sábado, 25 de julho de 2026

Há anos ouvimos dizer que adultos não devem beber leite; estudos mais recentes afirmam o contrário

Durante décadas, o leite foi o pilar indiscutível de um café da manhã saudável. No entanto, nos últimos anos, testemunhamos a demonização dos laticínios e ouvimos todo tipo de alegação — desde a ideia de que são "não naturais" para adultos até acusações de que causam colesterol alto ou até mesmo aumentam o risco de câncer. Contudo, há vários mitos que precisam ser desmistificados.

<><> Somos biologicamente adaptados a ele

Um dos argumentos mais repetidos é que os humanos são os únicos mamíferos que consomem leite na idade adulta. Especialistas explicam que, embora uma parcela da população mundial perca a capacidade de digerir lactose após a infância, muitas outras pessoas mantêm essa atividade enzimática ao longo da vida graças a uma adaptação genética.

Portanto, não há fundamento para recomendar que todos os adultos parem de beber leite simplesmente por causa dessa enzima.

A ciência sobre o assunto é bastante clara; um estudo populacional realizado na Galícia com 850 pessoas demonstrou que, embora a alteração no metabolismo da lactose afete 38% dos indivíduos, quando são consumidas quantidades fisiológicas normais — como um copo de leite ou um iogurte — a taxa de intolerância sintomática cai drasticamente para 2% no caso do leite e 8% no do iogurte.

<><> Mortalidade

Outro mito muito difundido é que o consumo de laticínios por adultos aumenta o risco de mortalidade e doenças cardiovasculares; no entanto, as evidências científicas sugerem o contrário. Uma ampla revisão abrangente (umbrella review) de 2021 indicou que as evidências não sustentam a alegação de que o leite é prejudicial; na verdade, seu impacto é neutro na maioria dos cenários e claramente benéfico em vários outros.

Para ser mais preciso, uma meta-análise de dose-resposta de 2026 — baseada em 29 estudos de coorte e mais de 1,6 milhão de participantes — mapeou a curva exata que mostra como os laticínios interagem com nossa expectativa de vida. Os pesquisadores encontraram uma associação em forma de "U", observando que o nível ideal de consumo situa-se entre 250 e 300 gramas por dia.

<><> Câncer

A suposta ligação entre laticínios e câncer é outro ponto de grande controvérsia na internet. No entanto, revisões recentes apontam para uma direção diferente, uma vez que o consumo de laticínios demonstrou reduzir o risco de câncer colorretal, de bexiga, de fígado, de cavidade oral e até mesmo de câncer de ovário e de mama.

O<><>  dilema do cálcio

Com a ascensão das dietas à base de plantas, é comum ouvir que "espinafre ou bebidas de aveia contêm tanto ou mais cálcio do que o leite". É aqui que entra em jogo um conceito científico crucial — que não aparece nos rótulos nutricionais: a biodisponibilidade e a matriz alimentar.

Isso é ilustrado por um estudo de 2024 que mediu exatamente quanto cálcio nosso organismo realmente assimila; constatou-se que os laticínios apresentavam uma bioacessibilidade entre 19% e 34%, enquanto as alternativas de origem vegetal variavam de 5% a 20%.

Isso se explica pelo fato de que a presença combinada de lactose e peptídeos de caseína no leite atua como um "veículo" que favorece a absorção de cálcio no intestino. Além disso, muitos vegetais ricos em cálcio contêm grandes quantidades de fitatos e oxalatos — compostos que "sequestram" o cálcio e impedem sua absorção.

<><> Teor de proteína

Em termos de proteína, os laticínios estão em um patamar à parte. Ao utilizar o índice DIAAS, as proteínas lácteas obtêm pontuação superior a 1, o que significa que fornecem uma excelente oferta de aminoácidos essenciais de alta digestibilidade — superando de longe a maioria das proteínas de origem vegetal.

•        Se você acredita que leite é inflamatório, nutricionista desmascara o boato e traz os dados científicos

Durante anos, a ideia de que o leite seria um alimento naturalmente inflamatório ganhou força nas redes sociais. O argumento costuma aparecer em vídeos e postagens que associam o consumo de leite ao surgimento de acne, rinite, sinusite e até doenças crônicas. Mas, segundo a nutricionista Isabella Lacerda, esse é um dos maiores mitos da nutrição.

Em um vídeo que viralizou recentemente, ela critica a origem dessa crença.

"Faz anos que a ciência aprovou com qualidade que leite não é inflamatório para todas as pessoas do mundo."

Apesar do tom descontraído, a afirmação encontra respaldo em diversas pesquisas científicas publicadas nos últimos anos que mostram que não há evidências de que o leite provoque inflamação em pessoas saudáveis.

<><> Mito do leite inflamatório não encontra respaldo na ciência

Uma revisão sistemática publicada no Journal of the American College of Nutrition analisou 27 ensaios clínicos aleatórios sobre o consumo de leite e derivados. A conclusão foi que não há evidências de que os laticínios aumentem marcadores de inflamação no organismo. Em parte dos estudos avaliados, os pesquisadores observaram inclusive uma redução desses marcadores entre pessoas que consumiam leite e derivados regularmente.

<><> Quando o leite realmente pode causar inflamação

No vídeo, Isabella Lacerda faz uma ressalva importante: algumas pessoas podem apresentar inflamações ou sintomas após consumir leite, mas isso acontece em situações bastante específicas.

"O que pode acontecer é causar um quadro de inflamação aguda em pessoas que são intolerantes à lactose ou sensíveis à caseína", explica.

Nos casos de alergia à proteína do leite de vaca (APLV), o sistema imunológico reage principalmente à caseína — embora outras proteínas do leite também possam desencadear a resposta alérgica. Essa reação provoca um processo inflamatório que pode causar urticária, inchaço, sintomas gastrointestinais e, em situações mais graves, anafilaxia.

Já a intolerância à lactose tem outra origem. Ela ocorre porque o organismo produz pouca ou nenhuma lactase, enzima responsável por digerir o açúcar do leite. Como consequência, a lactose não é absorvida corretamente e pode provocar gases, distensão abdominal, dor e diarreia.

Segundo o Instituto Nacional de Diabetes e Doenças Digestivas e Renais dos Estados Unidos (NIDDK), a intolerância é um problema digestivo, e não uma reação inflamatória sistêmica.

Apesar disso, não significa que o leite seja indicado para todas as pessoas. Quem tem alergia à proteína do leite de vaca, intolerância à lactose ou outra condição diagnosticada deve seguir as orientações do médico ou nutricionista. Para a população em geral, porém, as evidências científicas atuais não sustentam a ideia de que o leite seja um alimento inflamatório por natureza.

 

Fonte: Xataka Brasil

 

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