O
que move as mulheres negras a marcharem?
No dia
8 de abril de 2016, no bairro Jardim Paiva II, em Ribeirão Preto (SP), Luana
Barbosa dos Reis foi brutalmente espancada por três policiais militares durante
uma abordagem. Mulher negra, periférica, lésbica e mãe de Luan dos Reis, Luana
reivindicou o direito de ser revistada por uma policial mulher. Em vez de ter
seu direito respeitado, foi violentamente agredida pelos agentes.
As
agressões provocaram ferimentos gravíssimos e, cinco dias depois, Luana morreu.
Seu assassinato tornou-se um dos casos mais emblemáticos da violência de Estado
contra mulheres negras no Brasil, revelando como racismo, sexismo e LGBTfobia
se articulam na produção da violência policial.
O
brutal assassinato de Luana indignou uma geração de mulheres negras que, poucos
meses antes, havia participado da 1ª Marcha Nacional das Mulheres Negras,
realizada em Brasília, em novembro de 2015. Daquela indignação nasceu também a
decisão de permanecer articuladas em São Paulo e construir uma mobilização
anual no Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha,
celebrado em 25 de julho.
A data
foi instituída em 1992 durante o 1º Encontro de Mulheres Afro-Latino-Americanas
e Afro-Caribenhas, na República Dominicana, para dar visibilidade à luta contra
o racismo e o sexismo. No Brasil, em 2014, se tornou também o Dia Nacional de
Tereza de Benguela e da Mulher Negra, através da Lei nº 12.987, sancionada pela
presidenta Dilma Rousseff.
Quase
dois séculos e meio separam Tereza de Benguela de Luana Barbosa. Ainda assim,
mulheres negras seguem enfrentando a violência de um Estado que, em vez de nos
proteger e assegurar direitos, muitas vezes nos criminaliza, encarcera e
extermina.
Após
uma década, a Marcha das Mulheres Negras de SP ocupa as ruas no dia 25 de julho
de 2026, sob o mote “Há 10 anos por Luana Barbosa e por todas nós! Por
Direitos, reparação e bem-viver. Mulheres Negras nas ruas e nas urnas”.
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Há 10 anos por Luana Barbosa e por todas nós!
Marchamos
porque o Estado continua matando mulheres negras, seus filhos e suas famílias.
Os policiais envolvidos na morte de Luana não foram responsabilizados, seu
filho tampouco indenizado. É uma história que infelizmente se repete no
cotidiano.
Foi
assim em maio de 2006, há 20 anos, quando sob o pretexto de retaliação aos
ataques de uma facção criminosa agentes estatais promoveram uma onda de
violência sem precedentes. Em apenas dez dias, mais de 500 pessoas, em sua
maioria jovens negros, foram executadas em São Paulo. Desse luto nasceu o
Movimento Mães de Maio. São décadas em que nossos lutos se tornam lutas. Como
costuma afirmar Débora Maria da Silva, coordenadora das Mães de Maio: “Estamos
aqui para dizer que nossos mortos têm voz.”
Foi
essa mesma violência permanente que esteve entre as razões que levaram ao
nascimento do Movimento Negro Unificado (MNU), em 1978, ainda sob a Ditadura
Militar, há 48 anos. Ao denunciar a violência policial e o mito da democracia
racial, o MNU inaugurou uma nova etapa da luta antirracista no país e colocou a
segurança pública no centro do debate sobre o racismo estrutural e teve entre
suas cofundadoras uma das maiores intelectuais negras do país, Lélia Gonzalez.
Passadas
quase cinco décadas, essa agenda permanece urgente. Trata-se de uma das maiores
expressões das desigualdades que atravessam a população negra no período
pós-abolição. A repressão sistemática contra a população negra continua tendo
na política de segurança pública sua expressão mais brutal. É por isso que
marchamos: para afirmar que nenhuma democracia será plena enquanto o Estado
seguir tratando vidas negras como descartáveis.
A
Marcha das Mulheres Negras de São Paulo também não desistiu de lutar por
justiça para Luana Barbosa. Assim como o país acompanhou, por anos, a
mobilização incansável por justiça no caso do assassinato da vereadora Marielle
Franco, seguimos afirmando que não haverá esquecimento nem silêncio diante da
impunidade.
Agora,
dez anos depois, nos deparamos com a dor do assassinato de Ieda Simplicio e
Fabiana Nogueira, um casal de mulheres negras, lésbicas, do axé, que saíram
juntas de casa para resolver questõs cotidianas e desapareceram. Seus corpos
foram encontrados sem vida, enterrados em uma área da mata na cidade de São
Vicente – a polícia civil investiga o caso como homicídio.
Marchamos
por Luana, Ieda, Fabiana e por todas aquelas cujas vidas foram interrompidas
pela violência brutal contra nossas comunidades. Marcharemos até que os
responsáveis sejam responsabilizados e que o direito das mulheres negras à vida
deixe de ser uma promessa e se torne uma realidade.
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Por Direitos, reparação e bem-viver
Certa
vez, durante uma visita à sede da Soweto Organização Negra, pude ler um
exemplar do jornal do Fórum Estadual de Mulheres Negras de São Paulo,
articulação que reuniu ativistas de diferentes regiões do estado na década de
1990. Ao folhear aquelas páginas, encontrei reivindicações que seguem atuais:
direito ao trabalho digno, à moradia, à saúde, à maternidade com dignidade e ao
enfrentamento da violência. Ontem como hoje, essas bandeiras expressam uma
agenda histórica construída pelas mulheres negras.
Na
última década, porém, essa luta deu um passo adiante. O movimento de mulheres
negras passou a afirmar também um horizonte de futuro. A partir da construção
coletiva do conceito de bem-viver, inspirado nos saberes ancestrais e nas
experiências dos povos indígenas e afro-diaspóricos, a luta em formato de
marcha passou também a afirmar um projeto de sociedade baseado na dignidade, no
cuidado, na justiça, na reparação e na convivência em harmonia entre as pessoas
e com a natureza, recusando o modelo predatório do capitalismo.
É essa
utopia concreta que seguimos levando às ruas. Não marchamos apenas para
denunciar o que nos mata. Marchamos para anunciar o país que queremos
construir.
Foi
também nesse caminho que a 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, realizada em
novembro de 2025, colocou a reparação no centro do debate político. Se o
bem-viver aponta para o futuro que desejamos, a reparação reconhece que esse
futuro só poderá ser construído enfrentando as dívidas históricas deixadas pela
escravidão, pelo racismo, pelo sexismo e pelas desigualdades estruturais.
Não por
acaso, o debate sobre reparação ganha força no Brasil e no mundo. No país, o
movimento negro e parlamentares articulam a Proposta de Emenda à Constituição
nº 27/2024, conhecida como PEC da Reparação, que propõe a criação de um Fundo
Nacional de Reparação Econômica e de Promoção da Igualdade Racial e o
reconhecimento da responsabilidade do Estado brasileiro pelos prejuízos
históricos causados à população negra. No plano internacional, em março de
2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução histórica
reconhecendo o tráfico transatlântico de africanos escravizados e a escravidão
racializada como o mais grave crime contra a humanidade.
É esse
compromisso que reafirmamos no Manifesto da Marcha das Mulheres Negras de São
Paulo de 2026. Ao completar dez anos, a marcha renova um pacto entre gerações,
de honrar a memória de quem veio antes, enfrentar as violências do presente e
seguir organizando um futuro em que as próximas gerações de mulheres negras e
suas comunidades inteiras possam viver com dignidade em todas as etapas da vida
– na infância, na juventude, na vida adulta e na idosidade,
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Mulheres negras nas ruas e nas urnas
Diversas
pesquisas históricas indicam que o Quilombo do Quariterê, liderado por Tereza
de Benguela, organizava sua vida política por meio de um governo coletivo,
frequentemente descrito como um parlamento ou conselho. Em plena escravidão, os
quilombos eram territórios de resistência e de construção de outros projetos de
sociedade.
Talvez
por isso Tereza de Benguela permaneça tão viva na memória política das mulheres
negras. A cada 25 de julho, sua história nos recorda que ocupar o poder nunca
foi um desejo estranho à nossa trajetória. Sempre fizemos política. Mesmo
quando nos impediram de votar, de sermos eleitas ou de ocupar os espaços
institucionais, seguimos governando territórios, organizando comunidades e
sustentando a vida. O sistema que produziu a escravidão e suas permanências
nunca foi construído para representar nossos interesses. Por isso, a tradição
de Tereza de Benguela nos ensina que é preciso disputar e construir espaços
livres de opressão e exploração.
É
potente perceber como essa memória, recontada a cada 25 de julho, segue
produzindo imaginários políticos para a mobilização das mulheres negras na
disputa de poder no Brasil. Essa construção é fundamental para a existência de
uma democracia verdadeiramente plena em um país onde as mulheres negras
constituem o maior grupo demográfico, representando cerca de 28% da população
brasileira, somos mais de 60 milhões de pessoas.
Em
2026, porém, ainda enfrentamos uma conjuntura marcada por profundas
desigualdades. Mulheres negras recebem quase metade da renda dos homens
brancos, representam 67,5% das vítimas de feminicídio, são maioria entre as
trabalhadoras informais e estão entre as mais atingidas pela precarização do
trabalho, incluindo a escala 6×1. Ao mesmo tempo, permanecemos
sub-representadas nos espaços de decisão política, sendo minoria nos
parlamentos brasileiros. Marchamos porque disputar poder, nas ruas e nas urnas,
é uma tarefa coletiva e urgente. É parte da construção de uma sociedade em que
nossas vidas, nossas vozes e nossos projetos de futuro sejam reconhecidos e
possam florescer.
Fonte:
Por Simone Nascimento, no Blog da Boitempo

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