A
China e a disputa global pelo conceito de direitos humanos
A
modernização de 175 mil quilômetros de tubulações, a renovação de 500 mil
moradias rurais, o aumento da expectativa de vida para 80 anos e a redução da
mortalidade infantil para 3,5 por mil são algumas das metas do Plano Estatal de
Ação sobre Direitos Humanos (2026-2030), apresentado há algumas semanas em
Pequim. Para qualquer leitor acostumado a associar os direitos humanos aos
pilares de Memória, Verdade e Justiça, o inventário chinês pode parecer, no
mínimo, desconcertante.
A
explicação aparece na própria lógica do pensamento chinês: o desenvolvimento
coletivo é a base sobre a qual se estruturam todos os direitos. Não há nada
mais relevante. Por isso, emprego, moradia, saúde e educação ocupam um lugar
central na agenda estatal, ao contrário das democracias ocidentais, onde o
debate público sobre direitos humanos costuma se concentrar nas liberdades
civis e políticas.
Esse
contraste conceitual se torna ainda mais evidente ao observar algumas
experiências da América Latina. Em países como a Argentina, a defesa dos
direitos humanos nasceu como uma trincheira de resistência civil diante da
violência sistemática do Terrorismo de Estado. Para a memória histórica da
região, os direitos humanos tiveram como missão preservar garantias individuais
e o devido processo legal, como limites intransponíveis diante dos abusos do
aparato estatal. Trata-se de uma concepção essencialmente defensiva.
Pequim
ensaia o caminho inverso. Em sua tradição política, o Estado é concebido como o
motor indispensável e o garantidor do bem-estar coletivo. Enquanto no Ocidente
os direitos humanos são conquistados diante do Estado, no modelo chinês eles se
realizam por meio dele; uma diferença que frequentemente transforma as relações
internacionais em um diálogo de surdos, no qual ambos os lados utilizam a mesma
expressão para se referir a visões de mundo completamente distintas.
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Da pobreza à IA
Essa
busca pelo desenvolvimento coletivo atravessa toda a arquitetura do novo plano.
Dividido em oito capítulos, este é o quinto documento sobre direitos humanos
publicado pela China desde 2009, com uma estrutura praticamente inalterada. O
texto começa pelos direitos econômicos, sociais e culturais; segue pelos
direitos civis e políticos; incorpora os direitos ambientais e termina com
capítulos dedicados a mulheres, crianças, idosos e pessoas com deficiência. A
ordem não é casual. Ela reflete a hierarquia de prioridades que Pequim sustenta
há décadas.
Sob
essa perspectiva, as autoridades chinesas costumam apresentar como um de seus
principais resultados a retirada de mais de 800 milhões de pessoas da pobreza e
a formação de uma classe média de cerca de 400 milhões de habitantes, com
expectativa de ampliação para aproximadamente 800 milhões até 2035. Para o
governo chinês, esses avanços não representam apenas indicadores econômicos.
Eles também fazem parte de seu balanço em matéria de direitos humanos.
Um dos
principais diferenciais do documento é que ele evita formulações genéricas e
estabelece diversos objetivos mensuráveis para 2030. Os governos locais deverão
renovar 500 mil moradias rurais, recuperar 115 mil conjuntos habitacionais
antigos e construir ou modernizar 175 mil quilômetros de redes urbanas de água.
A expectativa de vida deverá chegar aos 80 anos, a cobertura de água encanada
nas áreas rurais alcançará 98%, a mortalidade infantil cairá para 3,5 por mil e
a taxa bruta de matrícula no ensino superior aumentará de 60% para 65%. Na
China, os planos quinquenais costumam ser avaliados melhor com uma calculadora
do que com um discurso.
Há
também um capítulo dedicado aos chamados direitos emergentes. A inteligência
artificial, a economia digital e a proteção de dados pessoais deixam de
aparecer como temas exclusivamente tecnológicos para ingressar na agenda dos
direitos humanos. O plano prevê fortalecer a legislação sobre privacidade,
ampliar os mecanismos de supervisão de algoritmos e promover o uso de
tecnologias digitais com o objetivo declarado de melhorar o bem-estar da
população. Durante décadas, o futuro chinês foi construído nas fábricas. Agora,
também é programado em algoritmos.
Outro
capítulo trata da educação em direitos humanos. A proposta é incorporar esses
conteúdos em diferentes níveis de ensino, fortalecer centros de pesquisa
especializados e desenvolver novas ferramentas digitais para sua disseminação.
O programa também busca envolver mais as empresas por meio de mecanismos de
avaliação sobre responsabilidade social e direitos humanos, especialmente em
contratações públicas. Nesse modelo, os direitos humanos deixam de ser uma
discussão restrita a advogados e diplomatas. Também passam pelas salas de aula,
pelas empresas e pelos órgãos públicos.
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Um debate aberto
Entre
os participantes do Fórum 2026 sobre Governança Global de Direitos Humanos,
onde o plano foi apresentado, houve especialistas que valorizaram essa
concepção ampliada adotada pela China. Marco Cabero, presidente da Países da
Rota Andina para a Ciência e Tecnologia, afirmou que “não pode haver
desenvolvimento quando os direitos humanos são violados” e alertou que nenhum
crescimento econômico pode ser considerado bem-sucedido se prejudicar as
pessoas, o meio ambiente ou a cultura de uma sociedade. Em sua avaliação, “o
desenvolvimento só adquire sentido quando melhora efetivamente a vida da
população”.
Na
mesma linha, Dayron Valido Escalona, especialista do Ministério das Relações
Exteriores de Cuba em assuntos socio-humanitários, considerou que a China
registrou avanços em direitos humanos nos últimos anos e relacionou esses
progressos à capacidade do Estado de destinar recursos ao fortalecimento de
políticas sociais. Segundo sua análise, as possibilidades econômicas de cada
país condicionam, em grande medida, o alcance efetivo desses direitos.
É
evidente que nem todos os acadêmicos observam o fenômeno sob a mesma
perspectiva. Randall Peerenboom, professor de Direito e um dos especialistas
ocidentais que mais estudaram o sistema jurídico chinês, há anos questiona os
dois extremos do debate. Ele reconhece avanços sociais difíceis de ignorar, mas
alerta que isso não torna irrelevante a discussão sobre liberdades civis e
políticas. Observar apenas metade do tabuleiro, segundo ele, leva a
diagnósticos incompletos.
Organizações
como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional apontam que avanços em
saúde, educação ou redução da pobreza não substituem a necessidade de garantir
plenamente determinadas liberdades civis e políticas que são alvo de denúncias
públicas. Nessa perspectiva, os indicadores sociais representam um avanço
importante, mas não são suficientes para avaliar integralmente a situação dos
direitos humanos. É justamente nesse ponto que permanece a maior divergência
entre os dois modelos.
O
debate provavelmente continuará aberto muito depois de 2030. As definições
seguirão sendo confrontadas em relatórios, conferências e fóruns
internacionais. Enquanto isso, a China já colocou outra questão em debate. Se
uma família conquista moradia, emprego, educação, atendimento médico e uma vida
mais longa, isso faz parte dos direitos humanos ou é apenas uma consequência
deles? Pequim acredita ter a resposta. O restante do mundo continua discutindo
a pergunta.
¨
O que a China ensina sobre transformar ‘terra raras’ em
tecnologia
Você
certamente já ouviu falar em terras raras. O nome parece
distante, quase coisa de laboratório ou de mineração pesada, mas elas estão
muito mais perto da nossa vida cotidiana do que a gente imagina.
Esses minerais estão em
tecnologias que usamos todos os dias: celulares, computadores, telas, fones de
ouvido, carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, sistemas de
alta precisão e ímãs permanentes.
Ao
falar de terras raras, portanto, não
estamos tratando apenas de mineração. Estamos falando da base material de boa
parte da vida moderna.
Quando
comecei a ler mais sobre o tema, uma coisa me chamou atenção: a China não
lidera esse setor apenas porque tem reservas importantes. Lidera porque tratou
as terras raras como parte de uma estratégia nacional de desenvolvimento,
articulando mineração, pesquisa, tecnologia, indústria e planejamento de longo
prazo.
É por
isso que essa experiência pode inspirar o Brasil neste momento. O país reúne uma das
maiores reservas de terras raras do mundo, frequentemente apontada como a
segunda maior, atrás apenas da China. Mas ter esse patrimônio mineral é apenas
o ponto de partida.
A
questão central é como transformar essa riqueza em pesquisa, beneficiamento,
tecnologia, indústria e agregação de valor. No século 21, o valor das terras
raras não está apenas na extração. Está na capacidade de dominar as etapas mais
sofisticadas da cadeia produtiva.
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Quando minério vira estratégia
A China
trata as terras raras como parte de uma estratégia integrada de
desenvolvimento. Ao longo das últimas décadas, combinou planejamento de longo
prazo, pesquisa científica, política industrial, regulação ambiental e domínio
das etapas de maior valor agregado da cadeia.
É aqui
que o tema fica mais interessante para mim. As terras raras mostram como, no
século 21, certos minerais deixaram de ser apenas assunto de mineração e
passaram a integrar uma agenda muito mais ampla, ligada à tecnologia, à
indústria, à transição energética e ao desenvolvimento sustentável.
O
verdadeiro valor, portanto, não está apenas em retirar o minério do subsolo.
Está na capacidade de transformá-lo em tecnologia. É nesse ponto que a China se
destaca: sua liderança não se explica apenas pela existência de reservas
naturais, mas por uma escolha de desenvolvimento baseada em organização,
continuidade e capacidade tecnológica.
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Uma construção de décadas
Essa
trajetória não surgiu de uma hora para outra. A base da atuação chinesa no
setor começou a ser construída ainda nas décadas finais do século 20, quando o
país passou a tratar as terras raras como parte de uma estratégia industrial de
longo prazo.
A
partir dos anos 1980, com a reorientação econômica conduzida por Deng Xiaoping,
a China combinou abertura ao investimento, coordenação estatal e prioridade a
setores considerados estratégicos. Foi nesse contexto que as terras raras
deixaram de ser vistas apenas como uma atividade extrativa e passaram a
integrar um projeto mais amplo de desenvolvimento tecnológico.
Com o
tempo, esse projeto avançou para etapas cada vez mais complexas, como refino,
separação química, produção de materiais avançados e aplicações industriais de
alto valor agregado.
Nos
anos 1990 e 2000, a estratégia ganhou escala. A China ampliou sua produção e se
consolidou como uma das principais fornecedoras globais. Mas o ponto decisivo
não foi apenas produzir mais. O país também passou a organizar melhor o setor,
com mecanismos de controle, estímulo à agregação de valor e fortalecimento de
empresas nacionais.
A
lógica era clara: usar a vantagem na produção para avançar nas etapas mais
sofisticadas da cadeia.
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Valor das cadeias produtivas
A
partir da década de 2010, a China passou a reorganizar o setor de terras raras
com mais rigor. O objetivo deixou de ser apenas ampliar a produção e passou a
envolver também qualidade, tecnologia, regulação ambiental e melhor coordenação
da cadeia produtiva.
Essa
mudança marcou uma nova etapa. As terras raras passaram a ser tratadas de forma
cada vez mais explícita como recurso estratégico, conectado a políticas
industriais mais amplas e a setores como veículos elétricos, energia limpa,
eletrônicos, materiais avançados e sistemas de alta precisão.
Esse
movimento se aprofundou com a incorporação do tema aos planos nacionais de
desenvolvimento, como o 13º Plano Quinquenal e seu Plano Nacional para
Indústrias Estratégicas Emergentes, que conecta as terras raras a setores como
novas energias, novos materiais, alta tecnologia e manufatura avançada.
A mesma
orientação aparece no Made in China 2025 e no livro branco Situação e políticas
da indústria de terras raras da China, que reforçam a importância da inovação, da
proteção ambiental e do uso racional desses recursos.
Mais
recentemente, o Regulamento de
Gestão das Terras Raras, aprovado pelo Conselho de Estado e em vigor desde 1º de
outubro de 2024, consolidou essa abordagem ao tratar o setor a partir de temas
como proteção dos recursos, desenvolvimento racional, segurança industrial,
inovação tecnológica e desenvolvimento verde.
Em
outras palavras, a China não olha para as terras raras apenas como minério, mas
como parte de uma política articulada de longo prazo.
É nessa
passagem que está o ponto central. O foco deixou de estar apenas na
matéria-prima e se deslocou para inovação, processamento, patentes e aplicações
de alto valor agregado. É justamente aí que se concentra o maior valor
econômico e tecnológico.
Hoje, o
resultado dessa trajetória é visível. A China tem papel central não apenas na
produção global de terras raras, mas também em etapas críticas do processamento
e da transformação industrial, das quais dependem setores inteiros da economia
contemporânea.
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Mineração, ciência e futuro
A
principal lição dessa trajetória é simples, mas decisiva: no século 21, possuir
recursos naturais já não basta. O que define o lugar de um país nas cadeias
globais é sua capacidade de transformar esses recursos em conhecimento,
tecnologia e indústria.
As
terras raras mostram exatamente isso. Elas começam no subsolo, mas seu
verdadeiro valor aparece depois: nos laboratórios, nas fábricas, nos centros de
pesquisa, nas patentes e nos produtos que moldam a vida contemporânea.
É por
isso que a experiência chinesa ajuda a ampliar o olhar sobre o tema e pode
servir de inspiração para o Brasil. Não se trata apenas de mineração. Trata-se
de planejamento, inovação e desenvolvimento de longo prazo.
No fim,
falar de terras raras é falar de futuro. E esse futuro será cada vez mais
definido por quem souber conectar recursos naturais, ciência, indústria e
tecnologia em uma mesma estratégia.
Fonte: Por
Fernando Capotondo, em Brasi 247/Opera Mundi

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