Doação
de Vorcaro para ‘Dark Horse’ pode ter ‘alimentado os bolsos da clã Bolsonaro’,
avalia cientista político
O
financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair
Bolsonaro, será investigado pela Polícia Federal (PF). A autorização para
abertura de um inquérito partiu do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal
Federal (STF), nesta quinta-feira (23). Um dos principais objetivos é
investigar o destino das verbas no valor de R$ 61 milhões, pedidas pelo senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro, que supostamente
financiaram a produção.
O
cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), avalia que toda a transação de
recursos envolvendo o dono do Banco Master e o filme são suspeitas e merecem
ser avaliadas, especialmente pelos valores envolvidos.
“Vorcaro
não doaria, por livre consciência e espontaneidade, uma quantidade de recursos
exorbitantes para esse filme, que é mais caro do que produções brasileiras
premiadas como ‘Ainda estou aqui’ e ‘O agente secreto’, e até produções
internacionais. O dinheiro do Banco Master já é sujo por si só, resultado de
extorsões, fraudes contra o sistema financeiro brasileiro. Fica pior ainda
pensar no destino desse dinheiro, que, provavelmente, não foi só para o filme,
mas certamente alimentou os bolsos da família Bolsonaro”, afirma.
Ramirez
aponta que, mesmo Mendonça sendo aliado do bolsonarismo, acertou na autorização
de investigação e considera que ele “se viu numa saia justa”. “Até porque a sua
reputação é mais importante do que apoiar Bolsonaro”, pontua.
O
cientista político também considera suspeito o fato de que parte dos valores
doados por Vorcaro apareceram em uma conta bancária, nos Estados Unidos, de um
advogado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. Para Ramirez, é possível,
sim, que a PF descubra que esse dinheiro servia para custear a permanência de
Eduardo em território estadunidense. Ele também aposta em outro uso do recurso:
abastecer representantes do governo Trump que agiram contra o Brasil.
“Até
que ponto esses recursos do Banco Master não foram utilizados contra o Brasil,
não só pelo Eduardo Bolsonaro, um incentivador do tarifaço, como terem servido
de verba ou propina para influenciar as decisões do governo norte-americano?”,
questiona Ramirez.
• Empresa para a qual Flávio emitiu R$ 1
milhão em notas não é encontrada, diz jornal
A
empresa para a qual o escritório de advocacia do senador e pré-candidato à
Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu cerca de R$ 1 milhão em notas
fiscais canceladas não foi encontrada no endereço declarado à Receita Federal.
A consultoria Copenhagen deveria estar situada em um centro comercial de São
Caetano do Sul, na Grande São Paulo. A informação foi publicada pelo repórter
Juliano Galisi, do Estadão.
Em
visita ao endereço na manhã desta sexta-feira (24), o repórter verificou que a
sala indicada como sede da consultoria Copenhagen é ocupada pela Contábil
Corrêa, empresa do mesmo proprietário, o empresário Rogério Lourenço Novo. O
sócio-administrador da Copenhagen, no entanto, não foi encontrado. Um
funcionário informou que ele “estava de férias”.
As
notas fiscais de R$ 1 milhão emitidas pelo escritório de Flávio Bolsonaro para
a Copenhagen foram canceladas. O escritório também emitiu uma nota fiscal de R$
500 mil para a Contábil Corrêa por serviços de assessoria jurídica, segundo
documentos obtidos pelo portal Metrópoles.
Em
vídeo, Flávio afirmou que prestou “serviços advocatícios” de forma legal,
lícita e privada, mas não explicou por que cancelou as notas fiscais nem
detalhou quais serviços foram prestados. Também não esclareceu como conheceu
Rogério Lourenço Novo.
Segundo
os registros da Receita Federal, a Contábil Corrêa declarou que funciona na
“sala A” do conjunto 47 do edifício, enquanto a Copenhagen informou ter sede na
“sala B” do mesmo endereço. A reportagem do Estadão, no entanto, não encontrou
qualquer identificação que diferenciasse os dois espaços.
Na
recepção do prédio, apenas a Contábil Corrêa aparece na lista de empresas
instaladas no local. O nome da Copenhagen não consta no painel nem na porta da
sala 47, que exibe exclusivamente a marca e a identificação da empresa de
contabilidade.
• Estadão: Flávio Bolsonaro precisa
explicar seu envolvimento com Vorcaro
O
jornal O Estado de São Paulo, porta voz da extrema direita, publicou, em seu
editorial deste sábado (25), uma dura cobrança de esclarecimentos ao senador
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre o seu envolvimento com o empresário Daniel
Vorcaro, dono do Banco Master. A manifestação do veículo ocorre após o ministro
do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça autorizar a abertura de
inquérito da Polícia Federal para apurar o repasse de R$ 61 milhões do
banqueiro ao parlamentar, sob a principal suspeita de corrupção, entre outros
crimes. Diante da condição de Flávio como pré-candidato à Presidência da
República, o jornal enfatizou que o senador tem a obrigação de prestar contas e
não pode tratar o caso como um assunto estritamente privado.
O
editorial destaca que a decisão de investigar o parlamentar partiu de um
ministro indicado ao STF por Jair Bolsonaro (PL), contando ainda com o respaldo
da Procuradoria-Geral da República (PGR). Para o jornal, este fato demonstra a
independência do ministro e desmorona a narrativa recorrente do clã Bolsonaro
de que são alvos de “perseguição política” por parte do establishment.
O
veículo argumenta que as aspirações do parlamentar ao Palácio do Planalto
exigem transparência irrestrita. O texto aponta que quem busca governar o país
deve submeter suas transações ao escrutínio da Justiça, da imprensa e da
opinião pública, sendo incompatível lucrar com operações financeiras e
simultaneamente reivindicar privacidade para evitar cobranças sobre a vida
pública.
O
jornal relembrou o histórico das manifestações de Flávio Bolsonaro desde o
surgimento do caso, em maio, quando veio à tona um áudio em que o senador pedia
R$ 134 milhões a Vorcaro, tendo recebido cerca da metade desse valor. Na época,
Flávio inicialmente negou qualquer relação com o dono do Banco Master, mas
mudou a versão após a divulgação de provas, alegando que o dinheiro se
destinava exclusivamente ao financiamento de um filme sobre seu pai.
O
veículo questionou a veracidade e a destinação dos recursos ao apontar que o
montante informado seria três vezes superior ao orçamento do premiado
longa-metragem Ainda Estou Aqui. O editorial destacou ainda que, apesar de o
senador ter prometido apresentar uma demonstração contábil do uso do dinheiro
em um prazo de 30 dias — promessa feita há mais de dois meses —, a planilha de
gastos continua sem vir a público.
Outro
ponto levantado pelo jornal refere-se à emissão de notas fiscais pelo
escritório de advocacia do senador para empresas vinculadas ao Banco Master.
Flávio sustenta que as notas referem-se à prestação regular de serviços
jurídicos. No entanto, o editorial cobra que o parlamentar detalhe publicamente
quais serviços foram prestados para afastar qualquer suspeita, ressaltando que
não pode haver zonas de sombra no histórico de um postulante à Presidência da
República.
Por
fim, a publicação conclui que a envergadura política e moral exigida para o
cargo pretendido por Flávio Bolsonaro requer um compromisso direto com a
verdade, notando que, no momento, sua candidatura se resume a tentar desmentir
uma profusão de denúncias enquanto insiste em uma tese de perseguição que já se
encontra desgastada.
• Deputado aciona PGR para investigar
Flávio Bolsonaro por suspeita de lavagem de dinheiro
O
deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) acionou a Procuradoria-Geral da
República (PGR) para pedir a abertura de uma investigação criminal contra o
senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na notícia-crime protocolada nesta
sexta-feira (24), o parlamentar sustenta que a emissão de Rc$ 1,5 milhão em
notas fiscais para empresas ligadas ao empresário Daniel Vorcaro reúne
elementos que justificam a apuração de possíveis crimes como lavagem de
dinheiro, falsidade documental e infrações tributárias.
A
representação parte do episódio revelado pelo portal Metrópoles envolvendo três
notas fiscais emitidas pelo escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Duas
delas, de R$ 500 mil cada, foram emitidas para a Copenhagen Consultoria e
Assessoria e canceladas no mesmo dia. Dois dias depois, uma terceira nota,
também de R$ 500 mil, foi emitida para a Contábil Correa. As duas empresas têm
como ponto de ligação Rogério Lourenço Novo, identificado na peça como diretor
de uma delas e sócio-administrador da outra.
Na
petição, Chico Alencar afirma que o caso vai além da simples emissão de notas
fiscais. “Tais dados, se confirmados, não apenas reforçam a relevância penal do
contexto, como também conferem verossimilhança concreta à suspeita de que as
notas fiscais emitidas pelo escritório do noticiado não correspondem a uma
relação profissional ordinária, mas a uma operação inserida em ambiente de
elevada opacidade financeira”, diz o documento.
O
deputado sustenta que a Copenhagen já foi apontada em reportagens como empresa
utilizada para movimentar recursos ligados ao grupo econômico de Vorcaro. A
representação afirma que a companhia teria sido criada com capital social de
apenas R$ 40, sem sede própria nem estrutura operacional compatível com os
valores movimentados, além de integrar uma cadeia societária vinculada ao
empresário.
Com
base nesse cenário, Chico argumenta que a situação exige uma resposta dos
órgãos de investigação. “Quando um escritório vinculado a senador da República
emite notas para empresa já descrita pela imprensa como instrumento de
movimentação de valores de origem sensível, o exame sobre a efetiva prestação
dos serviços, a correspondência entre forma e substância do negócio e a
eventual existência de dissimulação patrimonial deixa de ser uma hipótese
abstrata e passa a constituir objeto de investigação prioritária”, afirma a
representação.
Outro
eixo da notícia-crime é a tentativa de conectar o episódio das notas fiscais ao
chamado caso Dark Horse. O documento lembra que, meses antes, vieram a público
informações sobre uma negociação envolvendo um aporte de R$ 134 milhões que
Daniel Vorcaro discutia com Flávio Bolsonaro para financiar um filme biográfico
sobre Jair Bolsonaro.
Para o
deputado, essa cronologia impede que as notas sejam tratadas como um fato
isolado. “O pedido milionário para o filme, as referências pessoais de forte
proximidade e, agora, a emissão de notas em favor de empresas ligadas ao mesmo
núcleo empresarial compõem um quadro objetivo de interação financeira que exige
apuração rigorosa”, afirma a peça.
No
capítulo jurídico, a representação sustenta que os fatos “podem configurar, em
tese, falsidade ideológica ou documental, lavagem de capitais e infrações
tributárias”, caso fique demonstrado que as notas fiscais não correspondiam à
prestação efetiva de serviços ou tenham sido utilizadas para ocultar a origem e
a destinação de recursos. O documento acrescenta que o cancelamento simultâneo
de duas notas de R$ 500 mil “não autoriza conclusão antecipada, mas reclama
explicação formal, documental e financeira”.
Ao
pedir a abertura da investigação, Chico Alencar solicita que a PGR obtenha a
íntegra das notas fiscais, seus arquivos eletrônicos (XML), contratos, ordens
de serviço, registros de cancelamento, além de requisitar informações à Receita
Federal e ao Coaf. A notícia-crime também pede a oitiva dos envolvidos e, se
necessário, a quebra dos sigilos bancário e fiscal para rastrear a origem e o
destino dos recursos.
Na
justificativa final, o deputado afirma que a notícia-crime se apoia em “fontes
abertas e em reportagens jornalísticas sérias”, com identificação de datas,
valores e vínculos societários, sustentando que esse conjunto de informações é
suficiente para superar “o limiar de plausibilidade exigido para a instauração
de apuração formal”.
Até o
momento, a Procuradoria-Geral da República ainda não decidiu se instaurará
procedimento investigatório a partir da representação.
Fonte:
Brasil de Fato

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