sábado, 25 de julho de 2026

Agressão comercial de Trump não mira apenas o Brasil e atinge 60 países

A nova ofensiva tarifária do governo de Donald Trump não tem o Brasil como alvo exclusivo. Os Estados Unidos passaram a aplicar tarifas adicionais de 10% e 12,5% sobre produtos provenientes de cerca de 60 países e da União Europeia, numa medida que atinge praticamente toda a rede de parceiros comerciais da maior economia do mundo.

Sob a alegação de combater o trabalho forçado e práticas comerciais consideradas injustas, Washington ampliou drasticamente o alcance de suas barreiras alfandegárias. As novas tarifas abrangem 99,4% das importações norte-americanas, embora o governo tenha criado uma extensa lista de exceções para evitar prejuízos às cadeias produtivas, ao abastecimento e à inflação interna.

As informações são da Reuters.

<><> Trabalho forçado é usado como justificativa para protecionismo

A administração Trump afirma que as tarifas foram adotadas para punir países que supostamente não aplicam de maneira adequada proibições relacionadas ao trabalho forçado.

A justificativa, no entanto, foi rechaçada por diversos governos atingidos, que acusam os Estados Unidos de manipular uma pauta ligada aos direitos humanos para sustentar uma política essencialmente protecionista.

União Europeia, Brasil, Austrália e Noruega estão entre os países que contestaram as acusações e classificaram as medidas como injustificadas e sem fundamento consistente.

No caso brasileiro, o governo destacou que o país ratificou todos os principais instrumentos da Organização Internacional do Trabalho voltados ao combate ao trabalho forçado, enquanto os Estados Unidos aderiram a apenas uma parte limitada dessas normas.

<><> Tarifas atingem quase todas as importações americanas

As novas medidas foram implementadas com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, de 1974.

O dispositivo permite ao governo norte-americano investigar e retaliar práticas estrangeiras consideradas discriminatórias ou prejudiciais aos interesses comerciais dos Estados Unidos.

Com o uso da Seção 301, a administração Trump conseguiu preservar tarifas sobre quase todas as importações do país, mesmo depois de decisões judiciais que haviam colocado em dúvida outros instrumentos utilizados anteriormente para sustentar o tarifaço.

Analistas citados pela Reuters avaliam que as medidas baseadas na Seção 301 poderão ser mais difíceis de derrubar nos tribunais norte-americanos, uma vez que o mecanismo já resistiu a contestações jurídicas anteriores.

<><> Déficits comerciais estão no centro da estratégia

Embora o governo Trump apresente argumentos trabalhistas e humanitários, a ofensiva tarifária ocorre em meio à preocupação dos Estados Unidos com seus persistentes déficits comerciais.

A administração norte-americana tenta reduzir importações, estimular a produção doméstica e forçar outros países a abrir seus mercados às empresas dos Estados Unidos.

A política rompe com princípios que orientaram a globalização econômica nas últimas décadas, como a redução negociada de tarifas, o tratamento não discriminatório entre parceiros e a solução de controvérsias por meio de instituições multilaterais.

Em lugar desses mecanismos, Washington passou a adotar ameaças, sanções e exigências unilaterais, utilizando o tamanho do mercado norte-americano como instrumento de pressão.

<><> Produtos essenciais foram poupados

Apesar da amplitude das tarifas, o governo dos Estados Unidos criou exceções para produtos considerados indispensáveis à economia interna.

Entre os itens poupados estão petróleo, gás natural, fertilizantes, determinados alimentos, aeronaves, componentes industriais, minerais críticos e mercadorias altamente integradas às cadeias produtivas norte-americanas.

Também foram preservados produtos que atendem às regras do Acordo Estados Unidos-México-Canadá, em razão da forte integração econômica entre os três países.

As exceções evidenciam que Washington procurou evitar aumentos de preços e problemas de abastecimento dentro dos próprios Estados Unidos.

<><> Brasil e União Europeia protestam

O Brasil rechaçou as novas tarifas e anunciou que deverá contestá-las no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.

O governo brasileiro também iniciou os procedimentos para utilizar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, que permite responder a medidas consideradas arbitrárias ou discriminatórias.

A União Europeia afirmou que as acusações relativas ao trabalho forçado não correspondem à realidade de sua legislação e de seus mecanismos de fiscalização.

Austrália e Noruega também questionaram a fundamentação das medidas, advertindo que barreiras unilaterais podem provocar retaliações e aprofundar a instabilidade no comércio mundial.

<><> Canadá adota tom moderado

O Canadá preferiu inicialmente uma reação mais cautelosa.

Mesmo diante de tarifas adicionais sobre aproximadamente US$ 20 bilhões em produtos canadenses, o governo afirmou estar disposto a manter um diálogo construtivo com Washington.

A postura reflete a profunda integração econômica entre os dois países e o temor de que uma escalada comercial comprometa setores que dependem de cadeias produtivas transfronteiriças.

<><>Tarifas especiais atingem a China

Os Estados Unidos também pretendem retomar tarifas sobre produtos chineses na faixa de 20%.

Segundo a Reuters, Washington deverá respeitar o limite estabelecido no entendimento firmado entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, em novembro de 2025, sem ultrapassar o patamar negociado naquele momento.

Mesmo assim, a China permanece como um dos principais alvos da política comercial norte-americana, especialmente em áreas estratégicas como tecnologia, energia, veículos elétricos, baterias e minerais críticos.

<><> Exceções revelam interesses econômicos

O desenho das tarifas demonstra que os critérios adotados não se limitam às acusações sobre trabalho forçado.

Diversos países receberam tratamentos específicos em função de acordos comerciais, características de seus mercados e importância de determinados produtos para a indústria americana.

No setor de vestuário, por exemplo, exportações de países como Bangladesh, Camboja, Indonésia e Malásia poderão utilizar cotas especiais e escapar de parte das tarifas, desde que empreguem insumos produzidos nos Estados Unidos, como o algodão norte-americano.

A condição transforma a política tarifária também em um instrumento para ampliar as vendas de produtos dos próprios Estados Unidos.

<><> Comércio mundial entra em período de incerteza

A aplicação de tarifas sobre 60 países representa uma ruptura significativa com as regras multilaterais construídas ao longo das últimas décadas.

Especialistas temem que a medida provoque uma onda de retaliações, eleve preços, reduza investimentos e prejudique cadeias globais de produção.

Países atingidos poderão buscar novos mercados, ampliar acordos regionais e reduzir sua dependência dos Estados Unidos, acelerando uma reorganização do comércio internacional.

Ao atacar simultaneamente aliados, rivais e parceiros estratégicos, Trump coloca em risco não apenas as relações dos Estados Unidos com países como Brasil e China, mas também as próprias bases da globalização e de um sistema comercial internacional baseado em regras.

•        Brasil é o maior perdedor das tarifas adicionais de Trump, diz Financial Times

O Brasil é o país mais prejudicado pela reformulação da política tarifária dos Estados Unidos, segundo análise do Financial Times.

"De longe, o maior perdedor é o Brasil", afirma reportagem do jornal britânico, publicada nesta sexta-feira (24/7). A publicação destaca ainda que o país já havia sido alvo de tarifas impostas por Donald Trump no início deste mês.

Na quinta-feira (23/7), os Estados Unidos anunciaram uma nova tarifa de 12,5% sobre as exportações brasileiras, sob a alegação de que o país falhou em combater adequadamente o trabalho forçado.

Além do Brasil, outros 59 parceiros comerciais dos EUA são afetados pela medida, com taxas que variam de 10% a 12,5% e entram em vigor nesta sexta-feira (24/7).

A nova tarifa de 12,5% aplicada ao Brasil se soma à taxa adicional de 25% anunciada por Trump neste mês. As duas medidas têm origem em investigações diferentes e, juntas, podem elevar a carga tarifária sobre determinados produtos brasileiros para até 37,5%, excluídas as exceções previstas pelo governo americano.

Em nota, o governo brasileiro classificou a ação como "arbitrária" e "injustificada" e afirmou que o governo americano "optou por manipular tema caro aos direitos humanos e à luta dos trabalhadores e trabalhadoras em todo o mundo para acusar 59 países e a União Europeia de práticas desleais."

Em coletiva de imprensa na noite de quinta-feira, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Márcio Elias Rosa, afirmou que cerca de 2 mil produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos não estarão sujeitos a nenhuma das duas tarifas, mas que muitos setores serão atingidos pela dupla taxação.

Segundo levantamento da organização independente Global Trade Alert, reproduzido pelo Financial Times, a tarifa efetiva aplicada às exportações brasileiras para o mercado americano sobe agora de 11% para 17,7%, tornando o Brasil, de longe, o maior perdedor entre os parceiros comerciais atingidos pelas novas medidas.

A tarifa efetiva representa a média da carga tarifária incidente sobre o conjunto das exportações brasileiras aos EUA. A alíquota nominal máxima de até 37,5% pode atingir produtos específicos sujeitos às duas medidas.

Enquanto diversos países europeus tiveram redução nas tarifas, diz o Financial Times, o Brasil foi alvo de sobretaxas adicionais anunciadas por Trump, o que ampliou sua desvantagem competitiva no comércio com os Estados Unidos.

No texto, o jornal afirma que França, Reino Unido, Alemanha e Espanha passaram a enfrentar tarifas efetivas menores, enquanto Bélgica, Espanha e Itália estão entre os países que mais se beneficiam das mudanças.

Segundo o jornal britânico, essa vantagem decorre da composição das exportações europeias para os Estados Unidos e pelo fato de terem se beneficiado das diversas isenções concedidas a produtos como diamantes, cortiça e ferro-gusa.

Pelas novas regras, a tarifa de 10% aplicada à União Europeia também deixará de ser cumulativa com outras tarifas, como ocorria no regime provisório, conferindo ao bloco de 27 países uma vantagem relativa.

Além do Brasil, outros países da América Latina, como Chile e Colômbia, também registraram aumento das tarifas, assim como China, Vietnã e Indonésia. Ainda assim, de acordo com a reportagem, nenhum deles foi tão afetado quanto o Brasil.

"As tarifas aumentam, especialmente para o Brasil, mas também para a China. Em geral, elas caem para os europeus, ainda que apenas ligeiramente", afirmou ao Financial Times o diretor-executivo da Global Trade Alert, Johannes Fritz.

As novas tarifas foram impostas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, em uma tentativa da Casa Branca de dar maior respaldo jurídico à política tarifária de Trump, depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou ilegais, em fevereiro, as tarifas anunciadas após o chamado "Dia da Libertação", em abril de 2025.

Segundo o Financial Times, a estratégia substitui as tarifas globais provisórias de 10% por um sistema de medidas individualizadas contra 60 parceiros comerciais, dificultando que uma eventual contestação judicial derrube todo o regime tarifário de uma só vez.

•        Setor produtivo rejeita retaliação e pede diálogo após tarifaço dos EUA

A nova tarifa imposta pelo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros provocou reação imediata das principais entidades do setor produtivo, que defenderam nesta sexta-feira (24) a intensificação das negociações entre Brasil e Estados Unidos para evitar o agravamento da disputa comercial.

A medida anunciada pelo governo estadunidense acrescenta uma tarifa de 12,5% às alíquotas já aplicadas anteriormente, fazendo com que determinados produtos brasileiros passem a enfrentar uma tributação de até 37,5% ao entrarem no mercado dos Estados Unidos.

Enquanto o setor empresarial pede uma solução negociada, o Palácio do Planalto classificou a decisão como de “caráter completamente arbitrário e injustificado” e anunciou que recorrerá aos mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, além de levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC).

O governo dos Estados Unidos justificou a nova cobrança alegando que o Brasil não possui legislação suficientemente rígida para impedir a entrada de produtos fabricados com trabalho forçado.

<><> Setor produtivo prioriza negociação com Washington

As principais entidades empresariais convergiram na defesa do diálogo entre os dois países e descartaram apoiar uma escalada de retaliações comerciais.

Para a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), a nova tarifa agrava significativamente o ambiente de negócios. Segundo a entidade, 85,3% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos passarão a enfrentar a sobretaxa máxima de 37,5%.

Na avaliação da Amcham, o novo cenário reduz a competitividade dos produtos brasileiros, enfraquece cadeias produtivas integradas, retrai o comércio bilateral e pode elevar custos para empresas e consumidores estadunidenses.

O presidente da entidade, Abrão Neto, defendeu a retomada das negociações entre os dois governos. “A nova tarifa amplia os impactos negativos sobre as exportações brasileiras, com diversos setores sujeitos a sobretaxas expressivas de 37,5%. A reversão desse cenário passa necessariamente pela retomada das negociações entre os dois governos. O entendimento bilateral é o caminho mais eficaz para atender aos interesses de ambos os lados”, disse.

<><> Abimaq prevê queda nas exportações aos EUA

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) avalia que o setor será um dos mais afetados pela nova política tarifária. Em 2025, a indústria brasileira de máquinas e equipamentos exportou US$ 13,8 bilhões, sendo os Estados Unidos o principal destino individual das vendas, com aproximadamente US$ 3,2 bilhões, o equivalente a 23% do total.

O presidente executivo da entidade, José Velloso, afirmou que a justificativa apresentada pelo governo norte-americano possui motivação política. “Entendemos que a motivação do governo norte-americano em tarifar produtos importados alegando trabalho forçado é uma decisão que tem um cunho político. Foi uma resposta à Suprema Corte norte-americana, que em fevereiro proibiu o governo americano de taxar produtos sem uma motivação clara. Agora tem a motivação, que é o trabalho forçado.”

“Estamos imaginando que devemos ter uma queda entre 10% e 11% nas nossas exportações para os EUA”, ressaltou Velloso.

O dirigente também ressaltou que a tributação de 37,5% compromete diretamente a competitividade da indústria nacional. “No caso do Brasil, isso é ruim porque nós já tínhamos uma tarifa de 25% e agora passamos a ter uma tarifa de 37,5% com a soma dos 12,5%. Isso tira a nossa competitividade frente às máquinas e aos equipamentos fabricados nos EUA”, afirmou.

Além da negociação diplomática, a Abimaq defende medidas de apoio ao setor, como a regulamentação do Plano Brasil Soberano 3, o diferimento de tributos federais, a ampliação do Reintegra para 5% e políticas de diversificação dos mercados de exportação.

A entidade também se posicionou contra o uso da Lei da Reciprocidade Econômica como resposta às tarifas, por considerar que uma escalada comercial aumentaria custos, reduziria a previsibilidade dos negócios e afetaria cadeias produtivas integradas entre os dois países.

<><> CNI reforça apoio às negociações do governo

Após reunião com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, reiterou o apoio do setor industrial à estratégia diplomática do governo brasileiro.

“Saímos daqui muito satisfeitos com a afirmação categórica do ministro de que o Brasil vai continuar negociando. Essa é a opção número um que existe neste momento: continuar negociando”, disse Alban

Segundo Alban, governo e indústria discutem a criação de uma missão específica dentro da política Nova Indústria Brasil (NIB) para apoiar empresas afetadas pela nova política tarifária. “Conversamos sobre como podemos ser efetivos de forma emergencial e de forma planejada. Estamos trazendo o apoio imediato do SESI, do SENAI e da CNI para apoiar as empresas afetadas”, afirmou.

A CNI avalia que os produtos manufaturados sofrerão os maiores impactos, pois possuem margens menores e enfrentam maior concorrência internacional, dificultando a absorção da sobretaxa sem perda de mercado.

<><> Fiemg cobra resposta rápida para proteger empresas

A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) também defendeu uma atuação rápida do governo brasileiro para ampliar a lista de exceções às tarifas impostas pelos Estados Unidos.

A coordenadora de Negócios Internacionais da entidade, Verônica Winter, afirmou que a prioridade deve ser preservar a competitividade da indústria nacional. “O Brasil precisa agir com firmeza, rapidez e capacidade técnica para evitar que essa nova tarifa comprometa ainda mais a competitividade da indústria nacional. A prioridade deve ser ampliar as exceções, garantir previsibilidade às empresas e construir uma solução negociada que preserve contratos, investimentos e emprego”, disse.

 

Fonte: Brasil 247/BBC News Brasil

 

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