Há
um Brasil onde ninguém está olhando
Na
mitologia grega, os Ciclopes eram criaturas que enxergavam o mundo por um único
olho. Mas as lendas contam da existência de um outro guardião, que possuía uma
infinidade de olhos. Este incansável vigilante, Argos (nome latino), graças aos
seus múltiplos olhos, poderia vigiar mesmo enquanto dormia, visto que só metade
dos olhos dormia. Enquanto alguns descansavam, outros permaneciam atentos,
permitindo-lhe vigiar todas as direções ao mesmo tempo.
Hoje a
democracia brasileira depende muito mais de Argos do que dos Ciclopes.
Fiscalizar o poder exige um olhar acurado e distribuído pelo território,
sobretudo porque o Estado não se resume às instituições em Brasília nem está
circunscrito às imediações da Praça dos Três Poderes.
Uma
pesquisa recente acende um sinal de alerta sobre a corrosão da vigilância,
papel até então exercido pela imprensa.
Gabi
Coelho e Igor Soares publicaram, no final de maio, a pesquisa “Jornalismo Local
sob pressão do poder paralelo”. O levantamento, publicado no Projeto #Colabora,
com o apoio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), entrevistou 38 jornalistas de
veículos das cinco regiões do País, de fevereiro a maio deste ano.
Conclusão:
políticos corruptos, empresários, forças de segurança, facções criminosas,
garimpeiros e latifundiários impactam o trabalho e a segurança do jornalismo
local. Cerca de 89% dos jornalistas (34 dos 38 respondentes) relataram ter
sofrido ao menos algum tipo de hostilidade no exercício da profissão. A
intimidação leva a maioria dos jornalistas (78,9%) a reconhecer não ter apoio
suficiente para continuar operando em situações de risco. Outro grupo
expressivo de profissionais da imprensa (60,5%)
afirma já ter deixado de publicar pautas por medo de represálias.
A
repressão ao trabalho da imprensa local inclui detenção por policiais, abandono
de pauta por atingir assuntos que afetam os próprios anunciantes, além de
ataques cibernéticos. Os jornalistas sofrem, ainda, intimidações nas redes
sociais, intimidações presenciais, ameaças indiretas, pressão de autoridades,
ameaças diretas, restrição de circulação e censura explícita.
Outra
pesquisa, feita na Inglaterra, sinaliza tendências e impactos já detectados no
ambiente midiático brasileiro. O levantamento britânico mostra que a
desinformação cresce em áreas com pouca ou nenhuma cobertura de veículos
jornalísticos locais. No vácuo do desaparecimento de jornais, rádios ou sites
comunitários, surgem grupos de Facebook e outras redes que divulgam informações
sem checagem rigorosa. O estudo indica que nestas comunidades as notícias
continuam circulando, só que muitas vezes chegam falsas, distorcidas ou
manipuladas por interesses políticos.
A
ausência de imprensa regional, no caso do Brasil, é acompanhada pelo Atlas da
Notícia, que busca identificar municípios considerados desertos de notícias –
aqueles que não dispõem de informação jornalística local. De acordo com o
último levantamento, estão nessa situação 2.504 cidades e nelas vivem cerca de
21 milhões de pessoas.
Enquanto
o estudo britânico informa que, ainda mais grave que o “deserto de notícias” é
a emergência de um ambiente vulnerável à desinformação, a radiografia
brasileira aponta a asfixia do jornalismo local sob severa pressão de poderes
paralelos. Sem plena liberdade, decorrente de represálias permanentes aos
profissionais, o jornalismo em escala regional deixa de exercer o papel social
de vigilância sobre a administração pública. Uma cobertura jornalística local
enfraquecida é porta de entrada para manipulação política e difusão de
inverdades. A corrosão da vigilância é um processo silencioso que – sem
informação qualificada – diminui a
capacidade do cidadão de exigir governos mais transparentes e responsáveis.
O
exercício profissional sob assédio permanente compromete a democracia e a
vigilância social sobre o poder público e privado. As maiores vítimas não são o
jornalismo ou a imprensa local, mas a própria sociedade, que perde a capacidade
de acompanhar quem governa mais perto dela.
Por
décadas trabalhando em Brasília – mas percorrendo boa parte do País – ouvi
cidadãos responsabilizarem a capital pela mazela da corrupção e por quase todos
os problemas nacionais – da saúde à educação, da segurança ao saneamento.
Provavelmente há decepções com o poder local, mas governadores, prefeitos,
magistrados, deputados, vereadores, autarquias,
empresas estaduais e municipais parecem escapar de um escrutínio
proporcional ao poder real que exercem sobre a vida cotidiana.
De
acordo com o Portal da Transparência, as transferências de recursos públicos
federais para estados e municípios, em 2025, chegaram à cifra de R$ 810
bilhões, valor equivalente a 16,71% dos
gastos públicos. Somando este valor aos orçamentos próprios de estados e
municípios, há um notável volume de informações de interesse público que os
cidadãos precisam acompanhar e fiscalizar – o que requer um jornalismo local
vigoroso.
Sob tal
prisma, de 2014 a 2021, o Fantástico apresentou o quadro “Cadê o Dinheiro que
Tava Aqui?”. Conduzida por um “repórter secreto”, a série investigativa
oferecia denúncias consistentes sobre desvios e uso irregular de verbas
públicas, englobando obras milionárias paralisadas, contratos fraudulentos e
destino de recursos para pagamentos indevidos e contas irregulares. As
reportagens revelaram inúmeros esquemas e mecanismos que faziam a verba
destinada à população ser canalizada para as mãos de políticos, empresas
fantasmas, laranjas etc.
Eduardo
Faustini, o repórter da série, não poderia ter seu rosto e identidade
revelados; seu anonimato era indispensável para fazer as denúncias. Faustini
explica que o quadro nasceu da percepção de um distanciamento jornalístico da
esfera municipal. “Quando tinha matéria de desvio num município pequeno, a
gente sempre falava: ‘Ah, isso é muito pequeno para o ‘Fantástico’. Isso me
preocupava (…). Um desvio de seis mil, cinco milhões, dez milhões, dois
milhões, o efeito é imediato nesses municípios, você já sente a falta da
medicação, da merenda, e eu queria desenvolver um trabalho que pudesse mostrar
exatamente o mal que isso faz para o município”, explicou Faustini em
depoimento ao Memória Globo.
As
chamadas pautas locais abrangem também os grandes centros urbanos. Em 2023, a
Folha de SP divulgou uma mensagem de um vereador de São Paulo solicitando ao
Secovi-SP (sindicato das construtoras) uma “contrapartida” pela votação que
aprovou o Plano Diretor da cidade. No texto, o vereador aponta que a decisão da
Câmara Municipal “recepcionou quase a totalidade dos pleitos dessa reconhecida
entidade [Secovi]”. O projeto foi duramente criticado porque intensificava,
ainda mais, a verticalização da cidade, além de favorecer amplamente os
negócios das empreiteiras. A imprensa fez a sua parte, talvez pudesse ter dado
mais ênfase, porém enfrentou resistência política da Câmara que não demonstrou
interesse em anular ou revisar uma votação claramente manipulada pelo poder
econômico.
Fortalecer
o jornalismo local não é interesse corporativo, dos profissionais de imprensa,
mas uma condição para reduzir a desinformação e ampliar a responsabilização dos
governos mais próximos do cidadão. A Constituição organizou o país como uma
federação, mas a vigilância jornalística enfrenta o deserto de notícias e as
pressões intimidadoras sobre a imprensa local.
Milhares
de prefeituras, câmaras municipais, tribunais, autarquias e empresas públicas
locais permanecem relativamente pouco observadas. Essa concentração da
vigilância produz um efeito perverso: a capital federal acaba se tornando uma
espécie de bode expiatório dos problemas nacionais. Atribui-se a Brasília a
responsabilidade por quase tudo, enquanto autoridades estaduais e municipais
escapam de um escrutínio proporcional ao poder e aos recursos que administram.
Quanto mais os olhos da imprensa permanecem voltados para o centro do poder,
menor será o foco na responsabilização política dos governos locais, justamente
aqueles cujas decisões afetam mais diretamente o cotidiano do cidadão. Quando
poder local é menos observado, menos responsabilizado, por consequência, fica
menos transparente.
O
desafio do jornalismo de interesse público – aliado estratégico da comunicação
pública – é simultaneamente vigiar a capital e o restante do território
brasileiro. A democracia, como Argos, precisa de muitos olhos.
Fonte:
Por Armando Medeiros de Faria, em Observatório da Imprensa

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