A
universidade operacional
A
universidade brasileira contemporânea vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que
se expande e se diversifica, vê-se encurralada por uma lógica de gestão que
ameaça sua função primordial de crítica social, atravessada por uma herança
colonial que se recusa a morrer. Este ensaio analisa a trajetória do
conhecimento nas instituições de ensino superior brasileiras, partindo do mito
fundador até a consolidação da universidade operacional.
Sob uma
perspectiva crítica e decolonial, investiga-se como representações teológicas e
teleológicas da formação social brasileira sustentam continuidades históricas
que validam o epistemicídio. Por meio do diálogo entre Marilena Chaui e Sueli
Carneiro, o texto examina o dispositivo de racialidade e a transformação da
universidade em organização, identificando seus impactos sobre a autonomia
intelectual e sobre os limites da descolonização curricular, mesmo diante das
ações afirmativas. Argumenta-se que o projeto de saber no Brasil é, em última
instância, um projeto de poder e exclusão.
A
universidade brasileira contemporânea encontra-se em uma tensão estrutural
permanente. De um lado, carrega uma herança colonial que jamais foi plenamente
superada; de outro, sofre a pressão de uma racionalidade neoliberal que tende a
esvaziá-la como instituição de pensamento crítico. A produção do conhecimento
no Brasil nunca foi um processo neutro. Ela se constituiu historicamente como
parte integrante do projeto de nação das elites, operando como mecanismo de
legitimação simbólica e política de hierarquias sociais.
Nesse
sentido, o mito fundador não atua apenas como narrativa identitária ou
cultural, mas como operador epistêmico. Ele estrutura os critérios de validade
do saber, define quem pode falar, pesquisar e teorizar, e estabelece os limites
do que é reconhecido como conhecimento legítimo. A universidade não escapa a
esse arranjo. Ao contrário, torna-se um de seus principais dispositivos de
reprodução.
Este
ensaio propõe uma anatomia crítica dessa arquitetura acadêmica. Mobiliza-se o
conceito de mito fundador, formulado por Marilena Chaui, para compreender a
teologia política que naturaliza a desigualdade brasileira. Em seguida,
analisa-se a transição para a universidade operacional, na qual a autonomia
intelectual é progressivamente sacrificada em nome da eficácia gerencial.
Elemento central dessa discussão é o dispositivo de racialidade, elaborado por
Sueli Carneiro, que permite compreender o epistemicídio como fundamento
estrutural da validação científica no Brasil.
O
Brasil é regido por uma representação mítica que antecede sua própria
existência histórica. A imagem da nação cordial, pacífica e abençoada opera
como narrativa que encobre a violência constitutiva do genocídio indígena, da
escravidão africana e da expropriação sistemática de corpos e territórios. Essa
teleologia do atraso naturaliza as relações sociais e desloca a desigualdade
para o campo da fatalidade histórica.
No
universo universitário, essa lógica manifesta-se na ideia de que o atraso
brasileiro decorre de insuficiências internas, e não de uma estrutura histórica
de dominação. A universidade surge, assim, não como espaço de ruptura, mas como
mecanismo de modernização conservadora. Importam-se modelos institucionais e
teóricos do Norte global como forma de distinção simbólica, preservando-se
intactas as hierarquias sociais que sustentam a dependência.
Essa
postura expressa uma consciência alienada, na qual o intelectual periférico
passa a interpretar o Brasil por meio de categorias exógenas, convertendo o
conhecimento em signo de prestígio e não em instrumento de transformação. A
modernização universitária, longe de romper com esse padrão, apenas o
reconfigura sob novas roupagens institucionais.
A
partir da década de 1990, a universidade brasileira passa por uma inflexão
decisiva. O modelo institucional orientado por valores públicos e autonomia
intelectual cede lugar à universidade organização, regida por critérios de
produtividade, desempenho e mensuração. Não se trata da extinção da
universidade como instituição, mas de sua subordinação crescente à lógica
gerencial.
Nesse
contexto, instala-se a heteronomia. A universidade perde sua lei própria e
passa a obedecer a imperativos externos, como rankings internacionais, agências
de fomento e demandas de mercado. O docente transforma-se em gestor de projetos
e operador de métricas, enquanto o pensamento crítico é substituído pelo
processamento contínuo de informações.
A noção
de excelência torna-se central nesse modelo. Trata-se, contudo, de um conceito
vazio, que mede eficiência sem interrogar finalidades. A universidade passa a
ser avaliada por indicadores que não dizem respeito ao conteúdo do que se
ensina ou pesquisa, mas à sua capacidade de adequação a parâmetros abstratos. O
resultado é uma instituição altamente produtiva e intelectualmente empobrecida.
O
saber, submetido à técnica perversa do neoliberalismo, perde seu enraizamento
territorial e comunitário. As agendas de pesquisa passam a ser orientadas por
critérios externos de validação, enquanto o imperativo do publique ou pereça
corrói a autonomia intelectual e redefine o sentido do trabalho acadêmico.
A
crítica à universidade operacional ganha densidade quando articulada ao
pensamento de Sueli Carneiro. A universidade não é apenas uma máquina
produtivista; ela é também um dispositivo de racialidade. O racismo não
constitui uma distorção ocasional do sistema universitário, mas um de seus
fundamentos estruturais.
O
epistemicídio designa o processo sistemático de inferiorização, silenciamento e
destruição de saberes que não se enquadram na matriz eurocêntrica. Ao negar a
negros e indígenas a condição de sujeitos do conhecimento, a universidade
produz uma forma de morte simbólica que legitima a exclusão social e política.
O conhecimento reconhecido como científico reflete, assim, a imagem do sujeito
branco, ocidental e colonizador.
Negros
e indígenas são admitidos como objetos de estudo, mas raramente como produtores
legítimos de teoria. Para serem reconhecidos, precisam adotar máscaras
epistêmicas que apaguem suas experiências, territórios e cosmologias. O
epistemicídio não rompe com o mito fundador; ele o atualiza sob a forma da
racionalidade científica moderna.
A
implementação das ações afirmativas no ensino superior brasileiro representa
mais do que uma política de reparação social. Trata-se de uma insurgência
cognitiva que tensiona as bases da universidade operacional. A entrada de
estudantes negros, indígenas e quilombolas introduz a diferença como critério
de validade científica, desestabilizando a lógica da homogeneidade
produtivista.
Esse
processo desafia o narcisismo epistêmico que sustenta a universidade. Ao
ocuparem o lugar de sujeitos produtores de conhecimento, esses novos atores
forçam a instituição a confrontar seu histórico de silenciamento. A pesquisa
deixa de ser apenas um exercício técnico voltado à acumulação de métricas e
passa a dialogar com comunidades, territórios e trajetórias históricas
concretas.
A
autonomia universitária, frequentemente invocada para proteger currículos
coloniais, revela seus limites. Uma autonomia efetivamente democrática só pode
existir quando orientada pela pluralização dos saberes e pela abertura a
conhecimentos ancestrais, populares e territorializados.
Desoperacionalizar
a universidade não significa abdicar do rigor, mas refundar o próprio conceito
de conhecimento. Enfrentar o epistemicídio exige recuperar a universidade como
instituição crítica, capaz de interrogar suas próprias bases históricas e políticas.
A
autonomia universitária não pode ser reduzida a uma blindagem corporativa ou à
liberdade de gerir métricas. Ela só se legitima quando expressa um projeto
coletivo de democratização do saber. Isso implica promover uma ecologia de
conhecimentos, reconhecer matrizes negras e indígenas como fundamentos do
pensamento social brasileiro, reorientar a extensão universitária como eixo
epistemológico e instituir uma justiça epistêmica que confronte o produtivismo
acadêmico.
Desoperacionalizar
a universidade é, em última instância, um ato de insubordinação intelectual.
Trata-se de romper com o mito fundador para que a universidade brasileira deixe
de ser um centro de processamento de dados e se torne um território plural, crítico
e comprometido com a produção de vida e futuro.
Fonte:
Por Carlos A. P. Vasques, em A Terra é Redonda

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