos dos regimes atravessados por crises prolongadas. Um resultado pode ajustar-se aos procedimentos institucionais e, no entanto, carecer da legitimidade suficiente para estabilizar a ordem política.

Nicos Poulantzas advertiu que as crises do capitalismo contemporâneo poderiam favorecer o desenvolvimento de formas de Estados autoritários. Esse processo não supõe necessariamente a supressão formal da democracia. Consiste, antes, na concentração crescente do poder no Executivo, no enfraquecimento dos contrapesos institucionais, na expansão dos aparelhos coercitivos, na judicialização da política e na redução efetiva dos espaços de deliberação democrática.

O novo governo pode aprofundar várias tendências que já se tornaram visíveis nos últimos anos: a centralização do Executivo, a expansão das políticas de Segurança, a criminalização do protesto social, o uso do aparelho judicial contra os adversários políticos e a imposição de maiores restrições à participação popular e à atividade das organizações de esquerda.

<><> Primeiros apontamentos sobre a apertada derrota eleitoral da esquerda

O novo governo assumirá em um cenário marcado por uma profunda crise de legitimidade do regime político. A elevada desconfiança em relação às instituições, a fragmentação social e o desgaste das formas tradicionais de representação configuram um contexto no qual a vitória do fujimorismo não expressa a construção de uma nova hegemonia. Revela, antes, sua capacidade de articular um bloco eleitoral conjuntural em meio a uma crise orgânica. Seu triunfo repousa menos na adesão positiva a um projeto nacional do que na conformação de uma coalizão social e política coesa pelo medo, pela promessa de restabelecer a ordem, pela defesa do status quo e pela rejeição às alternativas de mudança encarnadas pela esquerda.

O segundo turno colocou em jogo duas estratégias diferentes. Juntos pelo Peru procurou ampliar sua base mediante acordos com setores democráticos e de centro. O fujimorismo, por sua vez, priorizou a consolidação e a mobilização de seu núcleo eleitoral. Em vez de moderar seu discurso ou construir alianças mais amplas, concentrou seus esforços em maximizar a participação de seu eleitorado tradicional e desencadeou uma campanha focalizada em territórios do sul andino que lhe haviam sido historicamente opositores.

A estratégia da ultradireita não pretendia reverter por completo o mapa político surgido em 2021, mas reduzir a distância nas regiões onde a esquerda havia alcançado seus maiores níveis de apoio. Os resultados mostram que ela conseguiu incrementar sua votação em várias delas em relação ao segundo turno anterior, embora sem modificar a correlação política geral no sul andino e na serra central.

Roberto Sánchez, por sua vez, obteve um capital eleitoral superior ao alcançado por Pedro Castillo em várias regiões do norte e entre setores médios urbanos de Lima. Isso evidenciou uma maior capacidade de disputar espaços nos quais o voto contestatório havia encontrado historicamente maiores dificuldades. No entanto, esse crescimento não foi suficiente para compensar a redução da vantagem no sul andino. Embora Sánchez tenha vencido em dezesseis regiões, fê-lo com margens menores do que as obtidas por Castillo no segundo turno de 2021. A diminuição dessa diferença foi decisiva para o desfecho nacional.

Uma parte importante da campanha da esquerda apostou na expectativa de que o antifujimorismo voltaria a operar como o principal fator capaz de articular uma maioria social. O processo eleitoral mostrou, contudo, que esse campo político já não tem a mesma potência articuladora de ciclos anteriores. O antifujimorismo continua sendo uma identidade relevante, mas encontra-se mais concentrado em setores urbanos, especialmente limenhos, e possui menor capacidade de irradiação nacional e geracional.

A essa dificuldade somou-se o deslocamento de setores importantes da direita liberal e do chamado centro político, que promoveram o voto nulo ou adotaram uma posição de suposta neutralidade. Essa orientação enfraqueceu ainda mais a possibilidade de criar uma frente democrática ampla contra o avanço do fujimorismo.

O voto emitido no exterior também desempenhou um papel decisivo. Seu respaldo majoritário a Keiko Fujimori terminou por inclinar o resultado final, enquanto, dentro do território nacional, Roberto Sánchez obteve a maior quantidade de votos. Essa diferença revela uma geografia política profundamente desigual entre o eleitorado residente no Peru e o da diáspora. Além disso, foi justamente na votação exterior que se concentraram as irregularidades mais graves, que alimentam os questionamentos sobre a legitimidade do desfecho eleitoral.

O mapa resultante confirma que a ultradireita conseguiu ampliar parcialmente sua inserção territorial, enquanto o campo popular conservou boa parte de seus bastiões históricos, embora com menor intensidade eleitoral. Mais do que uma vitória hegemônica do fujimorismo, o resultado expressa um reequilíbrio desfavorável para o campo popular dentro de uma crise de representação que permanece em aberto. Seu desfecho dependerá menos da dinâmica institucional do que da capacidade de mobilização social e reorganização política das classes populares.

<>< Rumo a uma resistência democrática e popular

Desde a década de 1990, a estratégia da esquerda peruana foi marcada por um processo gradual de dissolução política, derivado de sua subordinação a sucessivas frentes democráticas hegemonizadas por setores liberais. Num primeiro momento, parte da esquerda apoiou a candidatura de Javier Pérez de Cuéllar como expressão de um bloco democrático oposto ao fujimorismo. Após a queda do regime autoritário, essa orientação se prolongou no apoio ao governo de transição encabeçado por Valentín Paniagua e, mais tarde, ao governo de Alejandro Toledo, que havia liderado a oposição ao fujimorismo no ano 2000.

Sob a premissa de recuperar a democracia, a esquerda foi relegando a construção de uma alternativa política própria. Sua independência enfraqueceu-se à medida que se adaptava a um projeto de recomposição do regime, em vez de sustentar uma perspectiva de transformação estrutural da sociedade peruana.

A situação atual apresenta diferenças importantes. Durante os últimos anos, ocorreu uma recomposição parcial da esquerda. Embora ainda careça de um programa socialista integral e de uma estratégia suficientemente desenvolvida, conseguiu reconstruir uma base social e territorial significativa, especialmente no sul andino e na serra central, em torno de um programa nacional-popular de esquerda.

O castilhismo desempenhou um papel decisivo nesse processo, ao manter vigente a representação política das classes populares que irromperam na cena nacional durante o ciclo iniciado em 2021 e encerrado pelo golpe de 2022. Nesse contexto, Roberto Sánchez e Juntos pelo Peru enfrentam o desafio de consolidar essa recomposição mediante a construção de uma oposição ampla e popular.

Isso exige evitar que os acordos táticos com setores do centro político desvirtuem o horizonte de transformação expresso pelos setores andinos e populares. A disputa pela condução da resistência democrática será, nesse sentido, decisiva. Para sustentar uma perspectiva de mudança, essa condução deverá permanecer nas mãos da esquerda popular que conseguiu abrir caminho nos últimos anos, como ocorreu parcialmente durante a campanha do segundo turno.

A composição do novo Parlamento bicameral configura, por sua vez, um equilíbrio político instável. No cenário mais adverso, a oposição poderia ficar reduzida às bancadas de Juntos pelo Peru e Agora Nação, partido de centro-esquerda e orientação social-democrata liderado por Alfonso López-Chau. Em um cenário mais favorável, o desafio consistirá em preservar a coesão de um bloco integrado também pelo Partido Cívico OBRAS, organização fundada por Ricardo Belmont, e, eventualmente, por alguns congressistas do Partido do Bom Governo, força centrista encabeçada pelo ex-ministro Jorge Nieto.

Essa possibilidade torna-se especialmente relevante diante dos indícios de uma fissura na bancada do Partido do Bom Governo, provocada pelas primeiras negociações de seu líder e ex-candidato presidencial, Jorge Nieto, com o fujimorismo. OBRAS, por sua vez, também não ocultou suas conversas com Força Popular, embora tenha ratificado sua participação no bloco parlamentar opositor.

Como ocorreu de maneira recorrente durante as últimas décadas, a instabilidade continua sendo um traço estrutural do sistema político peruano. As novas correlações de forças no Parlamento permanecem abertas a distintas reconfigurações, tanto pelas disputas internas das bancadas quanto pela estratégia de cooptação e disciplinamento desencadeada pelo fujimorismo. O cenário menos provável, no entanto, parece ser uma fissura imediata do bloco oficialista de ultradireita, integrado por Força Popular, o partido fujimorista liderado por Keiko Fujimori, e Renovação Popular, força de direita radical e conservadora comandada por Rafael López Aliaga. Esse bloco busca, além disso, consolidar acordos com o Partido do Bom Governo.

Diante desse panorama, o impulso à mobilização social em torno de um programa antineoliberal mínimo será fundamental para superar os limites da disputa parlamentar e corroer por baixo o regime autoritário que o fujimorismo tentará consolidar. Uma vitória eleitoral questionada da ultradireita não equivale a uma derrota social do campo popular. No Peru, existe uma ampla base trabalhadora e popular capaz de resistir para além de suas direções políticas circunstanciais.

O desafio da esquerda anticapitalista consiste em intervir de maneira unitária e estratégica nessa resistência, construindo um polo radical dentro do bloco democrático e popular em formação.

 

Fonte: Por Johnatan Fuentes, em Outras Palavras

 

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