sexta-feira, 24 de julho de 2026

O remake do golpismo já recomeçou

Na terça-feira (21), Flávio Bolsonaro reuniu, em um evento privado em Brasília, cerca de 40 representantes da diplomacia de países estrangeiros para colocar em dúvida a lisura das urnas eletrônicas. Mais do que isso: conclamou esses países a enviarem “observadores” para acompanhar as eleições de outubro. A pergunta que não quer calar é: observadores de quais países? Da Argentina de Javier Milei? Do Chile de José Antonio Kast? De Israel, sob Benjamin Netanyahu? Ou de todos os governos alinhados à extrema direita subordinados aos interesses de Washington?

Ao que tudo indica, a lona do circo golpista começa a ser novamente armada em Brasília, em um remake de 2022. O roteiro parece o mesmo: preparar o terreno para contestar uma eventual vitória de Lula, recorrendo mais uma vez à falsa narrativa de fraude nas urnas eletrônicas, um sistema de votação reconhecido nacional e internacionalmente por sua segurança e eficiência.

Flávio Bolsonaro vem fazendo os primeiros ensaios para assumir o papel de protagonista desse enredo. Para isso, tem que decorar o texto do roteiro desenvolvido pelos marqueteiros trumpistas. Assim como Trump, que voltou a desacreditar as eleições nos Estados Unidos sem apresentar qualquer prova, o senador brasileiro procura adaptar para a eleição brasileira uma narrativa contra o sistema eleitoral que já produziu graves consequências para o próprio pai dele.

Que Trump critique as eleições no seu país, que utiliza um sistema arcaico de voto em papel, pode até ser compreensível. O que não se pode admitir é que Flávio Bolsonaro tente transplantar esse discurso para a realidade brasileira, atacando, sem qualquer evidência, um sistema eleitoral completamente diferente e cuja integridade jamais foi comprovadamente violada.

Para sustentar sua narrativa, o senador recorreu a um relatório da inteligência dos Estados Unidos para insinuar que o Brasil utilizaria urnas eletrônicas fabricadas na Venezuela com o objetivo de fraudar as eleições. A acusação é grave e já foi desmentida reiteradas vezes pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Como esclarece a Corte, “todo o projeto da urna eletrônica brasileira e do sistema eletrônico de votação foi concebido e é gerido inteiramente pela Justiça Eleitoral do país”.

Há ainda uma evidente contradição. Nos últimos 30 anos, Jair Bolsonaro, seus quatro filhos, além de diversos aliados e familiares, foram eleitos pelas mesmas urnas eletrônicas que agora a família tenta desqualificar. Durante décadas, o sistema foi considerado legítimo enquanto produziu vitórias eleitorais para o grupo. Só passou a ser tratado como fraudulento quando deixou de atender aos interesses políticos deles.

O que se desenha é a reedição de uma estratégia conhecida: desacreditar previamente o processo eleitoral para contestar o resultado caso ele seja desfavorável. Os brasileiros já conhecem esse roteiro. Resta saber se as instituições e a sociedade estarão preparadas para impedir que ele seja encenado novamente com novos atores, novas pressões externas e os mesmos riscos para a democracia e para a nossa soberania nacional.

•        “Flávio Bolsonaro prova que tem a mesma cultura golpista do pai”, diz Edinho Silva

O presidente do PT, Edinho Silva, afirmou que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) “prova que tem a mesma cultura golpista do pai, Jair Bolsonaro”, ao comentar a reunião promovida pelo parlamentar com diplomatas estrangeiros para questionar as urnas eletrônicas e o sistema eleitoral brasileiro. Em nota divulgada nesta quarta-feira (22), o dirigente petista também informou que o Partido dos Trabalhadores avalia a adoção de medidas judiciais sobre o caso.

Segundo a manifestação de Edinho Silva, Flávio Bolsonaro reproduz a estratégia utilizada por Jair Bolsonaro durante o processo eleitoral de 2022 ao colocar em dúvida a segurança das urnas eletrônicas, sistema pelo qual, segundo o presidente do PT, tanto o senador quanto seus familiares foram eleitos em diferentes ocasiões.

“O senador reuniu diplomatas internacionais para questionar as urnas eletrônicas e, por consequência, o sistema eleitoral brasileiro, pelo qual ele foi eleito parlamentar por diversas vezes, bem como seus familiares”, declarou o dirigente.

Na avaliação de Edinho Silva, os desdobramentos da tentativa de desacreditar o processo eleitoral brasileiro já foram demonstrados pelos acontecimentos que culminaram nos atos de 8 de janeiro de 2023. “Sabemos quais são as consequências dessa ofensiva antidemocrática. Como provado na investigação e, posteriormente, no julgamento, da tentativa de golpe de janeiro de 23, tentar descredibilizar as urnas é método contra a nossa democracia. E o resultado pode ser gravíssimo, como a história recente demonstrou”, afirmou.

O presidente nacional do PT também sustentou que questionamentos ao sistema de votação por um pré-candidato à Presidência da República representam uma ameaça às instituições democráticas. “Não podemos tolerar a desinformação e as fake news contra o nosso sistema de votação por um pré-candidato à Presidência da República”, declarou.

Ao final da nota, Edinho Silva informou que o partido analisa providências no âmbito da Justiça e reiterou a defesa do sistema eleitoral brasileiro. “O Partido dos Trabalhadores avalia as medidas judiciais cabíveis e reitera que está ao lado da democracia e em defesa das urnas eletrônicas e do sistema eleitoral brasileiro, em respeito aos 158 milhões de eleitores e a toda a população do nosso país”, concluiu.

•        PT avalia ir à Justiça por fala de Flávio Bolsonaro sobre urnas

O presidente do PT, Edinho Silva, disse nesta quarta-feira (22) que o partido avalia acionar a Justiça contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente da República que propagou informação falsa sobre as urnas eletrônicas em reunião com embaixadores. Edinho equiparou Flávio ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que costumava espalhar dúvidas sobre a lisura das urnas.

Um dos pontos centrais da estratégia eleitoral petista para reeleger o presidente Lula (PT) é aumentar a rejeição do eleitorado a Flávio, associando-o o máximo possível com Jair Bolsonaro. Os petistas tentam evitar que o senador se apresente à sociedade como uma versão moderada do pai.

“Flávio Bolsonaro prova que tem a mesma cultura golpista do pai, Jair Bolsonaro, e adota os mesmos métodos utilizados nas eleições de 22”, disse o petista em nota. O dirigente partidário mencionou que as urnas eletrônicas elegeram diversas vezes o próprio Flávio e outros políticos de sua família.

Em julho de 2022, três meses antes da eleição que perderia para o hoje presidente Lula, o então presidente Jair Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para desacreditar o processo eleitoral brasileiro. O caso motivou uma das decisões da Justiça Eleitoral que tornaram o ex-presidente inelegível e foi incluído no processo da trama golpista, que condenou Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão.

Edinho Silva disse que não se pode tolerar desinformação contra o sistema de votação brasileiro vinda de um pré-candidato a presidente.

“Sabemos quais são as consequências dessa ofensiva antidemocrática. Como provado na investigação e, posteriormente, no julgamento, da tentativa de golpe de janeiro de 23, tentar descredibilizar as urnas é método contra a nossa democracia. E o resultado pode ser gravíssimo, como a história recente demonstrou”, declarou, referindo-se aos ataques às sedes dos Poderes em 8 de janeiro de 2023.

O presidente do PT também afirmou que o partido avalia as “medidas judiciais cabíveis” contra o senador.

A fala de Flávio Bolsonaro foi proferida na terça-feira (21) em evento com diplomatas. Ele afirmou que as urnas eletrônicas brasileiras têm a mesma origem das urnas da empresa venezuelana Smartmatic, o que é falso.

“Há poucos dias, por coincidência, há uma denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela. […] Muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma… Têm a mesma origem dessa empresa venezuelana”, disse o senador.

Ele afirmou também: “O pedido que eu faço a todos aqui, não estou questionando o sistema de votação brasileiro, mas que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possíveis para as nossas eleições, como sempre fazem, e também pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e [sobre] como o Brasil pode dar eleições mais seguras e transparentes”.

Flávio participou de uma rodada de eventos com presidenciáveis promovida pela consultoria de comunicação Novo Selo Comunicação e pelo site The Brazilian Report. A palestra reuniu “lideranças brasileiras e embaixadores, cônsules, chefes de missão e representantes diplomáticos” de mais de 40 países, segundo os organizadores.

Lula lidera as pesquisas eleitorais. Levantamento da Quaest divulgado na última quarta-feira (15) mostra o petista com 40% das intenções de voto para o primeiro turno, contra 28% de Flávio Bolsonaro. Para o segundo turno, o petista tem 45% contra 37% do provável adversário. A margem de erro é de dois pontos percentuais.

•        ‘A justiça eleitoral precisa tomar providência contra Flávio Bolsonaro’, afirma Luizianne Lins

A deputada federal Luizianne Lins (Rede-CE) cobrou providências da Justiça Eleitoral contra o pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em  postagem na rede social X, a parlamentar demonstrou revolta com os ataques do senador às urnas eletrônicas brasileiras.

“A justiça eleitoral precisa tomar uma providência, como fez com o presidiário Jair Bolsonaro. Tariflávio Traidor da Pátria volta a espalhar mentiras sobre as urnas eletrônicas, por meio das quais ele e sua família são eleitos há anos”, escreveu a parlamentar.

“É uma desinformação grave e criminosa. Temos um dos sistemas eleitorais mais eficientes e confiáveis do mundo”, acrescentou a deputada do Partido dos Trabalhadores. “Tariflávio golpista”.

<><> Declarações de Flávio Bolsonaro

Durante reunião com diplomatas, nesta terça (21), em Brasília (DF), o senador Flávio Bolsonaro afirmou que as urnas eletrônicas brasileiras têm a mesma origem das urnas da empresa Smartmatic.

Conforme o parlamentar, um documento da CIA mostrou que a Smartmatic teria participado de um esquema de fraude do governo venezuelano nas eleições de 2012. A sigla CIA significa Central Intelligence Agency (Agência Central de Inteligência).

“Muitas dessas máquinas utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma empresa. Há denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela”, afirmou.

<><> Histórico golpista

Trumpismo e bolsonarismo adotaram métodos semelhantes para desacreditar eleições e pressionar instituições democráticas. Após a derrota de Jair Bolsonaro em 2022, o PL tentou anular votos de parte das urnas eletrônicas sem apresentar elementos que comprovassem irregularidades. O Tribunal Superior Eleitoral rejeitou a iniciativa e aplicou multa de R$ 22,9 milhões à legenda.

A ofensiva contra o resultado eleitoral ganhou seu episódio mais grave em 8 de janeiro de 2023. Naquela data, apoiadores de Bolsonaro invadiram e destruíram áreas do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. O STF já condenou mais de 1,4 mil pessoas por crimes ligados aos ataques às sedes dos Três Poderes.

Os Estados Unidos viveram uma ação de natureza semelhante em 6 de janeiro de 2021. Após a derrota de Donald Trump, atual presidente dos EUA, manifestantes estimulados por alegações falsas de fraude ocuparam violentamente o Capitólio durante a sessão que confirmaria a vitória de Joe Biden.

A tentativa de enfraquecer a Justiça e lançar dúvidas sobre a legitimidade do voto integra o repertório político defendido por Steve Bannon. O estrategista norte-americano influenciou movimentos de extrema direita em diferentes países ao incentivar campanhas de confronto institucional, desinformação eleitoral e mobilização contra os resultados das urnas.

 

Fonte: Por Florestan Fernandes Jr, em Brasil 247

 

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