sábado, 25 de julho de 2026

Assim avança a grande recessão global

A economia mundial atravessa, de fato, um período de elevada complexidade sistêmica, cuja compreensão exige ir além da descrição conjuntural e alcançar suas raízes estruturais. A crise iniciada em 2008 não foi um evento isolado, mas a manifestação de desequilíbrios acumulados ao longo de décadas, associados à financeirização da economia, à desregulamentação dos mercados e à reconfiguração das relações entre Estado, mercado e sociedade. Desde então, a economia mundial não se recuperou. O crescimento econômico vem sendo baixo há 17 anos, caracterizado por insuficiência de demanda agregada, baixos investimentos produtivos e desaceleração do progresso tecnológico em termos de impacto sobre a produtividade, em um período que pode ser batizado como “a grande recessão”.

No passado, o capitalismo foi reformado. No século XIX, aprovou-se a legislação antitruste e proibiram-se doações empresariais em campanhas eleitorais. Durante a década de 1930, foram implementadas medidas estruturais que incluíram a regulação do sistema financeiro, o fortalecimento do setor agrícola e a criação do Estado de bem-estar social, estabelecendo, assim, as bases institucionais que possibilitaram o longo ciclo de prosperidade observado no período pós-Segunda Guerra Mundial (1948–1972). Em outras palavras, a evolução histórica do capitalismo revela sua capacidade de adaptação, materializada na implementação de reformas institucionais profundas. Exemplos disso incluem as transformações promovidas no âmbito do New Deal e, posteriormente, as mudanças estruturais consolidadas no período pós-Segunda Guerra Mundial, com a afirmação do Estado de bem-estar social (EBS). Todavia, da “crise” do EBS germinou o cenário atual.

Criado como resposta às falhas de mercado e às profundas desigualdades geradas pelo capitalismo industrial, o Estado de bem-estar social (EBS) enfrenta desafios significativos. Entre eles, destacam-se as limitações fiscais dos Estados e as crescentes pressões ideológicas, frequentemente ancoradas em orientações neoliberais de caráter dogmático e, em muitos casos, anacrônico, que questionam a sua legitimidade e restringem a sua capacidade de atuação. No entanto, a retração do Estado de bem-estar social (EBS) ocorre em um contexto paradoxal, no qual suas funções centrais — como a proteção social, a redução das desigualdades e a estabilização socioeconômica — não apenas permanecem necessárias, mas, de fato, tornaram-se ainda mais demandadas diante das transformações e crises contemporâneas. Se a nova etapa do capitalismo coloca dificuldades aos países para financiarem o EBS, é também muito difícil viver sem ele, o que evidencia uma crise de legitimidade do modelo econômico neoliberal. O problema central reside no fato de, no contexto atual, não se vislumbrar uma configuração de economia política capaz de viabilizar reformas consistentes e de instituir novos mecanismos eficazes de regulação. As dificuldades tornam-se ainda mais complexas pelo fato de não se limitarem à esfera econômica, estendendo-se igualmente aos domínios político e institucional, onde se entrelaçam e se reforçam mutuamente. O desafio atual reside na ausência de coalizões políticas capazes de promover reformas equivalentes. O enfraquecimento dos sindicatos, dos partidos de massa e de determinados segmentos da administração pública comprometeu significativamente a capacidade de atuação das forças sociais e institucionais que poderiam promover a sua reforma e contribuir para um maior equilíbrio do sistema. Ou seja, reduziu a capacidade de articulação de interesses coletivos, dificultando a construção de consensos sobre as mudanças estruturais.

No núcleo da atual dinâmica está a transformação das bases clássicas do capitalismo — trabalho, terra e dinheiro. Em relação ao trabalho, sua mercantilização atinge níveis elevados. O trabalhador perde o poder de barganha diante da globalização, do enfraquecimento proposital dos sindicatos e da automação. Os salários permanecem abaixo do nível de produtividade, a participação do trabalho na renda nacional diminuiu consideravelmente em diversos países e o desemprego atinge patamares elevados. A flexibilização das relações trabalhistas, frequentemente justificada pelos liberais como “necessária à competitividade”, resulta em insegurança econômica, no aumento da informalidade e da precariedade laboral. 

Ao mesmo tempo, há excessivo endividamento, tanto do setor público quanto das empresas e das famílias, acompanhado por um forte aumento da desigualdade de renda, com os mais ricos aumentando expressivamente sua participação na renda nacional. A concentração de renda reduz o consumo das camadas médias e baixas (que têm maior propensão marginal a consumir), enfraquecendo a demanda e retroalimentando o ciclo de baixo crescimento. Essa característica não é apenas um efeito colateral, mas um elemento central desse modelo.  A crescente concentração de capital nas mãos de uma pequena e seleta parcela da população tem direcionado esses recursos predominantemente ao sistema financeiro, em busca de maior rentabilidade. Esse movimento contribui para a formação de bolhas especulativas e acentua a instabilidade económica, ampliando os riscos sistêmicos e a vulnerabilidade do conjunto da economia.

Entretanto, a regulação do sistema financeiro permanece insuficiente para acompanhar a crescente complexidade dos mercados contemporâneos. Observa-se a proliferação de mecanismos cada vez mais sofisticados de valorização do capital no circuito financeiro, ao mesmo tempo em que se intensificam os canais de interação — e, por vezes, de captura — entre o Estado e os grandes grupos financeiros. Esse cenário tem contribuído para o aumento de práticas questionáveis, incluindo casos de corrupção e o uso recorrente de paraísos fiscais como estratégia de evasão e otimização tributária. Há bilhões em incentivos fiscais e isenções e o lobby empresarial é muito grande. Além disso, amplia consideravelmente a simbiose entre grandes corporações e o sistema político.

As grandes corporações contribuem amplamente para as campanhas políticas em países como os EUA, com forte influência no processo eleitoral. Por sua vez, os mais ricos não estão dispostos a pagar um preço para viabilizar uma sociedade mais justa e concentram-se em maximizar a renda às custas dos não ricos. As empresas recorrem às suas redes de influência não apenas para se protegerem da concorrência, mas também para obter acesso privilegiado a contratos públicos e a recursos financeiros, consolidando vantagens estratégicas que reforçam seu poder econômico e reduzem a equidade no mercado. Tudo isso afeta a produtividade e a competitividade da economia ao refletir no funcionamento da democracia, que se enfraquece, com reflexo na descrença da sociedade na participação política, em específico entre os mais pobres. Enquanto isso, os bancos permanecem grandes demais para falir. Quando estes entram em crise, as perdas são socializadas, ao passo que os lucros continuam sendo apropriados de forma privada. Passada a crise, lucros, bônus e dividendos no setor financeiro voltaram aos níveis anteriores, impulsionados por injeções de capital. Desse modo, um sistema que coloca o lucro como objetivo absoluto, sem considerar limites ou finalidades sociais, acaba corroendo as bases éticas e morais sobre as quais se estruturou o capitalismo do período pós-guerra. Isso alimenta a crise da democracia liberal.

Dito de outro modo, a influência do poder econômico sobre decisões públicas distorce a alocação de recursos, reduz a concorrência e compromete a legitimidade democrática. Esse processo, frequentemente caracterizado como “captura do Estado” por interesses privados — sobretudo os de natureza rentista —, reforça a percepção de que as instituições deixam de atender à maioria da população e passam a servir a uma elite reduzida. Nesse cenário, a redução da participação política, aliada à ascensão de lideranças populistas de caráter extremista, evidencia um crescente descontentamento com o status quo. No entanto, tais movimentos, sustentados por um falso nacionalismo, pela exclusão e por práticas autoritárias — características diretamente associadas à extrema direita —, apresentam respostas simplistas a problemas complexos, promovendo intencionalmente o aumento da instabilidade institucional, fortalecendo a xenofobia, o racismo e a polarização social, dentre outras práticas.

A integração entre os países cresceu significativamente nas últimas décadas, assim como as questões supranacionais que afetam os países conjuntamente. Questões como migração, crime, epidemias são bons exemplos. A isso se soma a escalada recente de conflitos bélicos, que traz incerteza à economia internacional. No entanto, em vez de se observar um esforço consistente para fortalecer as instituições e aprimorar os mecanismos capazes de enfrentar desafios complexos, vemos a reeleição de um presidente de uma das nações mais ricas e influentes do mundo que demonstra desprezo pelos princípios democráticos, pela cooperação internacional e pelos processos de negociação global. Essa atitude não apenas compromete a capacidade daquele país de atuar de forma responsável no contexto internacional, mas também sinaliza uma erosão das normas políticas internas, incentivando a polarização, a desconfiança social e a fragilização das estruturas institucionais que deveriam garantir estabilidade e governança eficaz. O sistema político exerce uma função central tanto para a resiliência, como para a ineficiência do modelo.

Em síntese, superar esse cenário demandará mais do que meros ajustes econômicos: será necessário promover uma reconfiguração profunda das instituições, redefinir as relações de poder e reconsiderar as prioridades sociais, de modo a assegurar maior equidade, estabilidade e resiliência diante dos desafios contemporâneos. Esse processo requer uma reflexão profunda sobre a maneira como os recursos são alocados, sobre os mecanismos que orientam a tomada de decisões políticas e sobre como essas decisões podem ser efetivamente alinhadas aos interesses coletivos, de modo a promover o bem-estar geral, reduzir desigualdades e fortalecer a coesão social. Além disso, envolve o repensar das estruturas de governança e a participação cidadã para garantir que as políticas públicas respondam de forma justa e eficiente aos desafios contemporâneos. Sem isso, o risco não é apenas de novas crises, e sim de um processo prolongado de instabilidade econômica, política e social. É um contexto de gravidade e pessimismo, capaz de agravar muitos dos problemas do capitalismo, conduzir a novas crises e, eventualmente, a uma derrocada do sistema econômico e social, causando instabilidade e sofrimento a grandes parcelas da população.

¨      Guerra no Irã pode derrubar crescimento global para 1,3% em 2026, alerta Banco Mundial. Por Davi Dmolir

O prolongamento da guerra provocada pelos EUA e Israel no Oriente Médio pode reduzir o crescimento da economia mundial para apenas 1,3% em 2026, marca que representaria o pior ritmo de expansão global desde a pandemia de Covid-19.

O alerta que consta no relatório Perspectivas Econômicas Globais (Global Economic Prospects), divulgado pelo Banco Mundial em 11 de junho, foi reforçado na quarta-feira (22) pelo economista-chefe da instituição, Indermit Gill.

No cenário projetado pela instituição financeira, a estimativa do crescimento global para 2026 é de 2,5%, desacelerando em relação aos 2,9% registrados em 2025.

Para as economias emergentes e em desenvolvimento, a projeção aponta para um avanço de 3,6%, o menor patamar do período pós-pandêmico. A inflação global está projetada em 4,0%, ante 3,3% no ano anterior, enquanto o preço médio do petróleo Brent está estimado em US$ 94 por barril, uma alta de 36% sobre a média de 2025, considerando a hipótese de que as maiores interrupções no fornecimento de energia comecem a se atenuar até o final de julho.

<><> Ameaça de recessão e inflação em alta

O documento apresenta simulações para cenários de maior gravidade. Na hipótese de interrupções mais severas no fornecimento energético combinadas a um estresse financeiro significativo nos mercados internacionais, o crescimento mundial pode cair para a marca de 1,3%, com a inflação subindo a 4,4%.

Conforme o texto oficial do relatório, caso as interrupções na oferta de energia se mostrem mais graves do que o assumido atualmente e venham acompanhadas de substancial estresse financeiro, o crescimento global pode recuar para 1,3% em 2026 e a inflação atingir 4,4%.

Em declarações feitas à agência Reuters na quarta-feira (22), Indermit Gill ponderou que as hipóteses do pior cenário modelado em junho – com hostilidades durando seis meses ou mais – aproximaram-se da materialização concreta. Segundo o economista-chefe, nessa conjuntura a inflação pode atingir 4,5%. 

Gill ressaltou a elevação dos riscos de insegurança alimentar em países de menor renda e o encarecimento dos custos de endividamento, fator que pressiona os orçamentos públicos e compromete gastos essenciais em áreas como saúde e educação.

<><> Choque de oferta histórico e os impactos regionais

O relatório do Banco Mundial aponta que o conflito iniciado em 28 de fevereiro de 2026, marcado pelas ações militares dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã e pelo consequente bloqueio do Estreito de Ormuz, configura o choque de oferta de maior magnitude registrado nos últimos 50 anos.

A escalada das tensões e o estrangulamento das rotas marítimas elevam os preços internacionais de energia, fertilizantes e alimentos, gerando impactos desproporcionais sobre as economias em desenvolvimento e de baixa renda.

Diante do quadro de instabilidade, o Banco Mundial rebaixou as estimativas de crescimento de cerca de dois terços dos países analisados na comparação com o levantamento de janeiro. Nas economias do Golfo diretamente impactadas pelos desdobramentos militares, a projeção de crescimento para 2026 foi reduzida a patamares próximos de zero, contra a taxa de 3,9% registrada em 2025

<><> Garantias da instituição e perspectivas de superação

Sobre as medidas de contenção aos impactos econômicos, o presidente do Grupo Banco Mundial, Ajay Banga, afirmou que a instituição está fornecendo liquidez onde se faz necessário e mantém prontidão para disponibilizar financiamentos adicionais, garantias e soluções para o setor privado caso as pressões se aprofundem. Por sua vez, o vice-economista-chefe Ayhan Kose declarou que os cenários de risco demonstram a rapidez com que as perspectivas podem enfraquecer quando a pressão energética e a financeira se reforçam mutuamente. Kose acrescentou que, embora o conflito afete a atividade global, momentos de crise devem ser utilizados para fortalecer marcos políticos, investir em infraestrutura, acelerar reformas que estimulem os negócios e mobilizar capital privado para apoiar a criação de empregos em larga escala.

¨      Apesar de conflitos e guerras, comércio global cresce e deve chegar a US$ 2 trilhões,  revela a ONU

A Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento, Unctad, revela que o comércio global manteve um ritmo acelerado no primeiro semestre de 2026, estimulado pela demanda por alta tecnologia e sinalizando valor anual recorde.

Mesmo assim, a agência da ONU prevê uma grave pressão sobre os preços devido a conflitos geopolíticos.  Dos países de língua portuguesa, apenas o Brasil é citado com um destaque pela alta de importações em contraste com a estagnação em grande parte das principais economias mundiais.

<><> Maior volume de mercadorias

Estima-se que o comércio global alcançou US$ 2 trilhões no período em análise. Grande parte dessa alta não reflete um maior volume de mercadorias, mas sim o encarecimento do frete, da energia e dos insumos industriais.

Em termos percentuais, o crescimento do comércio mundial no primeiro trimestre de 2026 atingiu aproximadamente 4% em relação ao trimestre anterior, alavancado pela expansão de 4,8% no comércio de bens e de 1,6% no setor de serviços.

As estimativas da Unctad sinalizam que essa força deverá continuar no segundo trimestre, projetando uma aceleração de 6,4% para bens e 2,1% para serviços.

Esse avanço financeiro disfarça gargalos físicos relevantes. As perturbações no tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz e as incertezas geopolíticas em relação ao fornecimento de energia fizeram subir os custos de transporte, logística e produção.

<><> Alta nas cadeias de suprimento 

O resultado foi a aceleração da inflação do comércio global para 3,6% no primeiro trimestre com possível alcance de 5,1% no segundo trimestre. Nos últimos 12 meses, a subida desses custos manteve uma média de 3,4%, confirmando a que valores das cadeias de suprimento continuam altos.

Para o Brasil, o desempenho é notado. Enquanto a maioria das grandes potências manteve os volumes de importação praticamente inalterados no primeiro trimestre de 2026 em relação ao período anterior, o país cresceu 3% nas suas importações.

Nos últimos quatro trimestres acumulados, o Brasil também teve uma alta na compra de bens estrangeiros. O comércio de serviços revelou mais discrepâncias entre os blocos econômicos.

<><> Brasil e União Europeia

Pelo lado das importações de serviços, enquanto economias como Índia, Coreia do Sul e Rússia reduziram suas compras externas, o Brasil e a União Europeia registraram aumentos expressivos na procura.

Sobre as exportações de serviços, a Coreia do Sul teve mais ganhos mundiais com uma alta de 9%, acompanhada por expansões na Rússia e na União Europeia. Em contrapartida, o Brasil viu baixar as vendas de serviços ao exterior.

Em termos regionais e setores industriais, o Unctad revela que o ritmo de expansão comercial permanece heterogêneo. O Leste Asiático confirmou-se como grande motor do comércio de mercadorias no início de 2026 com a forte atividade chinesa e sul-coreana.

Já nas Américas e na África, a taxa de crescimento das importações superou a média mundial, embora o desempenho das exportações tenha continuado relativamente modesto.

<><> Forte expansão da transição energética

A economia mundial passa por reorganização de prioridades tendo primeiro como setores em forte expansão a transição energética e a corrida pela inteligência artificial.

Ambos continuam impulsionando a procura por semicondutores, equipamentos de Tecnologia da Informação e Comunicação, TIC, máquinas elétricas, baterias, minerais críticos e veículos elétricos.

Já em sentido oposto estão segmentos industriais tradicionais que enfrentaram perda de fôlego, com reduções registradas na comercialização de produtos químicos, ferro, aço e em certos ramos de energia renovável.

Com recordes globais previstos para este ano, o desafio dos próximos trimestres estará na capacidade das economias absorverem os custos crescentes do transporte e das commodities sem comprometer o volume físico das trocas internacionais.

 

Fonte: Por Luiz César Silva, em Outras Palavras/Vermelho/ONU News

 

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