sábado, 25 de julho de 2026

EUA sob Donald Trump: Método na loucura?

Como interpretar os movimentos dos Estados Unidos sob Donald Trump? Há muito de estranho, muito de inesperado nesses movimentos. É loucura pura e simples ou há algum método nessa loucura?

À primeira vista, há aspectos difíceis de reconciliar com a racionalidade. A começar pelo fato de terem os Estados Unidos comprado briga com China, Rússia e Irã ao mesmo tempo. Abriram três frentes de batalha e não estão conseguindo prevalecer em nenhuma delas. Essa guerra em três frentes antecede Donald Trump e foi se configurando desde os tempos de Barack Obama.

Donald Trump dá sequência e intensifica essa estratégia (ou falta de). Parece claro que os EUA superestimaram o seu poder e subestimaram os seus adversários. Subestimaram a Rússia, subestimaram a China, subestimaram o Irã. Os três países vinham se fortalecendo e se preparando há tempos para embates com os EUA. Sob ataque imperial, esses três países se aproximaram como nunca, tornando-se ipso facto ainda mais fortes.

É verdade que Donald Trump, desde 2025, tentou se desvencilhar dessa sinuca de bico em que os EUA haviam se metido. Buscou encerrar a guerra na Ucrânia; tentou evitar a guerra contra o Irã. Os europeus garantiram a continuação da guerra na Ucrânia e arrastaram os EUA de volta para o conflito. Israel e o poderoso lobby sionista impediram a paz no Oriente Médio e empurraram Donald Trump para o ataque ao Irã.

O que Donald Trump pretendia, ao que parece, era pacificar ou pelo menos reduzir a intensidade dos conflitos no Leste da Europa e na Ásia Ocidental para concentrar esforços na contenção do principal rival – a China. Os chineses são os grandes beneficiários do fracasso de Donald Trump em se desvencilhar dessa herança geopolítica problemática.

Mas existe um outro aspecto talvez ainda mais estranho da estratégia de política externa estadunidense sob Donald Trump, este não herdado por ele de governos anteriores. Depois de abrir três frentes de luta, em 2025 os EUA passaram a minar os próprios aliados de forma agressiva. O lema parece ser: unir os inimigos e distanciar-se dos amigos.

Não é exatamente o contrário do que se deveria esperar? Se a ideia é enfrentar Rússia, China e Irã ao mesmo tempo, não seria lógico buscar estreitamento dos laços com nações aliadas? Em outras palavras, reforçar a coesão do assim chamado Ocidente coletivo?

Duvidoso que ainda se possa falar em “Ocidente coletivo”. O que antes de Donald Trump parecia um bloco razoavelmente coeso foi fragmentado, talvez irreversivelmente. O governo americano vem se valendo de uma combinação de ameaças e medidas hostis contra países amigos ou neutros de todos os continentes. A repentina guinada da superpotência deixou esses países desorientados. Vale mais do que nunca a advertência de Henry Kissinger: é perigoso ser inimigo dos Estados Unidos e mais perigoso ainda ser amigo.

Mas volto à pergunta original: há método nessa loucura? No meu entender, a chave é reconhecer dois pontos: (1) O Império deseja manter a sua hegemonia global; mas (2) percebe que o custo econômico de mantê-la tornou-se proibitivo. Como conciliar 1 e 2? Tentando compartilhar a carga com os aliados, à força se necessário. Há indicações de que essa é nova estratégia sob Donald Trump.

O custo econômico da hegemonia global se manifesta, de um lado, em graves desequilíbrios fiscais e de balanço de pagamentos e, de outro, em desindustrialização da economia. Esta última, por sua vez, mina a capacidade de defesa do Império. Vejamos como os EUA tentam administrar essa situação problemática.

Como vem sendo tratados os europeus, os aliados antes preferenciais? A Europa está sendo pressionada como nunca a aumentar seus gastos militares e assumir uma parcela maior do orçamento da OTAN. Isso está sendo feito de forma aberta, com ameaças públicas. Se bem-sucedida, a pressão sobre os europeus permitiria economia de despesas, favorecendo o equilíbrio das contas públicas.

Além disso, os americanos esperam que a Europa se abasteça de equipamentos nos EUA, contribuindo para o fortalecimento da sua base industrial de defesa. Como se isso não bastasse, Trump ainda ameaça, volta e meia, tomar a Groenlândia à força. Os europeus, intimidados, parecem não saber o que fazer.

No que diz respeito à política econômica, o governo dos EUA passou a usar tarifas de importação de maneira generalizada e inédita. Como instrumento, as tarifas sobre importações têm a vantagem potencial de atingir três objetivos ao mesmo tempo: aumentam a arrecadação federal, diminuem o desequilíbrio externo e favorecem a substituição de importações por produção industrial doméstica.

A vantagem é potencial porque esses objetivos só podem ser alcançados simultaneamente se a elasticidade-preço das importações é relativamente baixa. Nesse caso, o volume importado não cai na proporção do aumento da tarifa, resultando em maior receita para os cofres públicos. Ao mesmo tempo, porém, os efeitos sobre contas externas e substituição de importações são necessariamente mais limitados, uma vez que a queda dos volumes importados é menor do que seria se a demanda fosse mais elástica a preço. De qualquer modo, dentro de certos limites, a tarifa pode matar três coelhos com uma cajadada, algo raro em matéria de política econômica.

Há um agravante do ponto de vista dos aliados europeus e outros. Os EUA querem maximizar o impacto positivo do aumento tarifário em detrimento dos parceiros comerciais. Pressionam os países europeus e outros aliados a encaixarem o aumento tarifário sem reciprocidade, isto é, a suportar as tarifas aumentadas sem aumentar as suas tarifas sobre exportações dos EUA, pelo menos não na mesma proporção. O aumento das tarifas deve ser obrigatoriamente assimétrico. Em caso de resistência dos parceiros, os EUA ameaçam elevar ainda mais as tarifas.

Os europeus espernearam um pouco, mas acabaram se submetendo. A assimetria tarifária que se instalou reflete a assimetria de poder. De poder militar e de poder econômico. Desde a Segunda Guerra Mundial, os europeus dependem para sua defesa do guarda-chuva americano. Essa dependência militar agora cobra seu preço. E do ângulo econômico, os EUA se valem do tamanho do seu mercado nacional. Insistir na confrontação cobraria o preço de perder ainda mais acesso a esse mercado, algo que pode ser altamente custoso para aqueles países que exportam grande parte da sua produção para os EUA.

Do ponto de vista dos europeus e outros países do Ocidente, nunca os americanos se mostraram tão pouco confiáveis, tão traiçoeiros.

Tratamento semelhante, com efeitos semelhantes, tem sido aplicado a outros aliados tradicionais – Canadá, Japão, Coreia do Sul, notadamente – e também a países que mantêm ou mantinham boas relações com os EUA, a exemplo do Brasil. Há um padrão geral que se repete, sugerindo que existe, sim, algum método no que parece simples loucura. Os mesmos métodos ou semelhantes acima resumidos foram aplicados a todos ou quase todos os aliados. As reações foram quase sempre tímidas.

Apesar da passividade dos aliados, a estratégia dos EUA apresenta problemas intrínsecos e talvez não esteja à altura dos objetivos perseguidos, isto é, a preservação do Império global e a partilha dos custos imperiais com aliados e outros países. Os desequilíbrios das contas externas e, em especial, das contas públicas são enormes. Não existe uma coligação política capaz de sustentar o ajustamento fiscal requerido.

Por outro lado, a desindustrialização da economia avançou muito e não é nada fácil revertê-la. O principal instrumento com que conta o governo de Donald Trump tem limites claros, como já indiquei. As tarifas estão sendo sobrecarregadas sem apoio de outras dimensões da política econômica. A recuperação da indústria depende de uma política industrial mais ampla e não será alcançada apenas com tarifas sobre importações. O reequilíbrio das contas públicas, dada a sua extensão e persistência, também não poderá ser alcançado apenas com aumentos de tarifas de importação, requer disciplina nos gastos e o recurso a outros tributos.

Em suma, há alguma lógica nos movimentos dos EUA. Mas é uma lógica imperfeita para dizer o mínimo. O tempo dirá, mas é duvidoso que a estratégia seguida seja bem-sucedida.

Seria surpresa se o fosse. Unir inimigos e distanciar aliados só poderia dar certo se o poder do Império fosse bem maior do que os americanos imaginam.

¨      Como a economia do Brasil pode 'decolar' com o 'Céu Único Sul-Americano'? Analista explica

A assinatura do Memorando de Entendimento do Acordo de Liberalização Aérea Sul-Americana (ALAS), ocorrida em Assunção, reposicionou a diplomacia econômica na região, estabelecendo uma nova estratégia de conectividade liderada pelo governo brasileiro. Dessa forma, o país dribla a forte fragmentação e a polarização ideológica na América do Sul.

A iniciativa brasileira, também chamada de 'Céu Único Sul-Americano', composta inicialmente por Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, além de uma possível adesão do Uruguai, demonstra que Brasília, por meio da cooperação técnica e comercial, também busca reforçar sua liderança regional, apesar do momento político de fragmentação na América do Sul, conforme explica em entrevista à Sputnik Brasil a professora de relações internacionais Ana Carolina Marson.

"Eu acho que essa ideia de mobilização do entorno regional em torno dessa defesa do multilateralismo também é para manter a influência [brasileira] no cenário internacional, principalmente nesse entorno regional. O presidente Lula, desde seu primeiro mandato, é uma figura que quer esse protagonismo", disse.

Outro ponto levantado pela analista internacional é que o memorando foi feito fora do Mercosul, a partir do esforço brasileiro, o que demonstra que o bloco econômico está rachado internamente e que isso impede grandes movimentações do Brasil, mas que, ao mesmo tempo, essa ação não é uma forma de impor influência como os Estados Unidos atuam na América Latina.

"Acredito que essa ideia do espaço aéreo fora do âmbito do Mercosul se deve muito ao fato de que, dentro do Mercosul hoje, o Brasil não consegue ter tanta abertura para negociar isso. Mas não é uma maneira de exercer influência da forma como os EUA querem fazer. Porque os Estados Unidos, por exemplo, usam essas tarifas para influenciar eleições aqui no Brasil", comenta.

<><> Sob taxações, o Brasil 'decola' para outros mercados

Outra necessidade apontada por Marson é que o Planalto, ao ser taxado mais uma vez pela Casa Branca, precisa diversificar e reforçar parcerias comerciais. Dessa forma, a aviação acaba sendo um ativo importante para movimentar a economia ao mesmo tempo que busca estreitar a integração regional.

"Esse movimento de maior tentativa de integração latino-americana está muito vinculado a esse cenário internacional hostil. O Brasil vem sofrendo uma série de sanções dos EUA, que é nosso segundo maior parceiro comercial, sem embasamento algum. Então, o Brasil precisa diversificar suas parcerias comerciais", destaca.

Apesar de a proposta de um céu comum para as companhias aéreas sul-americanas ter como premissa a política de ganha-ganha, ou seja, que todos seriam beneficiados, inclusive os países com economias de menor porte, segundo Marson, muitos países da região têm certa desconfiança do Brasil, associando-o a um suposto 'subimperialismo'.

"O Brasil sempre se colocou dentro do nosso entorno regional latino-americano como querendo ocupar essa posição de liderança. Nem sempre isso é bem visto pela América Latina. Em alguns países, o Brasil é visto como um país subimperialista, ou seja, que tem pretensões imperialistas também no território sul-americano", observa.

<><> Céu em comum pode aumentar o fluxo comercial

A internacionalista projeta que, quando esse acordo entrar em vigor, será muito vantajoso para a Embraer, uma das principais fabricantes do setor de aviação no mundo, por poder atuar com mais capilaridade na região e, com isso, elevar o nível das exportações brasileiras.

"Para a Embraer, que é uma empresa brasileira muito bem estabelecida, vai ser ótimo. Isso também vai melhorar as chamadas cadeias globais de valor e a exportação de produtos de alto valor agregado. Então, essa tentativa de criar esse espaço aéreo será boa para o Brasil também", pontua.

Atualmente, como elucida Marson, o memorando tem como pontos centrais a discussão das liberdades do ar, ou seja, como as empresas de aviação vão atuar fora de seus países após a entrada em vigor do acordo.

"Alguns pontos do memorando de entendimento estão relacionados ao tráfego aéreo, as chamadas liberdades do ar, que são nove e a sétima, que está sendo negociada, por exemplo, permite que uma empresa aérea brasileira opere da Argentina para o Peru sem passar pelo Brasil. Isso vai ser significativo, principalmente para carga, porque o foco do governo brasileiro é ampliar o comércio de cargas", conclui.

Em um cenário internacional turbulento, marcado por conflitos, sanções e taxações feitas de forma unilateral, a aviação, além de ser um setor estratégico, também se torna um motor propulsor da economia. No panorama sul-americano, pode vir a ser um caminho técnico para uma integração regional pragmática.

¨      Crescimento moderado e ajuste fiscal urgente marcam projeções do FMI para o Brasil

O FMI estima IPCA de 5,6% em 2026, dívida bruta de 97,8% do PIB e alerta que, sem ajuste fiscal, o endividamento pode superar 100% nos próximos anos. O fundo recomenda um esforço de três pontos do PIB até 2031, enquanto projeta crescimento moderado, inflação persistente e riscos externos elevados.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta que o Brasil crescerá 2,4% em 2026, impulsionado pela demanda interna e pelos ganhos da posição de exportador líquido de petróleo em meio às tensões no Oriente Médio.

O relatório, divulgado pela mídia brasileira, também estima inflação de 5,6% medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acima da meta de 3%, e dívida bruta de 97,8% do produto interno bruto (PIB).

Apesar da resiliência econômica, o FMI afirma que o país precisa de um ajuste fiscal mais forte para estabilizar a dívida. Sem novas medidas, a dívida pode chegar a 106% do PIB em 2035. No médio prazo, o crescimento tende a se estabilizar em 2,5%, apoiado pela reforma tributária aprovada em 2023.

A inflação só deve convergir para a meta em meados de 2028. O fundo avalia que a postura cautelosa do Comitê de Política Monetária (Copom) é adequada diante das expectativas inflacionárias elevadas. O FMI recomenda que o governo poupe receitas extraordinárias do petróleo, em vez de direcioná-las a subsídios.

O relatório propõe um ajuste fiscal de três pontos percentuais do PIB entre 2026 e 2031 para reduzir a dívida a cerca de 85% do PIB. Entre as medidas sugeridas estão eliminar despesas tributárias ineficientes, desvincular benefícios do salário mínimo e extinguir pisos constitucionais de saúde e educação.

O cenário, segundo o FMI, segue sujeito a riscos negativos. Uma escalada no Oriente Médio pode pressionar preços de energia, elevar a inflação global e manter juros internacionais altos. No Brasil, um ajuste menor que o necessário aumentaria o prêmio de risco e reduziria o investimento privado.

Ainda segundo a mídia, o relatório também destaca mudanças no comércio exterior: a China consolidou-se como principal parceira do Brasil, com 30% das exportações em 2025. Já os EUA elevaram tarifas sobre produtos brasileiros, e desde a conclusão do relatório anunciaram uma tarifa adicional de 25%, além de avaliar nova sobretaxa de 12,5%.

Por fim, o FMI afirma que a ratificação do acordo Mercosul-União Europeia (UE) pode elevar exportações agrícolas brasileiras em até 14% no longo prazo e aumentar a renda real em cerca de 0,22%.

 

Fonte: Por Paulo Nogueira Batista Jr, em A Terra é Redonda/Sputnik Brasil

 

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