Empresa
que tem segunda-dama de SP como sócia recebeu R$ 2,3 milhões de bets e banco de
Vorcaro
A
empresa Magic Drone, que tem como sócia principal Vanessa Ramuth, esposa do
vice-governador de São Paulo, Felicio Ramuth, faturou R$ 2,3 milhões em
contratos com empresas de aposta esportiva e com a Will Financeira –
controladora do Will Bank – do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Notas
fiscais emitidas entre agosto de 2024 e setembro de 2025 obtidas pelo Intercept
Brasil registram que a firma recebeu R$ 1,9 milhão de empresas ligadas às
marcas de casas de apostas BPX, H2Bet e BetPix, além de R$ 375 mil do Will
Bank.
Do
montante total, R$ 1 milhão veio da BPX Bets Sports Group — operadora ligada às
marcas Vaidebet e BetPix365 —, por meio de cinco notas emitidas entre junho e
setembro de 2025.
O BPX
Bets Sports Group, plataforma de apostas que tem como sócio o empresário
paraibano José André da Rocha Neto, pagou R$ 1 milhão para a Magic Drone por
apresentações de shows de luzes com drones. No noticiário policial, Rocha Neto
ganhou notoriedade nacional ao ser alvo, em setembro de 2024, da Operação
Integration, da Polícia Civil de Pernambuco, que apurou suspeitas de lavagem de
dinheiro no mercado de apostas ilegais. O Judiciário determinou o bloqueio de
R$ 195 milhões no total, em suas contas pessoais e nas contas de duas de suas
empresas. Na época da deflagração, o dono da Vaidebet teve a prisão preventiva
decretada e foi considerado foragido. Ele viajava pela Europa ao lado do cantor
Gusttavo Lima quando ocorreu a operação.
Em
fevereiro deste ano, as decisões judiciais da Operação Integration foram
anuladas por um juiz federal, que alegou que a justiça estadual não tem
competência para julgar crimes federais, como o de sonegação fiscal de tributos
federais. Ele determinou que o caso fosse repassado para a Polícia Federal.
Outros
R$ 750 mil foram pagos à Magic Drone pela H2 Licensed (H2Bet) no início de
2025, somando-se a R$ 150 mil cobrados da offshore BetPix N.V., sediada no país
caribenho Curaçao.
A Magic
Drone também recebeu R$ 375 mil da Will Financeira S.A. por um show agendado
para fevereiro de 2025. A transação ocorreu no ano anterior à derrocada do
banco digital, que havia sido adquirido em 2024 por Vorcaro, e acabou liquidado
extrajudicialmente pelo Banco Central por insolvência no início de 2026.
Os
valores repassados são para a contratação de espetáculos com centenas de drones
iluminados, segundo as descrições das notas fiscais. A Magic Drone se apresenta
na internet como a primeira e maior da América Latina no ramo. Entre os
clientes famosos da empresa estão o DJ Alok, o sertanejo Gusttavo Lima e a
multinacional Coca-Cola.
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Crescimento acelerado
Apesar
de ter começado em 2020, a Magic Drone teve um crescimento considerável nos
últimos anos, o que coincide com a entrada da segunda-dama de São Paulo na
sociedade.
A
empresa só passou à categoria de empresa de pequeno porte, que permite
faturamento superior a R$ 360 mil por ano, em novembro de 2023. Vanessa Ramuth
se tornou sócia em agosto de 2022, durante a campanha do marido como vice do
então candidato a governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do
Republicanos.
Reportagem
do dia 19 de julho publicada pela coluna de Mônica Bergamo, na Folha de
S.Paulo, revelou que o patrimônio da segunda-dama saltou 580% desde que o
marido assumiu o cargo de vice-governador.
Segundo
a matéria, o maior rendimento de Vanessa Ramuth vem da empresa Direct Serviços
Digitais e Sistemas, que recebe recursos de empresas com atuação em contratos
públicos na área de software para coleta de lixo – entre elas, a CSJ
Consultoria, que tem sede em São José dos Campos, no interior de São Paulo.
Felicio Ramuth foi prefeito da cidade entre 2017 e 2022.
A
advogada Denise de Paiva Ielpo foi sócia da CSJ Consultoria entre 2008 e 2009.
Ela também foi sócia da Magic Drone entre julho de 2020 e agosto de 2022, e
saiu da sociedade da empresa no mesmo mês em que a segunda-dama entrou.
Embora
não seja mais sócia, Denise representa a Magic Drone em processos no
Judiciário. O Intercept entrou em contato com Denise, mas não obteve retorno
até a publicação desta reportagem.
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Outro lado
Questionado
pelo Intercept, o vice-governador Felicio Ramuth enviou uma nota em que nega
qualquer relação entre seu cargo público e os contratos da empresa da esposa,
Vanessa. “É absolutamente improcedente a tentativa de atribuir ao
vice-governador do estado de São Paulo qualquer atuação, influência ou
benefício na celebração de contratos firmados pela empresa privada Magic
Drone”, escreveu.
Ainda
na nota, ele defende que a empresa de Vanessa Ramuth atua de forma independente
e possui administração própria, e que os contratos mencionados na reportagem
foram celebrados todos dentro da legalidade (leia a nota na íntegra).
A
segunda-dama Vanessa Ramuth disse que atua apenas como sócia investidora da
Magic Drone, sem participação nas áreas comercial e operacional. “Nunca
participei de nenhum contrato ou reunião com clientes”, declarou, em nota
enviada pela assessoria de imprensa.
Vanessa
também pontuou que é casada há 23 anos com separação de bens e disse esperar
que seus esclarecimentos acabem com a suposição de que o sucesso de sua empresa
se correlaciona com o marido e as atividades dele
O
representante da Magic Drone, o sócio Carlos Eduardo Gomes de Andrade, ou Kadu
Andrade, não negou que os serviços citados nesta reportagem tenham sido
prestados. Ele ainda afirmou, por meio de mensagens de texto, que a empresa não
participou de nenhuma licitação pública no estado de São Paulo após a entrada
de Vanessa na sociedade, por uma decisão ética, e que os contratos públicos só
representariam 3% de seu faturamento.
No
entanto, a Magic Drone recebeu R$ 170 mil da prefeitura de Osasco, em São
Paulo, para projetar um cachorro-quente no céu. Kadu Andrade, que é responsável
pelo setor comercial da empresa, afirmou que a negociação foi feita com uma
agência de publicidade. A reportagem teve acesso a uma nota fiscal direta entre
a prefeitura e a empresa da segunda-dama.
Questionado
sobre isso, ele disse que os contratos com as empresas são feitos por agências
intermediárias, que negociam com a Magic Drone, apesar de as notas fiscais
serem nominais para as empresas contratadas para o serviço.
“A
agência faz a cotação com a Magic Drone e muitas vezes nem informa quem é o
cliente. (…). Depois que os valores são acordados, a agência fecha o contrato e
a partir de então diz quem é o cliente e apresenta os dados para emissão de
nota fiscal”, escreveu o sócio da Magic Drone em mensagem.
Em
nota, o BPX Bets Sports Group informou que contratou a Magic Drone para
apresentação de drones em shows musicais patrocinados por uma das marcas
operadas pela empresa. O contrato previa dez eventos, mas foi rescindido após
quatro apresentações que aconteceram em Patos, Maceió, Mossoró e Goiânia, entre
junho e julho de 2025.
A
reportagem entrou em contato com a defesa de Vorcaro e com a assessoria da
H2bet, mas não houve resposta. O espaço segue aberto.
• PF investiga evasão de divisas, lavagem
de dinheiro e corrupção em financiamento de Dark Horse
A
Polícia Federal (PF) está reunindo elementos para apurar a prática de crimes
como evasão de divisas, lavagem de dinheiro e corrupção em um inquérito que
investiga os financiamentos concedidos ao filme “Dark Horse”, informa Elijonas
Maia, da CNN Brasil. A abertura da investigação foi devidamente autorizada pelo
ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Para
dar andamento às apurações, a equipe de investigadores da PF vai analisar notas
fiscais, solicitar quebras de sigilo bancário e colher depoimentos de pessoas
envolvidas no caso. Entre os depoimentos previstos está o do ex-banqueiro
Daniel Vorcaro.
A obra
audiovisual “Dark Horse” narra a trajetória política de Jair Bolsonaro (PL) e
contou com um aporte financeiro de R$ 61 milhões realizado por Vorcaro. O
repasse ocorreu a pedido do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O parlamentar,
por sua vez, nega qualquer irregularidade, sustentando a tese de que o
financiamento se tratou de um acordo estritamente privado, firmado em um
período no qual ainda não pesavam suspeitas sobre o Banco Master.
Apesar
das justificativas, a investigação busca refazer a rota do dinheiro para checar
se a totalidade do aporte milionário foi efetivamente destinada à produção do
filme. Além disso, a Polícia Federal quer esclarecer a real origem dos
recursos, uma vez que a apuração está inserida no contexto da teia de fraudes
associada ao Banco Master e suas conexões.
Entre
as hipóteses trabalhadas, os investigadores suspeitam que uma parcela desse
montante possa ter sido utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro,
que reside nos Estados Unidos desde fevereiro do ano passado. O ex-deputado
nega ter recebido qualquer valor vinculado a Daniel Vorcaro.
O
inquérito também abrange a atuação do publicitário Thiago Miranda, que já é
investigado sob a acusação de coordenar ataques ao Banco Central (BC) a mando
do ex-banqueiro. Miranda admitiu ter intermediado as negociações entre o
senador Flávio Bolsonaro e Vorcaro. Alvo de uma operação da PF há duas semanas,
o empresário teve seu passaporte apreendido.
Em nota
oficial, a defesa de Thiago Miranda negou a prática de qualquer ilegalidade,
ressaltando que a simples existência de uma investigação não permite a
antecipação de culpa.
Fonte:
Por Eduardo Goulart e Thalys Alcântara, em The Intercept/Brasil 247

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