Liberação
de armas sem controle por Bolsonaro impulsionou caça ilegal, indica estudo
“Eu
quero todo mundo armado”. A frase do ex-presidente Jair Bolsonaro dita em
reunião ministerial, em maio de 2020, escancarou o cumprimento de uma promessa
feita por ele enquanto candidato à Presidência da República, em 2018. Na
ocasião, ele cobrou dos ministros a assinatura da portaria que aumentou o
limite de compra de munições por civis. Durante a campanha e ao longo do seu
mandato, Bolsonaro promoveu e executou fortemente a agenda armamentista, com
impactos diretos na caça ilegal de animais silvestres.
De
acordo com dados de 2023, levantados pelos institutos Igarapé e Sou da Paz, a
quantidade de armas em acervos particulares de civis e militares no Brasil
chegou a quase 3 milhões entre 2019 e 2022 — ou seja, durante o governo
Bolsonaro — contra pouco mais de 1,3 milhão em 2018, quando quase metade
pertencia a militares.
As
medidas adotadas na gestão de Bolsonaro facilitaram o acesso a armamentos no
país, principalmente entre caçadores, atiradores desportivos e colecionadores,
conhecidos como CACs.
Segundo
o levantamento, 59 mil armas haviam sido compradas por CACs em 2018. Em 2022,
foram 431 mil. Nesse período, o grupo que antes respondia por 27% do arsenal
saltou para 42,5% e passou a ser o principal dono de acervos particulares de
armas de fogo no país, antes liderado por militares. Esse aumento do acesso às
armas de fogo, incentivado e facilitado por Jair Bolsonaro, foi um dos
principais fatores de prevalência da caça ilegal de animais silvestres no
Brasil.
Foi o
que revelou um estudo inédito liderado por pesquisadores brasileiros da
University College London, da Universidade do Estado de Mato Grosso do Sul e da
RedeFauna, recém publicado na revista científica Biological Conservation. A
pesquisa analisou onze variáveis, divididas em três categorias — demografia e a
acessibilidade, contexto ecológico e contexto político e econômico —, para
entender quais fatores estavam relacionados com a maior probabilidade de
ocorrência de eventos de caça ilegal, em todos os municípios do país.
Para
isso, os pesquisadores construíram um modelo a partir de informações de 2.046
postagens em redes sociais sobre caça ilegal de animais nativos. Cerca de 95%
dos registros foram feitos entre 2019 e 2020 e compartilhados por moradores de
790 municípios, em 27 estados brasileiros, nas cinco macrorregiões do Brasil.
O
levantamento apontou para pelo menos 4.658 animais abatidos, de 157 espécies
silvestres nativas: 75 aves (47,8% do total de espécies), 51 mamíferos (32,5%),
26 répteis (16,6%) e cinco anfíbios (3,1%). Depois o modelo foi aplicado aos
mais de 5.500 municípios brasileiros.
“O que
a gente fez foi pegar as informações de estatísticas oficiais no Brasil, que
poderiam ter alguma relação de fato com a caça, baseado na literatura
[científica], então a gente usou uma base teórica que já existia para
selecionar as variáveis”, explicou à Mongabay o primeiro autor do estudo, Hani
El Bizri, também pesquisador da RedeFauna.
Foram
considerados densidade populacional humana, acessibilidade por rios e estradas,
remanescentes de áreas naturais, defaunação — o quanto a fauna está
comprometida no local —, acesso à internet e PIB per capita, entre outros. Os
fatores ajudaram a estabelecer um padrão de caça “esportiva” ilegal.
“Já
existiam indicações de que poderiam ser fatores que têm efeito [na caça], porém
a parte política e a parte de armas não eram tão claras”, disse El Bizri. Para
entender esse fenômeno, explica o pesquisador, a equipe incluiu a porcentagem
de votos para Bolsonaro em cada município e, a partir dos resultados obtidos,
inferiu que, ao ter maior acesso a armas, seria grande a probabilidade de que
fossem utilizadas para caça ilegal.
Os
resultados do estudo revelaram que a caça ilegal acontece em praticamente todo
o território brasileiro, mas a região Norte foi a que teve mais municípios com
registros de caça ilegal. Em Rondônia, Amazonas e Pará, quase 50% dos
municípios apresentaram eventos de caça. Rio Grande do Sul e Pará foram os
estados com maior número de municípios com registros de caça no país.
“De
forma geral, é uma representatividade [de caça] muito grande para algumas
regiões. E isso mostra o quanto é uma atividade altamente difundida”, ponderou
El Bizri. “Falando especificamente da parte da política, a gente encontrou que
o acesso às armas teve uma relação bem grande com a probabilidade de caça.”
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Impactos sobre a biodiversidade
A caça
ilegal no Brasil é mais uma pressão severa para a biodiversidade. Quando somada
à perda de ambientes naturais, seus efeitos se intensificam e afetam espécies
de diferentes grupos e tamanhos.
“A caça
é um dos motivos mais claros que a gente vê para a defaunação, sobretudo para
espécies acima de 10 kg”, disse à Mongabay Juliano Bogoni, pesquisador da
Universidade Estadual de Mato Grosso e também autor do estudo. “Se a gente tem
um governo que que não liga para isso, certamente as pessoas vão se sentir um
pouco mais à vontade para fazer essa atividade, que desde 1967 é proibida e
desde 1998 é ilegal. E me parece haver um padrão muito claro de que essa caça é
completamente desnecessária. São pessoas que têm a acesso a proteína animal.
Não é uma caça de subsistência, nem uma caça tradicional resguardada
constitucionalmente, legalmente. É uma caça ilegal e me parece ser também
bastante competitiva.”
A
pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) INPA,
Clarissa Rosa, trabalha desde 2013 com estudos sobre caça ilegal. Para ela, o
artigo traz informações importantes também para uma prática legalizada no país:
a caça de javalis por civis como controle ou manejo de fauna exótica para
proteger o meio ambiente e a agricultura. Javalis foram introduzidos no sul do
Brasil no início do século 20 e se dispersaram por todo o país, tornando-se uma
espécie invasora. O abate do javali com armas de fogo é permitido desde 2013,
mas, na prática, significa, muitas vezes, uma brecha para aquisição de
armamento pesado.
“Esses
resultados do artigo são interessantes até para ver como que a gente lida com a
questão do javali daqui para frente nessa questão do armamento, porque o javali
não é um animal que morre com qualquer tipo de arma; ele precisa de um
armamento pesado, senão ele sobrevive”, explicou Rosa à Mongabay. “Sempre teve
essa discussão, do que vai acontecer se a gente começar a liberar armas de
calibre tão grande, e como controlar isso para que não acabe virando contra as
espécies nativas. O certo seria o Estado ter uma participação mais ativa no
controle do javali e tirar essa responsabilidade da população.”
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Arco do Desmatamento: uma panela de pressão
Outro
resultado significativo do estudo foi a forte participação dos municípios da
região do Arco do Desmatamento amazônico na ocorrência da caça ilegal. A área
de expansão da fronteira agropecuária que se estende pelos estados de Mato
Grosso, Pará, Rondônia, Amazonas, Acre e Maranhão se destacou como principal
ponto crítico de probabilidade da atividade.
“O Arco
do Desmatamento tem se mostrado como uma panela de pressão de diferentes
problemas ambientais e vimos que justamente essa área é um hotspot pesado [de
caça ilegal]”, disse El Bizri. “Você tem ali latifundiários com acesso às
armas, são regiões que têm alta porcentagem de suporte ao Bolsonaro e áreas que
estão em vias de defaunação pela degradação ambiental. Mas ali ainda tem
Amazônia. Então, você tem o sistema perfeito para que a caça ilegal aconteça.
Ela continua acontecendo no Brasil inteiro, mas lá é muito mais.”
Segundo
Clarissa Rosa, áreas de grandes monoculturas são associadas com alta
intensidade de caça. “As plantações acabam atraindo muitos animais que vão se
alimentar, como queixadas e catetos. Inclusive, alguns desses animais chegam a
ter um boom populacional, e isso é usado como desculpa para caçar. Ela explicou
que, por trás disso, há um ciclo: “o desmatamento reduz o ambiente natural e os
animais não necessariamente vão morrer imediatamente, eles vão se deslocar para
as outras áreas, que são áreas de cultivo porque não tem mais áreas nativas.
Então, eles vão ficar muito mais expostos.”
Historicamente,
o Arco do Desmatamento concentra a maior parte do corte de árvores detectada
por monitoramentos de satélites — aproximadamente 75% de toda a supressão
florestal do bioma.
“A
pulverização da fauna na fronteira do Arco do Desmatamento é muito mais severa
e rápida do que em qualquer outro lugar”, avaliou Bogoni. “Lá, as populações
não vão se recuperar. Aquelas que não perecem por perda de habitat vão perecer
por caça, vão tomar chumbo.”
Desde
julho de 2025, a Polícia Federal assumiu a fiscalização e registros de CACs,
antes de responsabilidade do Exército, como forma de ter um melhor controle.
Diante do alerta do estudo, os pesquisadores recomendam uma rígida regulação de
armas e aumento da fiscalização, principalmente nas áreas apontadas no artigo
como hotspots de caça ilegal, além de uma estratégia multifacetada, com
implementação de tecnologias como drones e câmeras nos ambientes naturais e
ações de educação.
“É uma
epidemia de caça. Está espalhada para todo canto e está sendo reproduzida”,
ressaltou El Bizri. “A caça é uma degradação ambiental, um impacto silencioso,
as pessoas não veem. Não é como o fogo queimando tudo, o alagamento das
mudanças climáticas matando o bicho. É silencioso, é escondido. Então, o alerta
é que, quando você está votando num governo com agenda antiambiental, está
votando em uma agenda que tem efeitos dos quais não se tem controle”.
Segundo
Bogoni, “até o último bicho não parar de se mexer, essas pessoas não vão parar
de caçar”.
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Nos grupos de Facebook, a impunidade da caça esportiva ilegal
Mais de
2 mil registros de caça ilegal foram compartilhados em grupos sobre o tema no
Facebook entre 2018 e 2020. Os posts somam 4.658 animais da fauna brasileira
mortos, como pacas, tatus, capivaras e diversas espécies de aves.
É o que
mostrou um estudo realizado por um grupo
de pesquisadores liderado pelo biólogo brasileiro Hani R. El Bizri, do Centro
de Pesquisa Florestal Internacional – Cifor/Icraf e Instituto de
Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Eles coletaram e analisaram dados dos
cinco grupos mais relevantes de caçadores ilegais do Facebook, abertos e
privados, para entender como a atividade impacta a biodiversidade.
Ao
identificar os padrões da caça ilegal no Brasil, foi possível mapear os
municípios e biomas brasileiros em que os eventos de caça aconteceram, estimar
o número de caçadores envolvidos e de animais abatidos, identificar as espécies
afetadas e contabilizar a quantidade de carne em toneladas, para saber quanto
de biomassa foi retirado dos habitats.
A
pesquisa mostrou que a caça ilegal ocorreu em todos os biomas do país e em 14%
dos municípios brasileiros, espalhados por todos os estados, incluindo o
Distrito Federal. Foram estimados 1.400 caçadores, além de um total de 29
toneladas de carne silvestre obtidas com a atividade. Foram abatidas 157
espécies, de pequenos anfíbios a grandes mamíferos. Dessas, dezenove estão
ameaçadas de extinção, como antas, queixadas, jacutingas e o coandu-mirim
(Coendou speratus), espécie de porco-espinho descoberta pela ciência em 2013.
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Caçando por esporte
De
acordo com El Bizri, a maioria dos abates foi feita com armas de fogo e
equipamentos como miras, o que revela prováveis boas condições financeiras dos
praticantes.
“O que
eu chamo ‘esportiva’ ou caça de ‘lazer’, como também é chamada na ciência, é
aquela que não é por necessidade, não é por conflito. É aquela que a pessoa tem
prazer em estar fazendo aquilo, por uma questão de vontade mesmo, sentir a
emoção em fazer aquilo”, explica o pesquisador.
“A
gente usa diversos indícios, diversas evidências, para falar que era caça
‘esportiva’. A maioria dos municípios que a gente pegou tem maior população,
menor pobreza, maior IDH, então isso quer dizer que possivelmente são regiões
mais ricas, não são regiões rurais, isoladas ou municípios pequenos”, completa
ele.
A
Amazônia foi o bioma com mais registros de caça. Em contrapartida, Mata
Atlântica e Caatinga apresentaram maior degradação da vida silvestre, pelo
excesso de desmatamento. Nestas áreas, notou-se uma mudança de alvo dos
caçadores, de grandes mamíferos e répteis para pequenas aves, muitas vezes
pegas em maiores quantidades como forma de compensar o tamanho do animal.
“O mais
preocupante é que, mesmo uma área afetada como a Caatinga, uma área que já foi
muito desmatada, muito destruída, continua tendo caça. Não tem mais a caça dos
animais de grande porte, porque eles sumiram dali, foram extintos. Mas continua
tendo caça dos pequenos, então não tem limite. É uma caça ao longo da cadeia,
em que se vai perdendo bicho, ficando cada vez mais difícil para mais espécies,
inclusive as espécies de menor porte, sobreviver”, afirma El Bizri.
Os
impactos negativos da caça sobre a fauna brasileira ganham ainda mais força
porque se somam às diferentes pressões humanas ao meio ambiente, como pontua o
biólogo e pesquisador da Rede Fauna, André Pinassi Antunes.
“Eu
acho que sempre teve no Brasil esse tipo de caça”, diz ele. “Isso era cultural.
Imagina quantos homens não se juntavam na década de 60 para ir para o Pantanal
fazer esse tipo de coisa. Isso sempre aconteceu como diversão, mas eu acho que
o que a gente está vendo hoje é a perda de várias áreas íntegras, um
desmatamento muito grande, intenso, cada vez menos áreas naturais e mais gente.
Então hoje o impacto [da caça] é diferente. Uma coisa vai levando à outra e aí
a gente perde o controle”.
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Sem medo de represália
O
estudo traz à tona a impunidade diante de crimes ambientais e a fácil
disseminação de conteúdos relacionados a práticas ilegais em redes sociais no
Brasil.
“A
gente consegue ter uma visão melhor do quanto as mídias sociais estão sendo
utilizadas para disseminação desse tipo de informação, e uma informação que
está sendo compartilhada sem nenhum medo; tanto que a gente entrou em grupos
que não tinham qualquer restrição, grupos abertos”, diz Marcela Álvares
Oliveira, pesquisadora e professora do programa de pós-graduação da
Universidade Federal de Rondônia e uma das autoras do estudo “Atividades que
são ilegais estão se tornando muito mais fáceis de serem compartilhadas,
distribuídas e, ao mesmo tempo, fomentadas pelas redes sociais. E sem nenhum
medo de represália.”
“Tanto
o resultado científico quanto o social são importantes para a gente pensar
quais são realmente as diretrizes que o nosso país deve tomar frente à caça
[ilegal]. Qual é o limite das liberdades de expressão que nós podemos ter nas
mídias sociais, pensando, principalmente, na divulgação de crimes, que acontece
com total liberdade e sem nenhuma onerosidade para o criminoso”, completa
Oliveira.
A
exposição na internet de animais mortos por caça ilegal revela uma outra
característica da prática, a chamada ‘caça de troféu’, em que o abate é tido
como uma conquista.
“Eu sou
totalmente a favor da caça de subsistência, realizada pelos povos indígenas e
comunidades tradicionais”, avalia Antunes. “Trabalho há mais de 15 anos
diretamente com eles. É totalmente justificável, porque é da própria cosmologia
desses povos e de uma importância nutricional que é fundamental. Eu nunca vi
uma manifestação de desrespeito desses povos. Agora, você matar para se
divertir, postar uma foto… a diferença é um abismo.”.
Para
Oliveira, é preciso que a rede de fiscalização ambiental tenha uma frente que
atue especificamente nas redes sociais, e para isso serão necessários agentes
especializados.
“A
gente tem uma lei no Brasil muito clara em relação a crimes contra fauna. O
Facebook é americano. A lei dos Estados Unidos é muito diferente da nossa lei
em relação a isso, o que favorece que essas redes sociais se instalem em
diferentes localidades, sem respeitar as leis desses países. A rede social
favorece que as pessoas se sintam seguras, dá uma liberdade de expressão que
foge do parâmetro da ética. Eles usam o
argumento de que o grupo não está hospedado no Brasil, está hospedado nos
Estados Unidos.”
A
pesquisadora defende ainda a educação como uma das ações prioritárias para
combater crimes ambientais. “Estamos focados que o aluno entre numa faculdade,
que ganhe uma boa pontuação no Enem. Não estamos preocupados em educar um
cidadão, em ensinar porque isso é um crime”, ressalta.
El
Bizri explica que não há solução simples para o problema. Para ele, as medidas
vão de mudanças culturais à disseminação de informações sobre os riscos de
doenças causadas pela proximidade entre pessoas e animais silvestres e o
controle de armas de fogo. Mas, o pesquisador acredita que a regulação efetiva
dos conteúdos das redes sociais é um primeiro e significativo passo.
“Criar
oportunidades para que haja essas comunidades instiga, faz com que essas
pessoas perdurem naquela atividade, naquele crime. São pessoas que estão ali
reforçando a identidade do caçador esportivo, que pode caçar e que está impune,
que não tem nenhum problema. De alguma forma, barrando essas conexões, talvez
se consiga também limitar que a atividade aconteça. Se a foto é um troféu, ela
deixa de ser. Isso não vale só para o Facebook, tem várias outras, talvez até
mais problemáticas, porque são aquelas em que a coisa não é tão aberta”, diz o
pesquisador
Em
2022, a empresa Meta, proprietária do Facebook, WhatsApp e Instagram, foi
multada pelo Ibama em 2 milhões de dólares –
cerca de 10 milhões de reais –
pela divulgação de 2.227 anúncios de venda ilegal de animais silvestres
nas plataformas. A empresa nega ter recebido a notificação.
Fonte:
Por Adele Santelli, para Mongabay

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