segunda-feira, 27 de julho de 2026

Há um Brasil onde ninguém está olhando

Na mitologia grega, os Ciclopes eram criaturas que enxergavam o mundo por um único olho. Mas as lendas contam da existência de um outro guardião, que possuía uma infinidade de olhos. Este incansável vigilante, Argos (nome latino), graças aos seus múltiplos olhos, poderia vigiar mesmo enquanto dormia, visto que só metade dos olhos dormia. Enquanto alguns descansavam, outros permaneciam atentos, permitindo-lhe vigiar todas as direções ao mesmo tempo.

Hoje a democracia brasileira depende muito mais de Argos do que dos Ciclopes. Fiscalizar o poder exige um olhar acurado e distribuído pelo território, sobretudo porque o Estado não se resume às instituições em Brasília nem está circunscrito às imediações da Praça dos Três Poderes.

Uma pesquisa recente acende um sinal de alerta sobre a corrosão da vigilância, papel até então exercido pela imprensa.

Gabi Coelho e Igor Soares publicaram, no final de maio, a pesquisa “Jornalismo Local sob pressão do poder paralelo”. O levantamento, publicado no Projeto #Colabora, com o apoio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF), entrevistou 38 jornalistas de veículos das cinco regiões do País, de fevereiro a maio deste ano.

Conclusão: políticos corruptos, empresários, forças de segurança, facções criminosas, garimpeiros e latifundiários impactam o trabalho e a segurança do jornalismo local. Cerca de 89% dos jornalistas (34 dos 38 respondentes) relataram ter sofrido ao menos algum tipo de hostilidade no exercício da profissão. A intimidação leva a maioria dos jornalistas (78,9%) a reconhecer não ter apoio suficiente para continuar operando em situações de risco. Outro grupo expressivo de profissionais da imprensa (60,5%)  afirma já ter deixado de publicar pautas por medo de represálias.

A repressão ao trabalho da imprensa local inclui detenção por policiais, abandono de pauta por atingir assuntos que afetam os próprios anunciantes, além de ataques cibernéticos. Os jornalistas sofrem, ainda, intimidações nas redes sociais, intimidações presenciais, ameaças indiretas, pressão de autoridades, ameaças diretas, restrição de circulação e censura explícita.

Outra pesquisa, feita na Inglaterra, sinaliza tendências e impactos já detectados no ambiente midiático brasileiro. O levantamento britânico mostra que a desinformação cresce em áreas com pouca ou nenhuma cobertura de veículos jornalísticos locais. No vácuo do desaparecimento de jornais, rádios ou sites comunitários, surgem grupos de Facebook e outras redes que divulgam informações sem checagem rigorosa. O estudo indica que nestas comunidades as notícias continuam circulando, só que muitas vezes chegam falsas, distorcidas ou manipuladas por interesses políticos.

A ausência de imprensa regional, no caso do Brasil, é acompanhada pelo Atlas da Notícia, que busca identificar municípios considerados desertos de notícias – aqueles que não dispõem de informação jornalística local. De acordo com o último levantamento, estão nessa situação 2.504 cidades e nelas vivem cerca de 21 milhões de pessoas.

Enquanto o estudo britânico informa que, ainda mais grave que o “deserto de notícias” é a emergência de um ambiente vulnerável à desinformação, a radiografia brasileira aponta a asfixia do jornalismo local sob severa pressão de poderes paralelos. Sem plena liberdade, decorrente de represálias permanentes aos profissionais, o jornalismo em escala regional deixa de exercer o papel social de vigilância sobre a administração pública. Uma cobertura jornalística local enfraquecida é porta de entrada para manipulação política e difusão de inverdades. A corrosão da vigilância é um processo silencioso que – sem informação qualificada –  diminui a capacidade do cidadão de exigir governos mais transparentes e responsáveis.

O exercício profissional sob assédio permanente compromete a democracia e a vigilância social sobre o poder público e privado. As maiores vítimas não são o jornalismo ou a imprensa local, mas a própria sociedade, que perde a capacidade de acompanhar quem governa mais perto dela.

Por décadas trabalhando em Brasília – mas percorrendo boa parte do País – ouvi cidadãos responsabilizarem a capital pela mazela da corrupção e por quase todos os problemas nacionais – da saúde à educação, da segurança ao saneamento. Provavelmente há decepções com o poder local, mas governadores, prefeitos, magistrados, deputados, vereadores, autarquias,  empresas estaduais e municipais parecem escapar de um escrutínio proporcional ao poder real que exercem sobre a vida cotidiana.

De acordo com o Portal da Transparência, as transferências de recursos públicos federais para estados e municípios, em 2025, chegaram à cifra de R$ 810 bilhões, valor equivalente a 16,71%  dos gastos públicos. Somando este valor aos orçamentos próprios de estados e municípios, há um notável volume de informações de interesse público que os cidadãos precisam acompanhar e fiscalizar – o que requer um jornalismo local vigoroso.

Sob tal prisma, de 2014 a 2021, o Fantástico apresentou o quadro “Cadê o Dinheiro que Tava Aqui?”. Conduzida por um “repórter secreto”, a série investigativa oferecia denúncias consistentes sobre desvios e uso irregular de verbas públicas, englobando obras milionárias paralisadas, contratos fraudulentos e destino de recursos para pagamentos indevidos e contas irregulares. As reportagens revelaram inúmeros esquemas e mecanismos que faziam a verba destinada à população ser canalizada para as mãos de políticos, empresas fantasmas, laranjas etc.

Eduardo Faustini, o repórter da série, não poderia ter seu rosto e identidade revelados; seu anonimato era indispensável para fazer as denúncias. Faustini explica que o quadro nasceu da percepção de um distanciamento jornalístico da esfera municipal. “Quando tinha matéria de desvio num município pequeno, a gente sempre falava: ‘Ah, isso é muito pequeno para o ‘Fantástico’. Isso me preocupava (…). Um desvio de seis mil, cinco milhões, dez milhões, dois milhões, o efeito é imediato nesses municípios, você já sente a falta da medicação, da merenda, e eu queria desenvolver um trabalho que pudesse mostrar exatamente o mal que isso faz para o município”, explicou Faustini em depoimento ao Memória Globo.

As chamadas pautas locais abrangem também os grandes centros urbanos. Em 2023, a Folha de SP divulgou uma mensagem de um vereador de São Paulo solicitando ao Secovi-SP (sindicato das construtoras) uma “contrapartida” pela votação que aprovou o Plano Diretor da cidade. No texto, o vereador aponta que a decisão da Câmara Municipal “recepcionou quase a totalidade dos pleitos dessa reconhecida entidade [Secovi]”. O projeto foi duramente criticado porque intensificava, ainda mais, a verticalização da cidade, além de favorecer amplamente os negócios das empreiteiras. A imprensa fez a sua parte, talvez pudesse ter dado mais ênfase, porém enfrentou resistência política da Câmara que não demonstrou interesse em anular ou revisar uma votação claramente manipulada pelo poder econômico.

Fortalecer o jornalismo local não é interesse corporativo, dos profissionais de imprensa, mas uma condição para reduzir a desinformação e ampliar a responsabilização dos governos mais próximos do cidadão. A Constituição organizou o país como uma federação, mas a vigilância jornalística enfrenta o deserto de notícias e as pressões intimidadoras sobre a imprensa local.

Milhares de prefeituras, câmaras municipais, tribunais, autarquias e empresas públicas locais permanecem relativamente pouco observadas. Essa concentração da vigilância produz um efeito perverso: a capital federal acaba se tornando uma espécie de bode expiatório dos problemas nacionais. Atribui-se a Brasília a responsabilidade por quase tudo, enquanto autoridades estaduais e municipais escapam de um escrutínio proporcional ao poder e aos recursos que administram. Quanto mais os olhos da imprensa permanecem voltados para o centro do poder, menor será o foco na responsabilização política dos governos locais, justamente aqueles cujas decisões afetam mais diretamente o cotidiano do cidadão. Quando poder local é menos observado, menos responsabilizado, por consequência, fica menos transparente.

O desafio do jornalismo de interesse público – aliado estratégico da comunicação pública – é simultaneamente vigiar a capital e o restante do território brasileiro. A democracia, como Argos, precisa de muitos olhos.

 

Fonte: Por Armando Medeiros de Faria, em Observatório da Imprensa

 

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