Ambipar:
as notas fiscais de Flávio Bolsonaro e o elo com Vorcaro e Tarcísio na
privatização da Emae e Sabesp
As três
notas fiscais – duas delas canceladas – no valor de R$ 1,5 milhão emitidas pelo
escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro às empresas Copenhagen Consultoria
e Assessoria S.A. e a Contábil Correa Contabilidade & Auditoria LTDA, do
contador Rogério Lourenço Novo, expõe um elo que entrou na mira do Ministério
Público de São Paulo e liga o filho “01” de Jair Bolsonaro a um suposto esquema
conduzido pelo grupo ligado a Daniel Vorcaro nos processos de privatização da
Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp, e da Empresa
Metropolitana de Águas e Energia S.A., a Emae, conduzidas pelo governador
Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) entre abril e julho de 2024.
Após a
publicação desta reportagem, a Sabesp enviou nota na qual contestou as
informações e acusações apresentadas na matéria. A íntegra do posicionamento da
companhia está publicada ao final do texto.
Segundo
informações tornadas públicas nesta quinta-feira (23) pelo site Metrópoles, o
escritório Flávio Bolsonaro Sociedade Individual de Advocacia, que tem o
senador como único sócio, emitiu duas notas fiscais de R$ 500 mil para a
Copenhagen em 7 de abril de 2025. Uma das notas foi cancelada no mesmo dia. A
outra foi cancelada em 9 de abril.
Naquela
mesma data, o escritório emitiu uma terceira nota de R$ 500 mil, desta vez para
a Contábil Correa. Não há registro de que esse documento tenha sido cancelado.
Flávio alega que as notas seriam por serviços por meio de uma relação
“completamente legal e privada”.
No
entanto, uma informação sobre o único dono das duas empresas, Rogério Lourenço
Novo, coloca o caso no centro das investigações sobre um novo escândalo que
liga Flávio Bolsonaro ao escândalo do Master com privatização da Sabesp e Emae
por Tarcísio de Freitas.
A
Copenhagen foi criada em 1º de novembro de 2024, poucos meses antes da emissão
das notas pelo escritório de Flávio Bolsonaro – em 09/04/2025 -, com capital
social de apenas R$ 40 e funciona no mesmo endereço da Contábil Correa, em São
Caetano do Sul, na Grande São Paulo.
Apesar
dessa estrutura reduzida, a Copenhagen recebeu aproximadamente R$ 58 milhões do
Banco Master, segundo apurações da Folha de S.Paulo e do Metrópoles. O valor
coloca a companhia entre as dez empresas que mais receberam recursos da
instituição financeira.
A
empresa também aparece relacionada ao Fundo Estônia, administrado pela Trustee
DTVM, gestora apontada nas investigações como custodiante de ativos ligados a
Daniel Vorcaro. O fundo seria controlado por Tercio Borlenghi Junior,
empresário investigado ao lado de Vorcaro por suspeitas de manipulação de
mercado.
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Atores da privatização e cargos na Ambipar
Único
dono da Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A. e da Contábil Correa
Contabilidade & Auditoria LTDA, a quem as notas emitidas por Flávio
Bolsonaro foram direcionadas, o contador Rogério Lourenço Novo é membro efetivo
do Conselho Fiscal da Ambipar, empresa que está no centro do escândalo das
privatizações da Emae e da Sabesp, por Tarcísio Gomes de Freitas, em São Paulo.
A
Ambipar ainda tem Tercio Borlenghi Junior, do Fundo Estônia, como um dos
principais conselheiros da Administração, colocado ao lado da presidenta,
Alessandra Bessa Alves de Melo.
Borlenghini
foi eleito para o Conselho Fiscal em 30 de abril de 2025, com mandato de dois
anos. Já Lourenço Novo foi alçado ao conselho fiscal em 30 de março deste ano,
com mandato de 1 ano.
Levantamento
realizado pela Fórum mostra que Lourenço Novo consta como dono ou sócio de ao
menos 10 empresas registradas na Receita Federal desde 1999. A Contábil Correa
Contabilidade & Auditoria Ltda, que teria recebido R$ 500 mil de Flávio
Bolsonaro, foi aberta em 31 de julho de 2015.
Já a
Copenhagen e Assessoria e Consultoria, uma sociedade anônima fechada, foi
criada em 1 de novembro de 2024 e tem como e-mail de contato um nome com
domínio @trusteedtvm.com.br, da Trustee DTVM, administradora da rede de fundos,
alvo da representação feita ao Ministério Público de São Paulo sobre a conexão
entre Banco Master e as privatizações de Tarcísio.
Em
despacho para providências preliminares sobre a ação, a promotora Cíntia
Marangoni pede à Secretaria de Parcerias e Investimentos do Estado de São Paulo
– órgão privatista do governo Tarcísio – informações sobre o contrato e cita
tanto a Ambipar, quanto à Truste DTVM.
“Expeça-se
ofício à Secretaria de Parcerias e Investimentos do Estado de São Paulo, com
cópia integral do presente, para que, no prazo de 30 dias, preste informações
circunstanciadas sobre os fatos narrados na notícia de fato, notadamente quanto
ao procedimento administrativo relativo à privatização da EMAE, esclarecendo
se, antes da homologação do leilão e da formalização da alienação da EMAE, teve
conhecimento de informações relativas à AMBIPAR, ao FUNDO PHOENIX, ao BANCO
MASTER, à REAG, à TRUSTEE DTVM ou a outros agentes financeiros, bem como
esclarecer as providências adotadas para verificar a capacidade
econômico-financeira, a origem dos recursos e a idoneidade da estrutura
empregada na aquisição”, diz o ofício, revelado pela Fórum na terça-feira (21).
Segundo
a denúncia, feita pelo deputado Antônio Donato (PT-SP), líder do PT na
Assembleia Legislativa de São Paulo Paulo (Alesp), o banco Master, de Daniel
Vorcaro, teria atuado intensamente na estruturação e no financiamento de grupos
empresariais interessados na privatização da EMAE e da Sabesp.
Após
receber doação de R$ 2 milhões do pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, em
sua campanha ao governo do Estado, Tarcísio de Freitas iniciou seu governo
visando as privatizações.
A Emae
foi leiloada na Bovespa em 19 de abril de 2024. O Fundo Phoenix sagrou-se
vencedor do leilão das ações estaduais da EMAE, pelo valor aproximado de R$
1,04 bilhão, superando levemente a proposta da EDF. O fundo foi constituído em
20/03/2024, menos de um mês antes do certame, e teve como principal lastro
ações da AMBIPAR.
Segundo
Donato, as ações foram infladas em mais de 700% em uma ação estruturada
realizada pelo presidente do Conselho de Administração da Ambipar, Carlos
Augusto Leone Piani, que ficou no cargo até 24 de setembro de 2024.
Conforme
o Parecer Técnico da Superintendência de Registro de Emissores da Comissão de
Valores Mobiliários (CVM), o pagamento da aquisição de controle da EMAE foi
viabilizado pelo Banco Master, via Trustee, por Nelson Tanure e Tércio
Borlenghi Junior, fundador e controlador da Ambipar, por meio de uma emissão
privada de debêntures da Phoenix S.A..
Além
disso, após ser privatizada, a EMAE elegeu como presidenta Karla Maciel
Dolabella, que antes liderava a área de fusões e aquisições do Banco Master.
Membro do Conselho de Administração da Light, Karla Maciel renunciou em
dezembro de 2025 aos cargos de CEO e de diretora de Pessoas e Sustentabilidade
na Emae por “razões de foro pessoal”.
A
renúncia aconteceu na esteira das investigações de Daniel Vorcaro pela Polícia
Federal e em meio à transferência do controle da EMAE para a Sabesp, em outro
movimento recheado de indícios de fraudes.
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Sabesp
Em
julho de 2024, o governo Tarcísio de Freitas abriu mão do controle da Sabesp
vendendo ações de uma das maiores empresas de saneamento do mundo por um valor
44% abaixo do real, segundo especialistas do Observatório Nacional das Águas
(Ondas), da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo
(Arsesp) e da Associação de Profissionais Universitários da Sabesp (APU).
“Tarcísio
de Freitas privatiza a Sabesp. E quem compra a Sabesp? A Equatorial. Quem era o
presidente do Conselho Administrativo da Equatorial? Carlos Piani, que também a
acumulava a presidência do conselho administrativo da Ambipar”, diz Donato no
vídeo, que originou a ação.
Um mês
após deixar a presidência do Conselho da Ambipar e da Equatorial, Piani assume,
em outubro de 2024, a presidência da Sabesp. E segue no posto até os dias
atuais.
“Julho
a setembro de 2025: Nelson Tanure pega R$ 160 milhões de reais do Caixa da Emae
e compra CDBs podres do Banco Master. Outubro de 2025: Tanure não quita o
empréstimo com a XP Investimentos que lhe permitiu comprar a Emae. A XP executa
a dívida e assume o controle da Emae. Imediatamente depois, a Sabesp
privatizada, comandada por Carlos Piani, compra a Emae da XP”, conta Donato.
“Resumindo,
Carlos Piani, que no início estruturou uma operação fraudulenta para comprar a
Emae, agora fecha o círculo e leva para dentro da Sabesp privatizada a Emae,
uma empresa estratégica para gestão dos recursos hídricos do Estado de São
Paulo. Novembro de 2025: Banco Master é liquidado pelo Banco Central e esse
esquema todo começa a ser investigado. Tarcísio, não adianta esconder, as suas
relações com o Banco Master estão todas aqui”, conclui Donato no vídeo.
Na
ação, Donato detalha a participação de Zettel, que doou R$ 2 milhões para a
campanha de Tarcísio e R$ 3 milhões para Jair Bolsonaro em 2022.
Segundo
a representação, o cunhado de Vorcaro e pastor da igreja Lagoinha, de André
Valadão, foi uma das peças do Banco Master na parceria para aquisição da EMAE,
envolvendo Nelson Tanure, a AMBIPAR, a REAG gestora de fundos e a Trustee DTVM,
administradora da rede de fundos pertencentes a esses atores.
“Todos
são hoje investigados no âmbito das Operações Carbono Oculto e Compliance por
lavagem de dinheiro para o PCC e por fraudes financeiras e contábeis”, relata o
documento, que inclui um fluxograma sobre o grupo.
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MP abre investigação preliminar
No
última dia 15 de julho, o Ministério Público de São Paulo, por meio da
Promotoria do Patrimônio Público e Social, instaurou uma notícia de fato para
tomar providências preliminares sobre a ação que investiga suposto elo com o
escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro, no processo de privatização da
Emae e Sabesp.
“O
objeto ora delimitado consiste em apurar, em caráter preliminar, a existência
de elementos mínimos acerca de eventuais atos de improbidade administrativa,
lesão ao patrimônio público estadual, violação aos princípios da Administração
Pública, frustração da competitividade, deficiência deliberada de diligência
administrativa, conflito de interesses ou favorecimento indevido de
particulares nos processos de privatização da EMAE, desestatização da SABESP e
posterior aquisição do controle da EMAE pela SABESP”, diz o despacho assinada
pela promotora Cíntia Marangoni no último dia 15 de julho.
No
ofício, a promotora pede informações à Sabesp, Emae, Tribunal de Contas do
Estado (TCE) e ao governo Tarcísio para iniciar a análise da denúncia.
“A
atuação desta Promotoria de Justiça deve concentrar-se, nesta fase, na
verificação de eventual lesão ao patrimônio público estadual, violação dolosa
de deveres funcionais, frustração da competitividade, favorecimento indevido de
particulares, conflito de interesses e eventual utilização de entidades
submetidas ou anteriormente submetidas ao controle estatal em benefício de
determinado núcleo privado”, afirma ainda a procuradora, que deu prazo de 45
dias para o envio das informações.
Após o
recebimento das informações ou decurso do prazo de 45 dias, a promotora
decidirá se há justa causa para instaurar o inquérito civil.
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Outro lado
Em nota
enviada à Fórum, a Sabesp negou as acusações e afirmou que são falsos os
vínculos apontados pela reportagem. A empresa declarou ainda que Carlos Piani
não participou da desestatização da Sabesp nem da aquisição da Emae realizada
em 2024 e sustentou que a posterior compra da empresa pela Sabesp foi uma
operação independente, submetida às instâncias de governança e às aprovações
regulatórias necessárias. Leia abaixo a íntegra da nota:
“A
Sabesp rechaça categoricamente as acusações e insinuações reproduzidas na
reportagem que tentam estabelecer vínculos inexistentes entre operações
empresariais distintas, a Companhia e seu presidente.
As
afirmações apresentadas misturam fatos, empresas e períodos diferentes para
construir uma narrativa que não encontra respaldo na realidade.
A
desestatização da Sabesp foi conduzida pelo Estado de São Paulo, então seu
acionista controlador, por meio de oferta pública secundária de ações realizada
no mercado de capitais e submetida às regras e aos procedimentos aplicáveis.
Carlos Piani não participou da estruturação nem da condução desse processo e
somente assumiu a presidência da Companhia em 1º de outubro de 2024, após a
conclusão da operação.
Da
mesma forma, é falsa qualquer tentativa de associar o presidente da Sabesp a
uma suposta operação para aquisição da EMAE. Carlos Piani não participou da
aquisição da EMAE realizada em 2024 nem integrou seus órgãos de administração
ou sua gestão.
A
aquisição da EMAE pela Sabesp, anunciada posteriormente, é uma operação
empresarial independente, fundamentada em razões estratégicas e operacionais,
especialmente na integração da gestão de ativos hídricos relevantes para os
sistemas Billings e Guarapiranga e no fortalecimento da segurança hídrica da
Região Metropolitana de São Paulo.
A
transação foi submetida às instâncias de governança aplicáveis, amplamente
divulgada ao mercado e recebeu as aprovações regulatórias necessárias,
incluindo a aprovação sem restrições pelo Conselho Administrativo de Defesa
Econômica e a anuência da Agência Nacional de Energia Elétrica.
A
trajetória profissional anterior de Carlos Piani é pública. Sua atuação em
diferentes empresas ao longo de sua carreira não estabelece, por si só,
qualquer vínculo entre essas companhias, seus acionistas ou operações
realizadas em momentos distintos.
A
Sabesp continuará prestando todos os esclarecimentos necessários com base em
fatos, documentos públicos e informações formalmente divulgadas ao mercado. A
Companhia não aceitará que acusações sem fundamento sejam apresentadas como
fatos”.
Fonte:
Fórum

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