Extrema
direita, violência e reação patriarcal no Equador de Noboa
O
governo de Daniel Noboa no Equador é um excelente exemplo dos movimentos
contemporâneos de extrema direita na América Latina. Incluí-lo nesta categoria
é incomum. Os processos de radicalização e mudanças qualitativas na direita
regional geralmente se referem a governos e figuras como Javier Milei na
Argentina, Jair Bolsonaro no Brasil, Nayib Bukele em El Salvador ou, mais
recentemente, José Antonio Kast no Chile. No entanto, Noboa é incluído na lista
não apenas pela centralidade da segurança em sua agenda ou pela ênfase no
militarismo, mas também pela maneira específica como articula o autoritarismo
político, a racionalidade empresarial do Estado e o conservadorismo moral.
Esses elementos combinados produziram uma clara e acelerada guinada brutalista
(nos termos de Achille Mbembe), que está intrinsecamente ligada às estruturas
narcopolíticas, com profundas consequências para o país e a região. O governo
equatoriano de Daniel Noboa exemplifica uma forma de reorganização do poder que
combina um estado de excepcionalismo permanente, um enfraquecimento dos
mecanismos democráticos, um deslocamento do conflito social para os níveis mais
baixos e um desdobramento necropolítico. Nesse contexto, o Equador tornou-se um
laboratório para a extrema direita regional, dada a maneira e a velocidade com
que essa reorganização se desenrolou. Além disso, a política de extrema direita
do Equador, que se refugiou na “guerra às drogas”, deve ser compreendida em
relação à guerra contra as mulheres e de — contra o — gênero. Somente dentro
dessa estrutura, acredito, é possível apreender o raciocínio político e moral
de Noboa e avançar rumo a uma compreensão mais abrangente da extrema direita.
A
radicalização em direção à extrema direita no Equador pode ser interpretada
como parte da crise do neoliberalismo enquanto modo de dominação política
historicamente baseado na coerção de mercado e na despolitização do antagonismo
social. Segundo esse argumento, onde a disciplina de mercado deixa de produzir
obediência e consenso, o Estado reaparece como mediador direto do conflito, não
para integrar demandas ou restaurar a hegemonia, mas para repolitizar
autoritariamente a luta de classes. No Equador, essa repolitização ocorre no
âmbito de uma “guerra às drogas” que, na prática, é uma guerra contra setores
sociais, territórios e corpos específicos. De modo geral, a abordagem do
governo Noboa combina duas perspectivas simultâneas. Por um lado, há a brutalidade
estatal, entendida como o uso explícito, espetacular e exemplar da violência —
militarização do território, intervenção em presídios e normalização do uso
letal da força. Por outro lado, há a radicalização da coerção silenciosa do
capital — no sentido desenvolvido por Søren Mau — que opera por meio da
precarização da vida, da dependência econômica, da retirada do Estado de
bem-estar social e da ausência de alternativas reais, forçando as pessoas a
aceitarem condições de existência cada vez mais violentas. Essa abordagem dual
— violência explícita e coerção silenciosa — permite compreender como a extrema
direita autoritária equatoriana esvaziou os mecanismos democráticos de seu
conteúdo sem suspender formalmente a democracia.
A
associação da extrema direita às “guerras de gênero” não é novidade. Pelo menos
desde 2013, movimentos feministas vêm alertando que grupos de extrema direita
regionais e globais travam guerras de — contra o — gênero, e que isso deve ser
compreendido como um conflito político estratégico por meio do qual reorganizam
o senso comum, canalizam o descontentamento social material em disputas morais
e neutralizam o antagonismo social, reforçando hierarquias e gerando apoio
afetivo a projetos autoritários. Nesse processo, formam-se alianças entre
atores políticos e religiosos neoconservadores e intelectuais orgânicos desses
campos. Cristina Vega argumenta que o Equador foi um dos primeiros laboratórios
para as guerras de gênero na América Latina e que, lá, as ofensivas antigênero
precederam a ascensão da extrema direita, em processos nos quais convergiram a
neoliberalização do Estado, a centralidade da família como um amortecedor
social, o conservadorismo religioso (católico e evangélico) e uma politização
seletiva da moralidade sexual e reprodutiva. Com a guinada à direita a partir
de 2017, e posteriormente à extrema direita, esse processo se agravou. Por
outro lado, os movimentos feministas têm refletido sobre como o capitalismo
trava uma guerra contra as mulheres — usando seus corpos como uma arena
privilegiada para a reinscrição do poder patriarcal em contextos de guerra
criminal e extrativismo armado — e contra a reprodução social. Esta última se
refere a um campo de guerra ampliado que abrange dívidas, violência estatal, a
precarização das economias informais e a privatização do trabalho de cuidado,
que atacam não apenas os corpos, mas também o tempo, o espaço e os afetos que
sustentam a vida. Temos também uma vasta literatura que examina a relação entre
a guerra às drogas e a criminalização das mulheres, e a guerra às drogas como
uma política de classe, raça e gênero.
No
Equador, a ascensão de Noboa ao poder e o estabelecimento da linguagem da
guerra e do ethos militar como política governamental sugeriram uma mudança no
cenário político, da “guerra de gênero” para a “guerra contra as mulheres’, que
engloba uma guerra travada de baixo para cima, visando setores empobrecidos e
jovens racializados. Essa mudança pode ser explicada pela forma como a
crueldade sangrenta da virada brutalista passou a permear tudo. O país se
tornou um imenso quartel, a violência atingiu níveis sem precedentes e o padrão
de aniquilação de corpos e territórios só piorou.
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Equador: extrema direita, guerra e escalada da violência
Nos
últimos cinco anos, a violência se intensificou drasticamente no Equador. Desde
2020, o número de homicídios aumentou exponencialmente e, embora tenha havido
uma ligeira queda em 2024, 2025 terminou como o ano mais violento da história
do país. Em 2023, tornou-se o país mais violento da região, posição que mantém
até hoje. Com o narcotráfico como principal causa, crimes relacionados, como
tráfico de armas, tráfico de hidrocarbonetos, lavagem de dinheiro e corrupção,
também se expandiram. Esse processo deve ser compreendido como parte de uma
mutação do capitalismo contemporâneo, que combina a erosão dos mecanismos
democráticos com a demonstração flagrante de crueldade. Quando Noboa venceu em
2023, após as eleições antecipadas convocadas devido à “dissolução cruzada”
decretada pelo então presidente Guillermo Lasso, que enfrentava um processo de
impeachment, uma guinada política à direita, iniciada em 2017, já havia
ocorrido. Em 2025, ele foi reeleito para um mandato completo até 2029. Sua
posição no espectro político da extrema direita não era clara desde o início.
Noboa não construiu inicialmente uma campanha explicitamente de extrema
direita, nem se definiu dentro desse campo político (sua coalizão, Ação
Democrática Nacional, se autodenominava centro-esquerda). Ele se projetou como
uma figura jovem, moderada e de mente aberta, transcendendo a polarização entre
correístas e anticorreístas que havia estruturado a política equatoriana por
quase duas décadas. A trajetória política de seu governo, no entanto, tem sido
bem diferente. Nas eleições de 2023, os principais partidos de direita apoiaram
Noboa no segundo turno. O presidente vem de uma das famílias mais poderosas do
país, com significativa influência econômica e política, o que serviu como
suporte estrutural para seu governo. Sua então vice-presidente, Verónica Abad —
com quem ele posteriormente teria um conflito aberto — era identificada como
ativista “pró-vida” e membra do Fórum Liberal Latino-Americano. Da mesma forma,
seus gabinetes iniciais e os indivíduos que ocuparam posições estratégicas
exibem um padrão consistente de laços empresariais e financeiros, replicado em
nomeações subsequentes. Internacionalmente, Noboa buscou um alinhamento
explícito com a extrema direita global, particularmente com o círculo de Donald
Trump.
Em
nível institucional, o governo de Noboa demonstrou claras características
autoritárias. Desde a invasão da embaixada mexicana em Quito em 2024 por forças
policiais e militares para capturar Jorge Glas, ex-vice-presidente de Rafael
Correa que estava exilado, até a pressão do Executivo sobre os órgãos
eleitorais para desqualificar candidatos considerados como ameaças à sua base
política, a abordagem tem sido consistente. Além disso, ele permaneceu no cargo
durante a campanha eleitoral, acumulando acusações de uso indevido de verbas
públicas que foram rejeitadas pelo Tribunal Contencioso Eleitoral. Ele se
envolveu em confrontos abertos com a Corte Constitucional e tentou
sistematicamente assediar e censurar a imprensa, além de cooptar veículos de
comunicação. Tudo isso assegurou a concentração do poder executivo e o
enfraquecimento dos mecanismos democráticos de controle e equilíbrio, uma
característica dos movimentos de extrema direita contemporâneos. O cerne do
projeto político de Noboa tem sido a agenda de segurança. Diante da escalada da
violência, sua abordagem tem sido de linha dura. O governo tem recorrido
sistematicamente a estados de emergência, transformando uma medida
extraordinária em condição permanente em diversas províncias. Essas medidas
autorizam incursões sem mandado judicial, restringem a circulação e limitam o
direito de reunião. O ponto de ruptura ocorreu em 9 de janeiro de 2024, quando,
após uma série de atos espetaculares de violência criminosa — incluindo a
tomada de uma emissora de televisão —, o Poder Executivo declarou a existência
de um “conflito armado não internacional”, classificando 22 grupos criminosos
como organizações terroristas , declaração que foi posteriormente ratificada e
prorrogada.
Essa
decisão consolidou um crescente alinhamento entre o poder político e militar,
relançando a histórica política de “guerra às drogas” da qual o Equador
participa desde a década de 1990. As consequências têm sido devastadoras:
massacres recorrentes em prisões — cinco somente em 2025, com pelo menos 82
mortos —, desaparecimentos forçados, tortura, execuções extrajudiciais e
violações sistemáticas dos direitos humanos, incluindo o caso emblemático de
quatro crianças de Las Malvinas (Guayaquil) que foram detidas, desaparecidas,
torturadas e assassinadas. Do ponto de vista da segurança, os resultados têm
sido modestos, como confirmam avaliações comparativas desta política na região.
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A guerra contra as mulheres e as pessoas racializadas: violência estrutural e
reprodução social em crise
A
radicalização autoritária do governo de Daniel Noboa teve efeitos materiais
claramente identificáveis sobre mulheres, meninas e pessoas racializadas.
Paralelamente ao aumento generalizado da violência, houve uma reconfiguração
específica dos padrões de dano, o que nos permite falar de uma guerra contra a
vida cotidiana e contra as formas e possibilidades de reprodução social. Essa
guerra opera não apenas por meio da repressão direta, mas também por meio de
uma combinação de militarização, abandono institucional e normalização da
violência, cujos impactos recaem de forma diferenciada sobre certos corpos e
territórios. Um dos indicadores mais alarmantes desse processo é o aumento
contínuo dos desaparecimentos de meninas e adolescentes, particularmente em províncias
costeiras e áreas afetadas pela expansão das economias criminosas e pela
intervenção militar. Esses desaparecimentos ocorrem em um contexto estrutural
marcado pela inação do Estado, pela precariedade da vida e pelo enfraquecimento
dos sistemas de assistência, o que expõe desproporcionalmente meninas e
mulheres jovens de setores empobrecidos e racializados.
Em
2025, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) no Equador adotou
medidas cautelares em resposta a um pedido de proteção para 26 pessoas
desaparecidas (incluindo seis crianças) que teriam sido detidas por membros das
Forças Armadas, seus familiares e seis mulheres que buscavam seus entes
queridos desaparecidos e que estavam sendo assediadas. Além disso, o padrão de
desaparecimentos é marcado por questões de gênero e afeta desproporcionalmente
as crianças. Desde 2002, houve um aumento drástico no desaparecimento de
crianças e adolescentes: 78 em 2022, 171 em 2023 e 322 em 2024. Setenta e um
por cento das crianças e adolescentes que permanecem desaparecidos são meninas,
pois grupos criminosos visam explorá-las sexualmente. Esse número e proporção
revelam que elas se tornaram alvos prioritários de uma crueldade extrema. Em paralelo, observam-se transformações
significativas nos padrões de (trans)feminicídios. A violência extrema contra
as mulheres já não se concentra principalmente na esfera doméstica, nem
responde unicamente a relações mediadas por laços afetivos. Cada vez mais, no
país, os feminicídios estão ligados a dinâmicas territoriais, economias
criminosas e contextos militarizados, o que transcende as categorias
tradicionais de análise e complexifica sua abordagem institucional. Essa
mutação afeta particularmente mulheres jovens, pobres e racializadas, cujas
mortes tendem a ser diluídas em narrativas amplas de “insegurança” ou
“criminalidade”, contribuindo para sua despolitização.
Em
2025, a Associação Latino-Americana para o Desenvolvimento Alternativo (ALDEA)
registrou um aumento drástico nos feminicídios (411), número que inclui 13
feminicídios de pessoas trans. A Associação Silueta X documentou 30
assassinatos de pessoas LGBTQ+, dos quais 65% ocorreram em situações
relacionadas ao sistema penal. Os territórios com as maiores taxas de
feminicídio coincidem com as províncias com as maiores taxas de homicídio e com
a presença de economias ilegais: Guayas, El Oro, Los Ríos e Manabí. Assim,
corpos feminizados, empobrecidos e racializados tornam-se parte das “zonas de
sacrifício”. Essa violência não ocorre “apesar” do crime organizado, mas sim
dentro e através das redes que sustentam a economia ilegal e o controle
territorial. A militarização do território, apresentada como resposta à crise
de segurança, não se mostrou um fator de proteção para as mulheres. Pelo
contrário, em bairros populares e áreas sob intervenção militar,
intensificam-se as práticas de controle, assédio e violência institucional,
afetando desproporcionalmente jovens racializados e mulheres responsáveis pelos
cuidados familiares. A presença armada desestabiliza a dinâmica comunitária,
restringe a circulação diária e cria um clima de medo constante que limita as
possibilidades de denúncia de abusos, organização e autoproteção coletiva. Essa
situação é agravada pelo enfraquecimento deliberado das instituições de gênero.
A desinstitucionalização do Ministério da Mulher e dos Direitos Humanos — por
meio de cortes orçamentários, perda de autonomia e sua subordinação à lógica da
segurança — reduziu substancialmente a capacidade do Estado de prevenir,
enfrentar e reparar essas formas de violência. A combinação de medidas de austeridade,
militarização e desmantelamento institucional produz uma sobrecarga extrema:
prestar assistência em contextos violentos, gerir o risco e o medo, apoiar os
desaparecidos e os enlutados, e garantir a sobrevivência econômica em condições
cada vez mais precárias. A guerra contra as mulheres e as pessoas racializadas,
portanto, é uma condição estrutural da engrenagem autoritária. Ao transferir os
custos sociais da crise para esses grupos, o Estado consegue manter uma ordem
baseada na força sem garantir as condições mínimas de vida. A violência torna-se
banal, persistente e controlada, enquanto as capacidades coletivas de
resistência são corroídas. Mas a guerra contra as mulheres, para se sustentar
politicamente, requer estruturas simbólicas que legitimem o abandono,
transfiram a responsabilidade e neutralizem a indignação social.
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A guerra contra o gênero: guerras culturais, metapolítica e mecanismos de
controle no Equador
As
análises feministas do neoliberalismo demonstraram que a retirada do Estado do
âmbito da reprodução social se baseia em um projeto conservador que considera a
família, o gênero e a moralidade como mecanismos centrais de governança. Como
apontou Melinda Cooper, o neoliberalismo não desmantela a família, mas a
reativa como infraestrutura fundamental para absorver os custos de adaptação,
privatizar o cuidado e disciplinar as subjetividades nas áreas onde o Estado se
retira. Portanto, argumenta-se que a tradicionalização das relações de gênero e
da família tem funcionado como uma forma de gerenciar o dano social,
transferindo a responsabilidade pela crise para os lares e, dentro deles, para
as mulheres. Wendy Brown enfatiza que a moralidade arraigada na família
heteropatriarcal é parte vital da ordem social e unidade econômica essencial: a
família tradicional funciona como estabilizadora e controladora social. Isabela
Kalil ofereceu uma análise convergente para o Brasil. Segundo Alabao, a
centralidade da família tradicional transcende os diferentes setores — mais ou
menos radicais — da direita, que convergem na insistência em políticas
centradas na família e fazem uso moralizante da instituição familiar em seus
programas políticos. Contudo, o caso equatoriano também revela a trajetória
inversa: quando esse modo de dominação moral entra em crise — quando a família
não consegue mais absorver a violência, quando a precariedade transborda as
estruturas simbólicas que a legitimam — o conflito ressurge como uma repolitização
autoritária, relançando a violência material contra mulheres e corpos
feminizados. Nesse sentido, a guerra de gênero não apenas acompanha a guerra
contra as mulheres; ela também aponta para seus limites e prepara o terreno
para sua intensificação. Dizer que a guerra contra as mulheres se articula com
uma guerra de gênero não é simplesmente adicionar um “ruído cultural” paralelo
à crise de segurança. A guerra de gênero segue funcionando como uma tecnologia
política para reorganizar o senso comum, produzir legitimidade conservadora e
deslocar o conflito social para o âmbito moral. É uma estratégia metapolítica
que visa contestar as estruturas culturais a partir das quais a desigualdade e
a democracia são interpretadas. O governo de Daniel Noboa continua afirmando
essa linha, assim como outras forças políticas de extrema direita.
Primeiramente,
durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2025, o presidente
assumiu compromissos explícitos contra a chamada “ideologia de gênero” ao
assinar um acordo público com a organização Sociedade e Família, que reúne
representantes das igrejas Católica, Ortodoxa e Evangélica, além de líderes
evangélicos indígenas. O acordo, também assinado pelo candidato do partido de
esquerda Revolução Cidadã, prometia impedir a presença da “ideologia de gênero”
em materiais educativos e instituições estatais, e garantir o direito dos pais
de educarem seus filhos de acordo com sua fé e convicções. Comprometia-se ainda
a “defender a vida desde a concepção até a morte natural” e, nesse sentido, a
não aprovar “nenhuma reforma que legalize ou amplie o aborto ou a eutanásia”.
Esse compromisso foi reiterado em diversos momentos políticos e amplificado
pela mídia nacional. Esses tipos de promessas perpetuam a agenda de afirmação
do Estado como garantidor de uma ordem moral e produzem uma ideia de ameaça
interna associada às agendas feministas e da diversidade. Além disso,
observa-se uma convergência entre essa agenda e atores contrários aos direitos
humanos que possuem capacidade de mobilização e influência. O debate público em
torno do “Compromisso com as Crianças e a Vida” e a identificação de redes
organizadas por trás dessas iniciativas demonstram que a guerra contra o gênero
não é meramente uma questão de opinião presidencial, mas sim estruturada por
meio de alianças políticas e sociais que buscam estabelecer limites normativos
à igualdade de gênero e aos direitos sexuais e reprodutivos. Em segundo lugar,
a ofensiva anti-gênero está intrinsecamente ligada a um repertório religioso e
tradicionalista cuidadosamente encenado. A participação de Noboa em atos religiosos
e celebrações locais com mensagens altamente moralistas — apresentadas como uma
defesa das tradições e valores — funciona como uma forma de identificação
simbólica com setores conservadores e como um sinal de alinhamento com um
projeto cultural mais amplo.
Por
fim, a guerra cultural tem sido alimentada por controvérsias que atuam como
“eventos desencadeadores” para moralizar a esfera pública. A controvérsia
desencadeada em Quito pela apresentação de um espetáculo drag em uma capela
dessacralizada do antigo Hospital San Juan de Dios, agora Museu da Cidade,
exemplifica isso. O evento gerou um debate acalorado entre defensores dos
direitos LGBTQ+, setores conservadores da Igreja Católica e instituições
municipais, ilustrando como gênero e não conformidade de gênero se tornam
terreno fértil para gerar indignação pública, construir “inimigos culturais” e
exigir respostas punitivas ou restritivas. Esses tipos de episódios fazem parte
de uma dinâmica mais ampla de ativismo midiático, polarização e teorias da
conspiração que Alabao identifica como características das guerras de gênero. O
crucial, no entanto, é como esses eventos funcionam politicamente. A ofensiva
antigênero opera como um dispositivo de tradução. Isso significa que ela
condensa males materiais (precariedade, insegurança, decadência institucional)
em conflitos morais e transfere a responsabilidade do Estado para os indivíduos
e as famílias. Ao estabelecer a ideia de que o problema social é cultural —
“valores”, “ideologia”, “ameaças à infância” — neutraliza-se a possibilidade de
identificar a precariedade e os danos estruturais como efeitos de uma forma
específica de governo.
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Moralização em tempos de crise e relançamento autoritário da violência
Analisar
o Equador sob o governo de Daniel Noboa permite-nos compreender como diferentes
dimensões do autoritarismo de extrema direita contemporâneo estão atualmente
interligadas. O seu caráter não se explica apenas pela sua orientação
econômica, pelo seu perfil empresarial ou por sua ênfase na segurança, mas sim
pela forma específica como articula a violência material e a restauração moral
como estratégias de governança complementares. A guerra contra as mulheres —
manifestada no aumento dos desaparecimentos, na transformação dos padrões de
feminicídio, na militarização de bairros operários e no desmantelamento das
políticas de igualdade — constitui uma dimensão estrutural do regime atual.
Essa guerra é uma forma de gerir a crise da reprodução social, transferindo
seus custos para corpos feminizados e racializados. Ao mesmo tempo, a guerra
contra o gênero opera como uma ofensiva metapolítica que remodela o senso
comum, produz legitimidade conservadora e neutraliza o conflito social. Por
meio de narrativas sobre família, infância e moralidade, essa guerra cultural
busca despolitizar a violência estrutural e privatizar seus efeitos,
apresentando a ordem moral como a solução onde o Estado se retira. Contudo, o
caso equatoriano demonstra que esse modo de dominação moral neoliberal não é
ilimitado. Quando a violência ultrapassa a capacidade da família de contê-la,
quando a precariedade não pode mais ser absorvida pelo trabalho invisível das
mulheres e quando a moralização deixa de produzir obediência, o conflito ressurge,
alimentado pela violência direta, pelo controle territorial e pela negligência
institucional. Dessa perspectiva, a guerra contra as mulheres e a guerra contra
o gênero não devem ser vistas como alternativas ou etapas sucessivas, mas como
dimensões coexistentes e mutuamente condicionantes de um mesmo projeto. Assim
como a radicalização da violência estatal coexiste com formas estruturais de
violência silenciosa, a ofensiva moral coexiste com a exposição diferenciada de
certos corpos ao risco, à morte e à crueldade. Quando a primeira já não é
suficiente para gerir a crise, a segunda se intensifica. Essa coexistência —
instável, contraditória e violenta — permite-nos compreender a natureza do
autoritarismo contemporâneo no Equador.
Fonte:
Por Ailynn Torres Santana - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

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