sexta-feira, 24 de julho de 2026

‘Centrão vê candidatura de Flávio Bolsonaro indo pro buraco’, analisa cientista política

A cientista política Mayra Goulart afirmou, em entrevista exclusiva ao ICL Notícias – 1ª Edição, nesta quarta-feira (22), que a dificuldade de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em encontrar uma candidata a vice-presidente revela o isolamento político de sua pré-candidatura e a falta de capacidade de articulação da família Bolsonaro.

As declarações ocorrem após a senadora Tereza Cristina (PP-MS) recusar o convite para integrar a chapa de Flávio. Ex-ministra da Agricultura no governo Jair Bolsonaro, ela afirmou que sua prioridade é disputar a presidência do Senado em 2027.

“Flávio Bolsonaro, assim como seu pai, não se caracteriza por ser um político muito hábil na relação com outros políticos. Jair Bolsonaro passou sete mandatos na Câmara dos Deputados sem ser um grande articulador e aprovou poucos projetos de sua autoria. Eles são um clã pouco articulado, e isso está traduzido nessa campanha, em que eles não têm coligação eleitoral. O Flávio não tem previsão de vice porque, idealmente, você traz um vice de outro partido para ampliar os apoiadores e os palanques”, analisou Mayra Goulart.

Ela destacou ainda que a construção de alianças regionais é decisiva para uma campanha presidencial. “Ninguém se elege com voto em Brasília. O candidato precisa circular o Brasil para que a informação sobre as eleições chegue ao eleitor menos conectado com a política, que é quem define a eleição. Os palanques regionais são importantes por isso.”

Na avaliação da cientista política, o Centrão evita se associar à candidatura de Flávio por enxergar riscos eleitorais.

“O Centrão está vendo que a candidatura do Flávio não está avançando, pelo menos não está tendo um bom êxito neste primeiro turno, que é o momento mais importante para os candidatos ao Legislativo. Esses partidos veem no Flávio Bolsonaro algo que pode prejudicar a ampliação de suas bancadas. Bancadas maiores no Congresso Nacional significam mais recursos do fundo eleitoral e mais emendas parlamentares”, afirmou.

<><> Disputa no PL

Mayra também comentou a disputa de influência dentro do Partido Liberal, envolvendo Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto. Para ela, o conflito está menos relacionado à eleição presidencial e mais ao controle da estrutura partidária.

“Minha hipótese sobre a disputa dentro da família, entre Michelle e Flávio, é muito menos sobre vencer uma eleição presidencial. Tanto que Michelle seria candidata ao Senado pelo Distrito Federal, mesmo sendo alguém muito popular e oferecendo muito pouco voto para Flávio, do que se disputasse por um colégio eleitoral maior. A disputa diz mais respeito à batalha pela nominata do PL para candidatos a deputado federal e estadual, ao controle do partido em termos de emendas, acesso ao fundo partidário e à movimentação no Congresso nos próximos quatro anos”, analisou.

Segundo ela, a influência de Valdemar Costa Neto sobre o partido vai além da família Bolsonaro. “O Valdemar tem muito mais ascendência sobre esse espectro do PL que não é necessariamente ligado ao Flávio Bolsonaro. No Rio de Janeiro, por exemplo, embora o PL seja o maior partido do estado, muitos desses políticos já tinham carreira antes de Bolsonaro chegar à Presidência e controlam máquinas locais. Eles surfaram na onda do bolsonarismo, mas podem surfar em qualquer outra onda. Têm o controle das atividades no território, que envolve até o uso da violência e relações com a criminalidade. O PL é muito mais que o Bolsonaro.”

<><> Pós-bolsonarismo

Ao comparar Jair Bolsonaro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Mayra afirmou que os dois construíram trajetórias políticas bastante diferentes.

“É incomparável aquilo que o presidente Lula construiu. Ele construiu o maior partido do Brasil, capilarizado, com uma história que envolve inúmeras articulações. Fez governos de Frente Ampla e, além de ser um líder popular, é um grande articulador e formulador. Nada disso Jair Bolsonaro sequer esboçou fazer. Ele é um agitador de plateia, mas não faz estratégia partidária”, disse.

A cientista política também afirmou que os interesses da família Bolsonaro vão além da disputa eleitoral. “Flávio Bolsonaro está menos interessado em ganhar a eleição presidencial, mas a família Bolsonaro também está interessada em dinheiro. Tanto que esses escândalos, como o da Dark Horse, não seriam apenas para financiar campanha, mas também para fazer caixa.”

“Não há um grande projeto do bolsonarismo. Quando se compara com outros líderes da extrema direita, Javier Milei, por exemplo, tem uma agenda muito mais determinada do que a família Bolsonaro, que não está tão comprometida com uma agenda neoliberal. Há isso, mas também outras questões, como alianças com o crime organizado e controle de recursos. Tudo isso parece muito presente quando se fala da família Bolsonaro”, completou.

<><> Lula e a eleição de 2026

Sobre o cenário do presidente Lula, Mayra afirmou que o petista possui ampla experiência na construção de alianças, mas alertou para o crescimento da extrema direita. “O presidente Lula já foi experimentado na construção de palanques, e isso para ele é algo importante. É claro que há diversos líderes da extrema direita em prefeituras e governos estaduais, e isso é problemático para o presidente Lula.”

“Não pode entrar em um oba-oba porque subiu três pontos na pesquisa. A gente está em uma conjuntura global em que a extrema direita é forte e mobiliza as aspirações populares com um discurso de empreendedorismo e respostas fáceis para a segurança pública. Tudo isso será um desafio para a campanha do presidente Lula e para o Partido dos Trabalhadores, que têm respostas complexas para problemas complexos e responsabilidade com a verdade”, analisou.

•        Centrão abandona Flávio Bolsonaro: PP e União Brasil declaram neutralidade

senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do Progressistas, comunicou a Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nesta quarta-feira (22) que a federação formada por PP e União Brasil adotará a neutralidade na eleição presidencial, ao menos no primeiro turno.

A decisão, tomada após reunião com dirigentes do PP na noite de terça-feira (21), representa um revés para a estratégia do pré-candidato do PL de consolidar o apoio do Centrão antes das convenções partidárias e evidencia a dificuldade de repetir a ampla aliança construída por Jair Bolsonaro em 2022.

<><> PP e União Brasil declaram neutralidade

A posição foi comunicada diretamente por Ciro Nogueira a Flávio Bolsonaro. O senador do PL ainda esperava fechar uma aliança com a federação União Progressista, mas deixou a conversa sem o compromisso que buscava.

A formalização da neutralidade deve ocorrer nos próximos dias. Na reunião de terça-feira (21), a maioria dos dirigentes do PP avaliou que essa era a melhor alternativa para preservar a autonomia dos diretórios estaduais.

Na prática, PP e União Brasil permitirão que cada estado defina seu próprio palanque presidencial, apoiando Flávio Bolsonaro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou qualquer outro candidato, de acordo com as conveniências locais. A orientação também poderá ser mantida em um eventual segundo turno.

<><> Motivações por trás da decisão

O principal fator foi a necessidade de preservar os acordos regionais. Em alguns estados, a federação estará ao lado de candidatos da direita; em outros, poderá apoiar aliados de Lula. Vincular toda a federação a um único projeto presidencial dificultaria essas composições, consideradas prioritárias pelos partidos do Centrão.

Nos bastidores, porém, a avaliação vai além da estratégia eleitoral. Segundo interlocutores da federação, as legendas não demonstram entusiasmo com a candidatura de Flávio Bolsonaro, que enfrenta um momento de desgaste político.

Também pesa a preocupação com o surgimento de novas acusações envolvendo a relação do pré-candidato do PL com o banqueiro Daniel Vorcaro.

Há ainda um componente pessoal. Ciro Nogueira tem manifestado insatisfação por não ter sido defendido por Flávio Bolsonaro quando foi alvo de uma operação da Polícia Federal. O contraste com 2022 é evidente: aliados descrevem que a relação do senador com Jair Bolsonaro era próxima, cenário que não se repete com o filho.

<><> Impacto na campanha de Flávio Bolsonaro

A decisão da federação chega em um momento delicado para a campanha de Flávio Bolsonaro, que ainda não definiu seu candidato a vice-presidente e segue negociando alianças.

O prazo para registro das coligações termina em 5 de agosto, e o comando da campanha pretende anunciar o vice apenas próximo dessa data, apostando em uma melhora nas intenções de voto. A perda do apoio da federação PP-União Brasil, no entanto, reduz o espaço de negociação do PL.

<><> Centrão busca se realinhar

Sem o apoio da federação PP-União Brasil, Flávio Bolsonaro voltou suas atenções para o Republicanos, partido que integrou a coalizão de Jair Bolsonaro em 2022.

As negociações, porém, também enfrentam dificuldades. Integrantes da legenda indicam que o Republicanos poderá seguir o mesmo caminho e adotar uma posição de neutralidade na disputa presidencial.

O principal motivo é o conflito em torno das eleições estaduais. O PL resiste em apoiar candidatos do Republicanos ao governo em estados considerados estratégicos.

O caso mais emblemático é o de Mato Grosso. Na quarta-feira (22), o PL oficializou a candidatura do senador Wellington Fagundes (PL-MT) ao governo do estado, deixando de apoiar Otaviano Pivetta (Republicanos), que busca a reeleição. A decisão travou as negociações entre as duas siglas.

Impasses semelhantes também ocorrem em Roraima e no Acre. Em todos esses estados, o PL reivindica protagonismo nas disputas locais, enquanto potenciais aliados condicionam o apoio nacional à construção de acordos regionais.

•        Ele pode afundar de vez Flávio Bolsonaro: quem é o publicitário pesadelo do PL

a crise em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro ganhou destaque um novo personagem. Depois dos embates públicos com Michelle Bolsonaro, o senador agora vê crescer a preocupação com o publicitário Thiago Miranda, investigado pela Polícia Federal e citado em reportagens sobre as apurações envolvendo Daniel Vorcaro.

Miranda ficou conhecido por sua atuação no mercado de comunicação e por ter sido sócio do jornalista Leo Dias. Segundo as investigações divulgadas pela imprensa, ele é apontado como operador de estratégias de comunicação contratadas por clientes interessados em influenciar a opinião pública e atacar adversários.

Entre as suspeitas investigadas está a coordenação de campanhas com influenciadores digitais, que envolveriam pagamentos para publicação de conteúdos críticos a autoridades como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

O nome de Thiago Miranda também aparece relacionado ao caso Dark Horse, citado como uma das peças da engrenagem que teria articulado operações envolvendo Daniel Vorcaro e pessoas próximas ao entorno político de Flávio Bolsonaro. É justamente essa conexão que transforma o publicitário em uma figura sensível para o núcleo bolsonarista.

O que mais preocupa aliados de Flávio, no entanto, são os bastidores. Reportagem de Bela Megale no G1 aponta que Miranda teria sinalizado, por meio de interlocutores, que não pretende assumir sozinho eventual responsabilização pelos fatos investigados. A mensagem foi interpretada por integrantes do meio político como um aviso de que novas informações podem vir à tona caso o cerco judicial avance.

Esse cenário amplia a pressão sobre uma candidatura que já enfrenta turbulências provocadas por disputas internas no PL e pelos desdobramentos das investigações envolvendo Daniel Vorcaro. Se personagens centrais da operação decidirem colaborar com as autoridades ou apresentarem novas versões dos acontecimentos, o desgaste político tende a crescer.

Na política, muitas crises começam pelos adversários. Outras nascem dentro da própria estrutura de poder.

 

Fonte: ICL Notícias/Fórum

 

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