EUA
sob Donald Trump: Método na loucura?
Como
interpretar os movimentos dos Estados Unidos sob Donald Trump? Há muito de
estranho, muito de inesperado nesses movimentos. É loucura pura e simples ou há
algum método nessa loucura?
À
primeira vista, há aspectos difíceis de reconciliar com a racionalidade. A
começar pelo fato de terem os Estados Unidos comprado briga com China, Rússia e
Irã ao mesmo tempo. Abriram três frentes de batalha e não estão conseguindo
prevalecer em nenhuma delas. Essa guerra em três frentes antecede Donald Trump
e foi se configurando desde os tempos de Barack Obama.
Donald
Trump dá sequência e intensifica essa estratégia (ou falta de). Parece claro
que os EUA superestimaram o seu poder e subestimaram os seus adversários.
Subestimaram a Rússia, subestimaram a China, subestimaram o Irã. Os três países
vinham se fortalecendo e se preparando há tempos para embates com os EUA. Sob
ataque imperial, esses três países se aproximaram como nunca, tornando-se ipso
facto ainda mais fortes.
É
verdade que Donald Trump, desde 2025, tentou se desvencilhar dessa sinuca de
bico em que os EUA haviam se metido. Buscou encerrar a guerra na Ucrânia;
tentou evitar a guerra contra o Irã. Os europeus garantiram a continuação da
guerra na Ucrânia e arrastaram os EUA de volta para o conflito. Israel e o
poderoso lobby sionista impediram a paz no Oriente Médio e empurraram Donald
Trump para o ataque ao Irã.
O que
Donald Trump pretendia, ao que parece, era pacificar ou pelo menos reduzir a
intensidade dos conflitos no Leste da Europa e na Ásia Ocidental para
concentrar esforços na contenção do principal rival – a China. Os chineses são
os grandes beneficiários do fracasso de Donald Trump em se desvencilhar dessa
herança geopolítica problemática.
Mas
existe um outro aspecto talvez ainda mais estranho da estratégia de política
externa estadunidense sob Donald Trump, este não herdado por ele de governos
anteriores. Depois de abrir três frentes de luta, em 2025 os EUA passaram a
minar os próprios aliados de forma agressiva. O lema parece ser: unir os
inimigos e distanciar-se dos amigos.
Não é
exatamente o contrário do que se deveria esperar? Se a ideia é enfrentar
Rússia, China e Irã ao mesmo tempo, não seria lógico buscar estreitamento dos
laços com nações aliadas? Em outras palavras, reforçar a coesão do assim
chamado Ocidente coletivo?
Duvidoso
que ainda se possa falar em “Ocidente coletivo”. O que antes de Donald Trump
parecia um bloco razoavelmente coeso foi fragmentado, talvez irreversivelmente.
O governo americano vem se valendo de uma combinação de ameaças e medidas
hostis contra países amigos ou neutros de todos os continentes. A repentina
guinada da superpotência deixou esses países desorientados. Vale mais do que
nunca a advertência de Henry Kissinger: é perigoso ser inimigo dos Estados
Unidos e mais perigoso ainda ser amigo.
Mas
volto à pergunta original: há método nessa loucura? No meu entender, a chave é
reconhecer dois pontos: (1) O Império deseja manter a sua hegemonia global; mas
(2) percebe que o custo econômico de mantê-la tornou-se proibitivo. Como
conciliar 1 e 2? Tentando compartilhar a carga com os aliados, à força se
necessário. Há indicações de que essa é nova estratégia sob Donald Trump.
O custo
econômico da hegemonia global se manifesta, de um lado, em graves
desequilíbrios fiscais e de balanço de pagamentos e, de outro, em
desindustrialização da economia. Esta última, por sua vez, mina a capacidade de
defesa do Império. Vejamos como os EUA tentam administrar essa situação
problemática.
Como
vem sendo tratados os europeus, os aliados antes preferenciais? A Europa está
sendo pressionada como nunca a aumentar seus gastos militares e assumir uma
parcela maior do orçamento da OTAN. Isso está sendo feito de forma aberta, com
ameaças públicas. Se bem-sucedida, a pressão sobre os europeus permitiria
economia de despesas, favorecendo o equilíbrio das contas públicas.
Além
disso, os americanos esperam que a Europa se abasteça de equipamentos nos EUA,
contribuindo para o fortalecimento da sua base industrial de defesa. Como se
isso não bastasse, Trump ainda ameaça, volta e meia, tomar a Groenlândia à
força. Os europeus, intimidados, parecem não saber o que fazer.
No que
diz respeito à política econômica, o governo dos EUA passou a usar tarifas de
importação de maneira generalizada e inédita. Como instrumento, as tarifas
sobre importações têm a vantagem potencial de atingir três objetivos ao mesmo
tempo: aumentam a arrecadação federal, diminuem o desequilíbrio externo e
favorecem a substituição de importações por produção industrial doméstica.
A
vantagem é potencial porque esses objetivos só podem ser alcançados
simultaneamente se a elasticidade-preço das importações é relativamente baixa.
Nesse caso, o volume importado não cai na proporção do aumento da tarifa,
resultando em maior receita para os cofres públicos. Ao mesmo tempo, porém, os
efeitos sobre contas externas e substituição de importações são necessariamente
mais limitados, uma vez que a queda dos volumes importados é menor do que seria
se a demanda fosse mais elástica a preço. De qualquer modo, dentro de certos
limites, a tarifa pode matar três coelhos com uma cajadada, algo raro em
matéria de política econômica.
Há um
agravante do ponto de vista dos aliados europeus e outros. Os EUA querem
maximizar o impacto positivo do aumento tarifário em detrimento dos parceiros
comerciais. Pressionam os países europeus e outros aliados a encaixarem o
aumento tarifário sem reciprocidade, isto é, a suportar as tarifas aumentadas
sem aumentar as suas tarifas sobre exportações dos EUA, pelo menos não na mesma
proporção. O aumento das tarifas deve ser obrigatoriamente assimétrico. Em caso
de resistência dos parceiros, os EUA ameaçam elevar ainda mais as tarifas.
Os
europeus espernearam um pouco, mas acabaram se submetendo. A assimetria
tarifária que se instalou reflete a assimetria de poder. De poder militar e de
poder econômico. Desde a Segunda Guerra Mundial, os europeus dependem para sua
defesa do guarda-chuva americano. Essa dependência militar agora cobra seu
preço. E do ângulo econômico, os EUA se valem do tamanho do seu mercado
nacional. Insistir na confrontação cobraria o preço de perder ainda mais acesso
a esse mercado, algo que pode ser altamente custoso para aqueles países que
exportam grande parte da sua produção para os EUA.
Do
ponto de vista dos europeus e outros países do Ocidente, nunca os americanos se
mostraram tão pouco confiáveis, tão traiçoeiros.
Tratamento
semelhante, com efeitos semelhantes, tem sido aplicado a outros aliados
tradicionais – Canadá, Japão, Coreia do Sul, notadamente – e também a países
que mantêm ou mantinham boas relações com os EUA, a exemplo do Brasil. Há um
padrão geral que se repete, sugerindo que existe, sim, algum método no que
parece simples loucura. Os mesmos métodos ou semelhantes acima resumidos foram
aplicados a todos ou quase todos os aliados. As reações foram quase sempre
tímidas.
Apesar
da passividade dos aliados, a estratégia dos EUA apresenta problemas
intrínsecos e talvez não esteja à altura dos objetivos perseguidos, isto é, a
preservação do Império global e a partilha dos custos imperiais com aliados e
outros países. Os desequilíbrios das contas externas e, em especial, das contas
públicas são enormes. Não existe uma coligação política capaz de sustentar o
ajustamento fiscal requerido.
Por
outro lado, a desindustrialização da economia avançou muito e não é nada fácil
revertê-la. O principal instrumento com que conta o governo de Donald Trump tem
limites claros, como já indiquei. As tarifas estão sendo sobrecarregadas sem
apoio de outras dimensões da política econômica. A recuperação da indústria
depende de uma política industrial mais ampla e não será alcançada apenas com
tarifas sobre importações. O reequilíbrio das contas públicas, dada a sua
extensão e persistência, também não poderá ser alcançado apenas com aumentos de
tarifas de importação, requer disciplina nos gastos e o recurso a outros
tributos.
Em
suma, há alguma lógica nos movimentos dos EUA. Mas é uma lógica imperfeita para
dizer o mínimo. O tempo dirá, mas é duvidoso que a estratégia seguida seja
bem-sucedida.
Seria
surpresa se o fosse. Unir inimigos e distanciar aliados só poderia dar certo se
o poder do Império fosse bem maior do que os americanos imaginam.
¨ Como a economia do
Brasil pode 'decolar' com o 'Céu Único Sul-Americano'? Analista explica
A
assinatura do Memorando de Entendimento do Acordo de Liberalização Aérea
Sul-Americana (ALAS), ocorrida em Assunção, reposicionou a diplomacia econômica
na região, estabelecendo uma nova estratégia de conectividade liderada pelo
governo brasileiro. Dessa forma, o país dribla a forte fragmentação e a
polarização ideológica na América do Sul.
A
iniciativa brasileira, também chamada de 'Céu Único Sul-Americano', composta
inicialmente por Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, além de uma possível
adesão do Uruguai, demonstra que Brasília, por meio da cooperação técnica e
comercial, também busca reforçar sua liderança regional, apesar do momento político de
fragmentação na
América do Sul, conforme explica em entrevista à Sputnik Brasil a
professora de relações internacionais Ana Carolina Marson.
"Eu
acho que essa ideia de mobilização do entorno regional em torno dessa defesa do
multilateralismo também é para manter a influência [brasileira] no cenário
internacional, principalmente nesse entorno regional. O presidente Lula,
desde seu primeiro mandato, é uma figura que quer esse protagonismo",
disse.
Outro
ponto levantado pela analista internacional é que o memorando foi feito fora do
Mercosul, a partir do esforço brasileiro, o que demonstra que o bloco
econômico está rachado internamente e que isso impede grandes movimentações do
Brasil, mas que, ao mesmo tempo, essa ação não é uma forma de impor influência
como os Estados Unidos atuam na América Latina.
"Acredito
que essa ideia do espaço aéreo fora do âmbito do Mercosul se deve muito ao fato
de que, dentro do Mercosul hoje, o Brasil não consegue ter tanta abertura
para negociar isso. Mas não é uma maneira de exercer influência da forma
como os EUA querem fazer. Porque os Estados Unidos, por exemplo, usam essas
tarifas para influenciar eleições aqui no Brasil", comenta.
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Sob taxações, o Brasil 'decola' para outros mercados
Outra
necessidade apontada por Marson é que o Planalto, ao ser taxado mais uma vez
pela Casa Branca, precisa diversificar e reforçar parcerias
comerciais. Dessa forma, a aviação acaba sendo um ativo importante para
movimentar a economia ao mesmo tempo que busca estreitar a integração regional.
"Esse
movimento de maior tentativa de integração latino-americana está muito
vinculado a esse cenário internacional hostil. O Brasil vem sofrendo uma
série de sanções dos EUA, que é nosso segundo maior parceiro comercial,
sem embasamento algum. Então, o Brasil precisa diversificar suas parcerias
comerciais", destaca.
Apesar
de a proposta de um céu comum para as companhias aéreas sul-americanas ter como
premissa a política de ganha-ganha, ou seja, que todos seriam beneficiados,
inclusive os países com economias de menor porte, segundo Marson, muitos
países da região têm certa desconfiança do Brasil, associando-o a um suposto
'subimperialismo'.
"O
Brasil sempre se colocou dentro do nosso entorno regional latino-americano como
querendo ocupar essa posição de liderança. Nem sempre isso é bem visto pela
América Latina. Em alguns países, o Brasil é visto como um país
subimperialista, ou seja, que tem pretensões imperialistas também no
território sul-americano", observa.
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Céu em comum pode aumentar o fluxo comercial
A
internacionalista projeta que, quando esse acordo entrar em vigor, será
muito vantajoso para a Embraer, uma das
principais fabricantes do setor de aviação no mundo, por poder atuar com mais
capilaridade na região e, com isso, elevar o nível das exportações brasileiras.
"Para
a Embraer, que é uma empresa brasileira muito bem estabelecida, vai ser
ótimo. Isso também vai melhorar as chamadas cadeias globais de valor e a
exportação de produtos de alto valor agregado. Então, essa tentativa de
criar esse espaço aéreo será boa para o Brasil também", pontua.
Atualmente,
como elucida Marson, o memorando tem como pontos centrais a discussão das
liberdades do ar, ou seja, como as empresas de aviação vão atuar fora de
seus países após a entrada em vigor do acordo.
"Alguns
pontos do memorando de entendimento estão relacionados ao tráfego aéreo, as
chamadas liberdades do ar, que são nove e a sétima, que está sendo
negociada, por exemplo, permite que uma empresa aérea brasileira opere da
Argentina para o Peru sem passar pelo Brasil. Isso vai ser significativo,
principalmente para carga, porque o foco do governo brasileiro é ampliar o
comércio de cargas", conclui.
Em um
cenário internacional turbulento, marcado por conflitos, sanções e taxações
feitas de forma unilateral, a aviação, além de ser um setor estratégico, também
se torna um motor propulsor da economia. No panorama sul-americano, pode
vir a ser um caminho técnico para uma integração regional pragmática.
¨ Crescimento moderado
e ajuste fiscal urgente marcam projeções do FMI para o Brasil
O FMI
estima IPCA de 5,6% em 2026, dívida bruta de 97,8% do PIB e alerta que, sem
ajuste fiscal, o endividamento pode superar 100% nos próximos anos. O fundo
recomenda um esforço de três pontos do PIB até 2031, enquanto projeta
crescimento moderado, inflação persistente e riscos externos elevados.
O Fundo Monetário
Internacional (FMI)
projeta que o Brasil crescerá 2,4% em 2026, impulsionado pela demanda
interna e pelos ganhos da posição de exportador líquido
de petróleo em
meio às tensões no Oriente Médio.
O
relatório, divulgado pela mídia
brasileira, também estima inflação de 5,6% medida pelo Índice de Preços ao
Consumidor Amplo (IPCA), acima da meta de 3%, e dívida bruta de 97,8% do
produto interno bruto (PIB).
Apesar
da resiliência
econômica,
o FMI afirma que o país precisa de um ajuste fiscal mais forte para
estabilizar a dívida. Sem novas medidas, a dívida pode chegar a 106% do PIB em
2035. No médio prazo, o crescimento tende a se estabilizar em 2,5%, apoiado
pela reforma tributária aprovada em 2023.
A
inflação só deve convergir para a meta em meados de 2028. O fundo avalia que a
postura cautelosa do Comitê de Política Monetária (Copom) é adequada diante das
expectativas inflacionárias elevadas. O FMI recomenda que o governo poupe
receitas extraordinárias
do petróleo, em vez de direcioná-las a subsídios.
O
relatório propõe um ajuste fiscal de três pontos percentuais do PIB entre
2026 e 2031 para reduzir a dívida a cerca de 85% do PIB. Entre as medidas
sugeridas estão eliminar despesas tributárias ineficientes, desvincular
benefícios do salário mínimo e extinguir pisos
constitucionais de
saúde e educação.
O
cenário, segundo o FMI, segue sujeito a riscos negativos. Uma escalada no Oriente
Médio pode
pressionar preços de energia, elevar a inflação global e manter juros
internacionais altos. No Brasil, um ajuste menor que o necessário aumentaria o
prêmio de risco e reduziria o investimento privado.
Ainda
segundo a mídia, o relatório também destaca mudanças no comércio exterior:
a China consolidou-se como principal parceira do Brasil, com 30% das
exportações em 2025. Já os EUA elevaram tarifas sobre produtos brasileiros, e
desde a conclusão do relatório anunciaram uma tarifa adicional de 25%, além de
avaliar nova sobretaxa de 12,5%.
Por
fim, o FMI afirma que a ratificação do acordo
Mercosul-União Europeia (UE) pode elevar exportações agrícolas
brasileiras em até 14% no longo prazo e aumentar a renda real em cerca de
0,22%.
Fonte:
Por Paulo Nogueira Batista Jr, em A Terra é Redonda/Sputnik Brasil

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