segunda-feira, 27 de julho de 2026

A psicologia sabe que sentir prazer com a desgraça alheia não é coisa de psicopatas: é uma reação muito “humana”

É possível que alguém, em algum momento, tenha tido aquele colega arrogante que sempre se gaba de seus sucessos e comete um erro que ressoa em toda a empresa. Naquele momento, mais de um pode ter um rosto feliz por esse fracasso e se perguntar ao mesmo tempo: Sou uma má pessoa por isso? E a realidade é que, de modo geral, a resposta é não.

Essa reação para a ciência tem um nome específico, "schadenfreude", que vem do alemão Schaden, dano, e Freude, alegria. Evidências acadêmicas nos alertam que reduzi-lo a um simples "mal" ou, pelo contrário, a uma reação inofensiva, é ignorar a fascinante programação do nosso cérebro social.

Para entender "schadenfreude", não é preciso olhar para manuais de psiquiatria procurando um transtorno clínico, mas sim para a imagem por ressonância magnética funcional. Essa é a base de uma pesquisa publicada em 2009 na revista Science, em que pesquisadores descobriram que inveja e schadenfreude estão intimamente ligados no cérebro.

Dessa forma, foi possível perceber que, quando as pessoas estudadas sentiam inveja, o córtex cingulado dorsal anterior, uma região associada à dor física, era ativado. Mas, quando essa pessoa invejada sofria um infortúnio, a atividade se deslocava para o estriado ventral, o núcleo central do circuito de recompensa do nosso cérebro.

Em outras palavras, podemos dizer que, neurologicamente, ver a pessoa que invejamos cair gera uma recompensa genuína. No entanto, estudos como os da neurocientista Tania Singer, qualificam isso ao apontar que essas respostas não surgem porque temos um "gene maligno" sádico ou "hormônio da felicidade", mas porque nossas redes cerebrais estão constantemente monitorando a comparação social e a justiça percebida.

Se schadenfreude fosse pura crueldade, riríamos das desgraças de nossos entes queridos, mas não fazemos isso. É aí que entra um artigo científico que mostrou que o prazer diante do fracasso de outros dispara sob condições muito específicas.

Por exemplo, quando uma pessoa é percebida como rival, quando tem um status superior ou representa uma ameaça à nossa autoestima, é quando sentimos esse prazer que ela comete algum tipo de erro. É por isso que schadenfreude é o lado sombrio da empatia, já que nossa capacidade de empatizar é temporariamente "desligada" quando o sofrimento do outro equilibra um equilíbrio que considerávamos injusto ou quando reafirma a posição da nossa "tribo".

Essa não é uma reação que aparece na vida adulta, mas em experimentos com crianças pequenas eles mostraram que também existe essa resposta de alegria diante de um evento desse tipo, especialmente em contextos de desigualdade. Por exemplo, se uma criança vê outra sendo tratada injustamente favoravelmente e a segunda sofre um pequeno contratempo, a primeira criança mostra sinais de satisfação.

•        Nosso cérebro não foi projetado para receber tantas notícias ruins, afirmam pesquisadores

Abrir o celular logo ao acordar e se deparar com uma sequência de guerras, crises econômicas, desastres naturais e violência virou rotina para milhões de pessoas. Embora essa enxurrada de notícias possa parecer apenas uma consequência da era digital, pesquisadores afirmam que existe uma razão biológica para que tantas pessoas se sintam ansiosas, sobrecarregadas ou até evitem acompanhar o noticiário.

Segundo um artigo publicado pelo The Conversation, o cérebro humano simplesmente não evoluiu para lidar com um fluxo praticamente ininterrupto de informações negativas vindas de todas as partes do planeta.

<><> O cérebro foi programado para detectar ameaças

Do ponto de vista evolutivo, prestar atenção ao perigo sempre foi uma vantagem para a sobrevivência.

Durante milhares de anos, nossos ancestrais precisavam identificar rapidamente predadores, conflitos ou outras ameaças próximas. Quem reagia mais rapidamente a esses riscos tinha maiores chances de sobreviver e deixar descendentes.

Esse mecanismo permanece presente até hoje e é conhecido na psicologia como viés da negatividade. Diversos estudos mostram que o cérebro tende a dar mais importância às informações negativas do que às positivas, além de processá-las mais rapidamente e armazená-las por mais tempo na memória.

O problema é que o ambiente mudou muito mais rápido do que nossa biologia.

<><> O mundo inteiro virou "nosso bairro"

Durante a maior parte da história da humanidade, as ameaças que exigiam nossa atenção eram locais: uma seca, uma doença na comunidade ou um conflito próximo.

Hoje, graças à internet e aos smartphones, o cérebro é exposto diariamente a acontecimentos de todos os continentes. Em poucos minutos, uma pessoa pode ler sobre uma guerra, uma tragédia climática, uma crise financeira e um crime violento, mesmo que nenhum desses eventos tenha impacto direto sobre sua vida.

Segundo os pesquisadores, o sistema nervoso interpreta boa parte dessas informações como potenciais ameaças, mesmo quando não existe nenhuma ação imediata que possamos tomar.

<><> As notícias negativas chamam mais atenção

Essa tendência também influencia o funcionamento das plataformas digitais.

Um estudo publicado na revista Nature Human Behaviour, citado pelos autores, analisou mais de 105 mil manchetes visualizadas quase seis milhões de vezes. Os resultados mostraram que cada palavra negativa adicional aumentava a probabilidade de um clique, enquanto palavras positivas produziam o efeito contrário.

Isso ajuda a explicar por que conteúdos mais alarmantes costumam receber maior engajamento nas redes sociais e nos portais de notícias.

Os pesquisadores também destacam que o corpo pode reagir às manchetes negativas antes mesmo que a mente avalie racionalmente se aquela informação representa uma ameaça real.

<><> Quando acompanhar o noticiário deixa de ser saudável

Especialistas já descrevem um padrão chamado Consumo Problemático de Notícias (Problematic News Consumption — PNC). Nesse quadro, a pessoa desenvolve uma relação excessiva com o noticiário, acompanhando constantemente novas atualizações, mas sem conseguir transformar essa informação em ações concretas. O resultado pode ser aumento do estresse, sensação de impotência e prejuízos ao bem-estar psicológico.

Os autores observam que esse efeito pode ser ainda mais intenso para grupos que acompanham notícias envolvendo suas próprias comunidades ou países de origem, tornando mais difícil simplesmente "desligar" das informações.

<><> A solução não é deixar de se informar

Apesar dos riscos, os pesquisadores ressaltam que abandonar completamente o noticiário não é a melhor alternativa. Em uma sociedade democrática, o acesso à informação continua sendo essencial.

A recomendação é desenvolver hábitos mais saudáveis de consumo de notícias.

Entre as estratégias sugeridas estão estabelecer horários específicos para acompanhar o noticiário, priorizar reportagens aprofundadas em vez de atualizações constantes nas redes sociais e evitar conteúdos criados apenas para provocar indignação ou gerar cliques, conhecidos como rage bait.

Outra orientação importante é diferenciar aquilo que está sob nosso controle daquilo sobre o qual não podemos agir. Segundo os pesquisadores, identificar pequenas ações possíveis diante de um problema ajuda a reduzir a sensação de impotência.

 

Fonte: Xataka Brasil

 

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