A
nova face do imperialismo: o poder corporativo que disputa a soberania
brasileira
Vinte
parlamentares republicanos dos Estados Unidos enviaram ao governo Donald Trump
um pedido que deveria acender todos os alarmes em Brasília. Eles querem que
Washington pressione o Brasil a modificar ou abandonar o Projeto de Lei 4.675,
criado para permitir que o Estado brasileiro enfrente práticas
anticoncorrenciais nos mercados digitais. Caso o Congresso Nacional insista em
aprová-lo, defendem a adoção de novas medidas comerciais contra o país. A carta
foi encaminhada ao chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados
Unidos, o USTR, no mesmo dia em que o governo norte-americano anunciou tarifas
adicionais de 25% sobre produtos brasileiros. É difícil encontrar uma imagem
mais nítida do poder contemporâneo. Um projeto discutido dentro do Parlamento
brasileiro, destinado a regular empresas que operam em território nacional,
passa a ser tratado em Washington como ameaça aos interesses dos Estados
Unidos. Congressistas estrangeiros arrogam-se o direito de determinar até onde
pode avançar a legislação de outro país. E corporações privadas, algumas das
mais ricas e poderosas da história, deixam de aparecer apenas como empresas
sujeitas às leis brasileiras para emergir como ativos estratégicos protegidos
pelo poder econômico, diplomático e coercitivo da principal potência do sistema
internacional.
Não se
trata de uma controvérsia técnica sobre concorrência. Tampouco de um conflito
ocasional provocado por excessos regulatórios. O que está em curso é uma
disputa sobre quem possui autoridade para estabelecer as regras da economia
digital brasileira: as instituições eleitas pelo povo brasileiro ou
conglomerados estrangeiros capazes de mobilizar o aparelho de Estado de seu
país de origem contra qualquer limite que ameace seus modelos de acumulação. As
Big Techs não são empresas convencionais. Controlam infraestruturas pelas quais
circulam informação, publicidade, dinheiro, conhecimento, relações sociais e
parte crescente da vida política. Conhecem populações inteiras por meio de
volumes de dados que nenhum governo democrático jamais concentrou. Organizam a
visibilidade pública por sistemas opacos, definem as condições de acesso a
mercados e podem alterar unilateralmente as regras imposedas a cidadãos,
empresas e instituições. Seu poder já não cabe nas categorias confortáveis com
que o liberalismo costumava separar mercado, Estado e sociedade. Durante anos,
elas venderam essa concentração brutal como inovação. Apresentaram dependência
como conveniência, vigilância como personalização e monopólio como eficiência.
Quando os Estados começaram a reagir, a máscara caiu. A retórica libertária
cedeu lugar ao lobby agressivo; a promessa de conectar o mundo revelou uma
máquina privada de disciplinar governos; e a suposta neutralidade tecnológica
mostrou sua natureza material: propriedade concentrada, interesses monopolistas
e capacidade de transformar poder econômico em pressão política.
A
notícia não inaugura esse processo. Apenas ilumina sua etapa mais avançada.
Antes de recorrerem abertamente à força comercial dos Estados Unidos, essas
corporações já haviam testado, dentro do Brasil, sua capacidade de deformar o
debate público, intimidar parlamentares, paralisar regulações e transformar
seus próprios interesses em falsas causas universais. O caminho que liga o PL
2630 à ofensiva contra o PL 4.675 revela algo maior do que uma sequência de
disputas legislativas. Revela a formação de uma arquitetura imperial adaptada
ao século XXI.
Durante
muito tempo, atribuiu-se às Big Techs o papel de protagonistas de uma revolução
tecnológica destinada a democratizar a informação, ampliar liberdades e reduzir
barreiras entre sociedades. Essa narrativa cumpriu uma função política
decisiva. Enquanto o debate público celebrava inovação, conectividade e
empreendedorismo, um processo muito mais profundo avançava silenciosamente: a
concentração inédita de poder econômico, informacional e político nas mãos de
um número cada vez menor de corporações privadas.
O caso
do Projeto de Lei 2.630 expôs esse processo de maneira inequívoca. Ao contrário
da narrativa construída por seus opositores, o projeto não nasceu como uma
iniciativa improvisada nem foi produto de uma decisão isolada do Congresso
Nacional. Sua tramitação atravessou quatro anos de debates, audiências
públicas, negociações e sucessivas reformulações. Parlamentares, juristas,
pesquisadores, representantes da sociedade civil, veículos de comunicação e as
próprias plataformas participaram intensamente da construção do texto. Ao longo
desse percurso, diversos dispositivos foram alterados, flexibilizados ou
simplesmente retirados para acomodar críticas e ampliar consensos. Poucos
projetos de lei passaram por um processo de maturação institucional tão extenso
na história recente do país. Ainda assim, quando a possibilidade concreta de
aprovação se aproximou, as principais plataformas digitais abandonaram qualquer
aparência de neutralidade. O Google utilizou sua própria página inicial para
atacar o projeto. O Telegram disparou mensagens diretamente a milhões de
usuários brasileiros. Outras empresas recorreram a seus ecossistemas digitais
para ampliar narrativas que associavam a proposta à censura e ao cerceamento da
liberdade de expressão. A discussão deixou de ocorrer apenas no Parlamento e
passou a ser travada dentro das próprias infraestruturas controladas pelas
empresas que seriam reguladas. Esse talvez seja o aspecto mais perturbador de
toda a história. As Big Techs não atuavam apenas como grupos econômicos tentando
influenciar uma decisão política, algo relativamente comum em qualquer
democracia. Elas ocupavam simultaneamente posições que jamais deveriam
coexistir em uma sociedade democrática. Eram as empresas sujeitas à futura
regulação, as proprietárias dos meios pelos quais bilhões de pessoas recebiam
informação, as administradoras dos algoritmos que determinavam alcance e
visibilidade, as intermediárias das relações sociais e, ao mesmo tempo,
participantes ativos da disputa política que definiria os limites de seu
próprio poder.
Nenhum
setor econômico tradicional dispõe de uma vantagem comparável. Bancos não
controlam o sistema pelo qual a população forma sua opinião sobre a regulação
bancária. Montadoras não administram os canais que organizam o debate nacional
sobre a indústria automobilística. Empresas de energia não determinam quais
argumentos ganharão maior alcance quando sua atividade estiver em discussão. As
Big Techs, sim. Essa assimetria representa uma ruptura histórica na relação
entre poder privado e democracia. É justamente por isso que reduzir esse
episódio à palavra “lobby” significa subestimar sua gravidade. Lobby pressupõe
a tentativa de convencer quem decide. O que se viu no caso brasileiro foi algo
qualitativamente diferente: corporações privadas utilizando as próprias
infraestruturas que controlam para moldar a percepção pública sobre a
legislação destinada a limitar seu poder. Não se tratava apenas de defender
interesses econômicos. Tratava-se de influenciar as condições sob as quais a
própria sociedade compreenderia o debate. As empresas costumam apresentar seus
algoritmos como ferramentas neutras, guiadas exclusivamente por critérios
técnicos. A experiência brasileira demonstrou o contrário. Quando interesses
econômicos estruturais entraram em risco, a suposta neutralidade desapareceu.
As plataformas revelaram aquilo que sempre foram: atores políticos de primeira
grandeza, capazes de transformar arquitetura tecnológica em instrumento de
pressão institucional. A inovação deixou de ser apenas um modelo de negócios. Tornou-se
uma forma de exercício de poder. O fracasso do PL 2.630, portanto, não deve ser
compreendido apenas como a derrota de um projeto específico. Ele marcou a
primeira demonstração explícita, em escala nacional, da capacidade dessas
corporações de utilizar seu domínio sobre as infraestruturas digitais para
elevar o custo político da regulação. O que estava em jogo nunca foi apenas uma
lei. Era a definição de um precedente: saber se, no século XXI, sociedades
democraticamente organizadas ainda conservariam o direito de estabelecer
limites ao poder econômico de empresas que passaram a controlar parcelas
essenciais da vida pública.
Seria
um erro imaginar que a paralisação do PL 2.630 representou uma vitória
definitiva das plataformas digitais ou o encerramento do conflito. Na
realidade, ela apenas inaugurou uma nova etapa. Como ocorre em toda disputa
estratégica, quando um campo se torna desfavorável, o conflito é deslocado para
outro. Essa capacidade de transitar entre diferentes arenas de poder talvez
seja uma das características mais sofisticadas do capitalismo digital
contemporâneo. Enquanto parte da opinião pública interpretava o adiamento do
projeto como o fim do debate, as corporações reorganizavam sua estratégia. A
ausência de uma legislação específica manteve aberto um vazio regulatório que
rapidamente passou a ser ocupado por outros atores institucionais. O Supremo
Tribunal Federal foi chamado a enfrentar questões que permaneceram sem resposta
no Congresso. Novos projetos de lei surgiram com escopos mais delimitados.
Órgãos como o Cade, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados e a Anatel
passaram a discutir aspectos distintos do mesmo problema. A disputa não
desapareceu. Apenas deixou de ocorrer em um único espaço. Esse movimento revela
uma lógica recorrente das Big Techs. Ao contrário da imagem de empresas movidas
apenas por inovação e eficiência, elas desenvolveram extraordinária capacidade
de navegar pelas estruturas do Estado moderno. Quando não conseguem impedir
completamente uma regulação, procuram fragmentá-la. Quando perdem espaço no
Parlamento, deslocam o embate para o Judiciário. Quando decisões judiciais lhes
são desfavoráveis, intensificam a pressão sobre agências reguladoras. Quando um
país fortalece seus instrumentos institucionais, recorrem a organismos
internacionais, associações empresariais ou governos estrangeiros. O objetivo
permanece o mesmo: impedir que qualquer centro de poder concentre autoridade
suficiente para impor limites efetivos ao seu modelo de negócios.
Foi
exatamente isso que ocorreu no Brasil. A discussão sobre responsabilidade das
plataformas migrou para o Supremo Tribunal Federal, que acabou estabelecendo
parâmetros provisórios diante da incapacidade do Congresso de concluir a
atualização do marco regulatório. Paralelamente, propostas específicas
avançaram em temas como proteção de crianças e adolescentes, concorrência nos
mercados digitais e inteligência artificial. Cada uma delas passou a enfrentar,
em maior ou menor grau, resistência organizada dos mesmos grupos econômicos. Esse
contraste é revelador. O chamado ECA Digital conseguiu avançar porque tratava
de um tema cuja rejeição pública teria custo político elevadíssimo para
qualquer empresa: a proteção da infância. Já propostas mais amplas, capazes de
alterar estruturalmente o funcionamento das plataformas, passaram a ser
enquadradas como ameaças à liberdade de expressão, à inovação ou à própria
democracia. Não se trata de uma coincidência discursiva. Trata-se de uma
estratégia cuidadosamente construída para transformar interesses econômicos
privados em valores universais aparentemente incontestáveis.
Outro
aspecto raramente observado é que o tempo também produz poder. Cada ano sem
regulação significa bilhões de novos dados coletados, mercados ainda mais
concentrados, maior dependência tecnológica, expansão da inteligência
artificial proprietária e aumento da capacidade de influência política dessas
corporações. A demora regulatória não representa neutralidade. Ela beneficia,
de forma objetiva, quem já ocupa posição dominante. Em mercados digitais
altamente concentrados, adiar decisões frequentemente equivale a decidir em
favor do monopolista. Essa talvez seja uma das maiores ilusões produzidas pelo
debate contemporâneo. Costuma-se afirmar que a tecnologia evolui mais
rapidamente do que o Estado. A afirmação contém apenas parte da verdade. O que
evolui com extraordinária velocidade é a capacidade das grandes plataformas de
explorar as diferenças de tempo entre Parlamentos, tribunais, agências
reguladoras e organismos internacionais. Enquanto as instituições públicas
precisam respeitar procedimentos, transparência e controle democrático, essas
corporações atuam de forma simultânea em todas as frentes, adaptando sua
estratégia sempre que uma delas se torna desfavorável. É justamente nessa
capacidade de deslocar permanentemente o conflito que reside uma das maiores
forças do poder corporativo contemporâneo. Não porque ele seja inevitável, mas
porque aprendeu a transformar a fragmentação institucional dos Estados em uma vantagem
estratégica permanente.
Se a
disputa em torno do PL 2.630 revelou a capacidade das Big Techs de influenciar
o ambiente político brasileiro, os acontecimentos mais recentes mostram que
esse poder não termina nas fronteiras nacionais. Pelo contrário. Ele alcança
sua forma mais sofisticada justamente quando interesses corporativos deixam de
aparecer como demandas privadas e passam a ser incorporados por instrumentos
oficiais de política externa. Esse deslocamento não acontece de forma abrupta
nem por meio de decisões espetaculares. Ele é construído gradualmente.
Associações empresariais produzem estudos, elaboram pareceres, organizam
audiências, apresentam diagnósticos e defendem determinadas interpretações
sobre projetos legislativos. Esses argumentos circulam entre organizações internacionais,
câmaras de comércio, escritórios especializados, representantes diplomáticos e
órgãos governamentais até adquirirem a aparência de posições institucionais. Ao
final desse percurso, aquilo que nasceu como interesse econômico de um pequeno
grupo de empresas retorna ao país de origem da controvérsia sob a forma de
pressão comercial, diplomática ou regulatória. É exatamente essa engrenagem que
começa a aparecer com nitidez no caso brasileiro. O debate sobre a regulação
das plataformas deixou de ser tratado apenas como uma discussão doméstica para
ser enquadrado como um obstáculo aos interesses econômicos norte-americanos. A
linguagem muda. O objetivo permanece. O que antes era apresentado como defesa
da inovação passa a ser descrito como proteção ao livre comércio. O que era
resistência empresarial transforma-se em preocupação diplomática. O que era
lobby corporativo converte-se, pouco a pouco, em política de Estado. Essa
transformação merece atenção porque altera profundamente a natureza do
conflito. Empresas privadas sempre buscaram influenciar governos. Essa é uma
característica conhecida das democracias contemporâneas. O problema surge
quando governos passam a mobilizar seu peso econômico e geopolítico para
proteger, além do razoável, interesses particulares de conglomerados
empresariais que dominam setores estratégicos da economia digital. Nesse
momento, a assimetria deixa de ser apenas econômica. Torna-se uma assimetria de
soberania.
A carta
enviada por parlamentares republicanos ao governo dos Estados Unidos representa
exatamente esse salto qualitativo. Ao solicitar que Washington utilize
instrumentos comerciais para pressionar o Brasil a rever uma proposta
legislativa em discussão no Congresso Nacional, seus signatários deixam
implícita uma premissa profundamente inquietante: a de que decisões soberanas
tomadas pelas instituições brasileiras podem ser submetidas ao escrutínio e à
coerção de uma potência estrangeira sempre que afetarem interesses de suas
grandes corporações tecnológicas. Não se trata de afirmar que empresas privadas
comandem automaticamente a política externa norte-americana, nem de reduzir a
complexidade das relações internacionais a uma teoria conspiratória simplista.
A realidade é mais sofisticada e, justamente por isso, mais preocupante. O que
os documentos revelam é um processo contínuo de convergência entre interesses
corporativos e instrumentos estatais. Ao longo desse caminho, fronteiras entre
lobby empresarial, diplomacia econômica e política comercial tornam-se
progressivamente mais tênues, produzindo uma arquitetura de influência capaz de
operar com enorme legitimidade institucional. Nesse contexto, mecanismos como a
Seção 301 do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos deixam de
ser apenas instrumentos de política comercial. Passam a funcionar, na prática,
como dispositivos de pressão sobre países que buscam estabelecer regras
próprias para setores dominados por empresas norte-americanas. A mensagem
transmitida é inequívoca: determinadas escolhas regulatórias podem acarretar
custos econômicos e diplomáticos suficientemente elevados para desestimular sua
adoção. É nesse ponto que a discussão ultrapassa definitivamente os limites do
debate tecnológico. O centro da disputa já não é apenas como regular
plataformas digitais. O verdadeiro conflito consiste em definir quem possui
legitimidade para decidir sobre o funcionamento da economia digital dentro do
território brasileiro. Se essa decisão puder ser condicionada pela ameaça
permanente de retaliações comerciais ou pressões internacionais, estaremos
diante de uma limitação concreta da capacidade do Estado de exercer uma de suas
atribuições mais elementares: legislar em nome de sua própria sociedade. É
precisamente aí que o conceito de imperialismo readquire atualidade. Não como
repetição mecânica das formas clássicas de dominação territorial, mas como a
capacidade de converter superioridade econômica, tecnológica e institucional em
mecanismos permanentes de condicionamento político sobre outros Estados. No
século XXI, não é necessário ocupar territórios quando se consegue influenciar
as regras que organizam seus mercados, suas infraestruturas digitais e, em
última instância, os limites de sua própria soberania.
Há um
equívoco recorrente que empobrece o debate sobre as plataformas digitais. Quase
sempre, a discussão é apresentada como um confronto entre liberdade de
expressão e regulação, inovação e burocracia, mercado e Estado. Essa narrativa
é conveniente para quem deseja reduzir um conflito estrutural a um embate de
slogans. O problema é que ela oculta precisamente aquilo que está em jogo. A
verdadeira disputa nunca foi sobre publicações removidas, perfis suspensos ou
regras de moderação. Esses temas existem e são relevantes, mas representam
apenas a superfície de uma transformação muito mais profunda. O que está sendo
disputado é quem controlará as infraestruturas sobre as quais se organiza a
economia, a circulação da informação, a produção de conhecimento, o desenvolvimento
da inteligência artificial e, progressivamente, o funcionamento da própria vida
democrática. As Big Techs deixaram há muito tempo de ser empresas
especializadas em tecnologia. Tornaram-se proprietárias das principais
infraestruturas digitais do planeta. Controlam serviços de computação em nuvem
utilizados por governos e empresas, administram mercados globais de
publicidade, concentram volumes gigantescos de dados pessoais, desenvolvem os
modelos de inteligência artificial mais avançados do mundo e operam plataformas
que mediam diariamente bilhões de relações econômicas, sociais e políticas. Em
outras palavras, passaram a ocupar uma posição semelhante à que, em outros
momentos históricos, foi exercida por quem controlava portos, ferrovias, rotas
marítimas, petróleo ou sistemas financeiros.
Nenhuma
nação aceitaria entregar o controle de sua infraestrutura elétrica, de seu
sistema monetário ou de suas comunicações estratégicas a um pequeno grupo de
empresas estrangeiras sem estabelecer mecanismos de supervisão pública. No
entanto, foi exatamente isso que aconteceu com grande parte da infraestrutura
digital contemporânea. Em poucas décadas, Estados transferiram parcelas
essenciais de sua capacidade tecnológica para conglomerados privados cuja
prioridade jamais foi o interesse público, mas a maximização permanente do
retorno aos seus acionistas. Esse deslocamento produziu uma inversão
silenciosa. Durante séculos, mercados existiram porque Estados criavam regras
para garantir seu funcionamento. No capitalismo digital, algumas corporações
acumularam tamanho poder que passaram a pressionar Estados para definir quais
regras estes podem ou não estabelecer. A lógica democrática foi parcialmente
invertida. Em vez de empresas se adaptarem às decisões soberanas da sociedade,
tornou-se cada vez mais frequente observar sociedades pressionadas a adaptar
suas decisões aos interesses de empresas transnacionais.
Essa é
a razão pela qual o debate brasileiro extrapola em muito a regulação das
plataformas. Ele envolve a capacidade do país de proteger seus dados
estratégicos, desenvolver inteligência artificial compatível com seus
interesses nacionais, fortalecer sua indústria tecnológica, preservar a
autonomia de instituições como o Banco Central, a Anatel, a Autoridade Nacional
de Proteção de Dados e o Cade, garantir condições justas para o jornalismo e
impedir que setores inteiros da economia passem a depender exclusivamente de
infraestruturas controladas no exterior. Sob essa perspectiva, soberania
digital não significa isolamento tecnológico nem rejeição à inovação. Significa
assegurar que decisões fundamentais sobre dados, algoritmos, inteligência
artificial, concorrência, tributação e infraestrutura sejam tomadas pelas
instituições legitimadas pela sociedade brasileira, e não condicionadas pelos
interesses econômicos de conglomerados privados sediados além de suas
fronteiras. Existe, portanto, uma dimensão material frequentemente ignorada
nesse debate. Dados são riqueza. Algoritmos são instrumentos de poder.
Infraestruturas digitais são ativos estratégicos. Inteligência artificial
tornou-se fator decisivo de produtividade, competitividade econômica e
capacidade militar. Quem controla esses elementos controla uma parcela
crescente da capacidade de desenvolvimento das nações. Tratar esse processo
apenas como uma evolução natural da tecnologia é despolitizar uma das maiores
concentrações de poder da história do capitalismo.
Talvez
seja justamente esse o maior desafio colocado ao Brasil nas próximas décadas. A
questão central não consiste em escolher entre inovação e regulação, como
insistem os discursos mais simplificadores. A verdadeira escolha será entre
exercer plenamente a soberania sobre as infraestruturas que organizarão o
século XXI ou aceitar que decisões fundamentais para o futuro nacional sejam
condicionadas por corporações que não respondem ao eleitor brasileiro, não se
submetem ao interesse público brasileiro e não têm qualquer compromisso com o
projeto histórico de desenvolvimento do país. A pressão exercida contra o
Brasil em torno da regulação das plataformas digitais dificilmente será um
episódio isolado. À medida que inteligência artificial, computação em nuvem,
infraestrutura de dados e sistemas algorítmicos se consolidarem como os principais
motores da economia mundial, a tendência é que as disputas em torno da
soberania digital se intensifiquem. O país que controla essas infraestruturas
não apenas produz riqueza. Define padrões tecnológicos, influencia mercados,
condiciona cadeias produtivas, estabelece dependências e amplia sua capacidade
de projetar poder muito além de suas fronteiras. Nesse cenário, imaginar que o
Brasil poderá enfrentar esse desafio apenas por meio de respostas fragmentadas
seria um equívoco estratégico. Nenhuma democracia consegue lidar com
corporações dessa dimensão por intermédio de instituições isoladas. A defesa da
soberania digital exige coordenação permanente entre Congresso Nacional, Poder
Judiciário, Executivo, Cade, Autoridade Nacional de Proteção de Dados, Anatel,
Banco Central e demais órgãos responsáveis por proteger o interesse público.
Exige transparência sobre a atuação do lobby corporativo, fortalecimento da
capacidade regulatória do Estado, investimentos em pesquisa, infraestrutura
tecnológica, inteligência artificial, computação em nuvem e uma política
industrial capaz de reduzir a dependência brasileira em setores cada vez mais
decisivos para o desenvolvimento econômico. Esse também é um desafio que
ultrapassa as fronteiras nacionais. Nenhum país do Sul Global, isoladamente,
possui condições de equilibrar a relação de forças com conglomerados cujo
faturamento supera o Produto Interno Bruto de dezenas de nações. A construção
de marcos regulatórios, padrões técnicos e estratégias de desenvolvimento
tecnológico dependerá, cada vez mais, da cooperação entre países que
compartilham interesses semelhantes. América Latina, BRICS e outras iniciativas
multilaterais deixam de ser apenas espaços diplomáticos. Tornam-se instrumentos
concretos para ampliar a capacidade coletiva de negociação diante de um mercado
digital extraordinariamente concentrado.
A
história econômica demonstra que nenhuma potência ascendeu abrindo mão do
controle sobre suas infraestruturas estratégicas. Ferrovias, energia,
telecomunicações, petróleo, sistema financeiro e indústria sempre foram
tratados como temas de soberania. Não existe razão objetiva para que dados,
algoritmos, inteligência artificial e plataformas digitais recebam tratamento
diferente. O que mudou foi a natureza da infraestrutura, não sua importância
para o desenvolvimento nacional. Talvez essa seja a principal lição deixada
pela sequência de acontecimentos que liga o PL 2.630, os julgamentos do Supremo
Tribunal Federal, os novos projetos de regulação e a pressão exercida por
autoridades norte-americanas contra o PL 4.675. Quando corporações privadas
passam a mobilizar mecanismos de política externa para constranger decisões
tomadas por instituições democraticamente constituídas, a discussão deixa de
ser tecnológica, comercial ou jurídica. Ela se torna uma questão de soberania. O
debate sobre as Big Techs nunca tratou apenas da moderação de conteúdo, da
concorrência ou da inteligência artificial. Desde o início, discutiu-se algo
muito maior: quem exercerá autoridade sobre as infraestruturas que organizarão
a economia, a informação e a democracia no século XXI. Em última instância, a
pergunta é simples, embora suas consequências sejam profundas. O Brasil
continuará exercendo plenamente o direito de definir, por meio de suas
instituições, as regras que governam seu próprio território, ou aceitará que
esse espaço seja progressivamente condicionado por centros privados de poder
que não respondem ao eleitor brasileiro, não se submetem ao ordenamento
jurídico brasileiro e não compartilham qualquer compromisso com o projeto
nacional de desenvolvimento?
Essa é
a verdadeira dimensão do debate. O século XXI não será marcado apenas pela
disputa por mercados, tecnologias ou cadeias produtivas. Será marcado,
sobretudo, pela disputa em torno da capacidade dos Estados de preservar sua
autonomia diante de conglomerados privados que acumulam recursos econômicos,
tecnológicos e informacionais em escala sem precedentes. A soberania, que
durante séculos foi defendida em fronteiras, mares e territórios, passou a ser
disputada também em servidores, algoritmos, centros de dados e sistemas de
inteligência artificial. Ignorar essa transformação talvez seja o erro
estratégico mais caro que uma democracia possa cometer. Compreendê-la é o
primeiro passo para impedir que o poder econômico, por mais sofisticado que se
torne, substitua a vontade soberana dos povos.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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