Entre
a digitalização do futebol e o futebol da digitalização
Encerrado
o evento esportivo global mais assistido do planeta, após diversos textos,
comentários, análises, críticas, denúncias e constatações, vou cometer aqui o
equívoco de arriscar algumas linhas sobre um assunto extremamente aviltado nos
últimos dias – o futebol. Não é para menos: a Copa de 2026, a primeira a contar
com 48 seleções, foi uma das mais mal organizadas e marcadas não apenas pela
ingerência, mas pela intolerância e violência institucional do governo Trump,
por exemplo com as restrições logísticas e burocráticas à delegação do Irã,
desde a emissão dos vistos até à restrição que força a hospedagem da delegação
no México, fazendo com que se desloque mais do que todos os seus rivais na fase
de grupos.
As
intervenções de Trump não ficaram apenas no “extra-campo”: em ligações para
Gianni Infantino, o presidente dos EUA solicitou à Fifa que anulasse a
suspensão de Folarin Balogun, atacante do elenco norte-americano, expulso em
uma partida pelo árbitro brasileiro Raphael Claus. Além disso, uma extensa
somatória de polêmicas se acumulou ao longo dos jogos que levaram o time
argentino até a final, onde amargaram um vice-campeonato em um jogo de domínio
absoluto da seleção espanhola, que não sofreu uma finalização sequer (em tempo
normal) por parte da tonteada Argentina, que ainda assim resistiu – até não
poder mais.
Para
além desses elementos, essa Copa foi a primeira em um contexto “maduro” das
plataformas em sua configuração contemporânea, especialmente na dinâmica da
circulação de conteúdos por vídeos curtos que produziu subsequentemente a
emergência de setores, ramificações e diversos nichos de influenciadores dos
mais diversos temas, assuntos e espectros. A popularização do “scroll infinito”
e o papel do “produtor de conteúdos” produziram efeitos sobre os modos de
percepção, de transmissão e de cobertura – enfim, efeitos sobre as condições
nas quais se acompanha o evento –, de tal modo que essa copa pode ser
considerada a primeira nos parâmetros do “novo normal” da digitalização.
Pretendo aqui esboçar alguns elementos da relação entre o futebol na era
digital contemporânea, mas também especular sobre a digitalização contemporânea
do futebol.
Primeiro
ponto: a plataformização midiática contemporânea. O formato atual de vídeos
curtos surge fundamentalmente em 2016, na China – fazendo desse ano uma década
–, com o TikTok popularizando-se em 2018 com a sua internacionalização (antes
do TikTok, vale lembrar do Vine, que foi extremamente popular em 2013, com
vídeos de até 6 segundos). Ou seja, a internacionalização do TikTok coincide
com a Copa de 2018, sendo essa talvez a última copa não dominada pela
generalização total da espetacularização imaginária da opinião plataformizada
no formato atual. Em 2022, temos uma copa pós-pandêmica, na ressaca do
confinamento, onde a dinâmica da influência digital já se estabelecia de forma
reveladora: pela primeira vez, uma copa teria jogos transmitidos no YouTube,
através do canal criado pelo repórter e streamer Casimiro Miguel, o CazéTV.
Esse formato é tão impactante que influencia emissoras consolidadas, como a
própria Globo, no sentido de criarem versões “equivalentes” do canal na mesma
plataforma. Também foram convocados, nessa última copa, grandes influenciadores
para a cobertura jornalística do evento na grande mídia – é o caso de Virginia
Fonseca, contratada pelo ‘Domingão com Huck’ (TV Globo) para atuar como
“correspondente de entretenimento”.
A Copa
de 2026 foi a primeira transmitida integralmente pelo YouTube. E, em certo
sentido, isso revela o processo de maturação do “conceito” entre os dois
eventos. De modo semelhante, poderíamos dizer que essa também foi a primeira
Copa onde certa “ecologia digital” dos influenciadores e criadores de conteúdo
estava estabelecida, antecipando o evento esportivo como fonte de conteúdo,
agora auxiliados pela consultoria e roteirização automatizada dos chatbots –
algo central, que coloca em questão todo texto que circula nas redes e seus
travessões em final de parágrafo (como esse último), especialmente os textos
lidos por produtores de conteúdo nas plataformas. O processo de “maturação” da
economia midiática de plataformas é também o processo de maturação da delegação
do pensamento, da elaboração, isto é, a realização da semi-formação
generalizada pelo automatismo das IAs.
Dessa
forma, a circulação de conteúdos sobre o evento tiveram um papel fundamental na
percepção do próprio evento. Não sem razão, um evento sediado nos EUA e
marcadamente formatado pela lógica do espetáculo esportivo tão arraigada no
país: tivemos uma evidente aproximação com o formato midiático do Superbowl ou
da NBA. E, já que desgraça pouca é bobagem, também as casas de aposta digitais
demonstraram a força da indústria do (jogo de) azar: estima-se que este tenha
sido o maior evento de apostas de todos os tempos, movendo valores que giram na
cifra de 50 bilhões de dólares, ao menos em números oficialmente especulados.
Assim,
a digitalização contemporânea, com sua característica de plataformização e com
o papel do influenciador somados à massificação sistematizada e fragmentada da
indústria de apostas, revela nestes aspectos alguns eixos fundamentais que
produzem efeitos na dimensão do real, especificamente “extra-campo”. Mas a
digitalização também afeta diretamente “o campo”, o futebol em si, por assim
dizer; obviamente com a inserção do VAR, o impedimento semi-automático, a
tecnologia atravessando o gramado com sensores digitais presentes até na Bola
(algo iniciado na Copa de 2022, e que dessa vez foi agente de polêmicas
curiosas).
Todos
esses elementos são fundamentais, entretanto são também mais evidentes. A
digitalização perpassa, todavia, por dimensões menos imediatas. Esse seria o
segundo ponto: o futebol mediado por plataformas, algoritmos, por automações
desde os dados produzidos nos jogos. Um exemplo interessante é o seguinte:
“todas as 48 seleções que disputaram o torneio passaram a utilizar o FIFA AI
Pro, ferramenta de inteligência artificial (IA) desenvolvida pela Lenovo em
parceria com a FIFA para oferecer análises táticas avançadas a todas as
delegações.” Assim, nota-se como a digitalização pretende interferir no próprio
modo como se pensa e realiza o jogo, em seu nível elementar, no “11 contra 11”.
A metrificação e dataficação do jogo, cada vez mais digital e produzida em
tempo real, afeta a compreensão tática que, por sua vez, afeta a produção e
realização técnica, a experiência e a própria estética que perpassa o futebol.
Apesar
do salto qualitativo que o uso de IAs representa para análise de desempenho no
futebol (e também em outras áreas), a dataficação do futebol não é algo tão
recente. Ela se inicia na década de 1950 com o contador e oficial da Força
Aérea Britânica Charles Reep, passando pelos soviéticos na década de 1970, como
Valeriy Lobanovskyi e Anatoliy Zelentsov no “laboratório tecnológico no Dínamo
de Kiev.” Mas a mediação contemporânea das IAs vai além da metrificação: nela
está implícita sempre um nível de automação/delegação a alguma média gerada
desde os dados disponíveis. Mas o que se faz com isso, para além disso? Essa é
também a fronteira entre criar e gerar (no sentido das IAs generativas). Como
esperado, a retórica da FIFA é caracteristicamente “neoliberal.” Seu discurso
de marketing sugere “democratizar a análise de desempenho”, enquanto advoga,
via Arsène Wenger, seu diretor de Desenvolvimento Global do Futebol, que essa
interface de IA “marca o início de uma nova era na preparação e análise de
partidas” – trata-se, obviamente, da promoção apologética de uma concepção
gerencial e tecnosolucionista que encontrou, no atual espectro da IA, um bode
expiatório. Da mesma forma, só interessa questionar se a IA tem ou terá
consciência na medida em que assim se disputa sua alma, já que é a propaganda a
alma do negócio.
Propagandas
à parte, o tempo histórico em que IAs parecem operar, ao menos em alguma
medida, como agentes sociais, requer uma reflexão sobre nossos entendimentos e
nossas práticas; sobre como passamos a reincorporar, em alguma medida,
princípios externalizados, inscritos na metrificação automatizada do
desempenho. Por exemplo: a relação com o jogo mediada fundamentalmente por
dados é cada vez mais presente no cotidiano. Hoje encontramos certa
generalização da mentalidade “Sofascore” (famoso e difundido aplicativo global
de estatísticas esportivas em tempo real). A análise estatística das
finalizações, da posse de bola, do volume de jogo, do mapa de calor… Enfim, de
dados produzidos sobre o campo, acompanha a produção dessa mentalidade “em
tempo real”: a digitalização estrutura então um duplo do jogo que é também
janela para certo “saber”.
Ao
mesmo tempo, a “mentalidade Sofascore” sugere uma afinidade com a lógica das
apostas, especialmente no pretenso cálculo de probabilidades – a estatística
atravessa o campo e o novo mercado especulativo das predições de apostas
[prediction markets], que avançam no Brasil e foram peculiarmente presentes
nessa Copa, com empresas como Kalshi e Polymarket representando 27% das apostas
legais nos EUA durante o torneio. A somatória de dados, estatísticas e rankings
movem o telos do futebol como puro resultado. Ao mesmo tempo, a diferença
qualitativa entre um gol em mata-mata de Copa e quinze gols entre amistosos e
eliminatórias se confunde na memória histórica – mas não em seu valor para o
cálculo das odds. Também se confunde a história do futebol com a legitimação da
FIFA enquanto detentora dos “dados reais”, desconsiderando a própria
historicidade do futebol, sua simples existência anterior ao presente, suas
particularidades culturais, regionais, sua manifestação real.
Os
efeitos que a digitalização exerce “no campo” ainda carecem de pesquisa e
sistematização (ou ao menos que uma seja amplamente divulgada), mas parece
seguro especular que a digitalização no futebol produz efeitos “imanentes” ao
jogo, inclusive desde sua concepção tática. Talvez seja tentador dizer que isso
fomenta (ou favorece?) a filosofia posicional, o “guardiolismo”, etc. Vence o
futebol espanhol? Pode ser. Por outro lado, acompanhamos hoje um futebol que é
jogado fundamentalmente pelas gerações dos anos 1990 e 2000, a serem
progressivamente substituídas pela geração de 2010. Essa constatação um tanto
óbvia demarca uma passagem fundamental, onde jogam as gerações pós-internet,
pós-smartphones, as gerações “digitais” e “plataformizadas”. Essa marca geracional
obviamente possui fuso-horários culturais, geográficos, econômicos… E é também
por isso reveladora.
Os
efeitos da digitalização realmente existente no futebol, entre o campo e o
extra-campo, estão sendo observados agora. Obviamente, a geração que cresceu na
era da totalidade digital é a que joga o futebol “digitalizado”. Mas esse
futebol “digitalizado” não precisa ser o ideal, ao mesmo tempo em que não pode
ser ignorado. Enfim, os impasses da digitalização no futebol são, em alguma
medida, os impasses da digitalização em geral. Mas, quem sabe, em sua forma
peculiar, específica, o futebol informe, se não algo de novo, ao menos algo de
urgente sobre nossa atualidade. Enquanto isso, a plataforma de apostas Betano
segue afirmando: “Quem se garante, confia!” – Vai lá, confia…
Fonte:
Por Cian Barbosa, em Opera Mundi

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