sábado, 25 de julho de 2026

Extrema direita, violência e reação patriarcal no Equador de Noboa

O governo de Daniel Noboa no Equador é um excelente exemplo dos movimentos contemporâneos de extrema direita na América Latina. Incluí-lo nesta categoria é incomum. Os processos de radicalização e mudanças qualitativas na direita regional geralmente se referem a governos e figuras como Javier Milei na Argentina, Jair Bolsonaro no Brasil, Nayib Bukele em El Salvador ou, mais recentemente, José Antonio Kast no Chile. No entanto, Noboa é incluído na lista não apenas pela centralidade da segurança em sua agenda ou pela ênfase no militarismo, mas também pela maneira específica como articula o autoritarismo político, a racionalidade empresarial do Estado e o conservadorismo moral. Esses elementos combinados produziram uma clara e acelerada guinada brutalista (nos termos de Achille Mbembe), que está intrinsecamente ligada às estruturas narcopolíticas, com profundas consequências para o país e a região. O governo equatoriano de Daniel Noboa exemplifica uma forma de reorganização do poder que combina um estado de excepcionalismo permanente, um enfraquecimento dos mecanismos democráticos, um deslocamento do conflito social para os níveis mais baixos e um desdobramento necropolítico. Nesse contexto, o Equador tornou-se um laboratório para a extrema direita regional, dada a maneira e a velocidade com que essa reorganização se desenrolou. Além disso, a política de extrema direita do Equador, que se refugiou na “guerra às drogas”, deve ser compreendida em relação à guerra contra as mulheres e de — contra o — gênero. Somente dentro dessa estrutura, acredito, é possível apreender o raciocínio político e moral de Noboa e avançar rumo a uma compreensão mais abrangente da extrema direita.

A radicalização em direção à extrema direita no Equador pode ser interpretada como parte da crise do neoliberalismo enquanto modo de dominação política historicamente baseado na coerção de mercado e na despolitização do antagonismo social. Segundo esse argumento, onde a disciplina de mercado deixa de produzir obediência e consenso, o Estado reaparece como mediador direto do conflito, não para integrar demandas ou restaurar a hegemonia, mas para repolitizar autoritariamente a luta de classes. No Equador, essa repolitização ocorre no âmbito de uma “guerra às drogas” que, na prática, é uma guerra contra setores sociais, territórios e corpos específicos. De modo geral, a abordagem do governo Noboa combina duas perspectivas simultâneas. Por um lado, há a brutalidade estatal, entendida como o uso explícito, espetacular e exemplar da violência — militarização do território, intervenção em presídios e normalização do uso letal da força. Por outro lado, há a radicalização da coerção silenciosa do capital — no sentido desenvolvido por Søren Mau — que opera por meio da precarização da vida, da dependência econômica, da retirada do Estado de bem-estar social e da ausência de alternativas reais, forçando as pessoas a aceitarem condições de existência cada vez mais violentas. Essa abordagem dual — violência explícita e coerção silenciosa — permite compreender como a extrema direita autoritária equatoriana esvaziou os mecanismos democráticos de seu conteúdo sem suspender formalmente a democracia.

A associação da extrema direita às “guerras de gênero” não é novidade. Pelo menos desde 2013, movimentos feministas vêm alertando que grupos de extrema direita regionais e globais travam guerras de — contra o — gênero, e que isso deve ser compreendido como um conflito político estratégico por meio do qual reorganizam o senso comum, canalizam o descontentamento social material em disputas morais e neutralizam o antagonismo social, reforçando hierarquias e gerando apoio afetivo a projetos autoritários. Nesse processo, formam-se alianças entre atores políticos e religiosos neoconservadores e intelectuais orgânicos desses campos. Cristina Vega argumenta que o Equador foi um dos primeiros laboratórios para as guerras de gênero na América Latina e que, lá, as ofensivas antigênero precederam a ascensão da extrema direita, em processos nos quais convergiram a neoliberalização do Estado, a centralidade da família como um amortecedor social, o conservadorismo religioso (católico e evangélico) e uma politização seletiva da moralidade sexual e reprodutiva. Com a guinada à direita a partir de 2017, e posteriormente à extrema direita, esse processo se agravou. Por outro lado, os movimentos feministas têm refletido sobre como o capitalismo trava uma guerra contra as mulheres — usando seus corpos como uma arena privilegiada para a reinscrição do poder patriarcal em contextos de guerra criminal e extrativismo armado — e contra a reprodução social. Esta última se refere a um campo de guerra ampliado que abrange dívidas, violência estatal, a precarização das economias informais e a privatização do trabalho de cuidado, que atacam não apenas os corpos, mas também o tempo, o espaço e os afetos que sustentam a vida. Temos também uma vasta literatura que examina a relação entre a guerra às drogas e a criminalização das mulheres, e a guerra às drogas como uma política de classe, raça e gênero.

No Equador, a ascensão de Noboa ao poder e o estabelecimento da linguagem da guerra e do ethos militar como política governamental sugeriram uma mudança no cenário político, da “guerra de gênero” para a “guerra contra as mulheres’, que engloba uma guerra travada de baixo para cima, visando setores empobrecidos e jovens racializados. Essa mudança pode ser explicada pela forma como a crueldade sangrenta da virada brutalista passou a permear tudo. O país se tornou um imenso quartel, a violência atingiu níveis sem precedentes e o padrão de aniquilação de corpos e territórios só piorou.

<><> Equador: extrema direita, guerra e escalada da violência

Nos últimos cinco anos, a violência se intensificou drasticamente no Equador. Desde 2020, o número de homicídios aumentou exponencialmente e, embora tenha havido uma ligeira queda em 2024, 2025 terminou como o ano mais violento da história do país. Em 2023, tornou-se o país mais violento da região, posição que mantém até hoje. Com o narcotráfico como principal causa, crimes relacionados, como tráfico de armas, tráfico de hidrocarbonetos, lavagem de dinheiro e corrupção, também se expandiram. Esse processo deve ser compreendido como parte de uma mutação do capitalismo contemporâneo, que combina a erosão dos mecanismos democráticos com a demonstração flagrante de crueldade. Quando Noboa venceu em 2023, após as eleições antecipadas convocadas devido à “dissolução cruzada” decretada pelo então presidente Guillermo Lasso, que enfrentava um processo de impeachment, uma guinada política à direita, iniciada em 2017, já havia ocorrido. Em 2025, ele foi reeleito para um mandato completo até 2029. Sua posição no espectro político da extrema direita não era clara desde o início. Noboa não construiu inicialmente uma campanha explicitamente de extrema direita, nem se definiu dentro desse campo político (sua coalizão, Ação Democrática Nacional, se autodenominava centro-esquerda). Ele se projetou como uma figura jovem, moderada e de mente aberta, transcendendo a polarização entre correístas e anticorreístas que havia estruturado a política equatoriana por quase duas décadas. A trajetória política de seu governo, no entanto, tem sido bem diferente. Nas eleições de 2023, os principais partidos de direita apoiaram Noboa no segundo turno. O presidente vem de uma das famílias mais poderosas do país, com significativa influência econômica e política, o que serviu como suporte estrutural para seu governo. Sua então vice-presidente, Verónica Abad — com quem ele posteriormente teria um conflito aberto — era identificada como ativista “pró-vida” e membra do Fórum Liberal Latino-Americano. Da mesma forma, seus gabinetes iniciais e os indivíduos que ocuparam posições estratégicas exibem um padrão consistente de laços empresariais e financeiros, replicado em nomeações subsequentes. Internacionalmente, Noboa buscou um alinhamento explícito com a extrema direita global, particularmente com o círculo de Donald Trump.

Em nível institucional, o governo de Noboa demonstrou claras características autoritárias. Desde a invasão da embaixada mexicana em Quito em 2024 por forças policiais e militares para capturar Jorge Glas, ex-vice-presidente de Rafael Correa que estava exilado, até a pressão do Executivo sobre os órgãos eleitorais para desqualificar candidatos considerados como ameaças à sua base política, a abordagem tem sido consistente. Além disso, ele permaneceu no cargo durante a campanha eleitoral, acumulando acusações de uso indevido de verbas públicas que foram rejeitadas pelo Tribunal Contencioso Eleitoral. Ele se envolveu em confrontos abertos com a Corte Constitucional e tentou sistematicamente assediar e censurar a imprensa, além de cooptar veículos de comunicação. Tudo isso assegurou a concentração do poder executivo e o enfraquecimento dos mecanismos democráticos de controle e equilíbrio, uma característica dos movimentos de extrema direita contemporâneos. O cerne do projeto político de Noboa tem sido a agenda de segurança. Diante da escalada da violência, sua abordagem tem sido de linha dura. O governo tem recorrido sistematicamente a estados de emergência, transformando uma medida extraordinária em condição permanente em diversas províncias. Essas medidas autorizam incursões sem mandado judicial, restringem a circulação e limitam o direito de reunião. O ponto de ruptura ocorreu em 9 de janeiro de 2024, quando, após uma série de atos espetaculares de violência criminosa — incluindo a tomada de uma emissora de televisão —, o Poder Executivo declarou a existência de um “conflito armado não internacional”, classificando 22 grupos criminosos como organizações terroristas , declaração que foi posteriormente ratificada e prorrogada.

Essa decisão consolidou um crescente alinhamento entre o poder político e militar, relançando a histórica política de “guerra às drogas” da qual o Equador participa desde a década de 1990. As consequências têm sido devastadoras: massacres recorrentes em prisões — cinco somente em 2025, com pelo menos 82 mortos —, desaparecimentos forçados, tortura, execuções extrajudiciais e violações sistemáticas dos direitos humanos, incluindo o caso emblemático de quatro crianças de Las Malvinas (Guayaquil) que foram detidas, desaparecidas, torturadas e assassinadas. Do ponto de vista da segurança, os resultados têm sido modestos, como confirmam avaliações comparativas desta política na região.

<><> A guerra contra as mulheres e as pessoas racializadas: violência estrutural e reprodução social em crise

A radicalização autoritária do governo de Daniel Noboa teve efeitos materiais claramente identificáveis sobre mulheres, meninas e pessoas racializadas. Paralelamente ao aumento generalizado da violência, houve uma reconfiguração específica dos padrões de dano, o que nos permite falar de uma guerra contra a vida cotidiana e contra as formas e possibilidades de reprodução social. Essa guerra opera não apenas por meio da repressão direta, mas também por meio de uma combinação de militarização, abandono institucional e normalização da violência, cujos impactos recaem de forma diferenciada sobre certos corpos e territórios. Um dos indicadores mais alarmantes desse processo é o aumento contínuo dos desaparecimentos de meninas e adolescentes, particularmente em províncias costeiras e áreas afetadas pela expansão das economias criminosas e pela intervenção militar. Esses desaparecimentos ocorrem em um contexto estrutural marcado pela inação do Estado, pela precariedade da vida e pelo enfraquecimento dos sistemas de assistência, o que expõe desproporcionalmente meninas e mulheres jovens de setores empobrecidos e racializados.

Em 2025, a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) no Equador adotou medidas cautelares em resposta a um pedido de proteção para 26 pessoas desaparecidas (incluindo seis crianças) que teriam sido detidas por membros das Forças Armadas, seus familiares e seis mulheres que buscavam seus entes queridos desaparecidos e que estavam sendo assediadas. Além disso, o padrão de desaparecimentos é marcado por questões de gênero e afeta desproporcionalmente as crianças. Desde 2002, houve um aumento drástico no desaparecimento de crianças e adolescentes: 78 em 2022, 171 em 2023 e 322 em 2024. Setenta e um por cento das crianças e adolescentes que permanecem desaparecidos são meninas, pois grupos criminosos visam explorá-las sexualmente. Esse número e proporção revelam que elas se tornaram alvos prioritários de uma crueldade extrema.  Em paralelo, observam-se transformações significativas nos padrões de (trans)feminicídios. A violência extrema contra as mulheres já não se concentra principalmente na esfera doméstica, nem responde unicamente a relações mediadas por laços afetivos. Cada vez mais, no país, os feminicídios estão ligados a dinâmicas territoriais, economias criminosas e contextos militarizados, o que transcende as categorias tradicionais de análise e complexifica sua abordagem institucional. Essa mutação afeta particularmente mulheres jovens, pobres e racializadas, cujas mortes tendem a ser diluídas em narrativas amplas de “insegurança” ou “criminalidade”, contribuindo para sua despolitização.

Em 2025, a Associação Latino-Americana para o Desenvolvimento Alternativo (ALDEA) registrou um aumento drástico nos feminicídios (411), número que inclui 13 feminicídios de pessoas trans. A Associação Silueta X documentou 30 assassinatos de pessoas LGBTQ+, dos quais 65% ocorreram em situações relacionadas ao sistema penal. Os territórios com as maiores taxas de feminicídio coincidem com as províncias com as maiores taxas de homicídio e com a presença de economias ilegais: Guayas, El Oro, Los Ríos e Manabí. Assim, corpos feminizados, empobrecidos e racializados tornam-se parte das “zonas de sacrifício”. Essa violência não ocorre “apesar” do crime organizado, mas sim dentro e através das redes que sustentam a economia ilegal e o controle territorial. A militarização do território, apresentada como resposta à crise de segurança, não se mostrou um fator de proteção para as mulheres. Pelo contrário, em bairros populares e áreas sob intervenção militar, intensificam-se as práticas de controle, assédio e violência institucional, afetando desproporcionalmente jovens racializados e mulheres responsáveis pelos cuidados familiares. A presença armada desestabiliza a dinâmica comunitária, restringe a circulação diária e cria um clima de medo constante que limita as possibilidades de denúncia de abusos, organização e autoproteção coletiva. Essa situação é agravada pelo enfraquecimento deliberado das instituições de gênero. A desinstitucionalização do Ministério da Mulher e dos Direitos Humanos — por meio de cortes orçamentários, perda de autonomia e sua subordinação à lógica da segurança — reduziu substancialmente a capacidade do Estado de prevenir, enfrentar e reparar essas formas de violência.  A combinação de medidas de austeridade, militarização e desmantelamento institucional produz uma sobrecarga extrema: prestar assistência em contextos violentos, gerir o risco e o medo, apoiar os desaparecidos e os enlutados, e garantir a sobrevivência econômica em condições cada vez mais precárias. A guerra contra as mulheres e as pessoas racializadas, portanto, é uma condição estrutural da engrenagem autoritária. Ao transferir os custos sociais da crise para esses grupos, o Estado consegue manter uma ordem baseada na força sem garantir as condições mínimas de vida. A violência torna-se banal, persistente e controlada, enquanto as capacidades coletivas de resistência são corroídas. Mas a guerra contra as mulheres, para se sustentar politicamente, requer estruturas simbólicas que legitimem o abandono, transfiram a responsabilidade e neutralizem a indignação social.

<><> A guerra contra o gênero: guerras culturais, metapolítica e mecanismos de controle no Equador

As análises feministas do neoliberalismo demonstraram que a retirada do Estado do âmbito da reprodução social se baseia em um projeto conservador que considera a família, o gênero e a moralidade como mecanismos centrais de governança. Como apontou Melinda Cooper, o neoliberalismo não desmantela a família, mas a reativa como infraestrutura fundamental para absorver os custos de adaptação, privatizar o cuidado e disciplinar as subjetividades nas áreas onde o Estado se retira. Portanto, argumenta-se que a tradicionalização das relações de gênero e da família tem funcionado como uma forma de gerenciar o dano social, transferindo a responsabilidade pela crise para os lares e, dentro deles, para as mulheres. Wendy Brown enfatiza que a moralidade arraigada na família heteropatriarcal é parte vital da ordem social e unidade econômica essencial: a família tradicional funciona como estabilizadora e controladora social. Isabela Kalil ofereceu uma análise convergente para o Brasil. Segundo Alabao, a centralidade da família tradicional transcende os diferentes setores — mais ou menos radicais — da direita, que convergem na insistência em políticas centradas na família e fazem uso moralizante da instituição familiar em seus programas políticos. Contudo, o caso equatoriano também revela a trajetória inversa: quando esse modo de dominação moral entra em crise — quando a família não consegue mais absorver a violência, quando a precariedade transborda as estruturas simbólicas que a legitimam — o conflito ressurge como uma repolitização autoritária, relançando a violência material contra mulheres e corpos feminizados. Nesse sentido, a guerra de gênero não apenas acompanha a guerra contra as mulheres; ela também aponta para seus limites e prepara o terreno para sua intensificação. Dizer que a guerra contra as mulheres se articula com uma guerra de gênero não é simplesmente adicionar um “ruído cultural” paralelo à crise de segurança. A guerra de gênero segue funcionando como uma tecnologia política para reorganizar o senso comum, produzir legitimidade conservadora e deslocar o conflito social para o âmbito moral. É uma estratégia metapolítica que visa contestar as estruturas culturais a partir das quais a desigualdade e a democracia são interpretadas. O governo de Daniel Noboa continua afirmando essa linha, assim como outras forças políticas de extrema direita.

Primeiramente, durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2025, o presidente assumiu compromissos explícitos contra a chamada “ideologia de gênero” ao assinar um acordo público com a organização Sociedade e Família, que reúne representantes das igrejas Católica, Ortodoxa e Evangélica, além de líderes evangélicos indígenas. O acordo, também assinado pelo candidato do partido de esquerda Revolução Cidadã, prometia impedir a presença da “ideologia de gênero” em materiais educativos e instituições estatais, e garantir o direito dos pais de educarem seus filhos de acordo com sua fé e convicções. Comprometia-se ainda a “defender a vida desde a concepção até a morte natural” e, nesse sentido, a não aprovar “nenhuma reforma que legalize ou amplie o aborto ou a eutanásia”. Esse compromisso foi reiterado em diversos momentos políticos e amplificado pela mídia nacional. Esses tipos de promessas perpetuam a agenda de afirmação do Estado como garantidor de uma ordem moral e produzem uma ideia de ameaça interna associada às agendas feministas e da diversidade. Além disso, observa-se uma convergência entre essa agenda e atores contrários aos direitos humanos que possuem capacidade de mobilização e influência. O debate público em torno do “Compromisso com as Crianças e a Vida” e a identificação de redes organizadas por trás dessas iniciativas demonstram que a guerra contra o gênero não é meramente uma questão de opinião presidencial, mas sim estruturada por meio de alianças políticas e sociais que buscam estabelecer limites normativos à igualdade de gênero e aos direitos sexuais e reprodutivos. Em segundo lugar, a ofensiva anti-gênero está intrinsecamente ligada a um repertório religioso e tradicionalista cuidadosamente encenado. A participação de Noboa em atos religiosos e celebrações locais com mensagens altamente moralistas — apresentadas como uma defesa das tradições e valores — funciona como uma forma de identificação simbólica com setores conservadores e como um sinal de alinhamento com um projeto cultural mais amplo.

Por fim, a guerra cultural tem sido alimentada por controvérsias que atuam como “eventos desencadeadores” para moralizar a esfera pública. A controvérsia desencadeada em Quito pela apresentação de um espetáculo drag em uma capela dessacralizada do antigo Hospital San Juan de Dios, agora Museu da Cidade, exemplifica isso. O evento gerou um debate acalorado entre defensores dos direitos LGBTQ+, setores conservadores da Igreja Católica e instituições municipais, ilustrando como gênero e não conformidade de gênero se tornam terreno fértil para gerar indignação pública, construir “inimigos culturais” e exigir respostas punitivas ou restritivas. Esses tipos de episódios fazem parte de uma dinâmica mais ampla de ativismo midiático, polarização e teorias da conspiração que Alabao identifica como características das guerras de gênero. O crucial, no entanto, é como esses eventos funcionam politicamente. A ofensiva antigênero opera como um dispositivo de tradução. Isso significa que ela condensa males materiais (precariedade, insegurança, decadência institucional) em conflitos morais e transfere a responsabilidade do Estado para os indivíduos e as famílias. Ao estabelecer a ideia de que o problema social é cultural — “valores”, “ideologia”, “ameaças à infância” — neutraliza-se a possibilidade de identificar a precariedade e os danos estruturais como efeitos de uma forma específica de governo.

<><> Moralização em tempos de crise e relançamento autoritário da violência

Analisar o Equador sob o governo de Daniel Noboa permite-nos compreender como diferentes dimensões do autoritarismo de extrema direita contemporâneo estão atualmente interligadas. O seu caráter não se explica apenas pela sua orientação econômica, pelo seu perfil empresarial ou por sua ênfase na segurança, mas sim pela forma específica como articula a violência material e a restauração moral como estratégias de governança complementares. A guerra contra as mulheres — manifestada no aumento dos desaparecimentos, na transformação dos padrões de feminicídio, na militarização de bairros operários e no desmantelamento das políticas de igualdade — constitui uma dimensão estrutural do regime atual. Essa guerra é uma forma de gerir a crise da reprodução social, transferindo seus custos para corpos feminizados e racializados. Ao mesmo tempo, a guerra contra o gênero opera como uma ofensiva metapolítica que remodela o senso comum, produz legitimidade conservadora e neutraliza o conflito social. Por meio de narrativas sobre família, infância e moralidade, essa guerra cultural busca despolitizar a violência estrutural e privatizar seus efeitos, apresentando a ordem moral como a solução onde o Estado se retira. Contudo, o caso equatoriano demonstra que esse modo de dominação moral neoliberal não é ilimitado. Quando a violência ultrapassa a capacidade da família de contê-la, quando a precariedade não pode mais ser absorvida pelo trabalho invisível das mulheres e quando a moralização deixa de produzir obediência, o conflito ressurge, alimentado pela violência direta, pelo controle territorial e pela negligência institucional. Dessa perspectiva, a guerra contra as mulheres e a guerra contra o gênero não devem ser vistas como alternativas ou etapas sucessivas, mas como dimensões coexistentes e mutuamente condicionantes de um mesmo projeto. Assim como a radicalização da violência estatal coexiste com formas estruturais de violência silenciosa, a ofensiva moral coexiste com a exposição diferenciada de certos corpos ao risco, à morte e à crueldade. Quando a primeira já não é suficiente para gerir a crise, a segunda se intensifica. Essa coexistência — instável, contraditória e violenta — permite-nos compreender a natureza do autoritarismo contemporâneo no Equador.

 

Fonte: Por Ailynn Torres Santana - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil

 

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