A
tríplice fronteira do governo Trump
A
corrosão do apoio interno gerada pela guerra no Irã e a ofensiva econômica
contra o Brasil revelam as contradições e os limites do projeto global da
extrema direita...
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Guerra, petróleo, inflação, tarifaço
A
guerra entre Estados Unidos e Irã tem repercussões econômicas e políticas muito
além do Oriente Médio. O principal canal de transmissão é o mercado de
petróleo, já que o Golfo Pérsico concentra uma parcela expressiva da produção
mundial e o Estreito de Ormuz é uma das principais rotas marítimas para
exportação de petróleo e gás, concentra 20% do comércio mundial de petróleo. A
intensificação dos ataques e das ameaças à navegação elevou a incerteza nos
mercados e provocou alta nos preços do petróleo.
Quando
há risco de interrupção da oferta, investidores e compradores pagam mais pelo
barril de petróleo. Gasolina, diesel, querosene de aviação e gás natural
tornam-se mais caros, elevando os custos de transporte e logística. Como
praticamente todos os bens dependem de transporte e energia, alimentos,
produtos industriais e serviços ficam mais caros, gerando inflação.
Nos
EUA, o aumento dos preços da gasolina e do diesel teve peso importante no
índice de preços ao consumidor. Com inflação mais elevada, o banco central
tende a manter juros altos por mais tempo, o que reduz investimentos e
desacelera o crescimento econômico. Em todo o mundo os efeitos foram
significativos. A Europa enfrenta aumento dos custos de energia e de produção
industrial. Países importadores de petróleo, como Japão e Índia, sofrem maior
pressão sobre suas balanças comerciais. Economias emergentes, incluindo vários
países da América Latina, registram aceleração da inflação e dificuldades
adicionais para reduzir as taxas de juros.
Para o
Brasil, há um efeito ambíguo: como exportador de petróleo, o país pode aumentar
suas receitas externas e a arrecadação de royalties. Por outro lado,
combustíveis mais caros pressionam os custos do transporte, dos alimentos e da
indústria, dificultando o controle da inflação.
Em
termos políticos, a inflação decorrente da guerra representa um desafio para
Donald Trump. Durante a campanha e no início de seu governo, ele prometeu
reduzir os preços da energia e controlar a inflação. O aumento dos combustíveis
diminui o poder de compra das famílias, afeta a confiança dos consumidores e
contribui para a queda de sua popularidade. Diante das críticas, Donald Trump
chegou a ordenar investigações sobre os preços da gasolina, enquanto defendia
que sua política energética reduziria os custos no longo prazo.
Em
síntese, a guerra no Irã tende a produzir um efeito semelhante ao observado em
outras grandes crises do petróleo: energia mais cara, inflação mais alta, juros
elevados, menor crescimento econômico e aumento da instabilidade política. Caso
o conflito se prolongue ou haja uma interrupção significativa do fluxo de
petróleo pelo Estreito de Ormuz, os impactos sobre a economia mundial poderão
ser ainda mais severos.
Com o
objetivo de contrabalançar os efeitos negativos de suas guerras, entre outras
razões, o governo de Donald Trump baixou tarifaços para aumentar o superávit
comercial dos EUA. No caso do Brasil, porém, o argumento não se sustenta, uma
vez que os EUA já têm superávit na balança comercial com o Brasil. Tudo indica
que as razões políticas visando enfraquecer o governo Lula, em ano eleitoral,
tiveram mais peso do que as econômicas.
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Perda de apoio político interno
A
guerra no Irã, que Donald Trump não conseguiu terminar em condições vantajosas
para os EUA, o que na prática significa uma derrota política, é um dos
principais fatores a explicar a queda no apoio interno de Donald Trump,
colocando em risco sua estabilidade política após a eleição de mid term em
novembro próximo.
A perda
de apoio político interno de Donald Trump nos Estados Unidos parece ser um
fenômeno real, mas desigual entre diferentes segmentos do eleitorado. Embora
ele mantenha um núcleo de apoio muito fiel entre os republicanos, pesquisas
recentes mostram uma queda consistente na aprovação entre independentes e em
alguns grupos que foram decisivos para sua vitória.
Pesquisas
nacionais divulgadas em julho de 2026 situam a aprovação de Donald Trump entre
35% e 38%, enquanto a desaprovação oscila entre 59% e 61%, um dos piores
índices de seu segundo mandato. A avaliação de sua gestão econômica atingiu um
dos níveis mais baixos desde o início do mandato. O aumento do custo de vida,
dos combustíveis e a percepção de desaceleração econômica reduziram o apoio de
eleitores independentes.
Outras
pesquisas indicam que muitos americanos avaliam negativamente a guerra com o
Irã, aumentando a preocupação com o risco de uma escalada militar e seus
efeitos econômicos. No que se refere à questão da imigração, embora continue
sendo um tema forte para sua base, parte do eleitorado moderado demonstrou
desconforto com algumas operações de deportação e com episódios de violência
envolvendo ações do ICE.
Quanto
ao apoio dentro do Partido Republicano, Donald Trump continua exercendo forte
influência. A maioria dos candidatos republicanos ainda busca seu endosso, e
seus aliados dominam grande parte das disputas internas. Entretanto, dirigentes
republicanos começam a manifestar preocupação de que sua insistência em
alegações de fraude eleitoral e seu estilo de campanha possam prejudicar o
partido nas eleições legislativas de novembro de 2026. Na Geórgia, por exemplo,
líderes republicanos temem que esse discurso reduza a participação de eleitores
conservadores.
Também
há sinais de perda de apoio em segmentos específicos do eleitorado, como
jovens, mães e famílias suburbanas, eleitores independentes, parte dos
republicanos moderados e de grupos religiosos tradicionais. Ao mesmo tempo,
Donald Trump preserva um núcleo eleitoral altamente mobilizado, suficiente para
manter sua liderança dentro do Partido Republicano, o que demonstra que sua
base permanece sólida, embora insuficiente para compensar a perda em outros
segmentos.
Em
síntese, o cenário atual é de desgaste político significativo, especialmente
perante o eleitorado nacional e os independentes, mas não de colapso de sua
liderança no Partido Republicano. O principal desafio para Donald Trump é
transformar a lealdade de sua base em uma maioria eleitoral ampla. As eleições
de meio de mandato de 2026 serão um teste decisivo para medir se a queda de
popularidade afetará efetivamente a força eleitoral dos republicanos.
O
jornalista Seymour Hersh denunciou que Donald Trump, além das decisões já
conhecidas para manipular os distritos eleitorais, prepara o uso de força
militar para intimidar eleitores e forçar a abstenção. Enquanto isso, segundo
ele, o Partido Democrata está mais assustado com o crescimento da esquerda
dentro do partido do que com as manobras eleitorais de Donald Trump.
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Rede internacional de extrema direita
A
articulação de uma rede transnacional de movimentos e lideranças conservadoras
e de extrema direita tem sido um movimento recorrente no cenário internacional,
no qual o presidente Donald Trump e figuras ligadas ao seu círculo, nos EUA e
no exterior, exercem forte influência.
Analistas
de relações internacionais apontam que, mais do que uma estrutura formal única
nos moldes de antigas organizações partidárias internacionais, o movimento se
consolida por meio de alianças pragmáticas, fóruns de cooperação ideológica,
redes de desinformação, financiamentos cruzados e apoio político mútuo entre
líderes globais (como Javier Milei na Argentina, Viktor Orbán na Hungria e o
bolsonarismo no Brasil).
Essa
rede costuma se organizar em torno de agendas comuns, tais como oposição a
pautas progressistas e aos direitos de minorias, discursos contra a imigração
em massa, combate ao que denominam “globalismo” ou influência de instituições
multilaterais tradicionais e alinhamento em disputas digitais e narrativas nas
redes sociais.
No
entanto, especialistas divergem sobre o grau de coesão formal desse bloco: a
Casa Branca, sob a liderança de Donald Trump, busca ser um verdadeiro
“epicentro” ou polo aglutinador de uma coalizão global de direita e extrema
direita, mas os interesses nacionais e o nacionalismo econômico de cada país
muitas vezes entram em conflito, limitando a criação de uma organização
internacional institucionalizada e coesa.
É
inegável que o governo de Donald Trump e seus aliados buscam fortalecer uma
rede internacional de movimentos e partidos conservadores e nacionalistas. O
que há de concreto é que o governo de Donald Trump tem promovido encontros
internacionais com governos e lideranças alinhados à sua agenda política. Um
exemplo recente foi a conferência organizada pelo secretário de Estado, Marco
Rubio, com representantes de mais de 60 países para discutir o que a
administração define como “terrorismo da extrema esquerda”, procurando criar
cooperação internacional nessa área.
O
governo de Donald Trump também tem apoiado financeiramente organizações
conservadoras no exterior, especialmente na Europa, o que foi interpretado por
críticos como uma tentativa de fortalecer forças políticas ideologicamente
próximas ao trumpismo. Paralelamente, organizações privadas próximas ao
universo político de Donald Trump, como a CPAC (Conservative Political Action
Conference), expandiram suas atividades para países da Europa e da América
Latina, reunindo líderes como Viktor Orbán, Javier Milei e Jair Bolsonaro,
entre outros. Esses encontros funcionam como espaços de articulação política e
intercâmbio de estratégias entre movimentos conservadores e nacionalistas.
Embora
não exista, pelo menos ainda, uma organização internacional oficial, criada por
Donald Trump, com estatuto, membros e estrutura permanente equivalente, por
exemplo, à Internacional Socialista, Donald Trump e seus aliados parecem estar
incentivando a consolidação de uma rede internacional de partidos, governos,
think tanks e movimentos da direita e extrema direita populista e nacionalista,
utilizando conferências, apoio político e cooperação entre organizações.
Os
ventos soprados pelo governo Donald Trump influenciaram diversos países
europeus que passaram a reprimir e caçar imigrantes sem documentos,
“restringindo o acesso ao asilo, acelerando deportações e facilitando o
repatriamento de migrantes considerados ilegais” (Caça aos Estrangeiros – Celso
Japiassu – Fórum 21 – 20/7/2026).
Na
América Latina, a pressão política do governo de Donald Trump vem surtindo
efeito, como vimos nas recentes eleições vencidas pela direita no Peru e na
Colômbia. Com a atitude de perseverar numa política externa autônoma e
independente, temos hoje, praticamente, apenas o Brasil, México e Uruguai.
Nesse
contexto, a eleição no Brasil se reveste de uma importância estratégica para o
xadrez geopolítico de Donald Trump. Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia,
afirmou que a ofensiva dos Estados Unidos contra o sistema brasileiro de
pagamentos protege interesses de grandes empresas, tenta preservar a hegemonia
do dólar e revela resistência à inovação tecnológica. Segundo ele, o ataque de
Donald Trump ao Pix é guerra contra o futuro e fortalecerá Lula.
Tudo
indica que o candidato de Donald Trump, envolvido em graves denúncias de
corrupção e acusado de defender os interesses dos EUA contra o Brasil, não terá
fôlego político e densidade eleitoral para se eleger Presidente nas próximas
eleições. Ao anunciar seu objetivo de suprimir o Pix e lançar tarifaços contra
o Brasil, Donald Trump tende a produzir efeitos contraproducentes,
enfraquecendo seu intermediário, o candidato Flavio Bolsonaro, e fortalecendo
Lula, ao colocar em seu colo a bandeira da defesa da soberania nacional.
O
ex-embaixador Roberto Abdenur por exemplo, chegou a fazer um ataque direto:
declarou que, se eleito, Flávio Bolsonaro entregaria o Brasil aos EUA de
bandeja, de graça, sem obter nada. Assim, entre Sila e Caribdis, o candidato de
Donald Trump no Brasil, se escapar da punição pelos crimes que cometeu, embora
continue Senador, caminhará para o ostracismo depois das eleições.
Fonte:
Por Liszt Vieira, em A Terra é Redonda

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