sábado, 25 de julho de 2026

Irã é a próxima "guerra sem fim" dos EUA?

A trégua negociada entre EUA e Irã em junho já era. Com a troca cada vez mais intensa de bombardeios, drones e mísseis, a questão já não é mais se a guerra foi retomada, e sim se o conflito está se transformando em uma disputa sem prazo para terminar, que nenhum dos lados pode vencer.

Pode ser mais uma "guerra sem fim", afirma Kelly Grieco, pesquisadora sênior do centro de estudos Stimson Center, sediado em Washington. O termo descreve conflitos que se arrastam por anos, com ações militares recorrentes e sem uma solução política duradoura. 

"Você acaba adotando uma abordagem de 'aparar o gramado', na qual as capacidades do Irã crescem até determinado nível. Então você decide que não está disposto a tolerar esse grau de ameaça e volta a realizar uma nova rodada de ataques com mísseis e bombardeios. E depois repetimos esse ciclo indefinidamente", explica.

<><> Sem trégua à vista

A aviação militar dos EUA intensificou os ataques contra alvos em todo o Irã, que, por sua vez, segue atacando posições americanas e aliados regionais. As forças iranianas atingiram locais em vários países do Golfo e voltaram a interromper a navegação no Estreito de Ormuz, por onde antes passava cerca de um quinto do petróleo e gás exportados ao mundo.

Do outro lado do Golfo, os rebeldes houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, impuseram um bloqueio naval à Arábia Saudita no Mar Vermelho, ameaçando estrangular uma segunda rota estratégica crucial para o tráfego marítimo na região.

Os esforços diplomáticos não cessaram. O ministro do Interior do Irã, Eskandar Momeni, viajou ao Paquistão, um dos principais mediadores do conflito, numa tentativa de retomar as negociações. Mas as perspectivas de um avanço parecem pequenas. 

O presidente americano, Donald Trump, manifestou pouco entusiasmo por novas negociações, afirmando na terça-feira que os EUA "não têm interesse em se reunir". Pelo contrário: a campanha aérea americana poderia ser intensificada. Autoridades iranianas, por sua vez, advertiram a Casa Branca a não atacar instalações nucleares, sob risco de provocar uma grande escalada.

<><> Um conflito em expansão

O que começou como uma campanha militar limitada pode evoluir para uma guerra de desgaste, travada por meio de ataques aéreos, pressão econômica e escaladas recorrentes, sem um fim claro à vista.

"O que devemos esperar é que, se os Estados Unidos continuarem ampliando sua campanha de ataques aéreos, atingindo infraestrutura ferroviária, pontes, grandes instalações portuárias ou instalações de energia, o Irã poderá e irá responder da mesma forma, usando seus mísseis e drones para atacar estruturas semelhantes no Golfo, bem como no Levante [leste do Mediterrâneo, atingindo áreas na Jordânia e na Síria, por exemplo", afirma Megan Sutcliffe, analista de segurança para Oriente Médio e África da empresa privada de inteligência Sibylline, com sede em Londres.

"Essa lógica de retaliação mútua é exatamente o que continuará a acontecer nas próximas semanas. Isso nos aproxima do pior cenário possível: a retomada de um conflito em grande escala."

Ao longo da guerra, os objetivos de Washington pareceram mudar repetidamente. No início, a retórica se concentrava em uma mudança de regime e na eliminação do programa nuclear iraniano. Mais tarde, a ênfase passou a ser a degradação das capacidades militares do país. Hoje, o objetivo mais imediato parece ser a reabertura do Estreito de Ormuz e a proteção de uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.

Ainda assim, uma pergunta permanece sem resposta: se os Estados Unidos têm ampla superioridade militar e realizaram centenas de ataques em todo o Irã, por que então Teerã ainda é capaz de interromper o tráfego em Ormuz?

É que para isso não é preciso ter um grande arsenal ameaçador de mísseis ou drones, explica Grieco. "Mesmo que os Estados Unidos consigam destruir, digamos, hipoteticamente, 95% dos lançadores de mísseis, dos mísseis e dos drones iranianos, o Irã ainda manteria uma capacidade residual de 5%. E esses 5% geralmente seriam suficientes para que os iranianos conseguissem interromper o tráfego pelo Estreito de Ormuz."

"Chega um ponto em que se torna realmente difícil localizar alguns desses alvos. Eles são móveis, numerosos e estão amplamente distribuídos pelo país — como os drones Shahed, por exemplo."

<><> Missão cumprida?

Para alguns observadores, a guerra contra o Irã começa a evocar lembranças desconfortáveis das intervenções militares americanas no Iraque (2003–2011) e no Afeganistão (2001–2021).

Esses conflitos mostraram que a superioridade militar não se traduz necessariamente em uma campanha bem-sucedida.

Sob o governo do presidente George W. Bush, as forças americanas derrotaram rapidamente o Talibã no Afeganistão e o governo de Saddam Hussein no Iraque. Da mesma forma, ataques dos EUA e de Israel mataram muitos dos principais líderes iranianos no início da guerra e rapidamente estabeleceram domínio militar no espaço aéreo. No entanto, como em conflitos anteriores, o sucesso inicial no campo de batalha não produziu um resultado claro em terra.

As guerras anteriores dos EUA também mostram como adversários mais fracos podem se adaptar. No Afeganistão e no Iraque, insurgentes utilizaram bombas caseiras à beira de estradas e atentados suicidas para compensar a superioridade militar americana. No Irã, as Forças Armadas têm usado drones relativamente baratos e pequenas lanchas de alta velocidade para interromper a navegação no Estreito de Ormuz, apesar das grandes perdas sofridas no mar.

"A comparação que eu faria não é com o Afeganistão ou o Iraque, porque lá havia tropas terrestres", pontua Grieco. "A comparação que eu realmente faria é com o Iraque durante toda a década de 1990 e até a guerra de 2003. Foi quando os Estados Unidos impuseram uma zona de exclusão aérea sobre partes do Iraque, usando poder aéreo para mantê-la e, em alguns momentos, realizando ataques. Acho que o resultado acaba se parecendo com isso: algo fortemente centrado no uso da força aérea. Estamos falando de um compromisso de longo prazo, sem perspectiva de término."

<><> O dilema de Ormuz

Ainda é possível desescalar e evitar outra "guerra sem fim", acredita Sutcliffe. "Embora isso pareça relativamente improvável neste momento, não é algo sem precedentes", diz, citando a mudança de rumo adotada por Trump ao declarar um cessar-fogo com o Irã.

Grieco concorda que o conflito terá de ser resolvido na mesa de negociações. "O centro da divergência agora gira em torno do Estreito de Ormuz. Essa é a questão mais urgente, porque toda a economia global está sendo mantida refém. E precisamos chegar a algum tipo de acordo."

Mas, para Teerã, a capacidade de ameaçar a navegação pelo estreito continua sendo uma das poucas formas eficazes de penalizar os Estados Unidos e a seus aliados, apesar da esmagadora superioridade militar americana. Os líderes iranianos podem ver poucos motivos para abrir mão dessa vantagem sem concessões significativas em troca. 

Enquanto ambos os lados continuarem escolhendo a força em vez da negociação, o conflito poderá se arrastar por anos, transformando-se em mais uma "guerra sem fim" americana.

¨      Mais importante que dinheiro, queda de sanções é vital para economia do Irã, avaliam analistas

Os Estados Unidos, ao lado de Israel, têm realizado ataques desde fevereiro ao território do Irã. Como resposta, Teerã tem bombardeado bases norte-americanas na região do golfo Pérsico e, principalmente, controlado o que entra e o que sai pelo estreito de Ormuz.

Em junho, os governos do Irã e dos Estados Unidos assinaram um memorando de entendimento que, dentre os termos, estabelecia um plano de US$ 300 bilhões (R$ 1,52 bilhão) para a reconstrução do território iraniano, proveniente de fontes privadas e de parceiros regionais de Washington.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas declararam que o mais importante para Teerã, hoje, é a suspensão das sanções impostas por países e entidades ocidentais.

Gabriel Mathias Soares, doutor em história social, mestre em estudos árabes pela Universidade de São Paulo (USP) e global fellow na Universidade Habib, em Karachi, no Paquistão, explica que é muito difícil por parte do Irã ter qualquer garantia de que esse valor será enviado aos cofres de Teerã.

Para o especialista, a cessação total das hostilidades é necessária para que qualquer acordo seja colocado em prática, em especial, uma reestruturação econômica da relação entre Ocidente e Irã.

"[Os US$ 300 bilhões] certamente seriam importantes e benéficos, mas o tamanho do Irã, da sua economia, do seu potencial… Na realidade, qualquer tipo de remoção das sanções ou vista grossa para violações dessas sanções vai ser até mais benéfico, até mais importante nesse sentido do que um fundo para reconstruir [o país]."

Soares explica que aliados do Irã, como China, Rússia, e até mesmo a Turquia, poderiam ganhar com uma economia iraniana mais englobada ao restante do mercado.

"Sem a remoção das sanções, que são duríssimas, é difícil para esses países realizarem um negócio sem que haja retribuição ou até serem afetados pelas tarifas que os Estados Unidos impõem ao Irã."

Nessa negociação, Soares enxerga o estreito de Ormuz como o principal ativo de Teerã, uma condição geográfica favorável inerente às discussões nas mesas de negociação.

"Acho que a grande força do Irã é o fato de que ele tem sempre ali, à sua disposição, a realidade geográfica do estreito de Ormuz como uma grande carta que ele pode, mesmo com as perdas que ele tem nos ataques, ter à disposição."

Outro fator que pode favorecer o lado iraniano é a queda da hegemonia do dólar na economia mundial. No entanto, para Soares, essa redução do poder de Washington perante o globo é uma das razões pelas quais a Casa Branca tem agido com tanta agressividade, seja militar ou tarifária.

Ali Ramos, analista de geopolítica, cientista político e idealizador do canal Vento Leste, acredita que os valores estabelecidos no memorando de entendimento para a reconstrução iraniana tinham como objetivo favorecer empreiteiras norte-americanas, assim como aconteceu no processo de reconstrução do Iraque.

"Os Estados Unidos da América nunca respeitaram um acordo na vida. Nada me fez crer, nesse momento histórico, que seria diferente. E estamos aí novamente, analisando mais uma vez a guerra."

Especificamente sobre a Turquia, Ramos não vê como um dos interesses de Ancara a reestruturação total do Irã, tampouco a sua queda definitiva.

"Existe um Curdistão no Iraque e na Síria, e a questão curda é mais estrategicamente frágil vista pelos turcos hoje. Se o Irã cair, com certeza vai se estabelecer um Curdistão autônomo, pelo menos ali no norte do Irã, nas regiões curdas, e isso vai causar um problema no médio e longo prazo para a Turquia."

Para Ramos, a movimentação dos negociadores de Washington para o fim das hostilidades no Oriente Médio só serviu para que as tropas estadunidenses se rearmassem e tomassem fôlego para continuar as hostilidades. Na visão do especialista, muitos analistas resumem essa guerra a um "computador que faz tudo", mas derrotar um inimigo exige um esforço muito maior.

"Trump não teria peito para enviar 1 milhão de soldados para o Irã e guerrear, porque o número de baixas seria alto demais e provavelmente faria o governo dele cair, tendo em mente que essa é a guerra mais impopular da história dos Estados Unidos. […] Tem questões que não têm resolução militar, não adianta tentar resolver por essa via. Só que, claro, Trump não tem margem de manobra nenhuma porque ele obedece a tudo o que Israel manda."

¨      Trump: EUA usarão ativos do Irã para pagar indenização por embarcações e cargas danificadas

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quinta-feira (23) que usará ativos iranianos congelados para pagar indenizações por quaisquer danos causados a embarcações e cargas.

Por meio da rede Truth Social, o presidente dos EUA afirmou que a medida é "justa e equitativa", por mais que os danos sejam "vultosos".

"Que esta declaração sirva para deixar claro que, a partir de agora e até segunda ordem, quaisquer danos causados ​​a navios, cargas ou itens relacionados serão pagos com recursos iranianos que os Estados Unidos têm sob seu controle."

Ao site Axios, Trump também declarou que os Estados Unidos estão planejando um novo ataque de grande escala ao Irã. Segundo o republicano, essa seria a maior ofensiva realizada contra o adversário.

"Estou considerando um ataque em massa, maior do que qualquer outro já realizado. Estou perto de tomar uma decisão. Estamos prontos para isso."

Na visão de Trump, os iranianos querem negociar, mas não estão prontos para fechar um acordo.

"Eles ainda não sofreram o suficiente."

Ainda de acordo com a Axios, duas fontes com conhecimento no assunto afirmaram que Teerã não aceitou a última proposta de paz apresentada pelos Estados Unidos.

<><> Irã chama de precedente perigoso os planos dos EUA de usar seus ativos para compensação em Ormuz

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, emitiu uma declaração sobre o possível precedente perigoso com o confisco de bens no contexto de uma iniciativa para utilizar fundos iranianos para pagar os danos causados pelo bloqueio do estreito de Ormuz.

Na quinta-feira (23), o presidente dos EUA, Donald Trump, disse que Washington usaria ativos iranianos controlados pelos EUA para compensar possíveis danos a navios e cargas enquanto os militares dos EUA continuam a bloquear o estreito de Ormuz.

"Aqueles que acolhem com satisfação o uso desses fundos ou se beneficiam deles devem lembrar que, assim que os governos começarem a considerar o confisco de propriedades como uma norma, os bens de ninguém poderão ser considerados protegidos", escreveu o chefe do Ministério das Relações Exteriores iraniano na rede social X.

Araghchi chamou a apreensão dos bens de um Estado de "precedente perigoso".

¨      Chancelaria do Irã alerta Londres sobre as consequências de conceder suas bases aos aviões dos EUA

Teerã alerta Londres sobre as consequências de conceder bases aos aviões americanos para lançar ataques ao Irã, disse o Ministério das Relações Exteriores do Irã.

A mídia norte-americana informou na terça-feira que o novo primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, permitiu que os EUA continuassem usando bases aéreas britânicas para lançar os chamados ataques "defensivos" contra o Irã.

"O Irã está determinado a defender a soberania nacional, a integridade territorial e os interesses e a segurança nacionais diante de agressões, e qualquer parte que de alguma forma se torne cúmplice de uma agressão militar contra o Irã será responsável pelas consequências de sua decisão", diz o comunicado da entidade diplomática iraniana.

O MRE do Irã condenou a decisão do Reino Unido de fornecer suas bases para aeronaves dos EUA, afirmando que isso violava a Carta da ONU.

O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou em 8 de julho que o cessar-fogo alcançado com o Irã na noite de 18 de junho não estava mais em vigor. Os militares dos EUA realizaram várias rodadas de ataques ao Irã desde 8 de julho.

 

Fonte: DW Brasil/Sputnik Brasil

 

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