O
que resta da oposição da Nicarágua e por que Daniel Ortega deseja acabar com as
eleições no país
"Não haverá mais eleições aqui."
Este
foi o pronunciamento do presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, no último domingo
(19/7), durante a comemoração do 47° aniversário da Revolução Sandinista,
evento realizado na capital do país, Manágua.
Aos 80
anos, Ortega afirmou, sem dar detalhes, que não permitirá a realização de novas
eleições, para evitar que a oposição tente "tomar o governo, tomar o
poder".
A
Nicarágua deveria eleger um novo presidente em 2027, já que uma reforma constitucional postergou as
eleições inicialmente previstas para o final deste ano.
A mesma
reforma promoveu a esposa de Ortega, Rosario Murillo, de vice-presidente a
"copresidente". E também ampliou o mandato presidencial e reforçou
ainda mais o controle da dupla sobre as instituições estatais.
Segundo
analistas e organismos internacionais, o anúncio de Ortega representa um novo
passo para o desmantelamento democrático de um país que não realiza eleições
livres há anos.
O líder
sandinista venceu as últimas eleições presidenciais em 2021, levando à prisão
os possíveis candidatos dos partidos de oposição. A onda repressiva se estendeu
a políticos, empresários, ativistas e jornalistas.
Nos
anos que se seguiram, Ortega colocou partidos e organizações civis na
ilegalidade. Ele também expulsou do país e cancelou a nacionalidade de
praticamente todas as figuras dissidentes, deixando a Nicarágua sem oposição
organizada e sem imprensa independente.
Mas por
que Ortega precisa acabar com as eleições se ele controla o sistema eleitoral,
monopoliza todos os poderes do Estado e eliminou seus possíveis concorrentes?
E,
depois de anos de prisões, perseguições, exílios forçados e perda de cidadania,
o que ainda resta de oposição dentro da Nicarágua?
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Os motivos do anúncio
A BBC
News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, conversou com dois dos
opositores nicaraguenses de maior destaque no exílio, para tentar responder a
estas perguntas.
Dora
María Téllez é historiadora e dirigente histórica da Revolução Sandinista.
Posteriormente, ela foi objeto de represálias de Daniel Ortega.
Já
Félix Maradiaga dirige a Rede Liberal da América Latina. Ele é um dos
aspirantes à Presidência que foram presos antes das eleições de 2021.
Ambos
concordam que acabar com as eleições na Nicarágua estaria longe de ser uma
demonstração de força.
"Em
2021, Ortega já teve muito medo de ir às eleições", afirma Téllez.
"Por isso, ele barrou todos até ficar sozinho."
"Cinco
anos depois, o medo aumentou ainda mais."
Para
ela, o cancelamento das eleições indica que o mandatário nicaraguense "não
tem mais confiança nem nos seus próprios apoiadores, embora controle
completamente o sistema eleitoral, o sistema de justiça, o exército, a polícia
e todas as instituições".
Ortega
poderia, segundo Maradiaga, recear que as eleições, mesmo que manipuladas,
levem às urnas a rejeição acumulada em relação ao seu governo.
"Ortega
observou o exemplo de Nicolás Maduro, que abriu um processo que ele acreditava
controlar completamente após inibir os opositores, como María Corina
Machado", explica ele.
"E,
de repente, uma figura inesperada, como Edmundo González Urrutia, reuniu o voto
de protesto."
Maradiaga
acredita que "Ortega sabe que não pode descartar um cenário de eleições
imperfeitas, sob suas regras, em que um candidato desconhecido receba o apoio
das lideranças mais conhecidas, que lamentavelmente estão no exílio como nós, o
que poderia gerar um sério problema para ele".
Por
outro lado, para Maradiaga, cancelar as eleições "também fecha as portas à
concorrência eleitoral dentro do próprio partido sandinista".
Ele
defende que Ortega, com seus 80 anos, quer deixar estabelecida "uma sucessão dinástica, com Rosario Murillo
e Laureano Ortega", um dos sete filhos do casal, indicado por analistas
como possível sucessor do poder.
"Rosario
e Laureano não têm nenhuma legitimidade eleitoral e nunca foram eleitos por
ninguém", prossegue Maradiaga, "diferentemente de Ortega, que, dentro
da base sandinista, tem algum reconhecimento pelo seu papel histórico."
Já Dora
María Téllez fala de "um trauma sucessório dentro da Frente
Sandinista", depois que Murillo promoveu o afastamento de dirigentes
nacionais e regionais, antigos altos funcionários e figuras históricas, como o
comandante Bayardo Arce.
Maradiaga
e Téllez também apresentam uma terceira teoria. Ortega poderia estar se
antecipando a possíveis pressões dos Estados Unidos para abrir o espaço
político, permitir o retorno seguro dos exilados e aceitar alguma forma de
concorrência eleitoral.
"Ortega
poderia imaginar que os Estados Unidos o obrigariam a oferecer concessões, como
permitir o regresso à Nicarágua dos principais líderes da oposição",
explica Maradiaga.
Neste
cenário, a eliminação total das eleições permitiria ao presidente oferecer
concessões limitadas, como recuperar algum tipo de votação, sem aceitar outras
exigências mais importantes, como o regresso dos líderes da oposição no exílio.
"Esta
é a forma de negociar de Ortega", define Téllez. "Sempre aumenta a
aposta, sempre eleva o discurso, sempre bate na mesa."
A BBC
News Mundo entrou em contato com a copresidente da Nicarágua Rosario Murillo,
que não quis se pronunciar sobre o assunto.
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O que resta da oposição na Nicarágua
A BBC
questionou aos dois líderes opositores no exílio se, após o desmantelamento de
qualquer alternativa ao sandinismo nos últimos anos, ainda resta algum tipo de
dissidência organizada em território nicaraguense.
"Dentro
do país, não existe nenhum partido político, nenhuma organização da sociedade
civil, nenhum movimento social, nenhum meio de comunicação independente",
afirma Téllez. "Isso foi completamente eliminado já em 2021."
A
opositora destaca, como única exceção formal, o Partido Liberal
Constitucionalista (PLC), que conserva nove deputados na Assembleia Nacional.
Ela define a agremiação como "partido parasitário da Frente
Sandinista", dependente do governo e sem legitimidade entre a oposição.
Os
vestígios da dissidência dentro do país, segundo ela, são alguns dirigentes
locais que "precisam comparecer todos os dias à polícia, são
permanentemente ameaçados e assediados e entram e saem constantemente da
prisão".
Maradiaga
não é tão pessimista. Ele destaca a "resistência silenciosa" das
redes comunitárias e municipais.
"Infelizmente,
são redes pequenas e muito perseguidas", afirma.
"Elas
não podem promover atividades muito visíveis, mas demonstram que Ortega não
conseguiu neutralizar completamente a resistência dos cidadãos."
O
opositor evita oferecer maiores detalhes, para não colocar os grupos em perigo.
"Nós,
os opositores mais visíveis, temos sido muito responsáveis para não expor as
lideranças que, talvez, não sejam conhecidas internacionalmente", destaca.
"Mas existem pessoas, em nível comunitário e municipal, que oferecem uma
resistência silenciosa."
Para o
líder opositor, as contínuas batidas, detenções e operações policiais,
destinadas a localizar atividades clandestinas, demonstram que o governo
continua preocupado com esses focos internos.
Maradiaga
também destaca que Ortega dedicou boa parte do seu discurso de 19 de julho a
atacar a oposição no exílio, mesmo tendo afirmado anteriormente que ela estaria
neutralizada.
Os
opositores coordenam suas alternativas políticas, denunciam abusos e exigem a
pressão internacional. Mas, hoje, eles não dispõem de estruturas visíveis
dentro do país para mobilizar o descontentamento social.
Agora,
o cancelamento das eleições também elimina a possibilidade de articular essa
rejeição em torno de uma candidatura à Presidência. E a perseguição do regime
não se restringe às fronteiras da Nicarágua.
Em
outubro de 2025, um grupo de especialistas das Nações Unidas denunciou uma
"máquina de perseguição" contra os exilados, incluindo vigilância,
ameaças e represálias contra seus familiares que se encontram no país.
<><>Como
Ortega intensificou a repressão
O
anúncio de Daniel Ortega, no último domingo, é o auge de um processo iniciado
há muito tempo.
Depois
de governar entre 1985 e 1990, quando perdeu as eleições para Violeta Barrios
de Chamorro, Daniel Ortega retornou à Presidência pelas urnas, em 2007.
Desde
então, seus opositores e organismos internacionais denunciam que ele submeteu
progressivamente ao seu controle o sistema eleitoral, os tribunais, a
Assembleia Nacional e as forças de segurança.
"A
Nicarágua não teve eleições livres desde que Ortega regressou ao poder",
afirma Félix Maradiaga. "Depois das eleições de novembro de 2006, todos os
processos eleitorais foram totalmente viciados e controlados por Ortega."
A
repressão dos protestos em 2018 deixou mais de 300 mortos e marcou uma
reviravolta na perseguição das vozes críticas ao governo nicaraguense.
O Grupo
de Especialistas em Direitos Humanos sobre a Nicarágua das Nações Unidas afirma
que esta campanha repressiva foi dividida em quatro fases.
A
primeira foi a violenta repressão aos protestos, entre 2018 e 2020, seguida
pela eliminação seletiva da oposição eleitoral, em 2021.
Depois
veio o desmantelamento da sociedade civil organizada, a partir de 2022, até a
consolidação do poder absoluto e a perseguição além das fronteiras do país, do
ano seguinte em diante.
Em um
relatório publicado em outubro de 2025, a instituição qualificou as violações
cometidas desde 2018 como "graves, sistemáticas e generalizadas". E
avaliou que, em vários casos, poderiam constituir crimes contra a humanidade.
O grupo
também documentou que pelo menos 452 cidadãos nicaraguenses perderam sua
nacionalidade, incluindo políticos, empresários, religiosos e jornalistas.
A
reforma constitucional de 2025 incorporou à legislação o monopólio do poder da
dupla Ortega e Murillo, que já existia na prática, debilitando ainda mais os
pesos e contrapesos institucionais.
Neste
contexto, o recente anúncio do cancelamento das eleições no país é interpretado
como a eliminação da última aparência eleitoral conservada pelo regime
sandinista.
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Ortega: 'partidos dos ianques ameaçam a paz'
O presidente
nicaraguense Daniel Ortega alertou que as instituições do país tomarão medidas
para impedir que partidos políticos envolvidos recentemente em ações violentas
com fins sediciosos, com o apoio político e financeiro dos EUA, ameacem a paz
nacional.
“Não
pensem que só porque não há guerra, estamos em paz. Eles [a oposição apoiada
pelos EUA] estão constantemente conspirando, se organizando, tentando descobrir
como criar partidos para que, em uma eleição — uma eleição que eles
supostamente deveriam realizar —, esses partidos vençam. E esse é o fim da
história dos partidos instalados pelos ianques , instalados pelos apoiadores de
Somoza [apoiadores da ditadura militar que governou a Nicarágua entre 1937 e
1979], voltando ao poder . Nunca, nunca, nunca”, declarou o presidente na
cerimônia oficial que comemorou o 47º aniversário da Revolução Sandinista, no
domingo.
A esse
respeito, ele especificou que “vamos trabalhar, com a Assembleia Nacional e com
as organizações correspondentes, nas leis, porque temos que fazer leis que
ergam um muro, um bloqueio, contra os golpistas, contra os traidores”, para
que, “não importa quanto dinheiro os ianques lhes deem”, eles não possam
ameaçar as inegáveis conquistas sociais
alcançadas pela Frente Sandinista de Libertação
Nacional e pelo governo que ele lidera.
O saldo
de 2018
Da
mesma forma, Ortega pediu que se lembrasse que, em 2018, os setores
empresariais locais romperam o pacto que haviam assinado com as autoridades
centrais para manter a estabilidade e se aliaram a interesses estrangeiros para
mergulhar o país no caos, deixando um rastro de morte e violência, na busca por
um golpe que não aconteceu.
“Vamos
lembrar como em 2018, quando estávamos em acordos com os empresários, com os
apoiadores de Somoza, que eram empresários, tínhamos um ótimo acordo de paz e o
acordo estava progredindo e, de repente, a punhalada pelas costas: eles
organizaram o golpe, usaram fundos dos EUA para levar jovens e adultos,
prepará-los, treiná-los, armá-los e derrubar o governo legítimo da Frente
Sandinista “, relatou ele.
Ele
lembrou que esses agentes tentaram paralisar o país montando barricadas, e o
governo não teve outra opção senão mobilizar a polícia, que, juntamente com
voluntários, desobstruiu as vias. No entanto, enfatizou, isso não impediu a
prática de crimes graves, incluindo assassinatos de cidadãos e a destruição de
instalações educacionais.
“Aqui,
o sangue de jovens, adultos, mulheres e crianças foi derramado. Sangue foi
derramado e, no fim, não havia outra saída senão responder com toda a força da
raiva do povo”, argumentou ele.
Fonte:
BBC News Mundo/Opera Mundi

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