segunda-feira, 27 de julho de 2026

Entre a digitalização do futebol e o futebol da digitalização

Encerrado o evento esportivo global mais assistido do planeta, após diversos textos, comentários, análises, críticas, denúncias e constatações, vou cometer aqui o equívoco de arriscar algumas linhas sobre um assunto extremamente aviltado nos últimos dias – o futebol. Não é para menos: a Copa de 2026, a primeira a contar com 48 seleções, foi uma das mais mal organizadas e marcadas não apenas pela ingerência, mas pela intolerância e violência institucional do governo Trump, por exemplo com as restrições logísticas e burocráticas à delegação do Irã, desde a emissão dos vistos até à restrição que força a hospedagem da delegação no México, fazendo com que se desloque mais do que todos os seus rivais na fase de grupos.

As intervenções de Trump não ficaram apenas no “extra-campo”: em ligações para Gianni Infantino, o presidente dos EUA solicitou à Fifa que anulasse a suspensão de Folarin Balogun, atacante do elenco norte-americano, expulso em uma partida pelo árbitro brasileiro Raphael Claus. Além disso, uma extensa somatória de polêmicas se acumulou ao longo dos jogos que levaram o time argentino até a final, onde amargaram um vice-campeonato em um jogo de domínio absoluto da seleção espanhola, que não sofreu uma finalização sequer (em tempo normal) por parte da tonteada Argentina, que ainda assim resistiu – até não poder mais.

Para além desses elementos, essa Copa foi a primeira em um contexto “maduro” das plataformas em sua configuração contemporânea, especialmente na dinâmica da circulação de conteúdos por vídeos curtos que produziu subsequentemente a emergência de setores, ramificações e diversos nichos de influenciadores dos mais diversos temas, assuntos e espectros. A popularização do “scroll infinito” e o papel do “produtor de conteúdos” produziram efeitos sobre os modos de percepção, de transmissão e de cobertura – enfim, efeitos sobre as condições nas quais se acompanha o evento –, de tal modo que essa copa pode ser considerada a primeira nos parâmetros do “novo normal” da digitalização. Pretendo aqui esboçar alguns elementos da relação entre o futebol na era digital contemporânea, mas também especular sobre a digitalização contemporânea do futebol.

Primeiro ponto: a plataformização midiática contemporânea. O formato atual de vídeos curtos surge fundamentalmente em 2016, na China – fazendo desse ano uma década –, com o TikTok popularizando-se em 2018 com a sua internacionalização (antes do TikTok, vale lembrar do Vine, que foi extremamente popular em 2013, com vídeos de até 6 segundos). Ou seja, a internacionalização do TikTok coincide com a Copa de 2018, sendo essa talvez a última copa não dominada pela generalização total da espetacularização imaginária da opinião plataformizada no formato atual. Em 2022, temos uma copa pós-pandêmica, na ressaca do confinamento, onde a dinâmica da influência digital já se estabelecia de forma reveladora: pela primeira vez, uma copa teria jogos transmitidos no YouTube, através do canal criado pelo repórter e streamer Casimiro Miguel, o CazéTV. Esse formato é tão impactante que influencia emissoras consolidadas, como a própria Globo, no sentido de criarem versões “equivalentes” do canal na mesma plataforma. Também foram convocados, nessa última copa, grandes influenciadores para a cobertura jornalística do evento na grande mídia – é o caso de Virginia Fonseca, contratada pelo ‘Domingão com Huck’ (TV Globo) para atuar como “correspondente de entretenimento”.

A Copa de 2026 foi a primeira transmitida integralmente pelo YouTube. E, em certo sentido, isso revela o processo de maturação do “conceito” entre os dois eventos. De modo semelhante, poderíamos dizer que essa também foi a primeira Copa onde certa “ecologia digital” dos influenciadores e criadores de conteúdo estava estabelecida, antecipando o evento esportivo como fonte de conteúdo, agora auxiliados pela consultoria e roteirização automatizada dos chatbots – algo central, que coloca em questão todo texto que circula nas redes e seus travessões em final de parágrafo (como esse último), especialmente os textos lidos por produtores de conteúdo nas plataformas. O processo de “maturação” da economia midiática de plataformas é também o processo de maturação da delegação do pensamento, da elaboração, isto é, a realização da semi-formação generalizada pelo automatismo das IAs.

Dessa forma, a circulação de conteúdos sobre o evento tiveram um papel fundamental na percepção do próprio evento. Não sem razão, um evento sediado nos EUA e marcadamente formatado pela lógica do espetáculo esportivo tão arraigada no país: tivemos uma evidente aproximação com o formato midiático do Superbowl ou da NBA. E, já que desgraça pouca é bobagem, também as casas de aposta digitais demonstraram a força da indústria do (jogo de) azar: estima-se que este tenha sido o maior evento de apostas de todos os tempos, movendo valores que giram na cifra de 50 bilhões de dólares, ao menos em números oficialmente especulados.

Assim, a digitalização contemporânea, com sua característica de plataformização e com o papel do influenciador somados à massificação sistematizada e fragmentada da indústria de apostas, revela nestes aspectos alguns eixos fundamentais que produzem efeitos na dimensão do real, especificamente “extra-campo”. Mas a digitalização também afeta diretamente “o campo”, o futebol em si, por assim dizer; obviamente com a inserção do VAR, o impedimento semi-automático, a tecnologia atravessando o gramado com sensores digitais presentes até na Bola (algo iniciado na Copa de 2022, e que dessa vez foi agente de polêmicas curiosas).

Todos esses elementos são fundamentais, entretanto são também mais evidentes. A digitalização perpassa, todavia, por dimensões menos imediatas. Esse seria o segundo ponto: o futebol mediado por plataformas, algoritmos, por automações desde os dados produzidos nos jogos. Um exemplo interessante é o seguinte: “todas as 48 seleções que disputaram o torneio passaram a utilizar o FIFA AI Pro, ferramenta de inteligência artificial (IA) desenvolvida pela Lenovo em parceria com a FIFA para oferecer análises táticas avançadas a todas as delegações.” Assim, nota-se como a digitalização pretende interferir no próprio modo como se pensa e realiza o jogo, em seu nível elementar, no “11 contra 11”. A metrificação e dataficação do jogo, cada vez mais digital e produzida em tempo real, afeta a compreensão tática que, por sua vez, afeta a produção e realização técnica, a experiência e a própria estética que perpassa o futebol.

Apesar do salto qualitativo que o uso de IAs representa para análise de desempenho no futebol (e também em outras áreas), a dataficação do futebol não é algo tão recente. Ela se inicia na década de 1950 com o contador e oficial da Força Aérea Britânica Charles Reep, passando pelos soviéticos na década de 1970, como Valeriy Lobanovskyi e Anatoliy Zelentsov no “laboratório tecnológico no Dínamo de Kiev.” Mas a mediação contemporânea das IAs vai além da metrificação: nela está implícita sempre um nível de automação/delegação a alguma média gerada desde os dados disponíveis. Mas o que se faz com isso, para além disso? Essa é também a fronteira entre criar e gerar (no sentido das IAs generativas). Como esperado, a retórica da FIFA é caracteristicamente “neoliberal.” Seu discurso de marketing sugere “democratizar a análise de desempenho”, enquanto advoga, via Arsène Wenger, seu diretor de Desenvolvimento Global do Futebol, que essa interface de IA “marca o início de uma nova era na preparação e análise de partidas” – trata-se, obviamente, da promoção apologética de uma concepção gerencial e tecnosolucionista que encontrou, no atual espectro da IA, um bode expiatório. Da mesma forma, só interessa questionar se a IA tem ou terá consciência na medida em que assim se disputa sua alma, já que é a propaganda a alma do negócio.

Propagandas à parte, o tempo histórico em que IAs parecem operar, ao menos em alguma medida, como agentes sociais, requer uma reflexão sobre nossos entendimentos e nossas práticas; sobre como passamos a reincorporar, em alguma medida, princípios externalizados, inscritos na metrificação automatizada do desempenho. Por exemplo: a relação com o jogo mediada fundamentalmente por dados é cada vez mais presente no cotidiano. Hoje encontramos certa generalização da mentalidade “Sofascore” (famoso e difundido aplicativo global de estatísticas esportivas em tempo real). A análise estatística das finalizações, da posse de bola, do volume de jogo, do mapa de calor… Enfim, de dados produzidos sobre o campo, acompanha a produção dessa mentalidade “em tempo real”: a digitalização estrutura então um duplo do jogo que é também janela para certo “saber”.

Ao mesmo tempo, a “mentalidade Sofascore” sugere uma afinidade com a lógica das apostas, especialmente no pretenso cálculo de probabilidades – a estatística atravessa o campo e o novo mercado especulativo das predições de apostas [prediction markets], que avançam no Brasil e foram peculiarmente presentes nessa Copa, com empresas como Kalshi e Polymarket representando 27% das apostas legais nos EUA durante o torneio. A somatória de dados, estatísticas e rankings movem o telos do futebol como puro resultado. Ao mesmo tempo, a diferença qualitativa entre um gol em mata-mata de Copa e quinze gols entre amistosos e eliminatórias se confunde na memória histórica – mas não em seu valor para o cálculo das odds. Também se confunde a história do futebol com a legitimação da FIFA enquanto detentora dos “dados reais”, desconsiderando a própria historicidade do futebol, sua simples existência anterior ao presente, suas particularidades culturais, regionais, sua manifestação real.

Os efeitos que a digitalização exerce “no campo” ainda carecem de pesquisa e sistematização (ou ao menos que uma seja amplamente divulgada), mas parece seguro especular que a digitalização no futebol produz efeitos “imanentes” ao jogo, inclusive desde sua concepção tática. Talvez seja tentador dizer que isso fomenta (ou favorece?) a filosofia posicional, o “guardiolismo”, etc. Vence o futebol espanhol? Pode ser. Por outro lado, acompanhamos hoje um futebol que é jogado fundamentalmente pelas gerações dos anos 1990 e 2000, a serem progressivamente substituídas pela geração de 2010. Essa constatação um tanto óbvia demarca uma passagem fundamental, onde jogam as gerações pós-internet, pós-smartphones, as gerações “digitais” e “plataformizadas”. Essa marca geracional obviamente possui fuso-horários culturais, geográficos, econômicos… E é também por isso reveladora.

Os efeitos da digitalização realmente existente no futebol, entre o campo e o extra-campo, estão sendo observados agora. Obviamente, a geração que cresceu na era da totalidade digital é a que joga o futebol “digitalizado”. Mas esse futebol “digitalizado” não precisa ser o ideal, ao mesmo tempo em que não pode ser ignorado. Enfim, os impasses da digitalização no futebol são, em alguma medida, os impasses da digitalização em geral. Mas, quem sabe, em sua forma peculiar, específica, o futebol informe, se não algo de novo, ao menos algo de urgente sobre nossa atualidade. Enquanto isso, a plataforma de apostas Betano segue afirmando: “Quem se garante, confia!” – Vai lá, confia…

 

Fonte: Por Cian Barbosa, em Opera Mundi

 

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