sexta-feira, 24 de julho de 2026

Câncer não é mais sentença, mas ainda é descoberto muito tarde

O câncer mudou. Nas últimas décadas, os avanços no diagnóstico e no tratamento transformaram a forma de enfrentar a doença, aumentando significativamente as chances de controle e sobrevida. Ainda assim, um problema persiste – e, em muitos casos, se agrava: o diagnóstico continua acontecendo tarde demais. E, ao mesmo tempo, cada vez mais cedo.

Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que entre 30% e 50% dos casos de câncer poderiam ser evitados com mudanças no estilo de vida e estratégias de prevenção. Apesar disso, hábitos de risco seguem em alta, enquanto a adesão a exames de rastreamento ainda está longe do ideal.

<><> A medicina avançou, mas o comportamento não acompanhou

Hoje, a oncologia vive uma revolução silenciosa. Terapias mais precisas, tratamentos personalizados e maior compreensão do comportamento dos tumores têm mudado o prognóstico de muitos pacientes. Em diversos casos, o câncer deixou de ser uma sentença imediata para se tornar uma doença tratável e, em algumas situações, controlável por longos períodos.

Mas esse avanço não tem sido acompanhado na mesma velocidade pela população. O medo, a negação, a rotina acelerada e a falsa sensação de que “está tudo bem” fazem com que sinais iniciais sejam ignorados e consultas preventivas sejam adiadas.

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Na prática, isso significa que muitos pacientes ainda chegam ao consultório em estágios mais avançados da doença, quando as possibilidades de tratamento se tornam mais limitadas.

Hoje temos muito mais recursos do que tínhamos há alguns anos. O problema é que ainda encontramos pacientes que demoram a procurar ajuda, mesmo diante de sintomas persistentes.

<><> Casos em adultos jovens entram no radar

Outro fenômeno que tem chamado a atenção da comunidade médica é o aumento da incidência de câncer em adultos mais jovens. Embora o envelhecimento continue sendo o principal fator de risco, estudos recentes mostram crescimento em faixas etárias abaixo dos 50 anos.

Publicações da American Cancer Society já apontam essa tendência, especialmente em tumores relacionados ao estilo de vida. Entre os fatores associados estão:

•        aumento da obesidade;

•        alimentação rica em ultraprocessados;

•        sedentarismo;

•        consumo de álcool;

•        alterações metabólicas precoces.

Além disso, mudanças no padrão reprodutivo, níveis de estresse elevados e distúrbios hormonais também entram na equação, especialmente quando se fala em saúde feminina. Esse cenário reforça um ponto importante: o câncer não é mais uma doença exclusiva da terceira idade.

<><> Entre o excesso de informação e a falta de ação

Nunca se falou tanto sobre saúde. Redes sociais, aplicativos e conteúdos digitais ampliaram o acesso à informação como nunca antes. Ainda assim, isso não tem se traduzido, necessariamente, em atitudes práticas de prevenção.

Muitas pessoas conhecem termos, sintomas e até tratamentos, mas não realizam exames básicos, não mantêm acompanhamento médico regular e subestimam sinais do próprio corpo. O resultado é um paradoxo: mais informação, mas nem sempre mais cuidado.

<><> Prevenção e diagnóstico precoce ainda são decisivos

Apesar de todos os avanços, dois fatores continuam sendo determinantes no enfrentamento do câncer: prevenção e diagnóstico precoce. Medidas como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle do peso, redução do consumo de álcool e abandono do tabagismo têm impacto direto na redução do risco.

Da mesma forma, exames de rotina e acompanhamento médico permitem identificar alterações ainda em fases iniciais, quando as chances de tratamento eficaz são significativamente maiores.

O desafio, hoje, não está apenas na evolução da medicina – mas na capacidade de transformar conhecimento em ação. Porque, embora o câncer já não seja mais sinônimo imediato de morte, ele ainda cobra um preço alto quando descoberto tarde demais.

<> Estudo mostra que 25% dos brasileiros não sabem sobre prevenção do câncer

Um novo estudo nacional, aponta que um a cada quatro brasileiros não sabe que o câncer pode ser evitado. A pesquisa, realizada com 6,5 mil adultos em todo o país, mostrou que há muita desinformação sobre a doença — que registrará 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028.

O relatório "Mais Dados Mais Saúde", obtido pela CNN Brasil, aponta que 40% dos casos de câncer poderiam ser evitados com algumas mudanças de hábito. Assim como o hábito de fumar, outras atividades e comportamentos costumam contribuir para a incidência da doença.

Os dados mostram que 27% dos brasileiros sequer sabem que o câncer pode se desenvolver de acordo com a rotina de uma pessoa. O nível de conhecimento varia e envolve tópicos mais conhecidos, como tabagismo, herança genética e exposição solar excessiva.

No entanto, alguns comportamentos acabam ficando de lado no que diz respeito à conscientização na luta contra o câncer. São menos abordados temas como consumo de bebidas alcoólicas, de alimentos embutidos, ultraprocessados e carne vermelha.

A parte comportamental também não é reconhecida por grande parte da população como fator de risco. O sedentarismo e o excesso de peso podem contribuir para o surgimento da doença.

De acordo com o estudo, o nível de conhecimento dos brasileiros sobre os fatores de risco se configura da seguinte maneira:

•        Tabagismo: 90,5%;

•        Herança genética: 89,4%;

•        Exposição solar excessiva: 88,3%;

•        Bebidas alcoólicas: 71,3%;

•        Alimentos embutidos: 70,7%;

•        Ultraprocessados: 65,6%;

•        Excesso de peso: 54,1%;

•        Sedentarismo: 48,3%;

•        Carne vermelha: 27,5%.

Um ponto levantado sobre o estudo sugere que o alto conhecimento sobre herança genética como fator de risco aponta para uma sensação de "inevitabilidade" da doença; ou seja, para algumas pessoas, não há como evitar o câncer.

A pesquisa também sugere que 61,3% dos entrevistados acreditam que consumir suplementos vitamínicos pode diminuir drasticamente o risco de ter câncer no futuro. Já 40% não sabem que o aleitamento materno é um dos grandes aliados contra o desenvolvimento de câncer de mama.

Mesmo sem ter conhecimento sobre os fatores de risco, grande parte da população já evitou ou não consome alimentos e bebidas que podem levar ao câncer.

O estudo mostra que:

•        45% das pessoas que comem ultraprocessados já tentaram diminuir o consumo;

•        45% das pessoas que comem carne vermelha não pensam em diminuir o consumo;

•        86,3% da população afirmam consumir frutas e verduras;

•        Jovens de até 24 anos são o grupo que está mais em contato com fatores de risco para ter câncer.

•        Brasileiros reconhecem, mas não tratam sintomas do câncer colorretal

O câncer colorretal ainda está distante do cotidiano da maioria dos brasileiros, apesar disso, uma pesquisa da A.C.Camargo e da Nexus apontou que, oito em cada dez brasileiros reconhecem a gravidade dos sintomas da doença.

Para a pesquisa — “A saúde do brasileiro, hábitos de vida e o uso de tecnologia em diagnósticos médicos” —, foram ouvidas mais de 2 mil pessoas em todo o país.

Segundo o levantamento, 8 em cada 10 brasileiros reconhecem como grave a presença de sangue nas fezes ou a mudança de funcionamento no intestino por mais de um mês, dois dos principais sintomas da doença. Mas na maioria dos casos, o conhecimento não vem a partir da proximidade: apenas 21% dos entrevistados conhecem alguém que já teve a doença, sendo 15% um parente muito próximo e 6% um amigo ou conhecido. Outros 75% disseram que nunca tiveram contato com pacientes desse tipo de câncer.

O tema ganha ainda mais relevância diante dos números recentes da doença no país. Em fevereiro deste ano, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimou 53.810 novos casos de câncer colorretal por ano no Brasil para o triênio 2026-2028, o que o torna o segundo tumor com maior incidência entre os brasileiros. A doença é a mesma que a cantora Preta Gil, que faleceu em julho do ano passado, enfrentou durante dois anos.

Dos 80% de entrevistados que reconhecem a gravidade de sangue nas fezes ou uma mudança no funcionamento intestinal que persista por mais de um mês, 42% consideram esses sintomas “muito grave”. Esse reconhecimento chega a 44% entre quem já conviveu de perto com a doença.

A pesquisa também indica que a associação entre esses dois sintomas e o câncer de intestino é majoritária, mas ainda carece de firmeza. São 67% dos brasileiros que concordam que sangue nas fezes ou alterações intestinais prolongadas podem indicar a doença, mas apenas 24% concordam “muito”. A maior parte (43%) demonstra concordância apenas moderada.

<><> Sintomas reconhecidos

Um dos achados mais relevantes do estudo diz respeito à distância entre reconhecer o risco e agir diante dele. Na vida real, 9% dos entrevistados afirmam já ter notado a presença de sangue nas fezes.

Desse grupo, embora 59% tenham buscado atendimento médico imediatamente, uma parcela expressiva de 40% não teve essa reação: 19% não fizeram nada e esperaram o sintoma passar, 10% aguardaram dias ou semanas antes de procurar um médico, 7% recorreram a remédios caseiros ou mudanças na alimentação, 3% foram à farmácia buscar medicação por conta própria e 1% pesquisou na internet antes de buscar orientação profissional.

A busca imediata por um diagnóstico é maior entre quem tem melhores condições financeiras (86%), brasileiros acima dos 60 anos (72%) e moradores do Sudeste (72%). As mulheres (63%) também costumam buscar mais ajuda imediata do que os homens (54%). Entre os moradores do Norte/Centro-Oeste, chega a 43% o número de entrevistados que apenas esperou o sintoma passar.

<><> Exame de rastreamento

Outra descoberta da pesquisa, é o desconhecimento sobre ferramentas de rastreamento precoce. Dois em cada três brasileiros (67%) nunca ouviram falar do exame “Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes” (PSO), recurso simples e utilizado para identificar sinais da doença antes mesmo do aparecimento de sintomas evidentes. Apenas 11% já realizaram o exame, enquanto 21% conhecem o procedimento, mas nunca o fizeram.

O desconhecimento chega a 85% entre os mais jovens, de 16 a 24 anos, e também é maior do que a média entre homens (76%), pessoas com menor renda (73%) e que estudaram apenas até o ensino fundamental (72%).

Entre quem teve ou conhece alguém que teve câncer colorretal o desconhecimento do exame cai para 56% e o percentual de entrevistados que realizaram o PSO quase triplica: 8% dos brasileiros que não têm contato com a doença já realizaram o exame contra 21% de quem já teve.

Diante do crescimento da doença no país, especialistas do A.C.Camargo reforçam a importância de não ignorar sinais como sangramento, alteração no ritmo intestinal, dor abdominal persistente e perda de peso sem causa aparente, além da realização de exames preventivos a partir dos 45 anos ou antes, conforme orientação médica e histórico familiar.

 

Fonte: CNN Brasil

 

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