Cerrado
prosperou com agricultura diversificada baseada no milho antes da colonização
Pela
primeira vez, um estudo identificou uma “assinatura química” inequívoca do
consumo intensivo de milho em populações brasileiras pré-coloniais. O sinal
isotópico, baseado em variantes naturais de carbono, nitrogênio e oxigênio, foi
encontrado em ossos e dentes humanos calibrados entre 1.055 e 333 anos antes do
presente, localizados em sítios arqueológicos do Cerrado brasileiro – região
historicamente marginalizada do ponto de vista ecológico e antropológico, em
comparação com áreas como a Amazônia.
Embora
o consumo identificado seja comparável ao de populações maias ou andinas, a
pesquisa publicada na revista Science Advances indica que o sistema de
policultura baseada no milho era integrado a práticas complexas de manejo da
paisagem, o que incluía outros recursos vegetais e animais.
Para
André Strauss, professor do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP e
autor correspondente do artigo, encontrar esse vestígio no Cerrado é uma
espécie de ironia do destino. “É um lugar mais seco, com menos chuvas, e as
sociedades do Cerrado não produzem uma cultura material muito exuberante.
Então, é uma das razões pelas quais o bioma sempre figura de maneira não
protagonista. Mas é justamente lá que aparece esse sinal do milho no Brasil,
nessas sociedades Aratu, que é quem produziu essa cerâmica muito específica do
Cerrado, e habitando essas grandes aldeias circulares que não tem paralelo no
registro etnográfico”, afirma ao Jornal da USP.
Os
achados reforçam o elevado grau de conhecimento agrícola dessas populações, já
que plantar milho nesse ambiente exigiu o domínio de técnicas de irrigação e
rotação de cultivos, adaptadas às condições locais do ecossistema.
Eliane
Chim, primeira autora da publicação e doutoranda do MAE, diz que a pesquisa
ajuda a desconstruir a ideia de que essas populações viviam sob constante
escassez de recursos. “As pessoas estavam escolhendo, plantando e trabalhando
com essa diversidade do milho. Especificamente, sabemos que o Cerrado tem uma
grande diversidade de sementes crioulas que exigem técnicas de uso da terra
muito sofisticadas. Tem que fazer roças separadas, um não pode polinizar o
outro”, explica. Segundo a pesquisadora, trata-se de um conhecimento que se
manteve durante gerações.
Os
pesquisadores contestam, ainda, outra interpretação recorrente na arqueologia
brasileira: a de que os povos tupis não teriam ocupado o Cerrado por
considerá-lo um ambiente inóspito. “A gente vê alguns trabalhos dizendo que
eles não tinham interesse no Cerrado porque não era floresta ou por ser pouco
povoado. Mas o que vemos é o contrário, tinha muita gente morando lá. Não foi
pela escassez que eles não foram; foi, talvez, porque já era um território
habitado”, afirma Eliane Chim.
“Essa
descoberta permite estudar diretamente o papel do milho nas sociedades
pré-coloniais após sua chegada a diferentes partes da América do Sul”, afirma
Patrick Roberts, diretor do Departamento de Coevolução do Uso da Terra e
Urbanização do Instituto Max Planck de Geoantropologia, ao Jornal da USP.
“Nossos dados permitem investigar como essas adaptações ocorreram nos diversos
ambientes do Cerrado, enquanto grande parte da atenção costuma se concentrar na
Bacia Amazônica e seus biomas de floresta tropical”, destaca Roberts, que
também é coautor do artigo.
A
bióloga e ex-presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (Capes), Mercedes Bustamante, uma das maiores especialistas no bioma
Cerrado, não participou do trabalho, mas comentou que a pesquisa preenche
lacunas de conhecimento com evidências robustas. Ao mesmo tempo, oferece uma
reflexão sobre os modelos atuais de uso do solo no Cerrado. “Guardadas as
diferenças de escala e temporalidade, é instigante avaliar que há a
possibilidade de sistemas agroalimentares alternativos e diversificados, já
preconizados em estudos científicos e pelo conhecimento tradicional, capazes de
garantir segurança alimentar, hídrica e climática, com a conservação da
biodiversidade”, diz a professora titular da Universidade de Brasília (UnB).
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Padrão alimentar dos povos do Cerrado
Para
compreender as estratégias de subsistência dessas sociedades os pesquisadores
recorreram à análise de isótopos estáveis – uma ferramenta capaz de reconstruir
dietas e proveniência geográfica de alimentos. A equipe analisou assinaturas
isotópicas de carbono, nitrogênio e oxigênio presentes em dentes e ossos de 101
indivíduos recuperados de 37 sítios arqueológicos nos biomas Cerrado, Caatinga
e Mata Atlântica. Além dos restos humanos, também foram examinadas amostras de
fauna local, fundamentais para estabelecer parâmetros de comparação capazes de
distinguir o consumo de diferentes recursos alimentares.
As
análises correspondem a populações do Holoceno tardio, período que compreende
os últimos 4.200 anos da história geológica, relacionadas às tradições
cerâmicas Aratu – sociedades das grandes aldeias a céu aberto – e Una –
produtores de uma cerâmica pequena e simples, de bases arredondadas, geralmente
encontrada em abrigos rochosos.
De
acordo com a pesquisa, indivíduos associados à tradição Aratu apresentaram
enriquecimento significativo em carbono-13, uma assinatura chamada “C4” –
típica de plantas como milho e cana-de-açúcar. Como cana-de-açúcar não existia
no Brasil pré-colonial, um sinal isotópico de plantas C4 é entendido como
evidência do consumo de milho.
Já as
populações que ocupavam abrigos rochosos apresentaram dietas significativamente
mais diversificadas, combinando alimentos provenientes de plantas C3, plantas
C4 e recursos de origem animal. “Plantas C3 são quase todas as plantas que
existem. São árvores, todas as comidas que você come, como batata, mandioca,
melancia, todas as frutas”, conta Eliane Chim.
Os
dados químicos analisados não permitem afirmar precisamente quais espécies
foram consumidas por essas pessoas. No entanto, evidências botânicas
encontradas nos próprios sítios arqueológicos oferecem uma boa indicação da
diversidade de cultivos. “A gente encontra feijão, amendoim, mandioca,
abóbora”, lembra Strauss. “Também frutas… tem caju, goiaba, maracujá”, completa
a arqueóloga.
As
evidências também apontam para um consumo modesto de carne, com variações entre
indivíduos. Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que isso não deve ser
interpretado necessariamente como uma limitação de acesso aos animais, mas sim
um reflexo de escolhas alimentares ou padrões culturais específicos.
“Houve
essa expressiva diversidade cultural no Cerrado, mesmo com as aldeias muito
próximas dos abrigos. Essas pessoas estavam coexistindo, eram contemporâneas e
a gente tem esqueletos datados do mesmo período em locais muito próximos, num
raio de 50 km” – Eliane Chim
Os resultados elucidam outro debate da
arqueologia brasileira: se Una e Aratu representariam uma mesma sociedade
utilizando diferentes tipos de assentamento. Nesta hipótese, o grupo viveria a
céu aberto nas grandes aldeias, enterrando seus mortos em grandes urnas
funerárias, mas frequentaria, esporadicamente, os abrigos rochosos, realizando
lá enterros, entre outras atividades. “Os dados isotópicos nos mostram que a
dieta desses indivíduos sepultados nos abrigos é completamente diferente da
dieta dos indivíduos encontrados nas aldeias, fortalecendo a hipótese de que
eram, também, culturalmente distintos”, aponta Eliane Chim.
“No
fundo, os Aratus representam uma mudança marcante no padrão arqueológico do
Brasil Central. Porque, até então, você tinha os caçadores-coletores de Lagoa
Santa, depois aparecem os ceramistas, mas que fazem uma cerâmica pequenininha,
bem fina, que é a chamada cerâmica Una. E, de repente, aparecem esses Aratus,
que trazem, de uma só vez, três novidades: as grandes urnas Aratu, as grandes
aldeias circulares e – agora a gente sabe com certeza – também o cultivo de
milho, que era a base da dieta”, destaca André Strauss.
“O
estudo traz luz sobre a diversidade cultural do Cerrado e como essa diversidade
interatuou com a diversidade biológica, mostrando uma construção socioecológica
rica que merece destaque e reconhecimento”, aponta Mercedes Bustamante.
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Desvendando a arqueologia das Américas
O amplo
conjunto amostral presente na publicação da Science Advances integra a pesquisa
de doutorado de Eliane Chim no Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, com
orientação de André Strauss. Sua tese deverá ser apresentada no formato de uma
coletânea de artigos científicos, sendo este o primeiro da série.
Além da
dieta de populações do Holoceno tardio, a pesquisa trabalha com esqueletos de
10 mil a 8 mil anos, datados do Holoceno inicial, e de 6 mil a 4 mil anos, do
Holoceno médio. O desafio foi cobrir a dispersão desses povos pelo território.
Por isso, a pesquisa reuniu 31 pesquisadores de dez universidades brasileiras,
em colaboração com o Instituto Max Planck (Alemanha) e com instituições de
Portugal, da Polônia e dos Estados Unidos.
O
trabalho é um marco para a arqueologia do Brasil, por se tratar do primeiro
estudo da área no País publicado em uma revista de alto impacto, com primeira e
última autoria integralmente brasileiras.
“A
gente estabelece essa colaboração com várias instituições do Brasil, que têm
acervos em seus museus e laboratórios de arqueologia. Os arqueólogos estão
escavando desde os anos 1970 para conseguir esse grande conjunto de
indivíduos”, diz Eliane Chim.
Além da
coleta e acesso a acervos brasileiros, a pesquisadora pode aprimorar a análise
de isótopos estáveis em remanescentes humanos e animais no laboratório de
Geoantropologia do Instituto Max Planck, na Alemanha, por meio de um programa
de intercâmbio. “Embora eu já mantivesse colaborações com pesquisadores da USP,
esse tipo de intercâmbio fortalece as parcerias e lhes confere um significado
duradouro ao promover a formação e o desenvolvimento de pesquisadores
brasileiros em início de carreira”, afirma Patrick Roberts.
Segundo
Strauss, o trabalho se destacou por ter aumentado cerca de 50% as datações
radiocarbônicas para as ocupações Aratu. “Saber quando começou e terminou, e
quando chegou em um lugar novo também é muito importante. E essa era uma área
da arqueologia brasileira relativamente mal caracterizada”, diz. “Eles estavam
por toda parte. Era uma sociedade realmente muito bem adaptada, com um sucesso
populacional muito grande e com uma padronização cultural que também chama
muito a atenção. Para mim, é a cerâmica mais bonita do Brasil”, completa.
Para
Eliane Chim, o mais surpreendente foi constatar a longevidade da cultura. “A
gente achava que o Aratu tinha acabado há 600 anos, por causa de conflitos e
com a chegada tupi nas bordas do Cerrado. Mas eles continuaram até a invasão
portuguesa. Temos um sítio datado de 400 anos atrás no Cerrado”, conclui.
• VBP bilionário do agronegócio mascara
concentração de riqueza e controle de empresas
Os
dados recentes divulgados esta semana pelo Ministério da Agricultura e Pecuária
apontam que o Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária brasileira atingiu a
cifra de R$ 1,40 trilhão em junho de 2026. Embora o governo apresente os
números com entusiasmo, uma análise da conjuntura sob a ótica da Economia
Política revela que essa riqueza está alicerçada em uma profunda concentração
produtiva, territorial e empresarial, que mantém o desenvolvimento do campo
subordinado aos interesses de grandes grupos transnacionais.
Apesar
do faturamento imponente, o desempenho atual reflete o que o Movimento
identifica como um avanço limitado diante de safras anteriores. “Recomenda-se
um olhar mais atento à composição deste valor, que revela um crescimento pífio
em relação ao período de 2024/2025”, afirma João Pedro Stédile. A estrutura
desse faturamento demonstra que o modelo do agronegócio prioriza apenas cinco
produtos — soja, gado bovino, milho, cana-de-açúcar e frango — que, juntos,
somam R$ 956 bilhões, representando 68% de toda a produção nacional.
A soja,
como principal motor desse modelo voltado à exportação, responde sozinha por R$
336 bilhões (24 249 bilhões (17%). Para o Movimento, essa especialização
produtiva reduz a biodiversidade no campo e fragiliza a soberania alimentar,
enquanto a Reforma Agrária Popular propõe um modelo diversificado com base na
agroecologia.
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Desigualdade territorial e subordinação empresarial
A
análise dos dados aponta que a riqueza gerada no campo não se distribui de
forma igual pelo território brasileiro. Apenas cinco estados — Mato Grosso
(15%), Minas Gerais (12%), São Paulo (11%), Paraná (14%) e Rio Grande do Sul
(11%) — concentram 63% da produção nacional. Para Stedile, esse cenário reforça
a necessidade de democratizar o acesso à terra por meio da criação de novos
assentamento e acampamento em regiões hoje dominadas pelo latifúndio
monocultor.
Além
disso, a concentração geográfica e o controle econômico da produção não
pertence, majoritariamente, aos produtores, mas sim às grandes corporações que
dominam o comércio de insumos e a exportação. “Os fazendeiros do agronegócio e
milhões de trabalhadores estão subordinados a poucas empresas que controlam
todo o comércio da produção e acrescentam suas margens de lucro”, afirma
Stédile. Enquanto o faturamento bruto dentro das fazendas é de R$ 1,40 trilhão,
as 100 maiores empresas do setor faturaram R$ 1,88 trilhão no mesmo período,
sendo que apenas as dez maiores controlam R$ 1,12 trilhão desse total.
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A invisibilidade da produção popular
Um dos
pontos centrais de crítica de João Pedro Stedile aos dados oficiais é a
exclusão da agricultura familiar e camponesa das estatísticas de sucesso do
governo. Produtos fundamentais para a dieta brasileira produzidos em terras de
Reforma Agrária muitas vezes não entram nos grandes levantamentos por serem
destinados ao autoconsumo ou comercializados em circuitos locais de feiras e
pequenos armazéns.
“A
maior parte dos produtos alimentícios produzidos pela agricultura familiar não
está contabilizada, pois sua comercialização local dificulta a contabilidade
oficial”, ressalta. O Movimento defende que a produção de alimentos saudáveis
pelo povo Sem Terra é a única forma de romper com a dependência tecnológica e
financeira imposta pelo agronegócio, garantindo que a riqueza gerada no campo
permaneça no território e beneficie quem de fato trabalha na terra.
Fonte:
Por Tabita Said, no Jornal da USP/Pagina do MST

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