segunda-feira, 27 de julho de 2026

Nova ofensiva dos EUA ameaça a soberania da América Latina

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos radicaliza a política de Washington para a América Latina e o Caribe. Sob os argumentos de combate ao narcotráfico, controle migratório, segurança e defesa da democracia, o governo norte-americano recupera a concepção de que a região constitui uma área subordinada aos seus interesses econômicos, políticos, militares e geopolíticos.

O documento atualiza a Doutrina Monroe, usada historicamente para justificar intervenções norte-americanas no continente. Sob o chamado “corolário Trump”, Washington reivindica o poder de determinar quais governos, alianças internacionais e projetos econômicos são aceitáveis, além de classificar como ameaças os países que contrariam seus interesses de rapinagem.

Essa política surge em um momento de declínio relativo da hegemonia dos Estados Unidos, avanço econômico e tecnológico da China, resistência da Rússia à ordem unipolar e consolidação de um mundo multipolar. Retomar o controle da vizinhança hemisférica passa a ser parte da estratégia imperialista norte-americana de recomposição de poder global.

Na prática, a soberania latino-americana fica subordinada à segurança dos Estados Unidos. Aproximações com China, Rússia ou outros polos internacionais podem ser tratadas como ameaças, assim como governos que defendam autonomia diplomática, controle nacional dos recursos estratégicos e projetos independentes de integração regional.

A retórica do “narcoterrorismo” tem papel central nesse processo. Ao reunir crime organizado, terrorismo, migração e rivalidade geopolítica em uma mesma categoria, Washington amplia as justificativas para operações militares, sanções e ações unilaterais. O narcotráfico é um problema grave, mas não pode servir de pretexto para substituir a cooperação soberana pela tutela externa, ingerência, intervenções, golpes e ataques militares.

O Comando Sul dos Estados Unidos ganha protagonismo com o envio de navios, aeronaves, sistemas não tripulados e forças de apoio à região. A presença de grandes meios militares, inclusive porta-aviões, nas proximidades do Caribe representa uma advertência aos governos classificados como adversários. O Escudo das Américas, sob liderança estadunidense tem caráter militarista e é uma aliança de caráter militarista a ser acionada para cometer agressões.

A Venezuela constitui o exemplo mais grave desta etapa intervencionista. A agressão de 3 de janeiro, que culminou no sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cília Flores, criou um precedente para todo o continente. Ao atacar um país soberano e capturar seu chefe de Estado, uma potência estrangeira substitui o Direito Internacional e o princípio da não intervenção pelo emprego direto da força.

O episódio também expõe a fragilidade das instituições multilaterais. A ONU enfrenta os limites impostos pelo peso norte-americano. A legalidade internacional passa a ser aplicada seletivamente, conforme a capacidade de coerção de cada Estado.

Colômbia e México também são alvos da retórica intervencionista. As tensões com o governo de Gustavo Petro, o apoio de setores norte-americanos a candidaturas de direita e as acusações relacionadas ao crime organizado criam um ambiente de pressão permanente. No México, o discurso sobre cartéis e segurança fronteiriça abre caminho para ameaças de operações extraterritoriais.

A interferência eleitoral integra essa estratégia. Em Honduras, o apoio público a um candidato de direita e a ameaça de suspensão da ajuda norte-americana representaram pressão direta sobre a vontade popular. Na Argentina, o apoio financeiro e político de Donald Trump ao governo Javier Milei fortaleceu uma agenda de privatizações, cortes sociais, desregulação e alinhamento aos interesses de Washington.

Na Colômbia, forças progressistas e soberanistas foram apresentadas como riscos à segurança regional, enquanto candidatos alinhados à política norte-americana receberam tratamento favorável. No Peru, a instabilidade institucional e o enfraquecimento da representação popular favoreceram alternativas conservadoras e autoritárias comprometidas com abertura econômica e alinhamento geopolítico. Nos dois países, a extrema direita acabou beneficiada. Em ambos os países isto resultou em triunfo eleitoral da extrema direita.

Washington adota, assim, uma concepção instrumental de democracia. Governos aliados são apresentados como democráticos, mesmo quando apoiam práticas ditatoriais, enquanto administrações que resistem à subordinação recebem rótulos de ameaça. O critério deixa de ser a vontade popular e passa a ser a adesão ao projeto norte-americano.

A ascensão da extrema direita latino-americana também possui dimensão continental. Partidos, fundações, redes digitais, grupos religiosos, empresários, meios de comunicação e centros de pensamento atuam para criminalizar a esquerda, eliminar direitos sociais e alinhar os países da região aos Estados Unidos.

No Brasil, o tarifaço sobre produtos nacionais, as sanções baseadas na Lei Magnitsky contra um integrante do Supremo Tribunal Federal, as pressões em torno do julgamento de Jair Bolsonaro e a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas globais formam uma arquitetura de pressão sobre o Estado brasileiro.

O tarifaço funciona como instrumento de intimidação política e econômica. A aplicação da Lei Magnitsky contra um magistrado tentou projetar a jurisdição norte-americana sobre instituições brasileiras. Já o enquadramento de organizações criminosas como terroristas pode justificar sanções extraterritoriais, pressões financeiras, cooperação desigual de inteligência e narrativas favoráveis à ingerência externa.

O Brasil deve enfrentar PCC e Comando Vermelho com firmeza, pois essas organizações produzem violência, corrompem instituições e controlam territórios. Esse combate, porém, precisa ser conduzido pelo Estado brasileiro, sem transformar a segurança pública em porta de entrada para intervenções estrangeiras.

Também existe risco de interferência nas eleições brasileiras de 2026. Ela pode ocorrer por meio de pressões econômicas, campanhas digitais, sanções, apoio a setores da oposição e exploração política da segurança pública, com o objetivo de fortalecer a extrema direita e enfraquecer projetos de soberania nacional e integração regional.

Cuba ocupa posição especial nessa ofensiva. Além do bloqueio econômico, comercial e financeiro mantido há décadas, o país enfrenta pressões sobre combustíveis, transações e parceiros externos. O bloqueio energético atinge eletricidade, transporte, abastecimento e serviços essenciais, ampliando apagões, escassez e sofrimento social.

As ameaças de agressão militar e derrubada do governo cubano elevam os riscos. Ao atacar Havana, Washington busca atingir um símbolo histórico de resistência à hegemonia norte-americana. A queda do governo cubano seria apresentada pela extrema direita e pelo imperialismo como demonstração de que nenhum projeto socialista, soberano ou anti-imperialista pode sobreviver no continente.

A escalada já produz maior polarização diplomática. Governos aliados aos Estados Unidos apoiam ou silenciam diante das pressões, enquanto administrações progressistas denunciam a ingerência e enfrentam custos econômicos. A fragmentação de mecanismos como Celac, Unasul, e Mercosul favorece acordos bilaterais assimétricos, sanções seletivas e chantagens comerciais.

No campo econômico, Washington procura controlar energia, minerais estratégicos, infraestrutura digital, rotas marítimas e cadeias produtivas. A América Latina concentra petróleo, gás, lítio, água, biodiversidade e alimentos. A pressão para limitar investimentos chineses e subordinar políticas industriais busca impedir que esses recursos sustentem projetos nacionais autônomos.

A agenda associada à extrema direita combina austeridade, privatizações, retirada de direitos, enfraquecimento do Estado e abertura ao capital externo. Na Argentina, o choque ultraliberal provocou queda da renda, aumento da pobreza, precarização e conflitos sociais.

A estratégia norte-americana também pode reativar doutrinas de segurança nacional utilizadas historicamente contra movimentos populares. O conceito elástico de terrorismo permite que cartéis sejam hoje os alvos declarados, mas movimentos sociais, sindicatos, partidos de esquerda e governos soberanistas sejam posteriormente tratados como inimigos.

A rivalidade com China e Rússia atravessa toda essa ofensiva. Os Estados Unidos pretendem assegurar recursos, bases, cadeias logísticas, votos em organismos internacionais e alinhamento diplomático antes de ampliar disputas em outras regiões. O confronto global também ocorre na Amazônia, no Caribe, nos Andes, no Atlântico Sul, nos portos e nos sistemas eleitorais latino-americanos.

As forças democráticas, populares e anti-imperialistas precisam fortalecer a luta anti-imperialista, a integração regional, diversificar parcerias, proteger eleições, regular plataformas digitais, combater o crime organizado com inteligência própria e reduzir dependências financeiras. Essa resposta deve incluir políticas para segurança, renda, emprego, moradia, transporte e serviços públicos, pois a extrema direita avança em contextos de medo, desigualdade e descrença institucional.

O Brasil possui responsabilidade especial como maior país latino-americano e potência ambiental, energética, agrícola e diplomática. Sua política externa independente, orientada pela paz, integração regional e multipolaridade, contraria os interesses de quem pretende manter o continente fragmentado e subordinado.

A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos reorganiza antigos instrumentos imperialistas para uma etapa mais agressiva, militarizada e alinhada à extrema direita. A América Latina enfrenta o risco de desestabilização política, restrição democrática, regressão social e submissão econômica. Sua história, porém, também é marcada pela resistência dos povos em defesa da paz, da soberania e do direito de decidir o próprio destino.

¨      Lula avisa Trump: “não venha meter o dedo nas nossas eleições”

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu de forma enérgica a soberania nacional e mandou um recado direto contra qualquer tentativa de ingerência estrangeira no processo eleitoral brasileiro, em discurso proferido neste sábado (25), durante o ato oficial de lançamento da candidatura de Fernando Haddad (PT) ao governo do Estado de São Paulo.

A chapa encabeçada por Haddad reúne uma ampla aliança política, contando com o ex-governador Márcio França (PSB) como candidato a vice-governador, além das candidaturas ao Senado Federal da ministra Simone Tebet (PSB) e da ministra Marina Silva (Rede).

Durante sua fala, o presidente enfatizou que o destino político do país deve ser determinado exclusivamente pelo povo brasileiro, rejeitando qualquer tipo de pressão ou intervenção de líderes ou forças políticas externas.

“Que não venha ninguém de fora querer meter o dedo nas nossas eleições. Eu não sou de fazer bravata, não gosto de dizer o que eu não posso fazer. Mas vou dizer para vocês uma coisa que trago do berço, aprendida com uma mãe analfabeta: andar de cabeça erguida, ter vergonha e caráter a gente não encontra no shopping. Caráter e vergonha você nasce com ela de berço, aprende com o pai e com a mãe. Quem quiser de fora vir se meter nas eleições brasileiras, já vou avisando logo: vão apanhar muito aqui nas eleições”, declarou Lula.

O presidente reforçou que o poder de decisão reside estritamente no eleitorado brasileiro, destacando a dimensão do pleito e o compromisso do país com a autodeterminação e a paz internacional:

“Quem vai decidir o destino desse país são 157 milhões de eleitores. Quem vai definir o destino de São Paulo são os eleitores de São Paulo. O aviso está dado. O Brasil é soberano. O Brasil quer manter relações com todos os países do mundo. O Brasil não quer guerra, quer paz. O Brasil não quer ódio, quer amor. O Brasil não quer fazer futrica, quer trabalhar, viver decentemente. E é isso que a gente vai garantir”.

Aproveitando o momento de mobilização política ao lado de aliados estratégicos na capital paulista, Lula também projetou o cenário eleitoral futuro e confirmou sua disposição em disputar a reeleição.

“E pode ter certeza: esse jovem de 80 anos que está falando com vocês vai ganhar as eleições outra vez em 2026. É preciso que a juventude brasileira levante a cabeça, que as mulheres levantem a cabeça, que os homens levantem a cabeça. Esse país é nosso e aqui ninguém mete o bedelho!”, finalizou o presidente sob aplausos dos apoiadores presentes.

<><> Governo Lula nega visto a funcionários de Trump que viriam ao Brasil questionar as eleições

O governo do presidente Lula (PT) negou o pedido de visto oficial apresentado por dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que pretendiam viajar ao Brasil para realizar reuniões com autoridades eleitorais e com integrantes da oposição, confirmaram fontes em Brasília a Janaína Figueiredo, do UOL.

A missão norte-americana previa a visita de Riley M. Barnes, secretário-adjunto, e Samuel Samson, subsecretário-adjunto do Departamento de Estado americano, cujo planejamento de viagem havia sido revelado originalmente pelo jornal The Washington Post. A solicitação dos vistos deu entrada formalmente no governo brasileiro no dia 20 de julho. No final desta mesma semana, a diplomacia brasileira comunicou ao governo dos Estados Unidos a decisão de indeferir ambos os pedidos.

Segundo a avaliação de autoridades consultadas em Brasília, existia uma conexão direta e clara entre a viagem planejada pelos enviados do Departamento de Estado e as recentes movimentações promovidas pela campanha do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL). As ações da campanha do parlamentar buscam desacreditar, com base em informações falsas, a lisura do processo eleitoral no país.

Entre esses movimentos, interlocutores governamentais destacaram a reunião realizada pelo candidato do PL com embaixadores em Brasília, ocasião na qual foram articuladas críticas diretas ao sistema eleitoral brasileiro. As fontes consideraram o episódio grave e preocupante, apontando que a intenção de um governo estrangeiro em tomar parte na ofensiva bolsonarista contra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) representa uma tentativa inaceitável de ingerência.

A articulação internacional ocorre em um momento chave do calendário político nacional, marcado pela oficialização da candidatura de Flávio Bolsonaro, evento que conta, inclusive, com a presença do presidente da Argentina, Javier Milei, em São Paulo. O governo brasileiro identificou nesse conjunto de fatos uma operação estruturada para atacar o sistema eleitoral e as instituições do país, replicando métodos adotados por Jair Bolsonaro (PL) em 2022, mas contando agora com o respaldo direto de integrantes do governo do presidente norte-americano Donald Trump.

Além de submeter o pedido de visto para os dois altos funcionários do Departamento de Estado, a administração dos Estados Unidos fez sondagens para agendar reuniões formais com autoridades do próprio TSE. As tratativas contemplavam ainda um encontro presencial dos enviados de Washington com Flávio Bolsonaro durante o período da missão.

Diante do quadro apresentado e do risco de instrumentalização da presença estrangeira no debate político nacional, o governo brasileiro agiu rapidamente para indeferir a entrada dos diplomatas. Ficou estabelecido no diagnóstico oficial que a missão norte-americana tinha como finalidade central dar respaldo e reforçar a campanha de questionamento público sobre o processo eleitoral do Brasil.

 

Fonte: Por José Reinaldo Carvalho, em Brasil 247

 

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