segunda-feira, 27 de julho de 2026

Doação de Vorcaro para ‘Dark Horse’ pode ter ‘alimentado os bolsos da clã Bolsonaro’, avalia cientista político

O financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, será investigado pela Polícia Federal (PF). A autorização para abertura de um inquérito partiu do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quinta-feira (23). Um dos principais objetivos é investigar o destino das verbas no valor de R$ 61 milhões, pedidas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro, que supostamente financiaram a produção.

O cientista político Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp), avalia que toda a transação de recursos envolvendo o dono do Banco Master e o filme são suspeitas e merecem ser avaliadas, especialmente pelos valores envolvidos.

“Vorcaro não doaria, por livre consciência e espontaneidade, uma quantidade de recursos exorbitantes para esse filme, que é mais caro do que produções brasileiras premiadas como ‘Ainda estou aqui’ e ‘O agente secreto’, e até produções internacionais. O dinheiro do Banco Master já é sujo por si só, resultado de extorsões, fraudes contra o sistema financeiro brasileiro. Fica pior ainda pensar no destino desse dinheiro, que, provavelmente, não foi só para o filme, mas certamente alimentou os bolsos da família Bolsonaro”, afirma.

Ramirez aponta que, mesmo Mendonça sendo aliado do bolsonarismo, acertou na autorização de investigação e considera que ele “se viu numa saia justa”. “Até porque a sua reputação é mais importante do que apoiar Bolsonaro”, pontua.

O cientista político também considera suspeito o fato de que parte dos valores doados por Vorcaro apareceram em uma conta bancária, nos Estados Unidos, de um advogado do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro. Para Ramirez, é possível, sim, que a PF descubra que esse dinheiro servia para custear a permanência de Eduardo em território estadunidense. Ele também aposta em outro uso do recurso: abastecer representantes do governo Trump que agiram contra o Brasil.

“Até que ponto esses recursos do Banco Master não foram utilizados contra o Brasil, não só pelo Eduardo Bolsonaro, um incentivador do tarifaço, como terem servido de verba ou propina para influenciar as decisões do governo norte-americano?”, questiona Ramirez.

•        Empresa para a qual Flávio emitiu R$ 1 milhão em notas não é encontrada, diz jornal

A empresa para a qual o escritório de advocacia do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) emitiu cerca de R$ 1 milhão em notas fiscais canceladas não foi encontrada no endereço declarado à Receita Federal. A consultoria Copenhagen deveria estar situada em um centro comercial de São Caetano do Sul, na Grande São Paulo. A informação foi publicada pelo repórter Juliano Galisi, do Estadão.

Em visita ao endereço na manhã desta sexta-feira (24), o repórter verificou que a sala indicada como sede da consultoria Copenhagen é ocupada pela Contábil Corrêa, empresa do mesmo proprietário, o empresário Rogério Lourenço Novo. O sócio-administrador da Copenhagen, no entanto, não foi encontrado. Um funcionário informou que ele “estava de férias”.

As notas fiscais de R$ 1 milhão emitidas pelo escritório de Flávio Bolsonaro para a Copenhagen foram canceladas. O escritório também emitiu uma nota fiscal de R$ 500 mil para a Contábil Corrêa por serviços de assessoria jurídica, segundo documentos obtidos pelo portal Metrópoles.

Em vídeo, Flávio afirmou que prestou “serviços advocatícios” de forma legal, lícita e privada, mas não explicou por que cancelou as notas fiscais nem detalhou quais serviços foram prestados. Também não esclareceu como conheceu Rogério Lourenço Novo.

Segundo os registros da Receita Federal, a Contábil Corrêa declarou que funciona na “sala A” do conjunto 47 do edifício, enquanto a Copenhagen informou ter sede na “sala B” do mesmo endereço. A reportagem do Estadão, no entanto, não encontrou qualquer identificação que diferenciasse os dois espaços.

Na recepção do prédio, apenas a Contábil Corrêa aparece na lista de empresas instaladas no local. O nome da Copenhagen não consta no painel nem na porta da sala 47, que exibe exclusivamente a marca e a identificação da empresa de contabilidade.

•        Estadão: Flávio Bolsonaro precisa explicar seu envolvimento com Vorcaro

O jornal O Estado de São Paulo, porta voz da extrema direita, publicou, em seu editorial deste sábado (25), uma dura cobrança de esclarecimentos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre o seu envolvimento com o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A manifestação do veículo ocorre após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça autorizar a abertura de inquérito da Polícia Federal para apurar o repasse de R$ 61 milhões do banqueiro ao parlamentar, sob a principal suspeita de corrupção, entre outros crimes. Diante da condição de Flávio como pré-candidato à Presidência da República, o jornal enfatizou que o senador tem a obrigação de prestar contas e não pode tratar o caso como um assunto estritamente privado.

O editorial destaca que a decisão de investigar o parlamentar partiu de um ministro indicado ao STF por Jair Bolsonaro (PL), contando ainda com o respaldo da Procuradoria-Geral da República (PGR). Para o jornal, este fato demonstra a independência do ministro e desmorona a narrativa recorrente do clã Bolsonaro de que são alvos de “perseguição política” por parte do establishment.

O veículo argumenta que as aspirações do parlamentar ao Palácio do Planalto exigem transparência irrestrita. O texto aponta que quem busca governar o país deve submeter suas transações ao escrutínio da Justiça, da imprensa e da opinião pública, sendo incompatível lucrar com operações financeiras e simultaneamente reivindicar privacidade para evitar cobranças sobre a vida pública.

O jornal relembrou o histórico das manifestações de Flávio Bolsonaro desde o surgimento do caso, em maio, quando veio à tona um áudio em que o senador pedia R$ 134 milhões a Vorcaro, tendo recebido cerca da metade desse valor. Na época, Flávio inicialmente negou qualquer relação com o dono do Banco Master, mas mudou a versão após a divulgação de provas, alegando que o dinheiro se destinava exclusivamente ao financiamento de um filme sobre seu pai.

O veículo questionou a veracidade e a destinação dos recursos ao apontar que o montante informado seria três vezes superior ao orçamento do premiado longa-metragem Ainda Estou Aqui. O editorial destacou ainda que, apesar de o senador ter prometido apresentar uma demonstração contábil do uso do dinheiro em um prazo de 30 dias — promessa feita há mais de dois meses —, a planilha de gastos continua sem vir a público.

Outro ponto levantado pelo jornal refere-se à emissão de notas fiscais pelo escritório de advocacia do senador para empresas vinculadas ao Banco Master. Flávio sustenta que as notas referem-se à prestação regular de serviços jurídicos. No entanto, o editorial cobra que o parlamentar detalhe publicamente quais serviços foram prestados para afastar qualquer suspeita, ressaltando que não pode haver zonas de sombra no histórico de um postulante à Presidência da República.

Por fim, a publicação conclui que a envergadura política e moral exigida para o cargo pretendido por Flávio Bolsonaro requer um compromisso direto com a verdade, notando que, no momento, sua candidatura se resume a tentar desmentir uma profusão de denúncias enquanto insiste em uma tese de perseguição que já se encontra desgastada.

•        Deputado aciona PGR para investigar Flávio Bolsonaro por suspeita de lavagem de dinheiro

O deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) acionou a Procuradoria-Geral da República (PGR) para pedir a abertura de uma investigação criminal contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Na notícia-crime protocolada nesta sexta-feira (24), o parlamentar sustenta que a emissão de Rc$ 1,5 milhão em notas fiscais para empresas ligadas ao empresário Daniel Vorcaro reúne elementos que justificam a apuração de possíveis crimes como lavagem de dinheiro, falsidade documental e infrações tributárias.

A representação parte do episódio revelado pelo portal Metrópoles envolvendo três notas fiscais emitidas pelo escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Duas delas, de R$ 500 mil cada, foram emitidas para a Copenhagen Consultoria e Assessoria e canceladas no mesmo dia. Dois dias depois, uma terceira nota, também de R$ 500 mil, foi emitida para a Contábil Correa. As duas empresas têm como ponto de ligação Rogério Lourenço Novo, identificado na peça como diretor de uma delas e sócio-administrador da outra.

Na petição, Chico Alencar afirma que o caso vai além da simples emissão de notas fiscais. “Tais dados, se confirmados, não apenas reforçam a relevância penal do contexto, como também conferem verossimilhança concreta à suspeita de que as notas fiscais emitidas pelo escritório do noticiado não correspondem a uma relação profissional ordinária, mas a uma operação inserida em ambiente de elevada opacidade financeira”, diz o documento.

O deputado sustenta que a Copenhagen já foi apontada em reportagens como empresa utilizada para movimentar recursos ligados ao grupo econômico de Vorcaro. A representação afirma que a companhia teria sido criada com capital social de apenas R$ 40, sem sede própria nem estrutura operacional compatível com os valores movimentados, além de integrar uma cadeia societária vinculada ao empresário.

Com base nesse cenário, Chico argumenta que a situação exige uma resposta dos órgãos de investigação. “Quando um escritório vinculado a senador da República emite notas para empresa já descrita pela imprensa como instrumento de movimentação de valores de origem sensível, o exame sobre a efetiva prestação dos serviços, a correspondência entre forma e substância do negócio e a eventual existência de dissimulação patrimonial deixa de ser uma hipótese abstrata e passa a constituir objeto de investigação prioritária”, afirma a representação.

Outro eixo da notícia-crime é a tentativa de conectar o episódio das notas fiscais ao chamado caso Dark Horse. O documento lembra que, meses antes, vieram a público informações sobre uma negociação envolvendo um aporte de R$ 134 milhões que Daniel Vorcaro discutia com Flávio Bolsonaro para financiar um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.

Para o deputado, essa cronologia impede que as notas sejam tratadas como um fato isolado. “O pedido milionário para o filme, as referências pessoais de forte proximidade e, agora, a emissão de notas em favor de empresas ligadas ao mesmo núcleo empresarial compõem um quadro objetivo de interação financeira que exige apuração rigorosa”, afirma a peça.

No capítulo jurídico, a representação sustenta que os fatos “podem configurar, em tese, falsidade ideológica ou documental, lavagem de capitais e infrações tributárias”, caso fique demonstrado que as notas fiscais não correspondiam à prestação efetiva de serviços ou tenham sido utilizadas para ocultar a origem e a destinação de recursos. O documento acrescenta que o cancelamento simultâneo de duas notas de R$ 500 mil “não autoriza conclusão antecipada, mas reclama explicação formal, documental e financeira”.

Ao pedir a abertura da investigação, Chico Alencar solicita que a PGR obtenha a íntegra das notas fiscais, seus arquivos eletrônicos (XML), contratos, ordens de serviço, registros de cancelamento, além de requisitar informações à Receita Federal e ao Coaf. A notícia-crime também pede a oitiva dos envolvidos e, se necessário, a quebra dos sigilos bancário e fiscal para rastrear a origem e o destino dos recursos.

Na justificativa final, o deputado afirma que a notícia-crime se apoia em “fontes abertas e em reportagens jornalísticas sérias”, com identificação de datas, valores e vínculos societários, sustentando que esse conjunto de informações é suficiente para superar “o limiar de plausibilidade exigido para a instauração de apuração formal”.

Até o momento, a Procuradoria-Geral da República ainda não decidiu se instaurará procedimento investigatório a partir da representação.

 

Fonte: Brasil de Fato

 

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