A
União Europeia e a mão-de-obra militar ucraniana
Quando
a Rússia entrou pela primeira vez na Ucrânia, em fevereiro de 2022, a União
Europeia reagiu com uma velocidade e generosidade sem precedentes na história
do bloco. Sabendo o que sabemos hoje sobre o Frontex, os biliões que os
europeus pagam para serem construídos autênticos campos de concentração, nos
países periféricos da União Europeia, ou o que sabemos sobre a forma como os
povos europeus tendem a tratar os imigrantes que aí procuram refúgio económico,
poderíamos ser levados ao engano.
O que
se teria passado desta vez? Uns especularam com a cor da pele, os cabelos
loiros e os olhos azuis e outros, ainda, encantados com a beleza feminina
consagrada das eslavas, mas nada disso valeu noutras situações em que a OTAN,
EUA e União Europeia, o Ocidente, decidiram mover o seu poderio bélico contra
populações consideradas menores ou passíveis de uma certa necessidade de
disciplina.
Nomeadamente
no caso da Iugoslávia e, até hoje, da Sérvia. Afinal, de que se fez esta
“generosidade” ocidental, tão excepcional como desconcertante, que conduziu à
ativação quase imediata da Diretiva de Proteção Temporária – um mecanismo que
havia sido criado após as guerras dos Balcãs, mas nunca utilizado? Teria dado
uma epifania de remorso? Um surto de autoconsciência?
Foram
milhões os cidadãos ucranianos que foram acolhidos com direito a residência,
trabalho, assistência social e à saúde. Tudo o que se discute não poder ser
garantido aos imigrantes com pele curtida pelo sol mediterrânico, aceitou
dar-se aos refugiados ucranianos. Sem desdém algum pela solidariedade que é
movida na direção de quem foge da guerra, a verdade é que foi chocante ver esta
verdadeira tentativa de whitewashing (branqueamento)
histórico, ter origem precisamente em quem estava por detrás da eclosão do
conflito, por quem sempre negou tal solidariedade a povos como o palestino,
líbio, sírio ou iraquiano, igualmente vítimas da lógica de agressão da OTAN,
dos EUA e da sua extensão europeia.
Neste
caso era diferente! Estava do lado de lá o papão russo, estava Vladimir Putin,
elevado a pior ditador da história humana, esquecida que estava a Europa
Ocidental de ter parido gente como Hitler ou Mussolini, tão olvidados quanto
alvos de processos de branqueamento histórico e de uma reescrita revisionista,
que visou comparar quem mais combateu e foi vítima do nazi-fascismo, a seu
igual.
Também
podemos dizer que a Federação Russa recebeu milhões de ucranianos. É certo! Mas
esta recepção estava longe de ser excepcional ou inesperada. Afinal, a
Federação Russa sempre alegou que uma das razões para a intervenção na Ucrânia
se relacionava com a necessidade de defender os povos russófonos da Ucrânia.
Acresce que todos sabíamos que a ansiedade de intervenção no Donbass já há
muito que era transmitida pelas forças populares ao Kremlin, para que este
parasse o massacre de russos. Para o povo Russo, esta guerra é uma guerra pelo
mundo russo, pela sua língua, religião e cultura. Pelo seu direito a existir.
Algo que o Ocidente não consegue aceitar.
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Os números que contam a história
Segundo
dados do Centro de Estratégia Económica da Ucrânia, até novembro de 2024, 5,2
milhões de refugiados ucranianos permaneciam no estrangeiro. Destes, 3,7
milhões saíram pela fronteira ocidental, rumo à Europa. Através da Rússia ou
Bielorrússia, estima-se que tenham saído cerca de 239 mil pessoas. Outros 1,3
milhões, segundo a ONU, tornaram-se refugiados na própria Rússia ou
Bielorrússia.
Se a
Ucrânia estava dividida, grosso modo, em 1/3 de falantes de ucraniano, 1/3 de
falantes de uma mistura de russo e ucraniano e 1/3 de falantes de russo,
perante a abertura das fronteiras russas, seria de esperar uma fuga em massa em
tal direção. A não ser que a União Europeia abrisse também as suas fronteiras.
Aí, prevaleceria o sonho europeu que quase destruiu a Federação Russa, que
havia destruído a URSS e que ameaça agora destruir a Ucrânia. Nunca queiras
pertencer a quem te acha inferior!
Podemos
dizer que esta boa vontade da União Europeia funcionou como um contrapoder
concorrencial à natural e expectável abertura da Rússia. Lá no fundo, a UE
sabia que muitos ucranianos não olhavam para a Federação Russa como um inimigo,
mas como parte do seu mundo. A quantidade de ucranianos do centro – para não
falar do Donbass – que possuíam algum tipo de ligação à federação Russa, era
muito elevada. Nesse sentido, a União Europeia não poderia arriscar-se a deixar
tais populações terem na Federação Russa a sua única possibilidade de destino
de fuga.
Esta
atitude demonstra que, bem lá no fundo e sem nunca o admitir, a União Europeia
sabia bem que o regime de Kiev não liderava uma luta popular contra a Federação
Russa. Nesse sentido, a União Europeia foi forçada a agir perante a previsível
fuga em massa das populações. No pico, terão fugido 16 milhões de ucranianos
das suas casas!
Foi
nesta fase que foi muito importante o financiamento dos EUA, União Europeia e
Reino Unido aos órgãos de comunicação de massas de Kiev e do ocidente, para que
produzissem notícias que: (i) convencessem os europeus a aceitar esta súbita
vaga migratória, como algo honorável e moralmente imperioso, mitigando assim os
ataques aos refugiados perpetrados em toda a União Europeia, e não somente a
migrantes do sul global – vejam-se os casos de perseguição de imigrantes
portugueses na Irlanda; (ii) convencessem os ucranianos mais indecisos quanto
ao destino da fuga de que, na União Europeia, iriam encontrar vida fácil.
Tudo
isto teve como epílogo a fuga da esmagadora maioria dos ucranianos para o
Ocidente e não para o Leste. A verdade é que foi muito difícil à Federação
Russa competir com o “apelo europeu”. A União Europeia oferecia direitos,
subsídios, emprego, escolas para as crianças, acesso à saúde, ao passo que a
Federação Russa apenas oferecia uma Rússia denegrida e desumanizada por anos de
má imprensa estratégica. A proposta era demasiado atrativa e mesmo muitos
ucranianos russófonos acabaram por sucumbir ao apelo.
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A União Europeia acolhe
– mas controla
A
Diretiva de Proteção Temporária, ativada em março de 2022, concedeu, a mais de
4,3 milhões de ucranianos, um estatuto legal na União Europeia. A Alemanha
acolheu cerca de 1,8 milhões, a Polônia quase 1 milhão, a República Checa cerca
de 380 mil. Países com governos supremacistas e conhecidos pelas respectivas
posições xenófobas, neofascistas e “eslavófobas”, foram os que mais abriram os
braços. O resultado de tal decisão e a forma como as suas populações a viram
estão à vista com o crescimento – e chegada ao poder – da extrema direita.
Mesmo que, no caso alemão, essa extrema direita se chame CDU – como em Portugal
já vimos que também pode responder pelo nome de PSD/CDS.
O fato
é que, comprovando a artificialidade do estatuto, o mesmo veio acompanhado de
uma característica fundamental: o seu carácter temporário, perene, precário!
Tal proteção foi sendo sucessivamente prorrogada – em outubro de 2023, junho de
2024 ou julho de 2025 –, mas sempre com a ressalva de que um dia terminaria. A
promessa era simples: quando terminasse, os “refugiados” teriam de regressar ou
transitar para outro estatuto legal disponível (trabalho, estudo, reagrupamento
familiar).
Mas foi
em setembro de 2025 que o Conselho da União Europeia confirmou as suas reais
pretensões, adoptando uma recomendação sobre a “transição para fora da proteção
temporária”, na qual foi estabelecido um quadro comum para o regresso à Ucrânia
e reintegração dos deslocados ucranianos. Acabava aqui o sonho europeu!
Tenho
pena de quem acreditou que a Ucrânia havia sido apanhada desprevenida com a
“Operação Militar Especial”. Tenho pena de quem pensou que a intervenção da
União Europeia havia sido espontânea e inesperada. O documento da RAND
Corporation “Extending Russia” demonstra bem há quanto tempo se
preparava esta intervenção. O facto de Ângela Merkel e François Hollande virem
assumir que os acordos de Minsk serviram para ganhar tempo à Rússia e para
militarizar a Ucrânia, também demonstra que esta realidade nada tem de
inesperada. Apenas os ucranianos terão sido apanhados de surpresa, mas a União
Europeia sabia que estes milhões de pessoas não ficariam para sempre e que,
entre eles, havia centenas de milhares de homens e mulheres em idade militar.
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Os cortes progressivos
Foi,
portanto, sem surpresa que assistimos às mudanças, que foram sucedendo de forma
gradual, subreptícia, insidiosa e tremendamente cínica para o povo ucraniano,
especialmente aqueles que pensaram estar protegidos pelo Ocidente. Hoje, estão
prestes a pagar bem caro pela decisão que haviam tomado.
Não
obstante os avisos e apelos, a população ucraniana refugiada insistia em não
arredar pé. Mas, para forçar a sua mão e impedir a entrada de mais refugiados,
em novembro de 2025, o governo alemão aprovou um projeto de lei para reduzir os
subsídios aos ucranianos que chegassem após 1 de abril de 2025.
Já na
Polônia, o apoio financeiro a famílias que acolhiam refugiados (40 PLN/dia) e o
subsídio de instalação (300 PLN) foram descontinuados logo em julho de 2024.
Nessa data, os refugiados ucranianos passaram a ser “encorajados” a tornarem-se
economicamente autónomos. Na Irlanda, também desde 2024 que os pagamentos
semanais a refugiados alojados pelo Estado haviam sido cortados, com o
argumento de que “o alojamento em si cobre parte das necessidades básicas”.
Por
fim, na Hungria, decidiu-se mesmo pelo cancelamento do alojamento financiado
pelo Estado para refugiados provenientes de zonas ocidentais da Ucrânia, agora
consideradas “seguras”. “Seguras” quanto aos russos! Mas… E quanto aos títeres
do TCC?
A
mensagem era clara: a porta está a fechar-se. É hora de irem embora! Algo que
vinha a calhar perante os repetidos esforços de Kiev para que os países
europeus forçassem os ucranianos em idade militar a voltarem, nem que fosse à
bruta, tal o amor que o regime por eles nutre!
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A Crise de mão-de-obra militar
Mas
nada parecia funcionar. O apelo patriótico era quase inexistente, num país
muito recente e marcado pela divisão étnica e a artificialidade histórica. Nem
o revisionismo levado pela USAID e ensinado, especialmente desde a revolução
laranja, nas escolas básicas, parece ter sido decisivo para conferir tal
profundidade patriótica a muitos dos ucranianos. Segundo o Centro de Estudos
OSW, na Ucrânia, apenas cerca de 200 mil pessoas foram recrutadas em 2024 – um
número insuficiente para manter as unidades de linha da frente. Nem o recurso a
africanos, sul-americanos (originários de cartéis de droga que vêm aprender à
Ucrânia), membros do Estado Islâmico, polacos, norte-americanos ou canadianos
foi suficiente para combater a degradação da frente.
A
resposta do regime de Kiev consistiu no endurecimento brutal da conscrição, à
moda nazi e à moda dos regimes que usam as populações para os seus intentos. Em
2014, quando o Donbass se revoltou contra o golpe de Maidan, os habitantes da
região defenderam o seu mundo – muitos voluntariamente. Do lado de Kiev, a
história foi diferente. A mobilização enfrentou sempre resistência.
Por
muito que a imprensa internacional, nas mãos dos EUA e do sionismo, esconda
fenómenos amplamente documentados como o da “busificação”, das redes de
traficantes que ajudam a atravessar a fronteira (120 funcionários detidos em
2024, 61 acusações, subornos de 11,4 milhões de hryvnias), dos 290 mil
processos por deserção ou dos 2 milhões de evadidos do recrutamento, tudo isto
aponta para uma guerra que não é popular, pelo menos não do lado ucraniano.
A
exceção desta regra são as forças mais agressivas e de extrema-direita – os
Azov, o Aidar, e outros grupos neonazistas. Estes, sim, querem a guerra. Tal
como Volodymyr Zelensky, tal como a OTAN.
O
elemento mais revelador desta realidade consiste no fenómeno da “busificação” –
o termo ucraniano para descrever a detenção violenta de homens na rua, em
restaurantes, em discotecas e o seu transporte forçado para centros de
recrutamento. O Responsible Statecraft documentou dezenas de
incidentes, incluindo homens que morreram antes mesmo de vestir o uniforme.
Hitler mandou fazer o mesmo, face à resistência dos alemães em continuarem a
enfrentar a sua guerra imperialista. No final, Hitler culpou o povo alemão.
Zelensky fará o mesmo! É assim que se comporta quem não vive com o povo, entre
o povo, como o povo!
A
situação é tão grave que, segundo o Ministério da Defesa ucraniano, cerca de
dois milhões de cidadãos estão evadidos do serviço militar, a maioria no
estrangeiro.
Para
responder a esta crise, em coordenação com a União Europeia, Kiev tornou-se
ainda mais incisivo e, ainda em abril de 2024, decidiu acompanhar todas as
pressões existentes com a decisão de suspensão dos serviços consulares para
todos os homens em idade militar (18-60 anos) no estrangeiro. Foi cortado o
acesso ao passaporte, certidões e aos documentos essenciais de natureza
oficial. Não havia nada que Kiev não jogasse para ter esta gente de volta… Para
a morte!
A
mensagem foi clara: registra-te no exército ou ficas sem documentos. O objetivo
é claro: tornar-lhes a vida insustentável até que o retorno seja a única opção.
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A União
Europeia alinha-se
Quem
pensou que a União Europeia dos “princípios e dos valores” viria em sua defesa
deveria ter fugido noutra direção. Em junho de 2026, a notícia saltou para a
imprensa: a União Europeia estava a considerar excluir os homens ucranianos em
idade de conscrição (23-60 anos) da proteção temporária. Tal proposta ganhou
força numa reunião de ministros do Interior em Luxemburgo. O ministro do
Interior alemão, Alexander Dobrindt, confirmou: “Notámos que o influxo de
pessoas em idade de serviço militar obrigatório aumentou nos últimos meses”,
Ficava bem claro o que a União Europeia entende por “defender o povo
ucraniano”.
Entretanto,
a Bélgica passou a exigir prova de saída legal da Ucrânia para conceder
proteção e a Polônia, por outro lado, continua a conceder proteção a quem chega
ao seu território, mas têm surgido alguns sinais de alteração vindos de
Varsóvia, nomeadamente após a fantástica descoberta, pelo regime polaco, de que
em Kiev nazis genocidas são idolatrados como heróis. Por pressão das suas
populações, as autoridades polacas não mais puderam fechar os olhos a tal
imoralidade.
Volodymyr
Zelensky, por seu lado, tem sido claro: os homens em idade militar que deixaram
o país “deveriam regressar”, e pediu aos países parceiros que “tratassem da
questão”. A União Europeia, que em 2022 abriu as portas a todos, passou agora a
selecionar quem pode ficar e quem deve voltar. E quem deve voltar são,
precisamente, os homens que podem encher as fileiras da morte.
Será
que a União Europeia e a OTAN planejaram isto desde o início? É impossível
provar uma intenção conspiratória. Mas o resultado material é o mesmo, caso o
tivessem planeado: abram as portas a milhões de ucranianos, atraídos pelo apelo
europeu; mantenham-nos no território com proteção temporária, subsídios e
direitos; quando a guerra se arrastar e a Ucrânia precisar de homens, cortem os
subsídios, restrinjam os direitos, suspendam ou caduquem os documentos; forcem
o regresso – não por deportação direta, mas por tornar a estadia insustentável;
entreguem os homens às forças armadas ucranianas.
No
fundo, a União Europeia guardou consigo um exército laboral (de mão de obra
militar) de reserva, pronto a ser explorado em caso de necessidade. Tal reserva
estratégica, não apenas defraudou todos os refugiados que pensaram encontrar
proteção na União Europeia, como conduziu a que o regime de Kiev desprezasse
ainda mais profundamente a vida dos seus soldados, certo de que, quando a crise
viesse, contaria com a “boa” vontade dos seus preceptores europeus para
mobilizarem, à força, como fazem os fascistas, os ucranianos que para a União
Europeia se tinham dirigido, fugindo da guerra e à procura da paz.
A União
Europeia, dos governos que prometem uma coisa e fazem outra, deu do seu veneno
ao povo ucraniano. Agora, chegou a hora de o libertarem, até que nenhum reste
às mãos dos seus algozes!
Fonte:
Por Hugo Dionísio, em A Terra é Redonda

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