A
Copa terminou; em outubro, vamos escolher o Brasil que queremos
Com o
fim da Copa do Mundo, inicia-se a contagem regressiva para as eleições de
outubro. Durante pouco mais de um mês, o futebol monopolizou atenções e
paixões, inclusive daqueles que se ligam nesse esporte somente em tempos de
Copa. Agora, encerrado o espetáculo esportivo, o jogo político volta
naturalmente ao centro do debate nacional. Essa edição do Mundial será lembrada
por um contraste permanente entre o encanto proporcionado pelo futebol e as
profundas distorções e mazelas que cercam sua organização. Ao mesmo tempo em
que milhões de torcedores testemunharam uma das edições mais disputadas da
história, o torneio revelou como interesses geopolíticos, comerciais e
institucionais podem atropelar os princípios mais elementares do esporte.
Não
faltaram situações que colocaram em dúvida a credibilidade da competição em
razão da agressiva lógica de mercado que orientou sua organização. O ambiente
internacional tensionado por forte instabilidade refletiu-se diretamente nos
bastidores. Seleções sob constante embate geopolítico sofreram severas
restrições migratórias e burocráticas impostas pelos EUA. O caso do Irã foi uma
entre tantas situações discriminatórias desse mundial. Esse tipo de tratamento
demonstrou a inclinação oportunista da FIFA por não assegurar a isonomia e
igualdade de condições entre todas as suas federações filiadas, dividindo as
delegações entre as que gozaram de livre trânsito global e as que foram
tratadas sob suspeita.
A busca
desenfreada por lucratividade, refletida nos preços proibitivos dos ingressos,
elitizou o evento e afastou grande parte do público dos estádios. Como
consequência, o espetáculo popular converteu-se em um privilégio reservado à
parcela da população com maior poder aquisitivo. Embora o futebol moderno tenha
sido organizado pela elite inglesa do século XIX, foi a apropriação do esporte
pela classe trabalhadora que o transformou no fenômeno cultural mais popular do
planeta. Ao dificultar o acesso aos estádios por meio de ingressos
excessivamente caros, a FIFA e seus parceiros comerciais resgataram um caráter
excludente que a própria história do futebol havia superado.
Nesse
ambiente seletivo, as situações de discriminação racial não se limitaram às
manifestações hostis dirigidas às seleções africanas, que repercutiram
internacionalmente sem uma resposta firme da FIFA. O clima de intolerância
também atingiu individualmente atletas negros.Após a vitória da França sobre o
Paraguai, o atacante francês Kylian Mbappé foi alvo de um ataque racista da
senadora paraguaia Celeste Amarilla, que publicou ofensas de cunho racial e
questionou sua identidade nacional. Ao contrário da FIFA, Mbappé repudiou o
episódio, classificando a parlamentar como “indigna do cargo” e afirmando que
jamais permitirá que pessoas como ela disseminem ódio e racismo pelo mundo. Sua
postura reafirmou o compromisso que vem assumindo ao longo da carreira no
enfrentamento ao racismo e a toda forma de discriminação.
Outra
distorção marcante foi a vergonhosa submissão da federação às exigências
norte-americanas. A polêmica revisão da pena do atacante Folarin Balogun
ocorrida após interferência direta de Donald Trump provocou forte repúdio e
acusações de ingerência sobre a autonomia dos órgãos disciplinares da
entidade. Esse alinhamento atingiu o suprassumo da bizarrice quando a
FIFA concedeu a Trump o “Prêmio da Paz FIFA”. Como resposta a esse conjunto de
situações, marcadas pelas posturas questionáveis da FIFA e pelas interferências
de Donald Trump, o público manifestou sua insatisfação durante a cerimônia de
encerramento da Copa, com sonoras vaias dirigidas ao presidente dos Estados
Unidos e ao presidente da FIFA, Gianni Infantino.
Contudo,
apesar das distorções que marcaram a organização do torneio, seria injusto
reduzir a Copa apenas às suas controvérsias políticas. Dentro de campo, o
futebol reafirmou sua capacidade única de desafiar desigualdades e revelar
histórias de superação. A expansão para 48 seleções abriu espaço para campanhas
históricas protagonizadas por nações de menor expressão econômica. Países como
a República Democrática do Congo, Haiti e Cabo Verde protagonizaram momentos
emocionantes de superação e encanto, demonstrando a garra de povos que
encontram no futebol um canal de afirmação.
Entre
os nomes que simbolizaram essa essência popular, sobressaiu-se o jogador Lamine
Yamal. Criado em bairro operário da Catalunha, e filho de imigrantes do
Marrocos e da Guiné Equatorial, sua ascensão traduz a força transformadora do
futebol frente às dificuldades financeiras. De forma similar, a trajetória de
superação do goleiro Vozinha uniu as ilhas de Cabo Verde em torno de um feito
épico, transformando a seleção estreante na grande sensação da Copa. Essas
trajetórias revelam que, apesar das desigualdades econômicas e sociais que
ainda atravessam o futebol mundial, o talento e a determinação continuam
capazes de romper barreiras históricas. É desse contraste entre a determinação
de nações historicamente relegadas a um papel secundário, expressa na campanha
marcante de seleções como Cabo Verde, e os interesses do poder econômico e
geopolítico que emerge uma reflexão oportuna sobre as eleições de outubro.
Assim
como o Mundial desperta a paixão de milhões de torcedores e demonstra que o
futebol preserva sua capacidade de emocionar e surpreender mesmo sob a
influência de interesses alheios ao esporte, a disputa eleitoral recoloca em
primeiro plano escolhas de consequências muito mais profundas, como decidir
quem conduzirá a presidência da República, os governos das unidades federativas
e quem ocupará as cadeiras do Congresso Nacional e das assembleias estaduais.
Se, nos gramados, ainda há espaço para que o talento desafie as desigualdades,
nas urnas caberá aos eleitores impedir que a lógica dos privilégios continue
determinando os destinos do país.
Para
que essa escolha seja feita de forma consciente, será indispensável compreender
também o papel desempenhado pela mídia corporativa na construção das versões
dos fatos eleitorais. Nas últimas semanas, como era de se esperar, a mídia
corporativa redefiniu sua preferência sobre quem deverá governar o país. Isso
ocorreu depois da frustração com a perda de seu candidato dos sonhos, o
bolsonarista raiz Tarcísio de Freitas, que disputará a reeleição em meio a uma
gestão marcada por uma política de privatizações amplamente questionada e por
sucessivos problemas na prestação de serviços públicos essenciais, a exemplo
das concessões da Sabesp e das linhas de trens metropolitanos, que nesta semana
foram notícia após um incêndio provocar pânico e risco aos passageiros.
Depois
de flertar até mesmo com o pré-candidato Flávio Bolsonaro e abandoná-lo
posteriormente em razão de seu envolvimento sucessivo em graves escândalos, o
Partido da Imprensa Golpista (PIG) passou a dedicar sutilmente sua atenção ao
pré-candidato Ronaldo Caiado, como se ele fosse a sua aguardada terceira via.
A
interpretação de Caiado como uma suposta terceira via passou a ocupar
editoriais do Estadão e de outros veículos da mídia corporativa, como a Rede
Globo, que passa a direcionar seu olhar para um candidato apresentado como
palatável, embora historicamente vinculado aos setores mais conservadores da
direita liberal. Como bem pontuou o ex-deputado José Genoino, em entrevista ao
programa Giro das Onze, da TV Brasil 247: “Chamar o Caiado de terceira via é um
desrespeito à língua portuguesa. Ele é um reacionário da direita radical
ideológica extremada, da direita da UDR, do agro, da violência no campo e da
direita do massacre de camponeses”.
A
atuação desses veículos vai ainda mais longe, ao emitir avaliações que
ressaltam a imagem de outro pré-candidato, Renan Santos, apesar de suas
posições extremistas e de suas ideias de caráter autoritário.
A falta
de escrúpulos éticos da mídia hereditária, comprometida com os interesses de
seus proprietários e com os patrocínios dos segmentos mais ricos e
conservadores, torna-se evidente para o eleitor que acompanha criticamente o
debate público. Essa percepção, porém, não alcança uma parcela expressiva da
população, cuja visão sobre os candidatos é frequentemente formada pelo
conteúdo mais apelativo que circula nas redes sociais, muitas vezes produzido
ou impulsionado para induzir determinadas interpretações. Ao fim e ao cabo, a
suposta lisura ética exigida das concessionárias públicas de radiodifusão
reduz-se a uma esquecida nota de rodapé.
Eleição
após eleição, o partido da comunicação, embora não possua registro no Tribunal
Superior Eleitoral, atua com notável empenho para construir e legitimar
candidaturas da direita ou do centro-direita comprometidas com a preservação de
uma ordem liberal que concentra privilégios e poder nas mãos de uma reduzida
parcela da sociedade, em prejuízo dos interesses da ampla maioria da população.
Essa atuação revela uma lógica semelhante à observada em outros espaços de
poder, nos quais interesses econômicos e políticos frequentemente se sobrepõem
ao interesse coletivo. Trata-se de uma conduta tão censurável quanto as
práticas questionáveis patrocinadas pelo governo norte-americano durante a Copa
do Mundo.
Há,
contudo, uma diferença fundamental entre essas duas realidades. As
arbitrariedades ocorridas na Copa do Mundo, realizada sob a influência do
governo Trump, despertaram indignação porque foram amplamente expostas à
avaliação pública. Já as interferências da mídia corporativa no processo
eleitoral, embora igualmente graves, costumam permanecer naturalizadas ou
invisibilizadas. Não raro, nos indignamos com aquilo que ela denuncia, mas
deixamos de perceber o que ela própria oculta ao atuar como militante de
bastidor, engajada abertamente em barrar qualquer projeto de esquerda.
A
influência deletéria da mídia corporativa se torna particularmente nítida na
forma como seus veículos tratam de modo desigual as informações. Quando
governos progressistas obtêm resultados positivos nas esferas federal, estadual
ou municipal, esses avanços frequentemente são acompanhados de ressalvas que
reduzem sua relevância, apresentados de maneira secundária ou diluídos em meio
a críticas. Em sentido oposto, diante de erros ou resultados negativos de
administrações alinhadas à direita, observa-se, muitas vezes, uma cobertura
menos incisiva, com menor destaque ou até mesmo com a ausência de uma abordagem
proporcional à gravidade dos fatos.
Um
exemplo recente foi a pouca repercussão dada ao relatório O Estado da Segurança
Alimentar e Nutrição no Mundo 2026 (SOFI), divulgado nesta semana pela
Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), segundo
o qual o Brasil manteve abaixo de 2,5% a proporção da população sem acesso ao
mínimo de calorias necessário para uma vida saudável. Esse resultado foi
alcançado pelo trabalho qualificado pelo atual governo progressista em um
ambiente de forte resistência da oposição no Congresso Nacional e diante de um
sistema de emendas parlamentares que concentra parcela significativa do
orçamento público e que, reiteradamente, tem sido alvo de investigações da
Polícia Federal e de outros órgãos de controle por suspeitas de desvios de
recursos, fraudes em licitações e outras irregularidades.
Em
sentido oposto, veículos independentes da imprensa progressista transmitidos
por meio de plataformas digitais e redes sociais, mobilizaram sua programação
para destacar o resultado alcançado pelo governo Lula, concedendo ao fato o
espaço e a relevância que seriam compatíveis com qualquer conquista de alta
importância nacional, independentemente do governo responsável por ela, pois
primam por um jornalismo verdadeiro, sem segundas intenções. A dinâmica,
presente nos diferentes segmentos da imprensa escrita, televisiva e
radiofônica, passou a encontrar um contraponto nas redes sociais, que permitem
a circulação mais rápida de informações e podem romper, em parte, o controle do
conteúdo das divulgações exercido pelos grandes conglomerados de comunicação.
Nas
eleições deste ano, já se vislumbra também interferências do governo da extrema
direita norte-americana. A relação entre Brasil e Estados Unidos atravessa um
momento de tensões políticas, evidenciado por declarações públicas de
autoridades norte-americanas com críticas pessoais a Lula, entre elas o
problemático e prepotente secretário de Estado Marco Rubio. A história das
relações internacionais registra inúmeras situações de tentativa de influência
norte-americana sobre processos políticos na América Latina. Nesse ambiente, é
legítimo acompanhar com atenção possíveis ingerências indevidas e pressões
diplomáticas, econômicas e informacionais que possam repercutir no ambiente
eleitoral brasileiro, inclusive ações destinadas a tumultuar o pleito em favor
de Flávio Bolsonaro ou de outro candidato que ofereça alinhamento incondicional
aos interesses dos Estados Unidos.
Diante
desse panorama e dos movimentos do PIG, que já não disfarça sua atuação, embora
insista em repetir a desgastada justificativa de que sua missão jornalística
seria pautada pela isenção e pela transparência princípios que, na prática,
historicamente foram questionados por sua atuação alinhada aos interesses do
poder oligárquico, toda atenção às suas estratégias é necessária. Com
raríssimas exceções, parcela significativa dos profissionais que atuam nesses
conglomerados encontra-se submetida às diretrizes editoriais definidas por seus
proprietários, fazendo com que a manipulação da apresentação dos fatos se torne
um instrumento de disputa política. Essa mídia já iniciou sua campanha contra a
reeleição de Lula. Por isso, é imprescindível não sucumbir às armadilhas
recorrentes e de última hora frequentemente utilizadas para influenciar o
eleitorado.
Ao
longo da história recente, a mídia corporativa foi alvo de críticas por sua
atuação em processos eleitorais. Não podemos esquecer o papel desempenhado pela
Rede Globo, durante os anos das práticas jurídicas indevidas da Operação Lava
Jato, quando o Partido dos Trabalhadores e sua principal liderança política, o
presidente Lula, foram alvos de uma intensa cobertura de descredibilidade. Os
efeitos desse processo ainda se fazem sentir anos depois, uma vez que parte do
eleitorado ainda preserva uma rejeição ao Partido dos Trabalhadores, fenômeno
que diversos pesquisadores associam, ao menos em parte, ao ambiente
informacional produzido naquele período.
A
decisão do eleitor, portanto, deve ser resultado de informação e reflexão
crítica. O país, ao contrário do panorama da atual composição do Congresso
formada majoritariamente por parlamentares do Centrão e da extrema direita
bolsonarista, necessita renovar essa bancada com representantes que compreendam
o mandato parlamentar como uma função de natureza pública, orientada pelo
planejamento, pela responsabilidade fiscal e pelo compromisso com políticas
estruturantes, e não como instrumento de promoção pessoal ou de construção de
projetos privados de poder.
Entretanto,
a profunda distorção provocada pela crescente concentração de recursos
orçamentários sob controle do Congresso Nacional somente poderá ser revertida
com a formação de uma maioria parlamentar comprometida com a revisão do Projeto
de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO), de modo a restabelecer o equilíbrio
entre as prerrogativas do Legislativo e do Executivo na definição e execução do
orçamento público. A destinação de valores cada vez mais elevados às emendas
parlamentares, frequentemente associadas a investigações sobre desvios de
recursos envolvendo, em grande medida, parlamentares do Centrão e da extrema
direita evidencia a necessidade de um novo modelo de gestão orçamentária,
pautado pela transparência, pela rastreabilidade dos recursos, pelo controle
social e pela prevalência do interesse público sobre conveniências eleitorais
ou patrimoniais.
No
âmbito do Poder Executivo, a Presidência da República deve ser confiada a quem
tenha uma trajetória pública que constitua, por si só, a principal credencial
para o exercício do cargo. Alguém que não faça da mitomania seu projeto de
poder e nem desse transtorno seu principal escudo. Importa um histórico de
compromisso com o interesse público, de respeito ao patrimônio coletivo e de
independência em relação a interesses privados. A condução do país não pode ser
entregue a quem tenha utilizado a política como instrumento de enriquecimento
pessoal, de apropriação dos recursos públicos ou de submissão do interesse
nacional a geopolíticos estrangeiros em troca de benefícios pessoais ou
políticos.
A
presidência deve recair sobre uma liderança que tenha demonstrado, ao longo de
sua vida pública, coerência e firmeza na defesa da soberania nacional, da
autonomia decisória do Estado brasileiro e da preservação de suas riquezas
estratégicas, compreendendo que governar é colocar o poder público a serviço da
redução das desigualdades, da ampliação de direitos e da melhoria concreta da
vida de toda a população.
Fonte:
Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

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