Morte
de criança após terapia genética experimental expõe falhas éticas
A
promessa de corrigir uma única letra defeituosa do DNA e mudar o destino de uma
criança terminou em óbito e abriu controvérsias sobre a terapia genética.
Segundo uma investigação publicada na edição desta semana da revista Science em
colaboração com o site Retraction Watch, a chinesa Mei (nome fictício), 6 anos,
morreu dias após receber um tratamento experimental de edição gênica no
Hospital Xinhua, na China.
Os
médicos responsáveis chegaram a divulgar os resultados de um estudo da técnica
— considerados promissores — na prestigiosa revista Nature. Porém, ocultaram o
óbito da criança, que morreu no ano passado.
A
investigação reconstrói, com base em documentos oficiais, gravações feitas pela
própria família e entrevistas com especialistas, como o estudo foi conduzido e
aponta uma sucessão de falhas que vão desde a avaliação ética até a comunicação
dos riscos aos pais. Também revela que o hospital recebeu apenas uma multa
administrativa após a morte da criança, enquanto o principal pesquisador não
sofreu sanções públicas.
<><>
Síndrome
A
menina tinha a síndrome de Snijders Blok-Campeau, uma doença genética
extremamente rara causada por mutações no gene CHD3, associada a atrasos no
desenvolvimento neurológico. Embora apresentasse dificuldades na fala e na
aprendizagem, pessoas com essa condição normalmente têm expectativa de vida
preservada e que a gravidade varia bastante entre os pacientes.
Desesperados
para oferecer à filha uma possibilidade de melhora, os pais procuraram o
neurocientista Zilong Qiu, pesquisador da Universidade Jiao Tong de Xangai e
uma referência em terapias gênicas para doenças neurológicas. A proposta era
inédita: utilizar uma versão sofisticada da tecnologia CRISPR, conhecida como
edição de bases, para corrigir diretamente a mutação nas células cerebrais da
criança. Se desse certo, seria o primeiro tratamento do tipo aplicado no
cérebro humano.
A
família financiou boa parte do desenvolvimento da terapia. Segundo a Science,
os pais reuniram aproximadamente US$ 860 mil entre recursos próprios e
empréstimos de parentes para custear experimentos, produção do vetor viral e
testes laboratoriais. Durante uma das reuniões gravadas pela família, o pai
deixa claro o objetivo: "Estamos fazendo isso para obter um tratamento de
verdade". Qiu respondeu com entusiasmo: "Se vocês tivessem vindo
falar comigo no ano passado, eu não teria coragem de dizer que conseguiríamos
fazer isso. Agora chegamos a um ponto de virada".
Mas a
denúncia mostra que, paralelamente ao desenvolvimento da terapia, sinais de
alerta se acumulavam. A Science ouviu sete especialistas independentes em
genética, virologia e bioética, que analisaram os documentos obtidos pela
reportagem. Muitos afirmaram que os riscos apresentados aos pais foram
minimizados, que os estudos em animais levantavam preocupações importantes e
que o tratamento ainda não poderia chegar à fase clínica. "Esse estudo não
deveria ter chegado aos testes em humanos", afirmou Steven Gray,
especialista em terapia gênica da Universidade do Texas Southwestern, nos
Estados Unidos.
Outro
problema apontado envolve os experimentos em macacos. Documentos analisados
pela reportagem mostram que todos os animais tratados desenvolveram lesões
moderadas ou graves no fígado e um deles apresentou também lesão renal —
condições que, segundo James Wilson, um dos pioneiros da terapia gênica,
deveriam ter levado à realização de novos estudos antes da aplicação em uma
criança.
A
menina recebeu a infusão da terapia em março de 2025. Três dias depois,
desenvolveu febre. Em seguida, deixou de urinar, apresentou queda importante
das plaquetas e sinais de falência renal. A situação piorou rapidamente,
obrigando sua transferência para a unidade de terapia intensiva. Segundo a
família, embora o termo de consentimento mencionasse algumas complicações
graves, ninguém lhes disse explicitamente que o tratamento poderia levar à
morte.
Mei
morreu sete dias após receber o tratamento. Dois dias depois, um comitê do
próprio hospital concluiu que a causa da morte estava "definitivamente
relacionada" ao tratamento experimental e atribuiu o óbito à
microangiopatia trombótica, uma complicação inflamatória grave conhecida em
terapias com vetores virais. No caso, os pesquisadores da China usaram um vírus
para
<><>
Artigo
Enquanto
a família ainda vivia o luto, uma versão revisada de um estudo sobre a técnica
foi publicada pela revista Nature. Segundo a investigação da Science,
referências à participação financeira dos pais e aos dados da criança foram
retiradas do manuscrito, e o artigo não mencionava a morte da paciente nem os
problemas hepáticos e renais observados nas pesquisas com primatas.
Em nota
enviada à Science, a revista Nature afirmou que não foi informada sobre a morte
da menina nem sobre as sanções aplicadas ao hospital durante o processo de
avaliação do artigo. Segundo a publicação, essas informações teriam sido
consideradas na decisão editorial caso tivessem sido comunicadas.
Os pais
decidiram tornar a história pública por acreditarem que não houve
responsabilização adequada. "Descobrir que tantas salvaguardas estavam
ausentes mudou completamente como enxergamos todo o projeto. Não percebíamos o
quanto muitos desses procedimentos eram incomuns e perigosos", afirmou o
pai.
A
edição genética CRISPR é uma ferramenta revolucionária e promissora, que
funciona como uma tesoura molecular para cortar, corrigir ou desativar genes do
DNA com alta precisão, rapidez e baixo custo. Na medicina, já é realidade no
tratamento de doenças sanguíneas hereditárias graves, como anemia falciforme e
beta-talassemia. No tratamento, um vírus modificado é usado para transportar as
ferramentas de corte e guia para as células-alvo. No caso de Mei, porém, a
técnica era experimental e, como a experiência com primatas foi malsucedida,
especialistas afirmam que não poderia ter sido aplicada em um ser humano.
>>>
Palavra de especialista - Gemma Marfany, professora de genética na Universidade
de Barcelona, na Espanha
"Esse
caso vai além da tragédia humana ou da má sorte, pois há inúmeras indicações de
negligência científica e bioética. Embora o tratamento em camundongos usando um
vírus diferente pareça ter sido eficaz, o vetor teria que ser alterado para uso
em humanos, e ensaios em quatro primatas mostraram danos graves no fígado e nos
rins, o que levanta uma bandeira vermelha, pois uma terapia deve, acima de
tudo, ser segura. A terapia genética sempre ofereceu esperança a muitos
pacientes com doenças genéticas raras, mas traz riscos, particularmente quando
vírus são usados como vetores, pois podem desencadear uma resposta imune
exagerada. A abordagem (do caso da menina Mei) é experimental e, como tal, não
é suficiente para ser utilizada clinicamente."
Fonte:
Correo Braziliense

Nenhum comentário:
Postar um comentário