sábado, 25 de julho de 2026

Cerrado prosperou com agricultura diversificada baseada no milho antes da colonização

Pela primeira vez, um estudo identificou uma “assinatura química” inequívoca do consumo intensivo de milho em populações brasileiras pré-coloniais. O sinal isotópico, baseado em variantes naturais de carbono, nitrogênio e oxigênio, foi encontrado em ossos e dentes humanos calibrados entre 1.055 e 333 anos antes do presente, localizados em sítios arqueológicos do Cerrado brasileiro – região historicamente marginalizada do ponto de vista ecológico e antropológico, em comparação com áreas como a Amazônia.

Embora o consumo identificado seja comparável ao de populações maias ou andinas, a pesquisa publicada na revista Science Advances indica que o sistema de policultura baseada no milho era integrado a práticas complexas de manejo da paisagem, o que incluía outros recursos vegetais e animais.

Para André Strauss, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP e autor correspondente do artigo, encontrar esse vestígio no Cerrado é uma espécie de ironia do destino. “É um lugar mais seco, com menos chuvas, e as sociedades do Cerrado não produzem uma cultura material muito exuberante. Então, é uma das razões pelas quais o bioma sempre figura de maneira não protagonista. Mas é justamente lá que aparece esse sinal do milho no Brasil, nessas sociedades Aratu, que é quem produziu essa cerâmica muito específica do Cerrado, e habitando essas grandes aldeias circulares que não tem paralelo no registro etnográfico”, afirma ao Jornal da USP.

Os achados reforçam o elevado grau de conhecimento agrícola dessas populações, já que plantar milho nesse ambiente exigiu o domínio de técnicas de irrigação e rotação de cultivos, adaptadas às condições locais do ecossistema.

Eliane Chim, primeira autora da publicação e doutoranda do MAE, diz que a pesquisa ajuda a desconstruir a ideia de que essas populações viviam sob constante escassez de recursos. “As pessoas estavam escolhendo, plantando e trabalhando com essa diversidade do milho. Especificamente, sabemos que o Cerrado tem uma grande diversidade de sementes crioulas que exigem técnicas de uso da terra muito sofisticadas. Tem que fazer roças separadas, um não pode polinizar o outro”, explica. Segundo a pesquisadora, trata-se de um conhecimento que se manteve durante gerações.

Os pesquisadores contestam, ainda, outra interpretação recorrente na arqueologia brasileira: a de que os povos tupis não teriam ocupado o Cerrado por considerá-lo um ambiente inóspito. “A gente vê alguns trabalhos dizendo que eles não tinham interesse no Cerrado porque não era floresta ou por ser pouco povoado. Mas o que vemos é o contrário, tinha muita gente morando lá. Não foi pela escassez que eles não foram; foi, talvez, porque já era um território habitado”, afirma Eliane Chim.

“Essa descoberta permite estudar diretamente o papel do milho nas sociedades pré-coloniais após sua chegada a diferentes partes da América do Sul”, afirma Patrick Roberts, diretor do Departamento de Coevolução do Uso da Terra e Urbanização do Instituto Max Planck de Geoantropologia, ao Jornal da USP. “Nossos dados permitem investigar como essas adaptações ocorreram nos diversos ambientes do Cerrado, enquanto grande parte da atenção costuma se concentrar na Bacia Amazônica e seus biomas de floresta tropical”, destaca Roberts, que também é coautor do artigo.

A bióloga e ex-presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Mercedes Bustamante, uma das maiores especialistas no bioma Cerrado, não participou do trabalho, mas comentou que a pesquisa preenche lacunas de conhecimento com evidências robustas. Ao mesmo tempo, oferece uma reflexão sobre os modelos atuais de uso do solo no Cerrado. “Guardadas as diferenças de escala e temporalidade, é instigante avaliar que há a possibilidade de sistemas agroalimentares alternativos e diversificados, já preconizados em estudos científicos e pelo conhecimento tradicional, capazes de garantir segurança alimentar, hídrica e climática, com a conservação da biodiversidade”, diz a professora titular da Universidade de Brasília (UnB).

<><> Padrão alimentar dos povos do Cerrado

Para compreender as estratégias de subsistência dessas sociedades os pesquisadores recorreram à análise de isótopos estáveis – uma ferramenta capaz de reconstruir dietas e proveniência geográfica de alimentos. A equipe analisou assinaturas isotópicas de carbono, nitrogênio e oxigênio presentes em dentes e ossos de 101 indivíduos recuperados de 37 sítios arqueológicos nos biomas Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica. Além dos restos humanos, também foram examinadas amostras de fauna local, fundamentais para estabelecer parâmetros de comparação capazes de distinguir o consumo de diferentes recursos alimentares.

As análises correspondem a populações do Holoceno tardio, período que compreende os últimos 4.200 anos da história geológica, relacionadas às tradições cerâmicas Aratu – sociedades das grandes aldeias a céu aberto – e Una – produtores de uma cerâmica pequena e simples, de bases arredondadas, geralmente encontrada em abrigos rochosos.

De acordo com a pesquisa, indivíduos associados à tradição Aratu apresentaram enriquecimento significativo em carbono-13, uma assinatura chamada “C4” – típica de plantas como milho e cana-de-açúcar. Como cana-de-açúcar não existia no Brasil pré-colonial, um sinal isotópico de plantas C4 é entendido como evidência do consumo de milho.

Já as populações que ocupavam abrigos rochosos apresentaram dietas significativamente mais diversificadas, combinando alimentos provenientes de plantas C3, plantas C4 e recursos de origem animal. “Plantas C3 são quase todas as plantas que existem. São árvores, todas as comidas que você come, como batata, mandioca, melancia, todas as frutas”, conta Eliane Chim.

Os dados químicos analisados não permitem afirmar precisamente quais espécies foram consumidas por essas pessoas. No entanto, evidências botânicas encontradas nos próprios sítios arqueológicos oferecem uma boa indicação da diversidade de cultivos. “A gente encontra feijão, amendoim, mandioca, abóbora”, lembra Strauss. “Também frutas… tem caju, goiaba, maracujá”, completa a arqueóloga.

As evidências também apontam para um consumo modesto de carne, com variações entre indivíduos. Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que isso não deve ser interpretado necessariamente como uma limitação de acesso aos animais, mas sim um reflexo de escolhas alimentares ou padrões culturais específicos.

“Houve essa expressiva diversidade cultural no Cerrado, mesmo com as aldeias muito próximas dos abrigos. Essas pessoas estavam coexistindo, eram contemporâneas e a gente tem esqueletos datados do mesmo período em locais muito próximos, num raio de 50 km” – Eliane Chim

 Os resultados elucidam outro debate da arqueologia brasileira: se Una e Aratu representariam uma mesma sociedade utilizando diferentes tipos de assentamento. Nesta hipótese, o grupo viveria a céu aberto nas grandes aldeias, enterrando seus mortos em grandes urnas funerárias, mas frequentaria, esporadicamente, os abrigos rochosos, realizando lá enterros, entre outras atividades. “Os dados isotópicos nos mostram que a dieta desses indivíduos sepultados nos abrigos é completamente diferente da dieta dos indivíduos encontrados nas aldeias, fortalecendo a hipótese de que eram, também, culturalmente distintos”, aponta Eliane Chim.

“No fundo, os Aratus representam uma mudança marcante no padrão arqueológico do Brasil Central. Porque, até então, você tinha os caçadores-coletores de Lagoa Santa, depois aparecem os ceramistas, mas que fazem uma cerâmica pequenininha, bem fina, que é a chamada cerâmica Una. E, de repente, aparecem esses Aratus, que trazem, de uma só vez, três novidades: as grandes urnas Aratu, as grandes aldeias circulares e – agora a gente sabe com certeza – também o cultivo de milho, que era a base da dieta”, destaca André Strauss.

“O estudo traz luz sobre a diversidade cultural do Cerrado e como essa diversidade interatuou com a diversidade biológica, mostrando uma construção socioecológica rica que merece destaque e reconhecimento”, aponta Mercedes Bustamante.

<><> Desvendando a arqueologia das Américas

O amplo conjunto amostral presente na publicação da Science Advances integra a pesquisa de doutorado de Eliane Chim no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, com orientação de André Strauss. Sua tese deverá ser apresentada no formato de uma coletânea de artigos científicos, sendo este o primeiro da série.

Além da dieta de populações do Holoceno tardio, a pesquisa trabalha com esqueletos de 10 mil a 8 mil anos, datados do Holoceno inicial, e de 6 mil a 4 mil anos, do Holoceno médio. O desafio foi cobrir a dispersão desses povos pelo território. Por isso, a pesquisa reuniu 31 pesquisadores de dez universidades brasileiras, em colaboração com o Instituto Max Planck (Alemanha) e com instituições de Portugal, da Polônia e dos Estados Unidos.

O trabalho é um marco para a arqueologia do Brasil, por se tratar do primeiro estudo da área no País publicado em uma revista de alto impacto, com primeira e última autoria integralmente brasileiras.

“A gente estabelece essa colaboração com várias instituições do Brasil, que têm acervos em seus museus e laboratórios de arqueologia. Os arqueólogos estão escavando desde os anos 1970 para conseguir esse grande conjunto de indivíduos”, diz Eliane Chim.

Além da coleta e acesso a acervos brasileiros, a pesquisadora pode aprimorar a análise de isótopos estáveis em remanescentes humanos e animais no laboratório de Geoantropologia do Instituto Max Planck, na Alemanha, por meio de um programa de intercâmbio. “Embora eu já mantivesse colaborações com pesquisadores da USP, esse tipo de intercâmbio fortalece as parcerias e lhes confere um significado duradouro ao promover a formação e o desenvolvimento de pesquisadores brasileiros em início de carreira”, afirma Patrick Roberts.

Segundo Strauss, o trabalho se destacou por ter aumentado cerca de 50% as datações radiocarbônicas para as ocupações Aratu. “Saber quando começou e terminou, e quando chegou em um lugar novo também é muito importante. E essa era uma área da arqueologia brasileira relativamente mal caracterizada”, diz. “Eles estavam por toda parte. Era uma sociedade realmente muito bem adaptada, com um sucesso populacional muito grande e com uma padronização cultural que também chama muito a atenção. Para mim, é a cerâmica mais bonita do Brasil”, completa.

Para Eliane Chim, o mais surpreendente foi constatar a longevidade da cultura. “A gente achava que o Aratu tinha acabado há 600 anos, por causa de conflitos e com a chegada tupi nas bordas do Cerrado. Mas eles continuaram até a invasão portuguesa. Temos um sítio datado de 400 anos atrás no Cerrado”, conclui.

•        VBP bilionário do agronegócio mascara concentração de riqueza e controle de empresas

Os dados recentes divulgados esta semana pelo Ministério da Agricultura e Pecuária apontam que o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária brasileira atingiu a cifra de R$ 1,40 trilhão em junho de 2026. Embora o governo apresente os números com entusiasmo, uma análise da conjuntura sob a ótica da Economia Política revela que essa riqueza está alicerçada em uma profunda concentração produtiva, territorial e empresarial, que mantém o desenvolvimento do campo subordinado aos interesses de grandes grupos transnacionais.

Apesar do faturamento imponente, o desempenho atual reflete o que o Movimento identifica como um avanço limitado diante de safras anteriores. “Recomenda-se um olhar mais atento à composição deste valor, que revela um crescimento pífio em relação ao período de 2024/2025”, afirma João Pedro Stédile. A estrutura desse faturamento demonstra que o modelo do agronegócio prioriza apenas cinco produtos — soja, gado bovino, milho, cana-de-açúcar e frango — que, juntos, somam R$ 956 bilhões, representando 68% de toda a produção nacional.

A soja, como principal motor desse modelo voltado à exportação, responde sozinha por R$ 336 bilhões (24 249 bilhões (17%). Para o Movimento, essa especialização produtiva reduz a biodiversidade no campo e fragiliza a soberania alimentar, enquanto a Reforma Agrária Popular propõe um modelo diversificado com base na agroecologia.

<><> Desigualdade territorial e subordinação empresarial

A análise dos dados aponta que a riqueza gerada no campo não se distribui de forma igual pelo território brasileiro. Apenas cinco estados — Mato Grosso (15%), Minas Gerais (12%), São Paulo (11%), Paraná (14%) e Rio Grande do Sul (11%) — concentram 63% da produção nacional. Para Stedile, esse cenário reforça a necessidade de democratizar o acesso à terra por meio da criação de novos assentamento e acampamento em regiões hoje dominadas pelo latifúndio monocultor.

Além disso, a concentração geográfica e o controle econômico da produção não pertence, majoritariamente, aos produtores, mas sim às grandes corporações que dominam o comércio de insumos e a exportação. “Os fazendeiros do agronegócio e milhões de trabalhadores estão subordinados a poucas empresas que controlam todo o comércio da produção e acrescentam suas margens de lucro”, afirma Stédile. Enquanto o faturamento bruto dentro das fazendas é de R$ 1,40 trilhão, as 100 maiores empresas do setor faturaram R$ 1,88 trilhão no mesmo período, sendo que apenas as dez maiores controlam R$ 1,12 trilhão desse total.

<><> A invisibilidade da produção popular

Um dos pontos centrais de crítica de João Pedro Stedile aos dados oficiais é a exclusão da agricultura familiar e camponesa das estatísticas de sucesso do governo. Produtos fundamentais para a dieta brasileira produzidos em terras de Reforma Agrária muitas vezes não entram nos grandes levantamentos por serem destinados ao autoconsumo ou comercializados em circuitos locais de feiras e pequenos armazéns.

“A maior parte dos produtos alimentícios produzidos pela agricultura familiar não está contabilizada, pois sua comercialização local dificulta a contabilidade oficial”, ressalta. O Movimento defende que a produção de alimentos saudáveis pelo povo Sem Terra é a única forma de romper com a dependência tecnológica e financeira imposta pelo agronegócio, garantindo que a riqueza gerada no campo permaneça no território e beneficie quem de fato trabalha na terra.

 

Fonte: Por Tabita Said, no Jornal da USP/Pagina do MST

 

Nenhum comentário: