Inteligencia
Artificial: Esperando a quebra
O que é
uma bolha? É uma crença coletiva. O que é um estouro? É o colapso dessa crença.
A Inteligência artificial deu origem a duas bolhas. Há uma bolha no mercado de
ações – os dois players de maior destaque, OpenAI e Anthropic, devem lançar
IPOs com capitalizações de mercado astronômicas em torno de 1 trilhão de
dólares cada.
Mas
essa bolha é sustentada por uma bolha de crédito, a qual é ainda mais
preocupante. As quedas do mercado de ações costumam ser mais espetaculares do
que destrutivas – causando perdas no valor dos ativos – enquanto as bolhas de
crédito, quando estouram, desencadeiam uma cascata de inadimplências em todo o
sistema financeiro.
Tem-se,
pois, duas bolhas geradas por uma crença coletiva forte o suficiente para
sustentar uma mobilização de capital sem precedentes na história do
capitalismo. Vamos admitir que os capitalistas americanos sabem uma coisa ou
duas sobre como criar uma boa estória – ou seja, como gerar uma crença
difusiva. Desta vez, eles não pouparam esforços, nos presenteando com as visões
grandiosas. Em consequência, temos uma questão incomum e paradoxal: como
convencer a humanidade dos terríveis e quase existenciais riscos do que está
sendo difundido?
O chefe
da Anthropic, Dario Amodei, tem domínio sobre esse estilo de retórica, que sob
o disfarce de contrição transmite uma mensagem totalmente egoísta. Eis o que
propõe: (i) A Inteligência artificial representa um perigo enorme, o que
significa que é uma ferramenta de poder sem precedentes; logo, ela se afigura
muito interessante; (ii) Eu gerei um monstro, mas como estou admitindo que
cometi esse crime, a minha consciência pode ficar tranquila (venha, pois,
comprar o que vendo para conseguir uma dose dessa virtude junto com a arma
letal).
(iii) O
governo do “mundo livre” está avisado agora de que essa arma não deve cair nas
mãos de mais ninguém – dos chineses, por exemplo? Que horror! – eis que as
minhas próprias mãos, como mencionei, estão limpas; (iv) dada a importância
mundial de tudo isso, se as coisas desandarem financeiramente, não deixem que a
falência caia sobre nós tal como ocorreu como o humilde Lehman Brothers.
Trata-se
de uma lenda perfeita: como o futuro da humanidade está em jogo, mas os vilões
não podem ser postos a prêmio. Claro, uma lenda não é um modelo de negócio. Até
agora, bastou lançar um feitiço (e que feitiço foi criado): desde 2020, as
“Cinco Grades” – Microsoft, Google, Oracle, Meta e Amazon – investiram US$ 1,9
trilhão no caldeirão dos negócios. Depois disso, porém, é preciso entregar
retorno – se não em breve, o que não está previsto, então no futuro, desde que
sea numa escala proporcional ao investimento.
Aqueles
que expressaram ceticismo sobre o sucesso do empreendimento foram inicialmente
descartados como resmungões, estraga prazeres que são incapazes de experimentar
a emoção do milagroso, de imaginar o grande avanço civilizacional do nosso
tempo. Contudo, por quanto tempo a crença coletiva na Inteligência artificial
pode resistir às evidências em contrário?
A
resposta: muito tempo, mas não para sempre – especialmente quando os sinais de
alerta começam a se multiplicar, como está acontecendo agora. É bem possível
que estejamos testemunhando o início da erosão da crença na Inteligência
artificial! Uma vez ultrapassado um limite crítico, uma correção financeira
ocorrerá e ela será tão brutal quanto o frenesi anterior que se mostrou
maníaco.
Será
que as previsões de receita podem justificar os dispêndios de capital? O
destino de todos depende de um milagre: as chamadas empresas hiperescalares –
aqueles provedores de serviços em nuvem que constroem enormes fábricas para
coletar, hospedar e processar dados: AWS, Google, Microsoft, Oracle, Meta – e
os laboratórios de Inteligência artificial, se comprometeram a consumir chips e
poder de computação em grande escala uns dos outros.
A
Anthropic se comprometeu a fornecer US$ 330 bilhões para a Google, AWS e
Microsoft até 2029, enquanto a OpenAI se comprometeu em pôr US$ 852 bilhões na
AWS, CoreWeave, Cerebras, Oracle, Microsoft e outros até o final de 2030. Somas
tão vastas produzem manchetes, alimentando a crença coletiva na natureza
excepcional da Inteligência artificial. No entanto, o status legal e a
veracidade desses “compromissos’” de retorno são altamente ambíguos – eles vão
desde contratos juridicamente vinculativos até meras sugestões, fantasias
extravagantes e conversas sobre horizontes interestelares.
Em
algum momento, tudo isso terá que cair na realidade. Qualquer que seja a forma
que da realidade que prevalecerá, haverá muitas vítimas. Se os laboratórios de
Inteligência artificial tiverem que sacar bem do fundo de seus bolsos sem que a
demanda tenha acompanhado previamente o ritmo do investimento, isso implicará
em sua ruína. Se as hiperescalares ficarem em situação difícil, isso também não
vai acabar bem. Isso porque eles já comprometeram US$ 2 trilhões em gastos de
capital e planejam comprometer muito mais nos próximos anos (a meta é de US$
5,3 trilhões para o período de 2025–30, segundo o Goldman Sachs).
Ninguém
sabe a proporção exata de compromissos firmes porque nem a Anthropic nem a
OpenAI são empresas listadas em bolsa. O que sabemos são os números das
recentes rodadas de arrecadação: 95 bilhões de dólares para a Anthropic este
ano, 122 bilhões para a OpenAI, o que ainda deixa uma enorme lacuna de
financiamento. Note-se que não há possibilidade de autofinanciamento, já que
eles estão enfrentando perdas massivas.
Como se
isso não bastasse, Jensen Huang, chefe da Nvidia – não se pode esquecer que é
ele quem fornece os chips que alimentam toda essa indústria –, apontou que, com
um custo de 80 a 100 bilhões de dólares por gigawatt de energia, os centro de
dados planejados acabariam custando não os 5,3 trilhões previstos pelo Goldman
Sachs, mas algo entre 9,5 e 15 trilhões de dólares. Veja-se que ele, afinal,
também está tentando recuperar o seu próprio capital.
Então,
estamos diante de uma equação com uma variável e um parâmetro. Eis a variável:
demanda. Eis o parâmetro: financiamento. Este último ganha tempo até que a
variável se digne a se concretizar. A demanda certamente começou em ritmo
acelerado, impulsionada por uma exuberância irracional. Simplesmente não se
pode não se dar ao luxo de perder uma revolução – especialmente uma que seja
por excelência capitalista.
No
primeiro momento, a hype era aquilo que impulsionava o movimento ascendente.
Depois veio a onda inicial de adoção, acompanhada de admiração extasiada pelo
poder da Inteligência artificial. No entanto, o problema agora é que se tornou
possível pensar algo mais prosaico, especialmente entre os departamentos
financeiros, que têm pouca paciência para maravilhas quando os números não
batem.
Havendo
conectado seus clientes com acesso gratuito, os laboratórios de Inteligência
artificial começaram a cobrar das empresas com base em planos de tarifa fixa.
Nesse momento, os gastos ainda parecem previsíveis. Porém, quando a próxima
fase do vício se instalar, o modelo de precificação mudará repentinamente e
passará a se basear no uso, ou seja, em tokens – a unidade fundamental gerada
pelos grandes modelos de linguagem (LLMs na sigla em inglês). Essa mudança não
anunciada levará os custos da Inteligência artificial a dispararem, pegando os
departamentos financeiros completamente de surpresa.
A Uber,
por exemplo, descobriu que seu orçamento anual projetado para Inteligência
artificial havia sido gasto em um único trimestre. Isso não foi uma surpresa: a
hype convenceu com sucesso os funcionários de que, para fazer parte da nova era
gloriosa e impulsionar sua produtividade pessoal, eles deveriam se juntar ao
comboio.
Para
estimulá-los ainda mais, um novo conceito foi inventado – “tokenmaxxing” (um
sinal de verdadeira fé), junto com rankings e medalhas de honra para aqueles
que acessavam o sistema de forma mais eficaz. Como resultado, os funcionários
se entregaram com entusiasmo, tanto que as próprias empresas que os haviam
enlouquecido tiveram que pisar no freio de emergência. E isso já está
acontecendo com gigantes como Amazon e Meta.
Tais
empresas limitaram o uso até que os contornos da coisa ficassem mais claros.
Ainda assim, o bicho está longe de ficar transparente. Os gastos só podem ser
avaliados ex post e os ganhos de produtividade são opacos e controversos. As
empresas estão dispostas a investir em Inteligência artificial, mas exigem pelo
menos alguma certeza sobre os retornos do investimento possíveis – o que, por
enquanto, é tão claro quanto uma poça de óleo combustível.
A
clareza dificilmente surgirá tão cedo, especialmente no que diz respeito aos
preços, que têm se mostrado notavelmente voláteis. Em junho, o Wall Street
Journal informou que a OpenAI pretende cortar drasticamente os preços dos
tokens, numa clara tentativa de tomar participação de mercado da Anthropic.
Ainda assim, tal como o seu rival, a OpenAI está tendo uma necessidade crítica
de receita. Tudo o mais sendo igual, baixar preços não ajuda nesse aspecto –
não importa a quão inelástica seja a demanda, a qual, em última instância, é
determinada pelas empresas que consomem Inteligência artificial. E, dada a
incerteza atual, a atitude predominante é de cautela ou até mesmo de retração.
Além
disso, pode-se questionar quão séria é a guerra de preços entre OpenAI e
Anthropic – e, caso ela entre em escalada, quais seriam as consequências disso.
Certamente haverá danos, não para as hiperescalares (que pouco se importam de
onde vem a demanda, desde que seja robusta), mas para os credores e para
acionistas que apoiaram o perdedor.
Mas
esse confronto parece mais uma escaramuça do que a Batalha de Guadalcanal. As
verdadeiras hostilidades estão em andamento em outros lugares: a competição
chinesa. Apesar de enfrentarem um embargo duplo (tanto interno quanto externo)
e acesso limitado aos chips Nvidia, os chineses, aproveitando ao máximo essa
“restrição criativa”, desenvolveram LLMs que podem ser menos sofisticados
(embora isso seja discutível), mas melhor adaptados às necessidades reais dos
consumidores.
Quer
possamos ou não enxergar claramente dentro da caixa preta da Inteligência
artificial chinesa, uma coisa é certa: a DeepSeek conseguiu oferecer
Inteligência artificial quase no mesmo nível da norte-americana, mas a preços
desafiadores da concorrência. A diferença de preço está em consonância com a
diferença entre os gastos de capital chineses e americanos. A proporção é de 1
para 10: 57 bilhões de dólares para a China em 2025, comparado a 443 bilhões
para os EUA. As estimativas para 2027 são de US$ 157 bilhões contra US$ 1
trilhão. Na ausência de trilhões de dólares, parece que o pensamento sensato
está funcionando na China.
O preço
mais baixo dos tokens chineses deveria tirar os fiéis da complacência, pois o
que está em jogo é nada menos que o possível colapso de um modelo de negócios
de 5 trilhões de dólares. O Goldman Sachs – agindo de forma semelhante à
Congregação Romana para a Doutrina da Fé – pode muito bem alimentar o seu
próprio entusiasmo prevendo uma mudança da Inteligência artificial
conversacional para atuante, prevendo assim um boom na demanda mensal por
tokens para quase 120 quadrilhões até 2030. No entanto, curiosamente, eles
omitiram a pergunta crucial: quem vai conquistar esse mercado?
Porém,
diferente de sua contraparte no Vaticano, a congregação do Goldman Sachs não é
homogênea. A diversidade de pontos de vista é tolerada lá, embora – fiquemos
tranquilos – isso seja menos um sinal de integridade do que de variedade no
modo de obter lucros. Não é contradição, portanto, ouvir o Goldman Sachs
balançar a perspectiva de quadrilhões em tokens, quando um de seus
estrategistas internos está prevendo que uma grande parte da demanda irá para a
China e o Japão.
Para
provar que esse estrategista estava certo – e sem muita consideração pelas
atuais parcerias nos EUA – a Microsoft anunciou alegremente a substituição dos
produtos OpenAI e Anthropic pelo DeepSeek. O analista do Goldman insiste que os
“grandes provedores de capital estão superexpostos ao risco”, argumentando que
“a criação de valor para os acionistas seria melhor servida alocando menos
capital para a IA”.
Devemos
considerar a questão não apenas do lado da demanda, mas também do ponto de
vista dos provedores de capital que apostam nessa empresa de 5 trilhões de
dólares. O setor financeiro deve estar em posição de avaliar a validade das
alegações de que uma inovação é realmente “inovadora”, determinar os seus
horizontes temporais e a sustentabilidade do respaldo financeiro necessário.
Estamos
entrando em território perigoso. Ora, sabemos bem que contribuição esperar dos
principais jogadores: nada. OpenAI e Anthropic, que perdem dinheiro em excesso,
ainda não geraram um único copek de
lucro. Quanto às empresas hiperescalares, elas também não estão em bom estado.
O Financial Times estima – “sob as suposições bem generosas” – que, com exceção
da Amazon, todos as hiperescalares terão retornos negativos sobre o
investimento para o período de 2025–30.
A maior
parte do financiamento para a Inteligência artificial vem de fontes externas. E
esse suporte está prestes a ser bloqueado. Os bancos estão começando a
desistir: até o final de 2025, já haviam comprometido US$ 450 bilhões para o
complexo de IA, segundo uma estimativa do Federal Reserve de Chicago. A Goldman
Sachs Research observa que o financiamento por meio de “mercados privados” deve
se tornar cada vez mais importante – trata-se de um retorno à linguagem
silenciosa e codificada da Santa Sé. Eis aqui o “plano de financiamento” da IA:
sair coletando dólares disfarçadamente.
O
Goldman Sachs elogia os diversos segmentos e classes de ativos prontos para
serem comprometidos sob a ousada bandeira dos “investimentos alternativos”.
Todos os segmentos estão envolvidos: crédito privado, private equity,
infraestrutura e fundos imobiliários (o mercado imobiliário é fundamental,
considerando a enorme área necessária para os centros de dados).
As
fronteiras entre essas alternativas estão cada vez mais borradas, assim como as
linhas que as separam dos atores do sistema financeiro regulado. Os bancos
fornecem alavancagem para essas entidades. Se o edifício desmoronar, os efeitos
serão realmente catastróficos. Não há como não saber! A equação do modelo de
negócios é fundamentalmente insustentável: todo o investimento se baseia em
suposições as mais improváveis sobre a demanda. O mundo financeiro está
começando, ainda que lentamente, a perceber isso.
O
acordo proposto à Anthropic por dois fundos privados de crédito, Apollo e
Blackstone, para esconder sua dívida será lembrado como um clássico do gênero.
“Big Sky”, esse é o nome do projeto proposto – o que demonstra que eles têm um
lado poético. Eles estão oferecendo à Anthropic acesso aos chips da Broadcom
por meio de um arrendamento de 35 bilhões de dólares que mantém a dívida fora
de seu balanço.
A
Morgan Stanley publicou estimativas das obrigações fora do balanço das empresas
hiperescalares que são realmente impressionantes: combinar compromissos
futuros, que visam fornecer poder computacional baseado na capacidade ainda a
ser construída, com outras obrigações, como a aquisição de terrenos, edifícios
e chips, resulta em um total de US$ 1,8 trilhão (US$ 800 bilhões mais US$ 1
trilhão). Tudo isso ficará fora do balanço, é claro.
Alguém
poderia perguntar: para onde realmente vai todo o dinheiro? Eis aí uma questão
cada vez mais retórica, ao que parece. O complexo econômico-financeiro da
Inteligência artificial se tornou um emaranhado bem impenetrável; compreender
cada uma de suas convoluções é um desafio assustador. No entanto, onde quer que
se olhe, vê-se becos sem saída e variáveis imprevisíveis que – seja como for
que se desenrolem – terão consequências graves para alguns, se não para todos.
Diante
de tudo isso, não se pode esquecer que o setor financeiro está enterrado até o
pescoço na corrida da Inteligência artificial, pois transgrediu
despreocupadamente todos os limites do razoável. Agora, ele está profundamente
ansioso para continuar promovendo a crença, levando-a ao público em geral – uma
crença que, aliás, está começando a vacilar. Comportamentos estranhos, movidos
por agendas que às vezes são distorcidas e outras vezes ocultas, estão vindo à
tona.
Amodei
declara de forma direta que, se a Anthropic não alcançar 1 trilhão de dólares
em receita, não vê como seria possível impedir a sua falência. Sam Altman, seu
colega na OpenAI, que estava desesperado por uma IPO imediata para evitar ficar
atrás num mercado que fora esvaziado pela SpaceX e Anthropic, agora acredita
que é hora de reconsiderar, de tirar um tempo para recuperar preços e demandas,
enfrentando a concorrência.
Há,
pois, um barril de pólvora cheio até a borda – só é necessário um fósforo. E
agora apareceu uma caixa de fósforos. Primeiro, o aumento das taxas de juros.
Veja-se as letras do Tesouro dos EUA, pois elas estão sendo impulsionadas para
cima por uma política monetária destinada a conter a inflação prevista pelo
conflito no Golfo. Juntamente com a taxa dos fundos do Federal Reserve em torno
da qual eles giram, os rendimentos dessas letras atuam como referência para os
custos de empréstimos em todo o sistema.
Quando
se trata de aumento das taxas de juros, às vezes é preciso muito pouco para
abalar todo um edifício que foi construído sobre a diferença entre retornos de
investimento e o custo dos fundos emprestados. Não se pode permitir que essa
diferença diminua e muito menos que se torne negativa. Um aumento de juros a
mais e essas apostas de repente caem no vermelho, levando especuladores a
correrem para a porta da saída.
Mas
veja-se também o que está acontecendo nos mercados de ações. Há uma preocupação
crescente com a dívida usada para financiar compras de ações prontamente
concedida pelos corretores através dos quais os investidores realizam suas
operações. A chamada “dívida de margem” está longe de ser marginal: agora
atingiu um recorde histórico de 1,4 trilhão de dólares.
O que
acontece se os mercados de ações mudarem de rumo? Os investidores enfrentarão
as infames “chamadas de margem” – um pedido de corretor para que um cliente
preste uma garantia adicional para sustentar um empréstimo quando os ativos que
o mantêm estão perdendo valor.
Preciso,
nesse caso, revisar um pouco a minha avaliação inicial: as bolhas do mercado de
ações não são muito perigosas enquanto permanecerem desconectadas do sistema de
crédito. Elas se tornam perigosos quando criam potencial para inadimplências e
corridas frenéticas por liquidez. Para atender às necessidades de financiamento
em um segmento do mercado, os investidores vendem ativos em outro.
Esse
mercado, por sua vez, sofre pressão de liquidez, o que desencadeia vendas
adicionais em outros lugares, e assim por diante. Se o sistema financeiro já
está em um ponto crítico de instabilidade estrutural, essa reação em cadeia
pode levá-lo ao colapso.
Por
fim, existe a possibilidade de um incidente grave. Um IPO fracassado de um
desses laboratórios de IA. Um colapso simbolicamente significativo do mercado
de ações – a SpaceX, por exemplo, cujo tão divulgado lançamento não conseguiu
impedir que o preço das ações, após um pico inicial, iniciasse sua descida rumo
à Terra.
Mas há
também a Oracle, ocupada em disfarçar um legado de falência, que pode
desencadear uma reação em cadeia: retorno sobre o investimento de -35%, dívida
cinco vezes maior que seu patrimônio e planos de demitir funcionários em lotes
de 10.000. Tudo isso é feito em nome de um enorme salto de produtividade
impulsionado pela Inteligência artificial, mas, na verdade, trata-se de uma
medida desesperada para restaurar o fluxo de caixa e evitar o calote.
O
colapso da Oracle seria o tipo de evento que costuma aparecer em toda grande
crise financeira: o momento em que o feitiço é subitamente quebrado, e uma
crença – minada por dentro e agora frágil demais – desmorona. Tem-se, então,
uma debandada é geral.
Fonte:
Por Frédéric Lordon - Tradução: Eleutério F. S. Prado, em A Terra é Redonda

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