sexta-feira, 24 de julho de 2026

Indústria têxtil: como frear a superexploração?

Cerca de 90 milhões de pessoas, a grande maioria mulheres, trabalham na indústria têxtil ao redor do mundo com salários que não cobrem nem mesmo suas necessidades mais básicas, porque os gigantes da importação pagam só um pouco mais por uma camiseta básica de algodão do que pagavam há vinte anos. Porém, em termos reais, o valor pago por esses gigantes torna-se ainda mais irrisório quando se considera o impacto da inflação. Claramente, uma tendência de queda foi alcançada às custas do trabalho e da viabilidade econômica dos próprios fabricantes. Esse problema afeta especialmente o continente asiático, pois dois terços dessa indústria estão concentrados nessa região.

<><> Camisetas a 13 dólares o quilo

Os importadores que abastecem as lojas europeias pagam aos fabricantes na Ásia entre 2 e 3 dólares por unidade, e, às vezes, apenas 1 dólar. Se, em vez de unidades, for calculado em quilos, o preço médio que esses importadores pagaram em 2025 foi de 16 dólares por quilo, e apenas 13 dólares pelas camisetas feitas em Bangladesh, seu principal fornecedor.

No entanto, os preços mais baixos dessas mesmas camisetas nas principais lojas da Suíça, da França, da Espanha e no restante da Europa Ocidental variam de 10 a 20 dólares por unidade. Em outras palavras, com a venda de uma única camiseta, as lojas europeias praticamente pagaram um quilo de camisetas. Como explicar uma diferença tão grande entre o que os fabricantes recebem e o que as pessoas que usam essas camisetas pagam?

Uma investigação conjunta da organização não governamental Public Eye (Olhar Cidadão) e da International Clean Clothes Campaign (Campanha Internacional Roupa Limpa) –uma rede de ativistas que defendem a melhoria das condições de trabalho na indústria mundial de confecção/vestuário e artigos esportivos– oferece uma resposta tão sólida quanto reveladora. Seu relatório, recentemente publicado, intitulado Squeezed Dry (Espremidos até a última gota), conclui que, longe de ser uma simples anomalia do mercado, os custos de fabricação extremamente baixos dessas camisetas –ou seja, o que os importadores estão dispostos a pagar aos fabricantes– constitui o mecanismo fundamental pelo qual as grandes marcas de roupas preservam e reproduzem o tão questionado modelo de lucro da indústria têxtil.

Um modelo que perpetua não apenas salários de pobreza, mas também condições de trabalho precárias em toda a cadeia de suprimentos, desde o pequeno e rústico ateliê com alguns trabalhadores em alguma região remota da Ásia até a formidável força de trabalho de enormes fábricas em zonas francas, onde praticamente não pagam impostos nem precisam ajustar-se a qualquer tipo de convenção sindical.

Entre 2001 e 2025, conforme documenta Public Eye em sua investigação, a economia global cresceu cerca de 3% ao ano, enquanto a inflação mais que dobrou o custo de vida. No entanto, no setor têxtil, os preços de importação de uma camiseta quase não mudaram. Na União Europeia, por exemplo, embora essa variação tenha sido de +0,9% ao ano em termos nominais, devido à inflação foi reduzida para -1,4% em termos reais. As grandes marcas europeias embaralham essas porcentagens de forma enganosa para justificar seus elevados preços de varejo. Na verdade, eles alegam que, nos últimos 25 anos, as camisetas ficaram 25% mais caras, quando, na verdade, custaram 30% menos.

Esse cenário poderia ser ainda mais problemático se incluísse a complexa rede do muito lucrativo setor das camisetas de marcas estritamente esportivas, vendidas com o logo “oficial”, como aquelas que estão atingindo um boom particular com a Copa do Mundo de 2026 e, em geral, em todo o amplo setor esportivo.

<><> Tudo para conseguir preços mais baixos

Nas últimas décadas, as grandes marcas de roupa trasladaram, gradualmente, a sua produção para países onde os custos de fabricação são mais baixos. Um exemplo é Bangladesh, principal fornecedor de camisetas para a União Europeia e para o Reino Unido, e o segundo no mundo, logo atrás da China.

Essa crescente concentração do setor têxtil em países ou regiões com custos de produção mais baixos intensificou a relação de dependência entre a indústria local e as empresas de comercialização no restante do mundo, com resultados extremamente prejudiciais para as primeiras. Fundamentalmente, devido à enorme pressão para reduzir seus preços o máximo possível. Essa é uma das principais conclusões da Public Eye após investigar de forma aprofundada e transparente o comportamento dos gigantes do setor.

Entre os atores com os maiores preços de venda –sempre levando em conta os casos estudados– estão a japonesa Fast Retailing, proprietária da marca Uniqlo (que ficou famosa graças à parceria com o tenista suíço Roger Federer), e o grupo dinamarquês Bestseller, proprietário da Jack & Jones e da Vero Moda. No entanto, essas empresas raramente pagam aos fornecedores em Bangladesh mais do que 18 dólares por quilo (cerca de 3 dólares por camiseta). No outro extremo da tabela, as cadeias de desconto como a Primark e o grupo polonês LPP custam cerca de 10 dólares por quilo. A gigante espanhola da fast-fashion Inditex, que possui a marca Zara, bem como a empresa sueca H&M se situam em um segmento intermediário.

Quando confrontadas pela Public Eye com essas informações, várias empresas argumentaram que a diferença marcante entre os preços de produção e os de varejo não levou em conta fatores-chave como a variedade de produtos, maior eficiência, flutuação nos custos das matérias-primas e tarifas, entre outros. Tampouco os custos associados às obrigações sindicais e salariais em Bangladesh, que, segundo elas, têm sido respeitadas pontualmente. No entanto, como alega a Public Eye, “nenhuma [dessas empresas] forneceu seus próprios dados”, ou seja, elas não abriram o jogo para passar da pura retórica para números de custos e benefícios.

<><> Pressões sobre o Sul

As entrevistas da Public Eye realizadas em Bangladesh com gerentes de fábricas e agentes de compras das empresas analisadas revelam a magnitude da pressão que elas exercem sobre os fabricantes, com exigências de preços extremamente baixos e praticamente inegociáveis. Às vezes, com exigências por reduções adicionais de preço após o acordado. De uma forma ou de outra, as margens de lucro para os fabricantes acabam sendo inexistentes.

Para evitar desaceleração das linhas de produção, para preservar o fluxo de caixa e continuar pagando os salários, muitos fabricantes até aceitam pedidos a preço de custo, ou até mesmo com prejuízos, especialmente durante a entressafra. Diante da estagnação dos preços nominais e do aumento dos custos, os fabricantes estão recorrendo à única ferramenta flexível que lhes resta: a mão de obra, resultando na intensificação do trabalho, com jornadas mais longas e uma pressão constante sobre os salários, para reduzi-los ainda mais.

Dessa forma, os preços extremamente baixos de venda das camisetas contribuem para manter os salários de pobreza, ao mesmo tempo em que enfraquecem a capacidade das fábricas de absorver as flutuações da demanda e limitam os investimentos sociais e ambientais.

<><> Imperativo: preços mais justos

Na indústria têxtil, duas décadas de padrões voluntários, códigos de conduta e iniciativas em direção a preços mais justos não conseguiram acabar com a degradação do setor. Portanto, como argumenta a Public Eye, a precificação concertada dos preços que pagam aos fabricantes deve converter-se em um pilar fundamental para o abastecimento responsável. Esses preços, em outras palavras, devem refletir custos reais de produção, estar em conformidade com os padrões da indústria e respeitar os direitos humanos e o meio ambiente. De forma alguma devem ser impostas pelos objetivos de vendas e lucratividade dos gigantes da indústria.

O relatório da Public Eye identifica metas de preço mínimo como um marco para negociações e como uma ferramenta concreta para integrar o abastecimento responsável nas práticas empresariais. Um limite de 30 dólares por quilo, por exemplo, financiaria salários dignos, condições de trabalho seguras e sem estresse, e conduta ambiental crível. Esse valor equivaleria a 5 dólares por camiseta, um preço que parece totalmente razoável.

Paralelamente a essas demandas, vários atores sociais europeus estão lidando com diferentes métodos para exigir mais justiça e equidade na indústria têxtil e nas relações comerciais Norte-Sul. Uma fórmula original é, por exemplo, a do Fair Fashion Award (Prêmio à Moda Justa), que é promovido na Suíça. Oferece uma plataforma para os pioneiros da sustentabilidade no setor têxtil; inspira uma produção e comercialização responsáveis; e representa credibilidade, relevância e viabilidade futura. É apoiado pela Swiss Fair Trade Network (Rede Suíça do Comércio Justo), que é a plataforma que reúne todas as iniciativas de intercâmbio equitativo/comércio justo existentes no país.

Camisetas de algodão: um símbolo emblemático do comércio estruturalmente injusto e uma bandeira de denúncia de um setor ativo da sociedade civil internacional que confronta os gigantes têxteis e, ao mesmo tempo, exige correções com justiça.

 

Fonte: Por Raíssa Araújo Pacheco, em Outras Palavras

 

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