segunda-feira, 27 de julho de 2026

A União Europeia e a mão-de-obra militar ucraniana

Quando a Rússia entrou pela primeira vez na Ucrânia, em fevereiro de 2022, a União Europeia reagiu com uma velocidade e generosidade sem precedentes na história do bloco. Sabendo o que sabemos hoje sobre o Frontex, os biliões que os europeus pagam para serem construídos autênticos campos de concentração, nos países periféricos da União Europeia, ou o que sabemos sobre a forma como os povos europeus tendem a tratar os imigrantes que aí procuram refúgio económico, poderíamos ser levados ao engano.

O que se teria passado desta vez? Uns especularam com a cor da pele, os cabelos loiros e os olhos azuis e outros, ainda, encantados com a beleza feminina consagrada das eslavas, mas nada disso valeu noutras situações em que a OTAN, EUA e União Europeia, o Ocidente, decidiram mover o seu poderio bélico contra populações consideradas menores ou passíveis de uma certa necessidade de disciplina.

Nomeadamente no caso da Iugoslávia e, até hoje, da Sérvia. Afinal, de que se fez esta “generosidade” ocidental, tão excepcional como desconcertante, que conduziu à ativação quase imediata da Diretiva de Proteção Temporária – um mecanismo que havia sido criado após as guerras dos Balcãs, mas nunca utilizado? Teria dado uma epifania de remorso? Um surto de autoconsciência?

Foram milhões os cidadãos ucranianos que foram acolhidos com direito a residência, trabalho, assistência social e à saúde. Tudo o que se discute não poder ser garantido aos imigrantes com pele curtida pelo sol mediterrânico, aceitou dar-se aos refugiados ucranianos. Sem desdém algum pela solidariedade que é movida na direção de quem foge da guerra, a verdade é que foi chocante ver esta verdadeira tentativa de whitewashing (branqueamento) histórico, ter origem precisamente em quem estava por detrás da eclosão do conflito, por quem sempre negou tal solidariedade a povos como o palestino, líbio, sírio ou iraquiano, igualmente vítimas da lógica de agressão da OTAN, dos EUA e da sua extensão europeia.

Neste caso era diferente! Estava do lado de lá o papão russo, estava Vladimir Putin, elevado a pior ditador da história humana, esquecida que estava a Europa Ocidental de ter parido gente como Hitler ou Mussolini, tão olvidados quanto alvos de processos de branqueamento histórico e de uma reescrita revisionista, que visou comparar quem mais combateu e foi vítima do nazi-fascismo, a seu igual.

Também podemos dizer que a Federação Russa recebeu milhões de ucranianos. É certo! Mas esta recepção estava longe de ser excepcional ou inesperada. Afinal, a Federação Russa sempre alegou que uma das razões para a intervenção na Ucrânia se relacionava com a necessidade de defender os povos russófonos da Ucrânia. Acresce que todos sabíamos que a ansiedade de intervenção no Donbass já há muito que era transmitida pelas forças populares ao Kremlin, para que este parasse o massacre de russos. Para o povo Russo, esta guerra é uma guerra pelo mundo russo, pela sua língua, religião e cultura. Pelo seu direito a existir. Algo que o Ocidente não consegue aceitar.

<><> Os números que contam a história

Segundo dados do Centro de Estratégia Económica da Ucrânia, até novembro de 2024, 5,2 milhões de refugiados ucranianos permaneciam no estrangeiro. Destes, 3,7 milhões saíram pela fronteira ocidental, rumo à Europa. Através da Rússia ou Bielorrússia, estima-se que tenham saído cerca de 239 mil pessoas. Outros 1,3 milhões, segundo a ONU, tornaram-se refugiados na própria Rússia ou Bielorrússia.

Se a Ucrânia estava dividida, grosso modo, em 1/3 de falantes de ucraniano, 1/3 de falantes de uma mistura de russo e ucraniano e 1/3 de falantes de russo, perante a abertura das fronteiras russas, seria de esperar uma fuga em massa em tal direção. A não ser que a União Europeia abrisse também as suas fronteiras. Aí, prevaleceria o sonho europeu que quase destruiu a Federação Russa, que havia destruído a URSS e que ameaça agora destruir a Ucrânia. Nunca queiras pertencer a quem te acha inferior!

Podemos dizer que esta boa vontade da União Europeia funcionou como um contrapoder concorrencial à natural e expectável abertura da Rússia. Lá no fundo, a UE sabia que muitos ucranianos não olhavam para a Federação Russa como um inimigo, mas como parte do seu mundo. A quantidade de ucranianos do centro – para não falar do Donbass – que possuíam algum tipo de ligação à federação Russa, era muito elevada. Nesse sentido, a União Europeia não poderia arriscar-se a deixar tais populações terem na Federação Russa a sua única possibilidade de destino de fuga.

Esta atitude demonstra que, bem lá no fundo e sem nunca o admitir, a União Europeia sabia bem que o regime de Kiev não liderava uma luta popular contra a Federação Russa. Nesse sentido, a União Europeia foi forçada a agir perante a previsível fuga em massa das populações. No pico, terão fugido 16 milhões de ucranianos das suas casas!

Foi nesta fase que foi muito importante o financiamento dos EUA, União Europeia e Reino Unido aos órgãos de comunicação de massas de Kiev e do ocidente, para que produzissem notícias que: (i) convencessem os europeus a aceitar esta súbita vaga migratória, como algo honorável e moralmente imperioso, mitigando assim os ataques aos refugiados perpetrados em toda a União Europeia, e não somente a migrantes do sul global – vejam-se os casos de perseguição de imigrantes portugueses na Irlanda; (ii) convencessem os ucranianos mais indecisos quanto ao destino da fuga de que, na União Europeia, iriam encontrar vida fácil.

Tudo isto teve como epílogo a fuga da esmagadora maioria dos ucranianos para o Ocidente e não para o Leste. A verdade é que foi muito difícil à Federação Russa competir com o “apelo europeu”. A União Europeia oferecia direitos, subsídios, emprego, escolas para as crianças, acesso à saúde, ao passo que a Federação Russa apenas oferecia uma Rússia denegrida e desumanizada por anos de má imprensa estratégica. A proposta era demasiado atrativa e mesmo muitos ucranianos russófonos acabaram por sucumbir ao apelo.

<><> A União Europeia acolhe – mas controla

A Diretiva de Proteção Temporária, ativada em março de 2022, concedeu, a mais de 4,3 milhões de ucranianos, um estatuto legal na União Europeia. A Alemanha acolheu cerca de 1,8 milhões, a Polônia quase 1 milhão, a República Checa cerca de 380 mil. Países com governos supremacistas e conhecidos pelas respectivas posições xenófobas, neofascistas e “eslavófobas”, foram os que mais abriram os braços. O resultado de tal decisão e a forma como as suas populações a viram estão à vista com o crescimento – e chegada ao poder – da extrema direita. Mesmo que, no caso alemão, essa extrema direita se chame CDU – como em Portugal já vimos que também pode responder pelo nome de PSD/CDS.

O fato é que, comprovando a artificialidade do estatuto, o mesmo veio acompanhado de uma característica fundamental: o seu carácter temporário, perene, precário! Tal proteção foi sendo sucessivamente prorrogada – em outubro de 2023, junho de 2024 ou julho de 2025 –, mas sempre com a ressalva de que um dia terminaria. A promessa era simples: quando terminasse, os “refugiados” teriam de regressar ou transitar para outro estatuto legal disponível (trabalho, estudo, reagrupamento familiar).

Mas foi em setembro de 2025 que o Conselho da União Europeia confirmou as suas reais pretensões, adoptando uma recomendação sobre a “transição para fora da proteção temporária”, na qual foi estabelecido um quadro comum para o regresso à Ucrânia e reintegração dos deslocados ucranianos. Acabava aqui o sonho europeu!

Tenho pena de quem acreditou que a Ucrânia havia sido apanhada desprevenida com a “Operação Militar Especial”. Tenho pena de quem pensou que a intervenção da União Europeia havia sido espontânea e inesperada. O documento da RAND Corporation “Extending Russia” demonstra bem há quanto tempo se preparava esta intervenção. O facto de Ângela Merkel e François Hollande virem assumir que os acordos de Minsk serviram para ganhar tempo à Rússia e para militarizar a Ucrânia, também demonstra que esta realidade nada tem de inesperada. Apenas os ucranianos terão sido apanhados de surpresa, mas a União Europeia sabia que estes milhões de pessoas não ficariam para sempre e que, entre eles, havia centenas de milhares de homens e mulheres em idade militar.

<><> Os cortes progressivos

Foi, portanto, sem surpresa que assistimos às mudanças, que foram sucedendo de forma gradual, subreptícia, insidiosa e tremendamente cínica para o povo ucraniano, especialmente aqueles que pensaram estar protegidos pelo Ocidente. Hoje, estão prestes a pagar bem caro pela decisão que haviam tomado.

Não obstante os avisos e apelos, a população ucraniana refugiada insistia em não arredar pé. Mas, para forçar a sua mão e impedir a entrada de mais refugiados, em novembro de 2025, o governo alemão aprovou um projeto de lei para reduzir os subsídios aos ucranianos que chegassem após 1 de abril de 2025.

Já na Polônia, o apoio financeiro a famílias que acolhiam refugiados (40 PLN/dia) e o subsídio de instalação (300 PLN) foram descontinuados logo em julho de 2024. Nessa data, os refugiados ucranianos passaram a ser “encorajados” a tornarem-se economicamente autónomos. Na Irlanda, também desde 2024 que os pagamentos semanais a refugiados alojados pelo Estado haviam sido cortados, com o argumento de que “o alojamento em si cobre parte das necessidades básicas”.

Por fim, na Hungria, decidiu-se mesmo pelo cancelamento do alojamento financiado pelo Estado para refugiados provenientes de zonas ocidentais da Ucrânia, agora consideradas “seguras”. “Seguras” quanto aos russos! Mas… E quanto aos títeres do TCC?

A mensagem era clara: a porta está a fechar-se. É hora de irem embora! Algo que vinha a calhar perante os repetidos esforços de Kiev para que os países europeus forçassem os ucranianos em idade militar a voltarem, nem que fosse à bruta, tal o amor que o regime por eles nutre!

<><> A Crise de mão-de-obra militar

Mas nada parecia funcionar. O apelo patriótico era quase inexistente, num país muito recente e marcado pela divisão étnica e a artificialidade histórica. Nem o revisionismo levado pela USAID e ensinado, especialmente desde a revolução laranja, nas escolas básicas, parece ter sido decisivo para conferir tal profundidade patriótica a muitos dos ucranianos. Segundo o Centro de Estudos OSW, na Ucrânia, apenas cerca de 200 mil pessoas foram recrutadas em 2024 – um número insuficiente para manter as unidades de linha da frente. Nem o recurso a africanos, sul-americanos (originários de cartéis de droga que vêm aprender à Ucrânia), membros do Estado Islâmico, polacos, norte-americanos ou canadianos foi suficiente para combater a degradação da frente.

A resposta do regime de Kiev consistiu no endurecimento brutal da conscrição, à moda nazi e à moda dos regimes que usam as populações para os seus intentos. Em 2014, quando o Donbass se revoltou contra o golpe de Maidan, os habitantes da região defenderam o seu mundo – muitos voluntariamente. Do lado de Kiev, a história foi diferente. A mobilização enfrentou sempre resistência.

Por muito que a imprensa internacional, nas mãos dos EUA e do sionismo, esconda fenómenos amplamente documentados como o da “busificação”, das redes de traficantes que ajudam a atravessar a fronteira (120 funcionários detidos em 2024, 61 acusações, subornos de 11,4 milhões de hryvnias), dos 290 mil processos por deserção ou dos 2 milhões de evadidos do recrutamento, tudo isto aponta para uma guerra que não é popular, pelo menos não do lado ucraniano.

A exceção desta regra são as forças mais agressivas e de extrema-direita – os Azov, o Aidar, e outros grupos neonazistas. Estes, sim, querem a guerra. Tal como Volodymyr Zelensky, tal como a OTAN.

O elemento mais revelador desta realidade consiste no fenómeno da “busificação” – o termo ucraniano para descrever a detenção violenta de homens na rua, em restaurantes, em discotecas e o seu transporte forçado para centros de recrutamento. O Responsible Statecraft documentou dezenas de incidentes, incluindo homens que morreram antes mesmo de vestir o uniforme. Hitler mandou fazer o mesmo, face à resistência dos alemães em continuarem a enfrentar a sua guerra imperialista. No final, Hitler culpou o povo alemão. Zelensky fará o mesmo! É assim que se comporta quem não vive com o povo, entre o povo, como o povo!

A situação é tão grave que, segundo o Ministério da Defesa ucraniano, cerca de dois milhões de cidadãos estão evadidos do serviço militar, a maioria no estrangeiro.

Para responder a esta crise, em coordenação com a União Europeia, Kiev tornou-se ainda mais incisivo e, ainda em abril de 2024, decidiu acompanhar todas as pressões existentes com a decisão de suspensão dos serviços consulares para todos os homens em idade militar (18-60 anos) no estrangeiro. Foi cortado o acesso ao passaporte, certidões e aos documentos essenciais de natureza oficial. Não havia nada que Kiev não jogasse para ter esta gente de volta… Para a morte!

A mensagem foi clara: registra-te no exército ou ficas sem documentos. O objetivo é claro: tornar-lhes a vida insustentável até que o retorno seja a única opção.

<><> A União Europeia alinha-se

Quem pensou que a União Europeia dos “princípios e dos valores” viria em sua defesa deveria ter fugido noutra direção. Em junho de 2026, a notícia saltou para a imprensa: a União Europeia estava a considerar excluir os homens ucranianos em idade de conscrição (23-60 anos) da proteção temporária. Tal proposta ganhou força numa reunião de ministros do Interior em Luxemburgo. O ministro do Interior alemão, Alexander Dobrindt, confirmou: “Notámos que o influxo de pessoas em idade de serviço militar obrigatório aumentou nos últimos meses”, Ficava bem claro o que a União Europeia entende por “defender o povo ucraniano”.

Entretanto, a Bélgica passou a exigir prova de saída legal da Ucrânia para conceder proteção e a Polônia, por outro lado, continua a conceder proteção a quem chega ao seu território, mas têm surgido alguns sinais de alteração vindos de Varsóvia, nomeadamente após a fantástica descoberta, pelo regime polaco, de que em Kiev nazis genocidas são idolatrados como heróis. Por pressão das suas populações, as autoridades polacas não mais puderam fechar os olhos a tal imoralidade.

Volodymyr Zelensky, por seu lado, tem sido claro: os homens em idade militar que deixaram o país “deveriam regressar”, e pediu aos países parceiros que “tratassem da questão”. A União Europeia, que em 2022 abriu as portas a todos, passou agora a selecionar quem pode ficar e quem deve voltar. E quem deve voltar são, precisamente, os homens que podem encher as fileiras da morte.

Será que a União Europeia e a OTAN planejaram isto desde o início? É impossível provar uma intenção conspiratória. Mas o resultado material é o mesmo, caso o tivessem planeado: abram as portas a milhões de ucranianos, atraídos pelo apelo europeu; mantenham-nos no território com proteção temporária, subsídios e direitos; quando a guerra se arrastar e a Ucrânia precisar de homens, cortem os subsídios, restrinjam os direitos, suspendam ou caduquem os documentos; forcem o regresso – não por deportação direta, mas por tornar a estadia insustentável; entreguem os homens às forças armadas ucranianas.

No fundo, a União Europeia guardou consigo um exército laboral (de mão de obra militar) de reserva, pronto a ser explorado em caso de necessidade. Tal reserva estratégica, não apenas defraudou todos os refugiados que pensaram encontrar proteção na União Europeia, como conduziu a que o regime de Kiev desprezasse ainda mais profundamente a vida dos seus soldados, certo de que, quando a crise viesse, contaria com a “boa” vontade dos seus preceptores europeus para mobilizarem, à força, como fazem os fascistas, os ucranianos que para a União Europeia se tinham dirigido, fugindo da guerra e à procura da paz.

A União Europeia, dos governos que prometem uma coisa e fazem outra, deu do seu veneno ao povo ucraniano. Agora, chegou a hora de o libertarem, até que nenhum reste às mãos dos seus algozes!

 

Fonte: Por Hugo Dionísio, em A Terra é Redonda

 

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