O
desafio de aprender com os próprios erros
No
próximo ano, o caso que culminou no suicídio do reitor da Universidade Federal
de Santa Catarina (UFSC), professor Luiz Carlos Cancellier de Olivo, completará
dez anos. Uma década é tempo suficiente para que o jornalismo ultrapasse a
urgência da notícia e transforme um episódio traumático em objeto de reflexão
crítica. No entanto, as feridas permanecem abertas. Não apenas para familiares,
amigos e a comunidade universitária, mas também para a própria imprensa, que
precisa revisitar esse episódio como um exemplo contundente dos dilemas éticos
da cobertura de investigações e acusações.
Em
setembro de 2017, Cancellier foi preso preventivamente durante a Operação
Ouvidos Moucos, conduzida pela Polícia Federal (PF), acusado de tentar obstruir
investigações sobre supostos desvios de recursos na universidade. Dias depois,
em 2 de outubro, proibido de entrar no campus da instituição que dirigia e
submetido à intensa exposição pública, suicidou-se. Posteriormente, o processo
revelou fragilidades nas acusações e o caso passou a simbolizar os efeitos
devastadores da combinação entre excessos institucionais e julgamentos
antecipados.
Embora
a responsabilidade por sua morte não possa ser atribuída a um único agente, é
impossível ignorar o papel desempenhado pela cobertura jornalística. Em muitos
momentos, a reprodução acrítica de informações oficiais, a espetacularização da
operação policial e a lógica da acusação transformada em narrativa dominante
contribuíram para consolidar uma condenação pública antes da apuração dos
fatos.
Como
resumiu o professor Francisco José Karam no documentário Em nome da inocência:
Justiça (dirigido e roteirizado por Sérgio Giron e Edike Carneiro, sobre o caso
Cancellier), “a ética jornalística foi sepultada nesse processo”. A afirmação
sintetiza a crítica à atuação de parte da imprensa durante a cobertura do caso,
marcada pela priorização do sensacionalismo em detrimento do rigor com a
investigação e do respeito aos princípios basilares do jornalismo.
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Lições que o jornalismo ainda não aprendeu
O
episódio remete inevitavelmente ao caso Escola Base, ocorrido na década de
1990, frequentemente lembrado como um marco negativo nas aulas de ética
jornalística. Naquela ocasião, os proprietários de uma escola infantil em São
Paulo foram acusados injustamente de abuso sexual, tiveram suas vidas
destruídas pela cobertura da imprensa e somente depois foram inocentados.
Passados mais de trinta anos, o caso Cancellier demonstra que as lições daquele
episódio ainda não foram plenamente incorporadas pela prática jornalística.
A
lógica da velocidade, exclusividade e do impacto continua frequentemente
prevalecendo sobre princípios fundamentais como a checagem rigorosa,
contextualização dos fatos e prudência diante de acusações ainda em
investigação. Noticiar operações policiais ou denúncias de interesse público é
uma função essencial da imprensa! O problema, no entanto, é fazê-lo sem o
devido equilíbrio, transformando suspeitas em sentenças e personagens em
culpados antes mesmo do devido processo legal.
Nesse
contexto, o podcast As mãos que empurraram o reitor, produzido pelas estudantes
de Jornalismo da UFSC Camila Borges e Júlia Cataneo, sob orientação do
professor Áureo Mafra de Moraes, oferece uma contribuição para a compreensão
desse episódio. Vencedor do Intercom Nacional 2025 na categoria Produção
Laboratorial em Audiojornalismo e Radiojornalismo, o trabalho amplia o olhar
sobre o caso ao reunir diferentes perspectivas e discutir as responsabilidades
compartilhadas.
A
metáfora das “mãos que empurraram” revela justamente que determinadas tragédias
resultam de uma sucessão de decisões inadvertidas: discursos e práticas
produzem consequências irreversíveis, quando somadas. Entre essas mãos,
encontram-se também narrativas jornalísticas que reforçam estigmas, amplificam
suspeitas e contribuem para o isolamento social de quem ainda sequer foi
julgado.
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A responsabilidade social do jornalismo
Essa
perspectiva reforça uma questão central da ética jornalística: o compromisso
com a verdade factual não pode se limitar à reprodução de declarações oficiais,
vazamentos de investigações ou versões produzidas pelas autoridades. Como já
defendia Cremilda Medina (1982), a responsabilidade social do jornalismo exige
reconhecer que toda narrativa interfere de forma concreta na vida das pessoas
retratadas. A busca pela informação deve caminhar lado a lado com a consciência
de seus possíveis efeitos.
O caso
Cancellier evidencia uma ferida ainda aberta na prática jornalística
contemporânea: a tendência de parte da imprensa de assumir, ainda que
involuntariamente, o papel de instância de julgamento público. Toda vez que a
notícia assume o lugar da sentença, a suspeita ganha o peso da culpa. Quando a
visibilidade vale mais do que a prudência, o jornalismo enfraquece sua missão
democrática, passando a alimentar processos de condenação pública.
Essa
constatação conduz à necessidade de fortalecer um paradigma de precaução ética.
Isso significa reconhecer que determinadas formas de exposição midiática
(especialmente durante investigações preliminares) carregam riscos
irreversíveis para a reputação, a saúde mental e, em casos extremos, para a
própria vida das pessoas envolvidas. A prudência integra a responsabilidade
jornalística, assim como a contextualização dos fatos fortalece uma informação
mais rigorosa, precisa e comprometida com a complexidade da realidade.
Humanizar personagens é reconhecer que as pessoas retratadas pelo jornalismo
permanecem sujeitos de direitos, dignidade e vulnerabilidades, mesmo quando
estão sob investigação ou diante de acusações.
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Um marco sobre os limites éticos da imprensa
Prestes
a completar dez anos, o caso Cancellier deixa de ser apenas um episódio da
história recente para consolidar-se como um marco na reflexão sobre os limites
éticos da imprensa brasileira. Seu legado não deve se restringir à memória de
uma tragédia individual, mas servir como oportunidade permanente de análise e
aperfeiçoamento das práticas jornalísticas.
Trata-se
de construir um jornalismo que compreenda que cada palavra publicada produz
efeitos concretos na vida das pessoas. Informar continua sendo um dever
inegociável da imprensa. Mas fazê-lo com responsabilidade, equilíbrio e
respeito à dignidade humana talvez seja a principal lição que o caso Cancellier
ainda oferece ao jornalismo brasileiro.
O papel
da imprensa é informar com independência, fiscalizar o exercício do poder,
contextualizar os fatos e garantir ao público uma narrativa construída sobre
evidências, pluralidade de fontes e respeito aos direitos fundamentais.
Quando
abdica dessa função e se limita a reproduzir acusações ou a amplificar
espetáculos de punição, o jornalismo demonstra a falta de compromisso com a
responsabilidade social, enfraquecendo a credibilidade e comprometendo a
confiança. O caso Cancellier recorda que a ética jornalística se mede também
pela forma pelos efeitos que a informação pode gerar sobre a vida das pessoas e
sobre a democracia.
Fonte:
Por Magali Moser, no Observatório da Imprensa

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