A
ameaça de golpe está de volta
O
pronunciamento de Flávio Bolsonaro diante de diplomatas estrangeiros ao lançar
dúvidas sobre o sistema eleitoral brasileiro não foi apenas mais uma crítica ao
sistema eleitoral. Foi a reapresentação de uma estratégia política já utilizada
em diferentes democracias: lançar dúvidas sobre as eleições antes que elas
aconteçam.
Seu
objetivo não é provar que houve ou poderá haver fraude. É criar,
antecipadamente, um ambiente político em que uma eventual derrota possa ser
apresentada como consequência inevitável de uma conspiração das instituições.
A
semelhança entre o que ocorre hoje no Brasil e o que ocorreu nos Estados
Unidos, em 2020, e no próprio Brasil, em 2022, não está apenas nos personagens
nem nas palavras. Aparece no método. Primeiro, planta-se a dúvida. Depois,
insinuam-se fraudes sem apresentar provas. Em seguida, questionam-se as
instituições responsáveis por organizar e fiscalizar as eleições.
Por
fim, caso o resultado seja desfavorável, a explicação já está pronta: a derrota
deixa de ser consequência da vontade do eleitor e passa a ser atribuída à
manipulação do processo eleitoral.
Não por
acaso, um editorial do Estado de S. Paulo observou que Flávio Bolsonaro parece
seguir o “manual do golpista moderno”: primeiro lança suspeitas sobre o
processo eleitoral; depois afirma que jamais colocou em dúvida sua lisura.
A
observação demonstra que esse tipo de estratégia ultrapassa as fronteiras da
polarização partidária. O debate deixa de ser apenas sobre preferências
eleitorais. Passa a ser sobre a preservação das regras que tornam possível
qualquer disputa democrática.
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Por que isso reaparece agora?
Por que
essa estratégia reaparece justamente na campanha presidencial de 2026? A
resposta começa por um fato novo: a eleição brasileira deixou de ser apenas um
assunto dos brasileiros.
Uma
observação da jornalista Adriana Fernandes, da Folha de S.Paulo, ajuda a
compreender essa mudança. Ao relatar conversas com representantes do
empresariado, ela registrou uma preocupação que, até pouco tempo, parecia
restrita aos meios diplomáticos e a parte da oposição: o receio de um crescente
nível de interferência norte-americana na economia e na política brasileiras, a
ponto de alguns interlocutores compararem esse risco ao ocorrido recentemente
na Venezuela.
A
referência à Venezuela não significa que o Brasil esteja vivendo a mesma
situação nem autoriza previsões automáticas. Mas indica que atores econômicos
relevantes passaram a enxergar uma escalada na pressão política exercida por
Washington.
Nos
últimos meses, o governo Donald Trump combinou tarifas comerciais, críticas
públicas, decisões do STF e manifestações de integrantes de sua política
externa sobre assuntos internos brasileiros. O secretário de Estado Marco Rubio
transformou o Brasil em tema recorrente de seus pronunciamentos. A questão
deixou de ser apenas econômica. Passou a ser geopolítica.
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A percepção do risco
O que
aconteceu para que isso passasse a ser novamente discutido? Os fatos ajudam a
responder. Primeiro vieram as tarifas impostas pelo governo Donald Trump contra
produtos brasileiros, acompanhadas de sucessivos atritos comerciais e
diplomáticos. Em seguida, multiplicaram-se as declarações de Marco Rubio
criticando decisões do STF e questionando medidas adotadas pelo governo
brasileiro. Ao mesmo tempo, lideranças ligadas ao trumpismo passaram a tratar a
eleição presidencial brasileira como um dos acontecimentos políticos mais
importantes da América do Sul. Nada disso parece ocorrer isoladamente.
Desde
que retornou à Casa Branca, Donald Trump vem reconstruindo uma ampla rede
internacional de governos, partidos e lideranças alinhadas ao seu projeto
político. Hoje, toda a América do Sul encontra-se governada por forças de
direita ou de extrema direita. Restam poucas exceções. E apenas um país reúne
peso demográfico, econômico, energético, ambiental e geopolítico suficiente
para alterar o equilíbrio político do continente: o Brasil.
É
justamente essa dimensão estratégica que ajuda a compreender por que a
contestação antecipada das eleições reaparece agora com tanta intensidade.
Quando a eleição brasileira passa a ser vista como peça decisiva da disputa
política sul-americana, a circulação internacional dessas estratégias deixa de
ser um detalhe. Passa a integrar o próprio contexto da campanha presidencial.
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O roteiro já foi visto
Quem
acompanha apenas os acontecimentos das últimas semanas pode imaginar que se
trata de mais uma controvérsia eleitoral brasileira. Não é. Esse roteiro já foi
utilizado antes. Nos Estados Unidos, Donald Trump passou meses afirmando que
somente perderia as eleições de 2020 se houvesse fraude. Antes mesmo da
votação, lançou dúvidas sobre o sistema eleitoral, desqualificou autoridades
responsáveis pela organização do pleito e alimentou a ideia de que uma eventual
derrota somente poderia resultar de manipulação.
Depois
vieram as ações judiciais. Todas foram rejeitadas por falta de provas.
Auditorias confirmaram o resultado eleitoral. Autoridades republicanas
reconheceram a vitória de Joe Biden.
Nada
disso foi suficiente para impedir que milhões de eleitores continuassem
convencidos de que a eleição lhes havia sido roubada. A invasão do Capitólio,
em Washington, em 6 de janeiro de 2021, não nasceu de um impulso coletivo
repentino. Foi o desfecho de uma estratégia construída durante muitos meses. O
Brasil conheceu sequência semelhante.
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O 8 de janeiro começou muito antes
Em
julho de 2022, Jair Bolsonaro reuniu embaixadores no Palácio da Alvorada para
apresentar acusações contra o sistema eleitoral brasileiro que jamais foram
comprovadas. A cena guarda impressionante semelhança com o episódio
protagonizado agora por Flávio Bolsonaro diante de diplomatas estrangeiros.
Mudam
os personagens. O roteiro permanece. Jair Bolsonaro repetiu inúmeras vezes que
as urnas eletrônicas não eram confiáveis e que apenas uma fraude explicaria sua
derrota. Quatro anos depois, Flávio Bolsonaro retoma a mesma lógica. Com as
mesmas palavras. E com a mesma plateia.
Quando
Luiz Inácio Lula da Silva venceu as eleições de 2022, parte significativa do
eleitorado bolsonarista já estava convencida de que o resultado era ilegítimo.
As manifestações diante dos quartéis e o badernaço de 8 de janeiro de 2023 não
nasceram naquele domingo.
Foram
precedidos por uma longa campanha destinada a enfraquecer a confiança pública
nas instituições encarregadas de organizar e legitimar o processo eleitoral.
Essa talvez seja a principal lição daqueles acontecimentos. O problema nunca
foi apenas a invasão dos prédios públicos. Ela foi o último ato de um longo
processo.
Por
isso, quando discursos semelhantes reaparecem, o mais importante não é
perguntar se a história irá repetir-se exatamente da mesma maneira. Ela nunca
se repete. A pergunta correta é outra: o roteiro voltou a ser encenado? Com que
objetivo?
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Uma estratégia sem fronteiras
Existe
outro aspecto que diferencia a eleição presidencial de 2026 das disputas
anteriores. Ela deixou de ser apenas um assunto interno. Nos últimos anos,
lideranças do bolsonarismo ampliaram abertamente a articulação com organizações
e personagens centrais do universo político ligado ao trumpismo.
Eduardo
Bolsonaro tornou-se presença frequente em encontros internacionais da extrema
direita e passou a atuar como uma das principais pontes entre o ambiente
político do bolsonarismo brasileiro e a extrema direita da América do Sul,
liderada por Donald Trump.
Ao
mesmo tempo, integrantes influentes da política externa norte-americana
passaram a comentar, com frequência crescente, decisões do STF, investigações
envolvendo lideranças bolsonaristas e os rumos da sucessão presidencial
brasileira.
Os
fatos permitem afirmar que existe uma coordenação internacional destinada a
interferir diretamente nas eleições brasileiras. E autorizam também outra
conclusão.
Mostram
que estratégias, discursos e formas de mobilização passaram a circular
internacionalmente entre movimentos de extrema direita. A contestação
preventiva das eleições tornou-se uma das marcas desse repertório político. Ela
atravessa fronteiras. Adapta-se às circunstâncias nacionais. Mas preserva a
mesma lógica.
Primeiro,
enfraquece-se a confiança pública. Depois, questiona-se a legitimidade das
instituições. Por fim, caso o resultado eleitoral seja desfavorável, a
narrativa já estará pronta.
É
exatamente por isso que a eleição brasileira passou a despertar tamanho
interesse internacional. O Brasil representa hoje a principal disputa política
em aberto na América do Sul. Sua dimensão territorial, econômica, ambiental e
geopolítica faz com que o resultado de 2026 tenha consequências muito além das
fronteiras nacionais.
É nesse
contexto que soberania nacional e integridade eleitoral deixam de ser temas
separados. Passam a integrar a mesma discussão.
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A democracia se defende
Ao
visitar, nesta sexta-feira, 24, as instalações da Avibras, empresa estratégica
da indústria nacional de defesa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou
que o Brasil precisa investir em tecnologia, conhecimento científico e
capacidade militar “para não deixar ninguém meter o nariz nesse país”.
Quando
uma eleição presidencial passa a despertar o interesse explícito de atores
políticos estrangeiros, quando disputas internas deixam de produzir efeitos
apenas dentro das fronteiras nacionais e quando estratégias de contestação
eleitoral passam a circular internacionalmente, a defesa da democracia deixa de
ser apenas um problema institucional.
Passa a
ser também uma questão de soberania. Durante grande parte do século XX,
imaginava-se que golpes de Estado começavam com tropas nas ruas, tanques diante
dos palácios e quartéis em rebelião. O século XXI mostrou outra realidade. Eles
podem começar muito antes.
Começam
quando milhões de cidadãos são levados a acreditar, antes mesmo de votar, que
seu voto talvez não seja respeitado. Começam quando a suspeita vale mais do que
a prova. Quando versões passam a importar mais do que evidências.
O que
estará em disputa nas urnas brasileiras não será apenas a sucessão
presidencial. Será o lugar do país diante da ofensiva internacional da
ultradireita. Não há mais espaço para ingenuidade. O bolsonarismo não é um
fenômeno isolado nem puramente nacional.
Ele faz
parte de uma constelação autoritária mais ampla, que tem em Trump seu centro
simbólico e estratégico. O que parece crise norte-americana já produz efeitos
concretos sobre a América Latina. E o Brasil reaparece, mais uma vez, como
terreno decisivo dessa disputa.
• “A receita está dada”: o risco de uma
escalada no ambiente digital das eleições. Por Leonardo Sobreira
O risco
de interferências no ambiente virtual, de vulnerabilidade no ecossistema de
dados e de manipulação no debate público tornou-se o ponto de partida para que
o Palácio do Planalto passasse a considerar medidas para fortalecer a defesa do
ambiente digital brasileiro como uma pauta estratégica e central.
Interlocutores do governo indicam que a proteção do ecossistema tecnológico se
tornará uma pauta decisiva na disputa das eleições e no planejamento do próximo
mandato. O tema abrange desde a atuação das grandes empresas de tecnologia até
a consolidação de infraestruturas estratégicas de inteligência artificial,
centros de processamento de dados e a segurança das urnas eletrônicas.
A
avaliação surge em meio à crescente pressão dos Estados Unidos contra a
regulamentação no Brasil sobre a atuação de empresas americanas de tecnologia.
A ofensiva internacional é interpretada como uma “tentativa de influenciar” o
debate legislativo brasileiro, que segue em andamento sem conclusão no
Congresso Nacional.
A
diplomacia parlamentar norte-americana alegou que o país estaria se aproximando
do modelo regulatório europeu. Interlocutores da Presidência rebatem essa tese,
enfatizando que os avanços normativos brasileiros até o momento concentraram-se
essencialmente em proteger crianças e mulheres de vulnerabilidades no das redes
sociais.
Na
avaliação do Planalto, a postura dos congressistas dos EUA reflete uma visão
prepotente baseada no poder econômico, na qual predomina a postura de que, “ou
você se subjuga ao que eles querem, ou não tem acordo”. Com isso, entrou no
radar do Planalto o risco de uma intensificação da pressão eleitoral exercida
por grandes corporações digitais, no contexto da pré-campanha eleitoral.
Ceder
de imediato à pressão significaria correr o risco de transformar as atuais
exigências em uma escalada de novas demandas, além de projetar uma imagem de
fragilidade do governo, abrindo espaço para reivindicações ainda mais amplas.
Embora
o movimento de pressão do Executivo e do Legislativo dos EUA fosse esperado, o
Planalto projeta que a investida “não terá efeito” junto ao Executivo, restando
monitorar como o comportamento se desdobrará em relação ao Poder Legislativo. O
compromisso do governo é de que o país analisará o tema focado exclusivamente
nas suas próprias necessidades.
O
alerta em torno da influência eleitoral das grandes plataformas digitais parte
de uma constatação difícil de ignorar: seu poder de moldar o debate público já
é amplamente conhecido, assim como o histórico de utilização desses
instrumentos por plataformas dos Estados Unidos em particular como elemento de
pressão sobre outros países. Enquanto isso, as discussões continuam travadas
com o Congresso Nacional.
Na
avaliação de uma fonte do Planalto, a soberania digital não se limita apenas a
uma postura “defensiva”, mas diz respeito a refletir sobre a capacidade
nacional de criar autonomia e infraestrutura própria de um ecossistema
tecnológico.
Nesse
diagnóstico, a gestão e a propriedade dos dados tornaram-se um ativo tão
estratégico quanto os minerais críticos. O desafio é evitar que a riqueza
gerada pelas informações dos brasileiros continue sendo “minerada” fora do
país, sintetizou uma fonte palaciana.
O
debate sobre a soberania tecnológica conecta-se diretamente à defesa da
confiabilidade das urnas eletrônicas. Diante do histórico de contestação de
resultados eleitorais por setores da direita em diferentes países, somado a
recentes declarações de Flávio Bolsonaro, ganha força a possibilidade de que
uma eventual vitória de Luiz Inácio Lula da Silva seja alvo de questionamentos
por aliados internacionais do bolsonarismo. A “receita está dada”, disse uma
fonte palaciana.
A
disputa ganhou novo fôlego após 20 congressistas republicanos dos Estados
Unidos enviarem uma carta ao Escritório do Representante Comercial da Casa
Branca (USTR) pedindo medidas contra o Brasil em razão do Projeto de Lei 4.675,
que amplia os poderes do Cade para regular mercados digitais e combater
práticas anticoncorrenciais das plataformas. Os parlamentares alegam que a
proposta segue o modelo da legislação europeia e impõe um regime regulatório
considerado discriminatório às plataformas norte-americanas. Sua eventual
aprovação poderia agravar as barreiras às empresas digitais dos EUA e ampliar
as tensões comerciais entre os dois países.
As
empresas de tecnologia e entidades que as representam sustentam que já adotam
mecanismos amplos de autorregulação e de moderação de conteúdo, e defendem que
a exigência de ordem judicial prévia para a remoção de publicações — regra
original do Marco Civil da Internet — é o que garante segurança jurídica e
evita decisões arbitrárias sobre o que pode ou não circular na Internet.
Fonte:
Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

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