A
galinha capitalista que “voltou para o poleiro”
Cinquenta
anos atrás, em um verão, fui convidado a fazer uma apresentação para a
celebração do bicentenário dos Estados Unidos na Universidade de Minnesota,
onde trabalho desde 1971, e pela qual fui remunerado com a suntuosa quantia de
75 dólares (nada mal para alguém com um salário anual de cerca de 13 mil
dólares). O fato de eu ainda ser capaz de refletir sobre aquele momento, meio
século depois, não deve ser dado como garantido. A palestra, em retrospecto,
foi a estreia pública marxista de um ex-positivista lógico. A leitura marxista
da história estadunidense de Harry Frankel, em preparação, foi persuasiva,
particularmente sua tese de que 1776 constituiu uma verdadeira revolução, a
conquista do poder pela burguesia incipiente. Entretanto, 1787 – a redação da
Constituição e sua promulgação – confirmou o seu Termidor, a contrarrevolução.
A tese de Frankel, combinada com a economia marxista recém-estudada, forneceu
uma explicação, o ponto central da palestra, para a incessante queixa liberal
sobre a celebração do bicentenário: sua “comercialização”. A galinha
capitalista, sarcasticamente, como interpretei Frankel, havia “voltado para o
poleiro” (come home to roost) – a mercantilização de cada faceta da vida
pelo capitalismo, até mesmo seus momentos sagrados. “Tudo o que é sagrado é
profanado”, como melhor expressou o Manifesto comunista em
1848. O novo convertido, admito agora, teve prazer em apontar para uma
audiência majoritariamente liberal: “vocês colhem o que plantam”, o que vem com
o modo de produção capitalista, o fruto de 1776. (Hoje, melhor informado sobre
o projeto de Marx e, portanto, com uma melhor apreciação do material humano que
realizou 1776, ao contrário, por exemplo, do Projeto 1619 do New
York Times, argumento ser necessária essa mesma perspectiva para julgar
todos os momentos revolucionários, tanto antes quanto depois de 1776).
Se eu
tivesse pensado na data de outro documento histórico, também celebrando seu
semiquincentenário (250 anos), poderia ter apresentado um argumento ainda mais
convincente sobre a galinha capitalista que voltou para o poleiro. Como o texto
fundador do novo modo de produção explicou famosamente, não é a consideração
pelo outro que permite ao seu padeiro, seu cervejeiro e seu açougueiro
satisfazer suas necessidades, mas sim o “autointeresse” e a “mão invisível” do
mercado. Defensores subsequentes do capitalismo que entusiasticamente se
apoderaram e alardearam a perspicácia fecunda de Adam Smith em A
riqueza das nações também colheriam o que semearam: o autointeresse
desenfreado. Considero totalmente reveladora a angústia liberal e conservadora
sobre a presidência de Donald Trump, em ambas as edições, o seu quase silêncio
sobre o que há de menos controverso nele: o fato de ser o capitalista mais
autêntico que já ocupou o cargo, um capitalista de fato de segunda, se não
terceira geração. Os Roosevelts descendiam da aristocracia agrária holandesa do
Vale do Hudson, no estado de Nova York. Franklin Delano Roosevelt certa vez
descreveu sua ocupação como “fazendeiro”, enquanto Herbert Hoover e Jimmy
Carter foram milionários que se fizeram por conta própria. A relutância da
classe dominante em admitir o que é tão evidente sobre Trump trai,
compreensivelmente, seu interesse de classe, e também o de seus apologistas, em
evitar uma discussão sobre a lógica do sistema econômico que o gerou.
Sim, é
verdade que nem todo capitalista se comporta como Trump. Igualmente verdadeiro,
porém, é que o primeiro ocupante da Casa Branca a tratar o cargo como se fosse
seu próprio negócio foi, não por coincidência, um septuagenário que nunca havia
tido outro emprego além de chefe capitalista. John Kelly, o primeiro Chefe de
Gabinete de Trump, resumiu perfeitamente: “Ele adoraria ser exatamente como era
nos negócios, ele poderia dizer às pessoas para fazerem as coisas e elas
fariam, e não se preocuparia muito com as legalidades e afins”. O mesmo vale,
ainda mais, para a segunda presidência de Trump. Ao contrário do que sugeriu
Kelly, Trump não estava se comportando como um fascista, mas simplesmente como
um patrão, o que os marxistas chamam de ditadura do capital, seu caráter
inerentemente autoritário, e sancionado pela Constituição, novamente, a contrarrevolução
de 1787. O fato de os formuladores do documento terem isentado o setor privado
de sua característica mais progressista, a Declaração de Direitos (Bill of
Rights), e que a palavra “democracia” nunca tenha aparecido no documento
não é nem erro nem omissão. A comercialização do bicentenário meio século
empalidece em comparação com o que já está em andamento para a celebração do
semiquincentenário da administração Trump. Autointeresse em esteroides, sem
remorso, talvez embaraçoso para aqueles que subscrevem a ética capitalista do “cada
um por si” / “eu garanti o meu, você que se vire”. A galinha
capitalista agora está empoleirada na própria Casa Branca.
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Mas como chegamos a este ponto?
Quando
me deparei pela primeira vez com o movimento Impeach Bush em
2007, tive que pensar, como marxista, em como não soar estereotipadamente
onisciente, mas sim pedagógico e não sectário. Comecei a dizer, “se não
impugnarmos o sistema que colocou Bush na Casa Branca, teremos alguém lá que
nos fará sentir saudades dele”.
Não, eu
não tinha uma bola de cristal que previu Donald Trump; tinha apenas a
perspectiva de pensar sistêmica e estruturalmente, ou seja, como marxista. E a
experiência de pelo menos duas décadas de saber, através do trabalho político
pessoal ou de outros, quão desconectada a classe trabalhadora dos Estados
Unidos estava em relação à política habitual. A taxa de abstenção quando se
tratava do voto, especialmente, apesar da indiferença de meus colegas na
subárea de política estadunidense sobre essa característica marcante da
democracia liberal dos Estados Unidos. A hipermercantilização do próprio
processo eleitoral na sede mundial do capital, juntamente com o desprezo
concomitante pela inteligência dos eleitores, explicava em grande parte, em
minha estimativa, a apatia do eleitorado. “Ração barata”, foi como um
importante operador da classe dominante para a política burguesa dos Estados
Unidos descreveu cinicamente os pontos de discussão que ele e sua equipe haviam
preparado para os candidatos. Particularmente instrutivas foram as lições da
campanha presidencial de Patrick Buchanan em 1992; uma figura da política
burguesa com uma mensagem fascista incipiente que apelava a algumas camadas da
classe trabalhadora. A campanha de Buchanan e a audiência que obteve revelaram
um novo estágio na política dos Estados Unidos, o apelo do ressentimento
devido, em grande parte, ao fim do “Sonho Americano”, as consequências das
recessões de 1974-1975 e 1980-1981, o fim do boom econômico
pós-Segunda Guerra Mundial. O melhor que o capitalismo tinha a oferecer ao
proletariado dos Estados Unidos ficou para trás.
A
política burguesa habitual esteve singularmente em exibição em 2000, no
caso Bush v. Gore. O mais revelador foi a decisão das principais
lideranças liberais no Congresso, no Partido Democrata, de não permitir sequer
uma discussão na Câmara, permitida pela Constituição, sobre a decisão de 5 a 4
da Suprema Corte. Efetivamente, uma pessoa, não eleita e com cargo vitalício, a
juíza Sandra Day O’Connor, decidiu quem seria o presidente. Nenhum político
relevante do mainstream estava disposto a questionar essa decisão
histórica e profundamente antidemocrática, tudo feito conforme as regras; um
testemunho, novamente, do caráter contrarrevolucionário da Constituição. Nem
Paul Wellstone, nem Russ Feingold no Senado, nem Bernie Sanders na Câmara, a
esquerda na política burguesa, deram um passo à frente. Os representantes da
classe dominante cerraram fileiras para proteger o sistema, antecipando o curso
subsequente de Sanders. Uma decisão não tomada em algum canto isolado do
Estado, mas feita publicamente; tudo pôde ser visto no canal de televisão
pública C-SPAN.
Então
veio a Grande Recessão de 2008, o que o autointeresse desenfreado ocasional,
mas consequentemente, lega, a melhor explicação próxima para o momento Trump.
Como confessou, sem dúvida, o estudante mais influente de Adam Smith: “Aqueles
de nós que confiaram no autointeresse das instituições de crédito para proteger
o patrimônio dos acionistas, eu incluído, estão em estado de choque e
descrença”. Assim falou Alan Greenspan, o recém-aposentado presidente do Federal
Reserve Board, perante um comitê do Congresso em outubro de 2008, enquanto
Wall Street convulsionava. A vingança da economia baseada na fé do
autointeresse. A história ensina que, em uma crise econômica capitalista, a
classe trabalhadora estará aberta a uma alternativa à política habitual, não
apenas à esquerda, mas à direita, o que as campanhas presidenciais de 2008 e
2016 exemplificaram. Primeiro, a eleição de Obama, a alternativa à esquerda,
que registrou o quanto a classe trabalhadora estadunidense havia se tornado
mais racialmente tolerante. Milhões de trabalhadores caucasianos estavam
dispostos a votar nele na esperança de restaurar seu Sonho Americano. Eles,
assim como seus colegas negros que votaram em Obama, ficaram, no entanto,
decepcionados; a realidade do capitalismo tardio tornou essa esperança
irrealizável. Dados recentes confirmam essa verdade sóbria. É por isso que,
para as eleições de 2016, duas figuras fora do mainstream da
política burguesa obtiveram uma audiência séria entre as camadas da classe
trabalhadora, Sanders e Trump, um “socialista” e um capitalista que nunca havia
ocupado um cargo público. Exatamente por que foram vistos como outsiders é
que os dois apelaram para camadas cada vez mais alienadas de trabalhadores
estadunidenses, operários e agricultores.
Para a
classe dominante, no entanto, o “socialista” era inadmissível, um mal maior do
que o empresário vigarista. Daí a decisão das elites do Partido Democrata de
garantir que Sanders não obtivesse a indicação do partido e lançar, em vez
disso, uma candidata que tinha consideravelmente menos apelo entre os eleitores
da classe trabalhadora. Uma candidata que certa vez disse que, caso se tornasse
presidente, “colocaria”, em nome da energia verde, “muitos mineradores de
carvão e empresas de carvão fora do negócio”, um comentário que a assombrou
durante toda a campanha. Trabalhadores negros decepcionados o suficiente que
votaram em Obama abstiveram-se na eleição de 2016, enquanto trabalhadores
caucasianos decepcionados o suficiente que votaram em Obama decidiram arriscar
com Trump, garantindo sua vitória. Trump deveu, em outras palavras, sua vitória
à decisão da classe dominante de lançar uma candidata seriamente falha contra
ele, Hillary Clinton, alguém que personificava a política burguesa habitual. E
Sanders, como fizera antes, sem balançar o barco, aceitou obedientemente essa
decisão. A disposição da classe dominante em arriscar uma Casa Branca com
Trump, o mal menor em relação ao “socialista” Sanders, tem, argumento, longas
raízes históricas.
As duas
grandes lições políticas da modernidade originam-se em dois momentos-chave no
século xɪx: as Revoluções de
1848-1849, a Primavera dos Povos, e a Guerra Civil dos Estados Unidos e suas
consequências. A primeira é que os liberais não podiam mais ser considerados
confiáveis, na verdade, deviam ser vistos com suspeita, para a realização da
revolução democrática burguesa, devido ao seu medo dos trabalhadores. A segunda
é que grandes questões políticas não podem ser resolvidas nas arenas eleitoral,
parlamentar e judicial, mas apenas nas barricadas ou nos campos de batalha.
Alexis
de Tocqueville, o autor de Democracia na América, exemplifica
melhor as limitações do liberalismo, o protótipo da modernidade para a postura
da liderança do Partido Democrata em relação a Sanders. Tocqueville, no lado
oposto das barricadas de Marx e Engels durante a Primavera dos Povos, fez tudo
o que pôde, como seus homólogos liberais na Alemanha e em outros lugares da
Europa, para garantir que não houvesse uma revolução socialista na França. Ele
admitiu em seu livro de memórias sobre aquele momento, Souvenirs,
tornado público apenas em 1910 (cinquenta anos após sua morte), que, como
ministro governamental, estava disposto a “tapar o nariz” e viabilizar o golpe
de Estado de Luís Bonaparte, que derrubou a Segunda República em 1851, para
impedir que a ala de Bernie Sanders da revolução chegasse ao poder: os
socialistas rosados. É impressionante como a descrição de Marx de 1869 sobre
Bonaparte, uma “mediocridade grotesca”, funciona bem para o atual ocupante da
Casa Branca. Tocqueville, ao contrário da elite do Partido Democrata, foi pelo
menos honesto sobre sua política quando confessou certa vez: “Minha mente é
atraída por instituições democráticas, mas sou instintivamente aristocrata
porque desprezo e temo as turbas […] as ações desordenadas das massas, sua
intervenção violenta e desinformada nos assuntos públicos”. Melhor, novamente,
o consenso da liderança do partido em 2016, arriscar Trump do que a
“intervenção desinformada nos assuntos públicos” das “massas”. Essa decisão
fatídica, em retrospecto, abriu o caminho para a segunda chegada de Trump, o
caráter dependente da trajetória da política burguesa, potencialmente mais
consequente que a primeira.
O medo
liberal dos trabalhadores manifestou-se tragicamente de novo, duas décadas
depois, do outro lado do Atlântico, outra contrarrevolução. Seguiu-se a uma
revolução bem-sucedida e histórica, a tarefa inacabada de 1776. A derrota da
escravocracia em 1865 constituiu o avanço mais significativo da modernidade
após a Revolução Francesa de 1789 na milenar busca democrática. E nela reside a
outra grande lição política do século xɪx: a maneira pela qual a abominável
instituição da escravidão por bens móveis (chattel slavery) chegou ao
fim. Não por uma infame decisão da Suprema Corte (Dred Scott em
1857), ou uma eleição presidencial (a de Lincoln em 1860), ou uma fútil ação do
Congresso no final de 1860 para emendar a Constituição e manter os
proprietários de escravos na União, mas sim no campo de batalha, Appomattox,
1865. Também digno de nota é que, às vésperas da Guerra Civil, a escravocracia
rejeitou o projeto de 1776, o discurso “Cornerstone” de 1860 do vice-presidente
confederado Alexander Stephens, por causa de cinco palavras na Declaração de
Independência: “todos os homens são criados iguais”, as credenciais
revolucionárias do documento. Mas os oligarcas escravistas continuaram a
abraçar a Constituição, e é por isso que a constituição fundadora da Confederação,
exceto por pequenas mudanças, assemelhava-se tanto ao documento original, mais
evidência do caráter contrarrevolucionário deste último.
Quando
parecia, no entanto, que os ex-escravizados poderiam unir-se aos brancos
plebeus para ir além de uma revolução democrática burguesa, para uma “revolução
permanente”, para empregar o termo de Marx e Engels sobre o possível resultado
da agitação de 1848-1849 na Alemanha, as elites liberais ficaram com medo do
que veio a ser conhecido como a Reconstrução Radical. As lições de 1848-1849 e
1857-1865 tiveram um grande impacto em Lênin. Jamais se deveria esperar que os
liberais realizassem a igualdade social, e as arenas
eleitoral/parlamentar/judicial tampouco poderiam ser utilizadas para o mesmo
fim. “Assuntos políticos extremamente importantes”, como ele postulou mais
tarde, “nunca poderiam ser resolvidos pelo voto. Tais problemas são resolvidos,
na verdade, pela guerra civil”. Não há dúvida sobre qual “guerra civil” serviu
de inspiração para ele. A ascensão bolchevique em 1917 tem, sustento, suas
origens nessas duas conclusões históricas.
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Para onde vai o fenômeno Trump?
As
presidências de Trump têm sido uma dádiva para a educação marxista, o
capitalista autêntico que trata a política unicamente como transacional e de
negociação, desvinculada de princípios que não sejam a obtenção de lucro. Trump
é a própria personificação do caráter inerentemente narcisista/solipsista do
capitalismo. O desafio que o nosso lado marxista frequentemente enfrentou com
presidentes anteriores foi construir um argumento convincente de que eles não
são desinteressados, como fingiam ser, quando se tratava de realidades de
classe. Seu predecessor, por exemplo, o primeiro presidente negro, era
particularmente hábil em representar papéis, sendo alguém para todos. O que
Trump é naturalmente incapaz de fazer e uma das razões, suspeito, para sua
inveja de Obama. “O que você vê”, quando se trata de Trump, para empregar uma
letra popular na época do bicentenário, “é o que você recebe!”. A nudez
desavergonhada de Trump sobre quem ele representa é singular, o que seu
primeiro chefe de gabinete, John Kelly, soube em primeira mão. Daí a razão pela
qual sua classe, desde o início, precisou de ideólogos inteligentes como Adam
Smith para explicar seus interesses coletivos em vez de individuais. A
necessidade, em outras palavras, do Estado capitalista e de todos os
funcionários e apologistas meritocráticos que o acompanham. O que impediu a
primeira edição de Trump de ser a catástrofe que muitos na classe dominante
capitalista, tanto nacional quanto internacionalmente, temiam e, portanto, sua
esperança de que ele fosse um presidente de um único mandato. Mas não foi o que
aconteceu.
Pouco
depois da segunda eleição de Trump, escrevi: “A vitória de Donald Trump
em 5 de novembro de 2024 é o preço que a classe trabalhadora dos Estados Unidos
paga por não possuir seu próprio partido político”. Ainda assim, ela veio
acompanhada de dois possíveis aspectos positivos. Como mencionei anteriormente,
“uma pessoa que está se afogando, escreveu certa vez Karl Marx, agarrar-se-á a
um graveto na esperança de que este a salve”. Eis por que milhões de trabalhadores
votaram novamente em Donald Trump. Em momentos de crise, a história revela que
os trabalhadores podem se abrir não apenas para soluções de esquerda, mas
também para soluções de direita. Não existe, portanto, atalho para a clareza
política. Apenas por meio do processo de tentativa e erro – o laboratório da
luta de classes, como alguns de nós o chamamos – isso se torna possível Trump
não é fascista – ele é apenas um autoritário comum. Podemos estar confiantes de
que o Trump 2.0 não cumprirá as esperanças dos milhões de trabalhadores que
votaram nele, devido à profundidade da crise em que o capitalismo se encontra.
Somente através da experiência esses trabalhadores poderão aprender esse fato
sobre o outro partido dos patrões. Comparado ao experimento de tentativa e erro
verdadeiramente custoso que os trabalhadores na Europa e em outros lugares
tiveram que suportar nos anos trinta, a repetição de Trump promete ser uma
experiência de custo relativamente baixo.
Em
retrospecto, fui talvez otimista demais quanto aos custos de uma segunda
administração Trump. O mundo hoje é um lugar mais perigoso em grande parte por
causa de Trump, um mundo que se assemelha cada vez mais ao período que
antecedeu a Grande Guerra. Credenciais marxistas não eram necessárias para
entender por que a conflagração começou. “Rivalidades econômicas (…) ganância
territorial e comercial” serviram de explicação suficiente para Woodrow Wilson.
“Ganância” capitalista, como explicou Lênin dois anos após o início da guerra
em sua obra-prima teórica, Imperialismo. A lógica do modo de
produção capitalista em sua fase madura e dado o seu caráter inerentemente
predatório foi determinante. Competição por recursos naturais, mercados,
esferas de influência e guerras tarifárias, o que veio com a segunda edição de
uma presidência Trump, tornaram a conflagração virtualmente inevitável. Além da
análise de Lênin e para nunca ser esquecido, o papel daquele antigo flagelo
usado pelas elites modernas em todas as suas cores de pele e outras identidades
para desviar a atenção de suas próprias ações nefastas através do bode
expiatório de um povo: o ódio aos judeus. O fato de ser um capitalista convicto
e autêntico, ao contrário dos monarcas em 1914, quem lidera o esforço de guerra
desta vez não poderia ser mais esclarecedor. Sua transparência e incapacidade
de ser outro que não ele mesmo, em busca de interesses econômicos,
especialmente os seus próprios, faz de Trump, novamente, e de tudo o que vem
com ele, a prova número um para a educação marxista. “Tudo o que é sólido
desmancha no ar; tudo o que é sagrado”, novamente, “é profanado”, naquela
percepção verdadeiramente presciente do Manifesto de 1848.
O
perigo desta vez, porém, é que, ao contrário de 1914, a letalidade do armamento
hoje torna a terceira “Grande Guerra” uma ameaça existencial à nossa espécie.
Um quarto de século antes dos Canhões de Agosto, Friedrich Engels,
que acompanhava de perto o desenvolvimento de armas, previu que na próxima
guerra europeia “quinze a vinte milhões de homens armados se massacrariam e
devastariam a Europa como ela nunca foi devastada antes”, uma previsão
tragicamente confirmada. Apenas 25 anos após o fim da Primeira Guerra Mundial,
armas nucleares foram empregadas. Um mergulho profundo na Primeira Guerra
Mundial e em seus principais protagonistas deixou a conclusão arrepiante, mas
inegável, de que, se essas armas estivessem disponíveis, também teriam sido
empregadas, resultando em um número de mortos que excederia em muito, qualquer
coisa que Engels pudesse ter imaginado. Mas Engels também disse que a guerra
não era inevitável se os trabalhadores na Rússia derrubassem o Czar Nicolau,
que iniciou a guerra, e tomassem o poder estatal. Infelizmente, isso não
aconteceu, embora seja de suma importância perceber que somente quando os
bolcheviques lideraram os trabalhadores e camponeses da Rússia ao poder em
outubro de 1917 é que o início do fim do massacre começou um ano depois. E nela
reside uma lição indispensável para Lênin e seus seguidores. Guerras
capitalistas não são inevitáveis se a classe trabalhadora tomar o poder.
A
derrota que a classe dominante dos Estados Unidos sofreu agora em sua guerra
com o Irã, de acordo com seus principais porta-vozes (enquanto isto está sendo
escrito), também é educativa. O que o comentarista capitalista não consegue
dizer, mas apenas insinuar, se for verdade, é a razão real para o “debacle”,
como alguns deles o chamam. Devido principalmente às suas “guerras sem fim” que
Trump prometeu não repetir, apenas através de tentativa e erro, novamente, a
classe trabalhadora aprende, o proletariado dos Estados Unidos é hoje mais
anti-guerra do que nunca desde o fim da Segunda Guerra do Golfo. É esse
sentimento que impediu Trump de sequer chegar perto de “colocar tropas no
terreno”, a única maneira possível pela qual Wall Street/Washington poderia claramente
emergir vitoriosa do atoleiro em que aparentemente se meteu.
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Motivo para celebração?
Há algo
de redimível em 1776? Enfaticamente, sim. Assim como para a galinha agora
empoleirada na Casa Branca, os rebeldes plebeus de 1776 também plantaram as
sementes para o proletariado moderno dos Estados Unidos, a primeira camada
social na história milenar da sociedade de classes que não apenas tem interesse
em sua erradicação, mas também tem a capacidade real de fazê-lo, o que o
distingue das classes subordinadas anteriores, como escravos e servos. Apenas
com o modo de produção capitalista surge o proletariado moderno, os coveiros do
capitalismo. A principal razão, nota bene, pela qual a Reconstrução
Radical sofreu uma derrota sangrenta: o proletariado dos Estados Unidos, ainda
em seus primórdios, foi, portanto, incapaz de oferecer assistência efetiva aos
ex-escravizados que lutavam para defender o primeiro experimento do país em
igualdade racial. Há cerca de três quartos de século, existe na cidadela do
capitalismo mundial um proletariado hereditário de muitas cores de pele,
gêneros e nacionalidades com todo o potencial revolucionário que isso implica.
“Potencial” é a palavra-chave. Nunca deve ser esquecido ou deve ser para sempre
lembrado que a palavra “inevitável”, unvermeidlich no texto
original, aparece apenas uma vez no Manifesto Comunista, seguida
imediatamente por instruções para a hegemonia proletária. Se a ascensão da
classe trabalhadora fosse inevitável, não haveria necessidade, o que os dois
autores do documento entenderam, do Manifesto e de suas
instruções sobre como fazê-lo. Tudo o que o documento assegura é a luta de
classes, não os vencedores e perdedores dela
Fonte:
Por August H. Nimtz - Tradução Mario Soares Neto, em Jacobin Brasil

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