HISTÓRIAS
BRASILEIRAS: MEUS CIGARROS, MINHA SELEÇÃO
Diferentemente
de outros ritos de passagem que consigo apenas estimar quando aconteceram, sou
capaz de cravar o dia em que fumei o primeiro cigarro da vida: 23 de julho de
2001. Não que eu dê tanta importância assim ao fumo, que sequer virou hábito,
mas me lembro o que acontecia enquanto, escondido no banheiro de um quarto de
hotel, eu engasgava após tragar o Free Longo que minha avó havia deixado pela
metade no cinzeiro: a Seleção Brasileira perdia para Honduras, por 2 a 0, e
dava adeus à Copa América.
Eu
tinha 13 anos, e não sei em que cidade estávamos. Naquela época, meus avós
permaneciam longos períodos de tempo na estrada e eventualmente davam notícias
de seu paradeiro para que meus pais e eu pudéssemos encontrá-los. Anos mais
tarde, quando já me sentava na mesa dos adultos, colhi pistas que me ajudaram a
entender o permanente estado de fuga em que meus avós se encontravam naquela
virada de século. Outras informações se perderam para sempre. Hoje os dois são
nonagenários, e não consigo diferenciar o que me escondem de propósito e o que,
consciente ou inconscientemente, se recusam a lembrar.
Memórias
de infância, em geral, não são lineares. Para organizar as minhas, busco
âncoras para traçar uma linha do tempo mais clara. Por exemplo, eu poderia
contar a história da minha família pelos cigarros que fumavam. Meu pai foi fiel
ao Minister até que a marca saiu de linha, fazendo com que ele adotasse o Lucky
Strike como seu acompanhante até o infarto. Minha mãe fumou Free Box até
descobrir que estava grávida do meu irmão, quando se tornou a primeira da
família a largar o vício. O Free Longo da minha avó veio em substituição ao
Charm, que em algum momento ficou caro. Meu avô fumava Carlton e a cartela
durava dias. Era a mesma marca do tio Sérgio, com a diferença que seu maço
durava menos que um dia. Ele era casado com a minha madrinha, que fumava Free
Maço. Meu tio Marco era fumante de Marlboro, e sua ex-mulher, não tenho
certeza, talvez não fumasse, talvez fumasse só maconha. Minha família nunca
gostou muito dela. Diziam que era “do contra”. Moderna demais por trabalhar
fora, por não preparar o jantar do meu tio.
Em
algum momento, no mesmo ano em que dei meu primeiro trago, os adultos da
família se reuniram para fazer contas domésticas, e o cigarro estava entre os
principais gastos fixos. O objetivo daquela matemática era calcular o custo de
vida da família e projetar, a partir disso, quanto tempo ela sobreviveria sem
nenhuma fonte de renda certa. Algumas semanas antes, meu avô havia recebido uma
proposta para tocar uma fazenda de mamona no Tocantins e, por razões que se
relacionam com seus longos períodos de nomadismo no começo dos anos 2000, ele
tinha dinheiro o suficiente para o investimento e para manter a família por
alguns meses, apostando numa primeira safra lucrativa.
Meu pai
e ele, imbuídos de um espírito rondonista, chegaram a pegar a estrada até
Palmas em uma viagem que durou, ida e volta, quase uma semana. Eles nos ligavam
a cobrar de orelhões ao longo do trajeto e, mesmo com a voz cansada,
demonstravam encanto com aquela cidade planejada, fundada havia pouco mais de
dez anos. Voltaram da expedição trazendo uma boa nova: as contas fechavam, o
vento era favorável e fazia sentido deixar o interior de São Paulo para trás e
tentar ganhar a vida em um estado cheio de potencial.
Dizer
que cheguei a arrumar as malas seria exagero, mas não tanto, já que meus
familiares davam como certa a maior mudança de nossa vida. Até que houve um
veto e meu avô o respeitou. Ou todos estavam de acordo ou o negócio não sairia,
lembro bem dessa toada. E não saiu porque a mulher do meu tio Marco, que tinha
gastos muito mais interessantes que os maços de cigarro, não comprou a ideia de
se mudar para uma fazenda no Norte do país. Mais do que nunca, foi taxada como
alguém “do contra”, e até hoje é apontada pelo meu avô como a culpada por ele
não ter se aventurado no agro.
O que
teria sido de mim? Que impactos de uma mudança tão grande teria na vida de um
moleque de 13 anos? Eu teria ganhado uma caminhonete ao completar 18 anos? Me
identificaria com as músicas que narram bebedeiras homéricas, uma boutique de
chifres e a vida na fazenda? Meu avô, enquanto ainda vivia o sonho, tinha
planos grandiosos para mim. Dizia que eu me formaria em direito pela
Universidade Federal de Tocantins (UFT) e me tornaria o deputado mais jovem do
estado. É claro que esses planos habitavam o reino da fantasia, mas deixavam
transparecer a forma como ele sempre lidou com a família – como uma extensão de
seus próprios anseios, sem que nenhum dos filhos, genros, noras e netos fosse
dotado de plena autonomia e livre-arbítrio.
A
figura masculina com maior ascensão sobre meu avô era um tio, o tio Wilson.
Minha avó diz que ele é que ensinou tudo de errado que meu avô sabe fazer. Tio
Wilson era uma figura que circulava pelo Centro de São Paulo nos anos 1950,
financiou apresentações de um falso jejuador no Largo do Paissandú, deu um
golpe num tabelião de notas e quase vendeu um esquema de pirâmides para o
Sílvio Santos. Quando se aposentou, comprou um sítio em Mairiporã e construiu
uma casa para cada filho em torno da casa maior, onde passou os últimos anos de
vida. Meu avô, ao rascunhar a planta da fazenda no Tocantins, estruturou a casa
de cada filho da mesma forma que o tio. Um dia, quando perguntei a ele sobre
essa aparente coincidência, ele apenas me encarou, com um olhar distante. Não
sei se mirava 25 ou 70 anos atrás.
Cigarros
à parte, eu também poderia contar a história da minha infância pelos
campeonatos de futebol a que assistíamos, sobretudo os disputados pela Seleção
Brasileira. Pensar nos primeiros anos da década de 1990 é ser transportado para
uma casa na Zona Norte de São Paulo, sempre cheia, em que eu era a única
criança, cercada por oito adultos e uma cachorra. Sentávamos em volta da tevê
e, através da neblina meio azulada das baforadas, surgiam rostos conhecidos
trajando camisa amarela e calção azul.
Era uma
experiência compartilhada saber o time para o qual seus amigos e seus
familiares torciam. O Tales Diniz era palmeirense, filho de corintianos. Na
casa do Rafael Queirós todos eram palmeirenses, menos o pai, que torcia para a
Portuguesa. A Thaís Binotto era são-paulina, como os pais, tios e avós.
Na
minha casa, éramos são-paulinos também. Quer dizer, meu avô era – e isso era o
que contava. Nesse balaio entrávamos eu, minha mãe, meus dois tios e a namorada
“do contra”. A maioria, portanto. Mas minha avó e minha tia eram corintianas. E
meu pai não gostava de futebol. Não éramos torcedores praticantes – eu já
estava na faculdade quando finalmente conheci um estádio –, mas a Seleção nos
mobilizava, influenciava nosso humor, nossos planos.
Lembro
bem da minha avó inconformada com um lance protagonizado pelo goleiro
brasileiro na final da Copa América de 1995, contra o Uruguai. Foi a primeira
derrota da amarelinha que me doeu. O azedume da minha avó foi maior ainda, e
ela quase não abriu a boca até a hora das videocassetadas do Faustão.
A
derrota para Honduras veio numa fase mais cínica, digamos. Claro que tínhamos
outras prioridades naquele quarto de hotel, em 2001, mas a fase do time não era
boa e a esperança do penta só era cultivada pelos ingênuos.
Éa
partir do ano de 1994 que minha vida ganha contornos mais reais, na minha
memória. De antes disso, guardei somente flashes, lembranças visuais que podem
muito bem ter saído das fotografias que reuni ou das fitas VHS a que
assistíamos uma vez por ano, contendo gravações de viagens ou de festas de
aniversário da familiares. Mas, em 1994, houve Copa do Mundo, e esse é um ponto
de partida seguro. Também nele, meus avós estão ausentes.
Nesse
caso, tenho prova material de que os dois estavam num hotel em algum canto da
Flórida, entre Orlando e Fort Lauderdale. Foi de lá que, em 15 de junho de
1994, por volta das onze da manhã, horário local, minha avó escreveu duas
cartas: uma endereçada a mim, outra para o resto da família. Na minha há uma
lista de presentes – roupas, bonecos, um reloginho – que eles trariam para o
Brasil. Na outra, um diário de viagem descrevendo placas de trânsito, a piscina
do hotel, as vending machines, e anunciando que no dia seguinte embarcariam
para Nova York. Minha avó não tinha ideia, mas essa viagem também se
relacionava com o dinheiro que mais tarde quase foi usado para comprar a
fazenda de mamona.
Os três
jogos da primeira fase, contra Rússia, Camarões e Suécia, vi com meus avós.
Estávamos nos Estados Unidos, a sede da Copa, mas vimos tudo pela televisão.
Nas oitavas de final, contra os anfitriões, eu me dividia entre os brinquedos
novos e a tevê, até que a cotovelada de Leonardo em Tab Ramos no final do
primeiro tempo prendeu minha atenção. A entrada violenta rendeu um cartão
vermelho direto e fez com que jogássemos com um homem a menos no segundo tempo.
No fim, vencemos com um gol de Bebeto, que comemorou – mais aliviado que feliz
– dizendo um “eu te amo” visceral para Romário.
No jogo
seguinte, contra a Holanda, o lateral esquerdo Branco, recuperado da lesão no
ciático que havia aberto espaço para Leonardo, voltou ao time titular. E sua
presença foi essencial para a vitória no tempo regulamentar, já que veio dele o
petardo numa cobrança de falta, com direito a um contorcionismo esperto de
Romário, que selou a vitória por 3 a 2, em um jogo que levou três mulheres da
minha família a recorrerem a um copo de água com açúcar.
Venceríamos
aquela Copa, todo mundo sabe. Mas o que ficou na minha memória foram outras
coisas, além da comemoração. Lembro que, enquanto colegas do futebol da rua ou
da quadra da escola espalmavam bolas dramaticamente gritando “Taffareeeeel!”,
eu torcia para que aquele goleiro com pinta de alemão e rosto vermelho de Sol
se lesionasse ou fosse expulso, como Leonardo, para que Zetti – esse sim o
melhor goleiro do mundo – assumisse a vaga de titular. Ronaldinho (o futuro
fenômeno) estava no banco e foi preterido até por Viola, mas ninguém sabe que,
no meu universo, Ronaldão (o zagueiro) era muito mais importante que seu xará
com a alcunha no diminutivo.
A
Seleção nos mobilizava por coisas assim: pela proximidade, pelas
peculiaridades, pela intimidade que tínhamos com aqueles rapazes, cheios de
histórias que nos interessavam. Rapazes que retornariam dos Estados Unidos com
17 toneladas de bagagem do avião, num episódio que ficou conhecido como o “voo
da muamba”. O caso foi tratado pelos jornais como um escândalo de evasão
fiscal, mas, no subúrbio em que cresci, muamba não era sinônimo de esquemas ou
cifras milionárias. Era o rádio-relógio que uma tia trazia do Paraguai, os
bonequinhos de Power Ranger com cabeça flexível vendidos na feira, o Dynavision
na casa de um colega da escola, o micro system que a vizinha comprava pela
metade do preço. Toda família conhecia alguém que fazia compras na fronteira,
ou conhecia alguém que conhecia quem o fizesse.
Talvez
por isso aqueles jogadores nos parecessem tão próximos. Ainda eram sujeitos que
voltavam para casa carregando as mesmas bugigangas que encantavam a nossa
infância, com as mesmas tentações, em uma época marcada pela contradição da
abertura econômica com o confisco da poupança, quando ser sorteado na Tele Sena
talvez fosse o sonho que unisse a todos.
Quatro
anos depois, perdi a ilusão de que o Brasil ganharia todas as Copas do Mundo ao
sermos derrotados pela França. Assisti à final só com os meus avós, num
apartamento acanhado perto do Aeroporto de Congonhas – cenário muito diferente
da casa de subúrbio em que cabia minha infância toda, no bairro de Chora
Menino. A derrota doeu, mas me ajudou a entender os limites dos meus mundos e
dos meus quintais. Não haveria uma ruptura com a Seleção, mas uma aproximação
amadurecida, com a consciência de que derrotas, até mais do que vitórias,
fariam parte da nossa relação, que não dependeria de títulos para existir.
Mas
nunca deixou de ser difícil. Aquela eliminação para Honduras, em 2001, me fez
procurar abrigo no banheiro onde encontrei o meu primeiro cigarro. Muita coisa
mudou entre ele e o Camel bissexto que fumo enquanto assisto ao Brasil ser
eliminado pela Noruega. No campo estão alguns jogadores que eu sequer sabia que
existiam até a convocação. Brasileiros que assistem à partida encostando a
barriga num balcão de padaria – esse mundo onde ninguém vê Premier League ou
coisa que o valha – não saberão diferenciar Gabriel Magalhães de Bruno
Guimarães, nomes compostos, pomposos e vazios.
Estou
sozinho em casa, tentando me importar com jogadores que não valem um Derby
Vermelho, mas minha cabeça está longe. Sou incapaz de lembrar dos jogos que
disputamos nos últimos dois mundiais, mas retenho detalhes das partidas dos
anos 1990, assim como lembro exatamente da sensação de achar um cigarro aceso
ao me esconder no banheiro para chorar a eliminação em um campeonato menor. Não
só a eliminação. Chorava um pouco pelo Brasil, mas muito pelo medo de que o
encontro com os meus avós fosse mais uma vez efêmero e que, logo cedo, no dia
seguinte, nos separássemos na estrada.
Hoje, a
saída precoce do Brasil em uma Copa do Mundo quase não me afeta. Não só não
houve um “voo da muamba” como apenas um jogador retornou para o Brasil no avião
fretado pela CBF. Como se importar com esses caras?
O que
mais amarga minha boca ainda é a escassez do tempo. É provável que essa tenha
sido a última Copa dos meus avós, com quem eu havia planejado ver os jogos
seguintes caso o Brasil passasse de fase. Voltar a me conectar com a Seleção é
uma tentativa de preservar o posto de neto, um neto que fuma escondido e acha
que vencer a Copa é a coisa mais corriqueira do mundo.
Fonte:
Por Lucas Verzola, na Piauí

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