segunda-feira, 27 de julho de 2026

A Copa terminou; em outubro, vamos escolher o Brasil que queremos

Com o fim da Copa do Mundo, inicia-se a contagem regressiva para as eleições de outubro. Durante pouco mais de um mês, o futebol monopolizou atenções e paixões, inclusive daqueles que se ligam nesse esporte somente em tempos de Copa. Agora, encerrado o espetáculo esportivo, o jogo político volta naturalmente ao centro do debate nacional. Essa edição do Mundial será lembrada por um contraste permanente entre o encanto proporcionado pelo futebol e as profundas distorções e mazelas que cercam sua organização. Ao mesmo tempo em que milhões de torcedores testemunharam uma das edições mais disputadas da história, o torneio revelou como interesses geopolíticos, comerciais e institucionais podem atropelar os princípios mais elementares do esporte.

Não faltaram situações que colocaram em dúvida a credibilidade da competição em razão da agressiva lógica de mercado que orientou sua organização. O ambiente internacional tensionado por forte instabilidade refletiu-se diretamente nos bastidores. Seleções sob constante embate geopolítico sofreram severas restrições migratórias e burocráticas impostas pelos EUA. O caso do Irã foi uma entre tantas situações discriminatórias desse mundial. Esse tipo de tratamento demonstrou a inclinação oportunista da FIFA por não assegurar a isonomia e igualdade de condições entre todas as suas federações filiadas, dividindo as delegações entre as que gozaram de livre trânsito global e as que foram tratadas sob suspeita.

A busca desenfreada por lucratividade, refletida nos preços proibitivos dos ingressos, elitizou o evento e afastou grande parte do público dos estádios. Como consequência, o espetáculo popular converteu-se em um privilégio reservado à parcela da população com maior poder aquisitivo. Embora o futebol moderno tenha sido organizado pela elite inglesa do século XIX, foi a apropriação do esporte pela classe trabalhadora que o transformou no fenômeno cultural mais popular do planeta. Ao dificultar o acesso aos estádios por meio de ingressos excessivamente caros, a FIFA e seus parceiros comerciais resgataram um caráter excludente que a própria história do futebol havia superado. 

Nesse ambiente seletivo, as situações de discriminação racial não se limitaram às manifestações hostis dirigidas às seleções africanas, que repercutiram internacionalmente sem uma resposta firme da FIFA. O clima de intolerância também atingiu individualmente atletas negros.Após a vitória da França sobre o Paraguai, o atacante francês Kylian Mbappé foi alvo de um ataque racista da senadora paraguaia Celeste Amarilla, que publicou ofensas de cunho racial e questionou sua identidade nacional. Ao contrário da FIFA, Mbappé repudiou o episódio, classificando a parlamentar como “indigna do cargo” e afirmando que jamais permitirá que pessoas como ela disseminem ódio e racismo pelo mundo. Sua postura reafirmou o compromisso que vem assumindo ao longo da carreira no enfrentamento ao racismo e a toda forma de discriminação.

Outra distorção marcante foi a vergonhosa submissão da federação às exigências norte-americanas. A polêmica revisão da pena do atacante Folarin Balogun ocorrida após interferência direta de Donald Trump provocou forte repúdio e acusações de ingerência sobre a autonomia dos órgãos disciplinares da entidade.  Esse alinhamento atingiu o suprassumo da bizarrice quando a FIFA concedeu a Trump o “Prêmio da Paz FIFA”. Como resposta a esse conjunto de situações, marcadas pelas posturas questionáveis da FIFA e pelas interferências de Donald Trump, o público manifestou sua insatisfação durante a cerimônia de encerramento da Copa, com sonoras vaias dirigidas ao presidente dos Estados Unidos e ao presidente da FIFA, Gianni Infantino.

Contudo, apesar das distorções que marcaram a organização do torneio, seria injusto reduzir a Copa apenas às suas controvérsias políticas. Dentro de campo, o futebol reafirmou sua capacidade única de desafiar desigualdades e revelar histórias de superação. A expansão para 48 seleções abriu espaço para campanhas históricas protagonizadas por nações de menor expressão econômica. Países como a República Democrática do Congo, Haiti e Cabo Verde protagonizaram momentos emocionantes de superação e encanto, demonstrando a garra de povos que encontram no futebol um canal de afirmação.

Entre os nomes que simbolizaram essa essência popular, sobressaiu-se o jogador Lamine Yamal. Criado em bairro operário da Catalunha, e filho de imigrantes do Marrocos e da Guiné Equatorial, sua ascensão traduz a força transformadora do futebol frente às dificuldades financeiras. De forma similar, a trajetória de superação do goleiro Vozinha uniu as ilhas de Cabo Verde em torno de um feito épico, transformando a seleção estreante na grande sensação da Copa. Essas trajetórias revelam que, apesar das desigualdades econômicas e sociais que ainda atravessam o futebol mundial, o talento e a determinação continuam capazes de romper barreiras históricas. É desse contraste entre a determinação de nações historicamente relegadas a um papel secundário, expressa na campanha marcante de seleções como Cabo Verde, e os interesses do poder econômico e geopolítico que emerge uma reflexão oportuna sobre as eleições de outubro.

Assim como o Mundial desperta a paixão de milhões de torcedores e demonstra que o futebol preserva sua capacidade de emocionar e surpreender mesmo sob a influência de interesses alheios ao esporte, a disputa eleitoral recoloca em primeiro plano escolhas de consequências muito mais profundas, como decidir quem conduzirá a presidência da República, os governos das unidades federativas e quem ocupará as cadeiras do Congresso Nacional e das assembleias estaduais. Se, nos gramados, ainda há espaço para que o talento desafie as desigualdades, nas urnas caberá aos eleitores impedir que a lógica dos privilégios continue determinando os destinos do país. 

Para que essa escolha seja feita de forma consciente, será indispensável compreender também o papel desempenhado pela mídia corporativa na construção das versões dos fatos eleitorais. Nas últimas semanas, como era de se esperar, a mídia corporativa redefiniu sua preferência sobre quem deverá governar o país. Isso ocorreu depois da frustração com a perda de seu candidato dos sonhos, o bolsonarista raiz Tarcísio de Freitas, que disputará a reeleição em meio a uma gestão marcada por uma política de privatizações amplamente questionada e por sucessivos problemas na prestação de serviços públicos essenciais, a exemplo das concessões da Sabesp e das linhas de trens metropolitanos, que nesta semana foram notícia após um incêndio provocar pânico e risco aos passageiros. 

Depois de flertar até mesmo com o pré-candidato Flávio Bolsonaro e abandoná-lo posteriormente em razão de seu envolvimento sucessivo em graves escândalos, o Partido da Imprensa Golpista (PIG) passou a dedicar sutilmente sua atenção ao pré-candidato Ronaldo Caiado, como se ele fosse a sua aguardada terceira via.

A interpretação de Caiado como uma suposta terceira via passou a ocupar editoriais do Estadão e de outros veículos da mídia corporativa, como a Rede Globo, que passa a direcionar seu olhar para um candidato apresentado como palatável, embora historicamente vinculado aos setores mais conservadores da direita liberal. Como bem pontuou o ex-deputado José Genoino, em entrevista ao programa Giro das Onze, da TV Brasil 247: “Chamar o Caiado de terceira via é um desrespeito à língua portuguesa. Ele é um reacionário da direita radical ideológica extremada, da direita da UDR, do agro, da violência no campo e da direita do massacre de camponeses”.

A atuação desses veículos vai ainda mais longe, ao emitir avaliações que ressaltam a imagem de outro pré-candidato, Renan Santos, apesar de suas posições extremistas e de suas ideias de caráter autoritário.

A falta de escrúpulos éticos da mídia hereditária, comprometida com os interesses de seus proprietários e com os patrocínios dos segmentos mais ricos e conservadores, torna-se evidente para o eleitor que acompanha criticamente o debate público. Essa percepção, porém, não alcança uma parcela expressiva da população, cuja visão sobre os candidatos é frequentemente formada pelo conteúdo mais apelativo que circula nas redes sociais, muitas vezes produzido ou impulsionado para induzir determinadas interpretações. Ao fim e ao cabo, a suposta lisura ética exigida das concessionárias públicas de radiodifusão reduz-se a uma esquecida nota de rodapé. 

Eleição após eleição, o partido da comunicação, embora não possua registro no Tribunal Superior Eleitoral, atua com notável empenho para construir e legitimar candidaturas da direita ou do centro-direita comprometidas com a preservação de uma ordem liberal que concentra privilégios e poder nas mãos de uma reduzida parcela da sociedade, em prejuízo dos interesses da ampla maioria da população. Essa atuação revela uma lógica semelhante à observada em outros espaços de poder, nos quais interesses econômicos e políticos frequentemente se sobrepõem ao interesse coletivo. Trata-se de uma conduta tão censurável quanto as práticas questionáveis patrocinadas pelo governo norte-americano durante a Copa do Mundo.

Há, contudo, uma diferença fundamental entre essas duas realidades. As arbitrariedades ocorridas na Copa do Mundo, realizada sob a influência do governo Trump, despertaram indignação porque foram amplamente expostas à avaliação pública. Já as interferências da mídia corporativa no processo eleitoral, embora igualmente graves, costumam permanecer naturalizadas ou invisibilizadas. Não raro, nos indignamos com aquilo que ela denuncia, mas deixamos de perceber o que ela própria oculta ao atuar como militante de bastidor, engajada abertamente em barrar qualquer projeto de esquerda.

A influência deletéria da mídia corporativa se torna particularmente nítida na forma como seus veículos tratam de modo desigual as informações. Quando governos progressistas obtêm resultados positivos nas esferas federal, estadual ou municipal, esses avanços frequentemente são acompanhados de ressalvas que reduzem sua relevância, apresentados de maneira secundária ou diluídos em meio a críticas. Em sentido oposto, diante de erros ou resultados negativos de administrações alinhadas à direita, observa-se, muitas vezes, uma cobertura menos incisiva, com menor destaque ou até mesmo com a ausência de uma abordagem proporcional à gravidade dos fatos. 

Um exemplo recente foi a pouca repercussão dada ao relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026 (SOFI), divulgado nesta semana pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), segundo o qual o Brasil manteve abaixo de 2,5% a proporção da população sem acesso ao mínimo de calorias necessário para uma vida saudável. Esse resultado foi alcançado pelo trabalho qualificado pelo atual governo progressista em um ambiente de forte resistência da oposição no Congresso Nacional e diante de um sistema de emendas parlamentares que concentra parcela significativa do orçamento público e que, reiteradamente, tem sido alvo de investigações da Polícia Federal e de outros órgãos de controle por suspeitas de desvios de recursos, fraudes em licitações e outras irregularidades.

Em sentido oposto, veículos independentes da imprensa progressista transmitidos por meio de plataformas digitais e redes sociais, mobilizaram sua programação para destacar o resultado alcançado pelo governo Lula, concedendo ao fato o espaço e a relevância que seriam compatíveis com qualquer conquista de alta importância nacional, independentemente do governo responsável por ela, pois primam por um jornalismo verdadeiro, sem segundas intenções. A dinâmica, presente nos diferentes segmentos da imprensa escrita, televisiva e radiofônica, passou a encontrar um contraponto nas redes sociais, que permitem a circulação mais rápida de informações e podem romper, em parte, o controle do conteúdo das divulgações exercido pelos grandes conglomerados de comunicação.

Nas eleições deste ano, já se vislumbra também interferências do governo da extrema direita norte-americana. A relação entre Brasil e Estados Unidos atravessa um momento de tensões políticas, evidenciado por declarações públicas de autoridades norte-americanas com críticas pessoais a Lula, entre elas o problemático e prepotente secretário de Estado Marco Rubio. A história das relações internacionais registra inúmeras situações de tentativa de influência norte-americana sobre processos políticos na América Latina. Nesse ambiente, é legítimo acompanhar com atenção possíveis ingerências indevidas e pressões diplomáticas, econômicas e informacionais que possam repercutir no ambiente eleitoral brasileiro, inclusive ações destinadas a tumultuar o pleito em favor de Flávio Bolsonaro ou de outro candidato que ofereça alinhamento incondicional aos interesses dos Estados Unidos.

Diante desse panorama e dos movimentos do PIG, que já não disfarça sua atuação, embora insista em repetir a desgastada justificativa de que sua missão jornalística seria pautada pela isenção e pela transparência princípios que, na prática, historicamente foram questionados por sua atuação alinhada aos interesses do poder oligárquico, toda atenção às suas estratégias é necessária. Com raríssimas exceções, parcela significativa dos profissionais que atuam nesses conglomerados encontra-se submetida às diretrizes editoriais definidas por seus proprietários, fazendo com que a manipulação da apresentação dos fatos se torne um instrumento de disputa política. Essa mídia já iniciou sua campanha contra a reeleição de Lula. Por isso, é imprescindível não sucumbir às armadilhas recorrentes e de última hora frequentemente utilizadas para influenciar o eleitorado.

Ao longo da história recente, a mídia corporativa foi alvo de críticas por sua atuação em processos eleitorais. Não podemos esquecer o papel desempenhado pela Rede Globo, durante os anos das práticas jurídicas indevidas da Operação Lava Jato, quando o Partido dos Trabalhadores e sua principal liderança política, o presidente Lula, foram alvos de uma intensa cobertura de descredibilidade. Os efeitos desse processo ainda se fazem sentir anos depois, uma vez que parte do eleitorado ainda preserva uma rejeição ao Partido dos Trabalhadores, fenômeno que diversos pesquisadores associam, ao menos em parte, ao ambiente informacional produzido naquele período.

A decisão do eleitor, portanto, deve ser resultado de informação e reflexão crítica. O país, ao contrário do panorama da atual composição do Congresso formada majoritariamente por parlamentares do Centrão e da extrema direita bolsonarista, necessita renovar essa bancada com representantes que compreendam o mandato parlamentar como uma função de natureza pública, orientada pelo planejamento, pela responsabilidade fiscal e pelo compromisso com políticas estruturantes, e não como instrumento de promoção pessoal ou de construção de projetos privados de poder. 

Entretanto, a profunda distorção provocada pela crescente concentração de recursos orçamentários sob controle do Congresso Nacional somente poderá ser revertida com a formação de uma maioria parlamentar comprometida com a revisão do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO), de modo a restabelecer o equilíbrio entre as prerrogativas do Legislativo e do Executivo na definição e execução do orçamento público. A destinação de valores cada vez mais elevados às emendas parlamentares, frequentemente associadas a investigações sobre desvios de recursos envolvendo, em grande medida, parlamentares do Centrão e da extrema direita evidencia a necessidade de um novo modelo de gestão orçamentária, pautado pela transparência, pela rastreabilidade dos recursos, pelo controle social e pela prevalência do interesse público sobre conveniências eleitorais ou patrimoniais.

No âmbito do Poder Executivo, a Presidência da República deve ser confiada a quem tenha uma trajetória pública que constitua, por si só, a principal credencial para o exercício do cargo. Alguém que não faça da mitomania seu projeto de poder e nem desse transtorno seu principal escudo. Importa um histórico de compromisso com o interesse público, de respeito ao patrimônio coletivo e de independência em relação a interesses privados. A condução do país não pode ser entregue a quem tenha utilizado a política como instrumento de enriquecimento pessoal, de apropriação dos recursos públicos ou de submissão do interesse nacional a geopolíticos estrangeiros em troca de benefícios pessoais ou políticos. 

A presidência deve recair sobre uma liderança que tenha demonstrado, ao longo de sua vida pública, coerência e firmeza na defesa da soberania nacional, da autonomia decisória do Estado brasileiro e da preservação de suas riquezas estratégicas, compreendendo que governar é colocar o poder público a serviço da redução das desigualdades, da ampliação de direitos e da melhoria concreta da vida de toda a população.

 

Fonte: Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

 

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