Nova
ofensiva dos EUA ameaça a soberania da América Latina
A nova
Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos radicaliza a política de
Washington para a América Latina e o Caribe. Sob os argumentos de combate ao
narcotráfico, controle migratório, segurança e defesa da democracia, o governo
norte-americano recupera a concepção de que a região constitui uma área
subordinada aos seus interesses econômicos, políticos, militares e
geopolíticos.
O
documento atualiza a Doutrina Monroe, usada historicamente para justificar
intervenções norte-americanas no continente. Sob o chamado “corolário Trump”,
Washington reivindica o poder de determinar quais governos, alianças
internacionais e projetos econômicos são aceitáveis, além de classificar como
ameaças os países que contrariam seus interesses de rapinagem.
Essa
política surge em um momento de declínio relativo da hegemonia dos Estados
Unidos, avanço econômico e tecnológico da China, resistência da Rússia à ordem
unipolar e consolidação de um mundo multipolar. Retomar o controle da
vizinhança hemisférica passa a ser parte da estratégia imperialista
norte-americana de recomposição de poder global.
Na
prática, a soberania latino-americana fica subordinada à segurança dos Estados
Unidos. Aproximações com China, Rússia ou outros polos internacionais podem ser
tratadas como ameaças, assim como governos que defendam autonomia diplomática,
controle nacional dos recursos estratégicos e projetos independentes de
integração regional.
A
retórica do “narcoterrorismo” tem papel central nesse processo. Ao reunir crime
organizado, terrorismo, migração e rivalidade geopolítica em uma mesma
categoria, Washington amplia as justificativas para operações militares,
sanções e ações unilaterais. O narcotráfico é um problema grave, mas não pode
servir de pretexto para substituir a cooperação soberana pela tutela externa,
ingerência, intervenções, golpes e ataques militares.
O
Comando Sul dos Estados Unidos ganha protagonismo com o envio de navios,
aeronaves, sistemas não tripulados e forças de apoio à região. A presença de
grandes meios militares, inclusive porta-aviões, nas proximidades do Caribe
representa uma advertência aos governos classificados como adversários. O
Escudo das Américas, sob liderança estadunidense tem caráter militarista e é
uma aliança de caráter militarista a ser acionada para cometer agressões.
A
Venezuela constitui o exemplo mais grave desta etapa intervencionista. A
agressão de 3 de janeiro, que culminou no sequestro do presidente Nicolás
Maduro e da deputada Cília Flores, criou um precedente para todo o continente.
Ao atacar um país soberano e capturar seu chefe de Estado, uma potência
estrangeira substitui o Direito Internacional e o princípio da não intervenção
pelo emprego direto da força.
O
episódio também expõe a fragilidade das instituições multilaterais. A ONU
enfrenta os limites impostos pelo peso norte-americano. A legalidade
internacional passa a ser aplicada seletivamente, conforme a capacidade de
coerção de cada Estado.
Colômbia
e México também são alvos da retórica intervencionista. As tensões com o
governo de Gustavo Petro, o apoio de setores norte-americanos a candidaturas de
direita e as acusações relacionadas ao crime organizado criam um ambiente de
pressão permanente. No México, o discurso sobre cartéis e segurança fronteiriça
abre caminho para ameaças de operações extraterritoriais.
A
interferência eleitoral integra essa estratégia. Em Honduras, o apoio público a
um candidato de direita e a ameaça de suspensão da ajuda norte-americana
representaram pressão direta sobre a vontade popular. Na Argentina, o apoio
financeiro e político de Donald Trump ao governo Javier Milei fortaleceu uma
agenda de privatizações, cortes sociais, desregulação e alinhamento aos
interesses de Washington.
Na
Colômbia, forças progressistas e soberanistas foram apresentadas como riscos à
segurança regional, enquanto candidatos alinhados à política norte-americana
receberam tratamento favorável. No Peru, a instabilidade institucional e o
enfraquecimento da representação popular favoreceram alternativas conservadoras
e autoritárias comprometidas com abertura econômica e alinhamento geopolítico.
Nos dois países, a extrema direita acabou beneficiada. Em ambos os países isto
resultou em triunfo eleitoral da extrema direita.
Washington
adota, assim, uma concepção instrumental de democracia. Governos aliados são
apresentados como democráticos, mesmo quando apoiam práticas ditatoriais,
enquanto administrações que resistem à subordinação recebem rótulos de ameaça.
O critério deixa de ser a vontade popular e passa a ser a adesão ao projeto
norte-americano.
A
ascensão da extrema direita latino-americana também possui dimensão
continental. Partidos, fundações, redes digitais, grupos religiosos,
empresários, meios de comunicação e centros de pensamento atuam para
criminalizar a esquerda, eliminar direitos sociais e alinhar os países da
região aos Estados Unidos.
No
Brasil, o tarifaço sobre produtos nacionais, as sanções baseadas na Lei
Magnitsky contra um integrante do Supremo Tribunal Federal, as pressões em
torno do julgamento de Jair Bolsonaro e a classificação do PCC e do Comando
Vermelho como organizações terroristas globais formam uma arquitetura de
pressão sobre o Estado brasileiro.
O
tarifaço funciona como instrumento de intimidação política e econômica. A
aplicação da Lei Magnitsky contra um magistrado tentou projetar a jurisdição
norte-americana sobre instituições brasileiras. Já o enquadramento de
organizações criminosas como terroristas pode justificar sanções
extraterritoriais, pressões financeiras, cooperação desigual de inteligência e
narrativas favoráveis à ingerência externa.
O
Brasil deve enfrentar PCC e Comando Vermelho com firmeza, pois essas
organizações produzem violência, corrompem instituições e controlam
territórios. Esse combate, porém, precisa ser conduzido pelo Estado brasileiro,
sem transformar a segurança pública em porta de entrada para intervenções
estrangeiras.
Também
existe risco de interferência nas eleições brasileiras de 2026. Ela pode
ocorrer por meio de pressões econômicas, campanhas digitais, sanções, apoio a
setores da oposição e exploração política da segurança pública, com o objetivo
de fortalecer a extrema direita e enfraquecer projetos de soberania nacional e
integração regional.
Cuba
ocupa posição especial nessa ofensiva. Além do bloqueio econômico, comercial e
financeiro mantido há décadas, o país enfrenta pressões sobre combustíveis,
transações e parceiros externos. O bloqueio energético atinge eletricidade,
transporte, abastecimento e serviços essenciais, ampliando apagões, escassez e
sofrimento social.
As
ameaças de agressão militar e derrubada do governo cubano elevam os riscos. Ao
atacar Havana, Washington busca atingir um símbolo histórico de resistência à
hegemonia norte-americana. A queda do governo cubano seria apresentada pela
extrema direita e pelo imperialismo como demonstração de que nenhum projeto
socialista, soberano ou anti-imperialista pode sobreviver no continente.
A
escalada já produz maior polarização diplomática. Governos aliados aos Estados
Unidos apoiam ou silenciam diante das pressões, enquanto administrações
progressistas denunciam a ingerência e enfrentam custos econômicos. A
fragmentação de mecanismos como Celac, Unasul, e Mercosul favorece acordos
bilaterais assimétricos, sanções seletivas e chantagens comerciais.
No
campo econômico, Washington procura controlar energia, minerais estratégicos,
infraestrutura digital, rotas marítimas e cadeias produtivas. A América Latina
concentra petróleo, gás, lítio, água, biodiversidade e alimentos. A pressão
para limitar investimentos chineses e subordinar políticas industriais busca
impedir que esses recursos sustentem projetos nacionais autônomos.
A
agenda associada à extrema direita combina austeridade, privatizações, retirada
de direitos, enfraquecimento do Estado e abertura ao capital externo. Na
Argentina, o choque ultraliberal provocou queda da renda, aumento da pobreza,
precarização e conflitos sociais.
A
estratégia norte-americana também pode reativar doutrinas de segurança nacional
utilizadas historicamente contra movimentos populares. O conceito elástico de
terrorismo permite que cartéis sejam hoje os alvos declarados, mas movimentos
sociais, sindicatos, partidos de esquerda e governos soberanistas sejam
posteriormente tratados como inimigos.
A
rivalidade com China e Rússia atravessa toda essa ofensiva. Os Estados Unidos
pretendem assegurar recursos, bases, cadeias logísticas, votos em organismos
internacionais e alinhamento diplomático antes de ampliar disputas em outras
regiões. O confronto global também ocorre na Amazônia, no Caribe, nos Andes, no
Atlântico Sul, nos portos e nos sistemas eleitorais latino-americanos.
As
forças democráticas, populares e anti-imperialistas precisam fortalecer a luta
anti-imperialista, a integração regional, diversificar parcerias, proteger
eleições, regular plataformas digitais, combater o crime organizado com
inteligência própria e reduzir dependências financeiras. Essa resposta deve
incluir políticas para segurança, renda, emprego, moradia, transporte e
serviços públicos, pois a extrema direita avança em contextos de medo,
desigualdade e descrença institucional.
O
Brasil possui responsabilidade especial como maior país latino-americano e
potência ambiental, energética, agrícola e diplomática. Sua política externa
independente, orientada pela paz, integração regional e multipolaridade,
contraria os interesses de quem pretende manter o continente fragmentado e
subordinado.
A nova
Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos reorganiza antigos
instrumentos imperialistas para uma etapa mais agressiva, militarizada e
alinhada à extrema direita. A América Latina enfrenta o risco de
desestabilização política, restrição democrática, regressão social e submissão
econômica. Sua história, porém, também é marcada pela resistência dos povos em
defesa da paz, da soberania e do direito de decidir o próprio destino.
¨
Lula avisa Trump: “não venha meter o dedo nas nossas
eleições”
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu de forma enérgica a
soberania nacional e mandou um recado direto contra qualquer tentativa de
ingerência estrangeira no processo eleitoral brasileiro, em discurso proferido
neste sábado (25), durante o ato oficial de lançamento da candidatura de
Fernando Haddad (PT) ao governo do Estado de São Paulo.
A chapa
encabeçada por Haddad reúne uma ampla aliança política, contando com o
ex-governador Márcio França (PSB) como candidato a vice-governador, além das
candidaturas ao Senado Federal da ministra Simone Tebet (PSB) e da ministra
Marina Silva (Rede).
Durante
sua fala, o presidente enfatizou que o destino político do país deve ser
determinado exclusivamente pelo povo brasileiro, rejeitando qualquer tipo de
pressão ou intervenção de líderes ou forças políticas externas.
“Que
não venha ninguém de fora querer meter o dedo nas nossas eleições. Eu não sou
de fazer bravata, não gosto de dizer o que eu não posso fazer. Mas vou dizer
para vocês uma coisa que trago do berço, aprendida com uma mãe analfabeta:
andar de cabeça erguida, ter vergonha e caráter a gente não encontra no
shopping. Caráter e vergonha você nasce com ela de berço, aprende com o pai e
com a mãe. Quem quiser de fora vir se meter nas eleições brasileiras, já vou
avisando logo: vão apanhar muito aqui nas eleições”, declarou Lula.
O
presidente reforçou que o poder de decisão reside estritamente no eleitorado
brasileiro, destacando a dimensão do pleito e o compromisso do país com a
autodeterminação e a paz internacional:
“Quem
vai decidir o destino desse país são 157 milhões de eleitores. Quem vai definir
o destino de São Paulo são os eleitores de São Paulo. O aviso está dado. O
Brasil é soberano. O Brasil quer manter relações com todos os países do mundo.
O Brasil não quer guerra, quer paz. O Brasil não quer ódio, quer amor. O Brasil
não quer fazer futrica, quer trabalhar, viver decentemente. E é isso que a
gente vai garantir”.
Aproveitando
o momento de mobilização política ao lado de aliados estratégicos na capital
paulista, Lula também projetou o cenário eleitoral futuro e confirmou sua
disposição em disputar a reeleição.
“E pode
ter certeza: esse jovem de 80 anos que está falando com vocês vai ganhar as
eleições outra vez em 2026. É preciso que a juventude brasileira levante a
cabeça, que as mulheres levantem a cabeça, que os homens levantem a cabeça.
Esse país é nosso e aqui ninguém mete o bedelho!”, finalizou o presidente sob
aplausos dos apoiadores presentes.
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Governo Lula nega visto a funcionários de Trump que viriam ao Brasil questionar
as eleições
O
governo do presidente Lula (PT) negou o pedido de visto oficial apresentado por
dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos, que pretendiam
viajar ao Brasil para realizar reuniões com autoridades eleitorais e com
integrantes da oposição, confirmaram fontes em Brasília a Janaína Figueiredo,
do UOL.
A
missão norte-americana previa a visita de Riley M. Barnes, secretário-adjunto,
e Samuel Samson, subsecretário-adjunto do Departamento de Estado americano,
cujo planejamento de viagem havia sido revelado originalmente pelo jornal The
Washington Post. A solicitação dos vistos deu entrada formalmente no
governo brasileiro no dia 20 de julho. No final desta mesma semana, a
diplomacia brasileira comunicou ao governo dos Estados Unidos a decisão de
indeferir ambos os pedidos.
Segundo
a avaliação de autoridades consultadas em Brasília, existia uma conexão direta
e clara entre a viagem planejada pelos enviados do Departamento de Estado e as
recentes movimentações promovidas pela campanha do pré-candidato Flávio
Bolsonaro (PL). As ações da campanha do parlamentar buscam desacreditar, com
base em informações falsas, a lisura do processo eleitoral no país.
Entre
esses movimentos, interlocutores governamentais destacaram a reunião realizada
pelo candidato do PL com embaixadores em Brasília, ocasião na qual foram
articuladas críticas diretas ao sistema eleitoral brasileiro. As fontes
consideraram o episódio grave e preocupante, apontando que a intenção de um
governo estrangeiro em tomar parte na ofensiva bolsonarista contra o Tribunal
Superior Eleitoral (TSE) representa uma tentativa inaceitável de ingerência.
A
articulação internacional ocorre em um momento chave do calendário político
nacional, marcado pela oficialização da candidatura de Flávio Bolsonaro, evento
que conta, inclusive, com a presença do presidente da Argentina, Javier Milei,
em São Paulo. O governo brasileiro identificou nesse conjunto de fatos uma
operação estruturada para atacar o sistema eleitoral e as instituições do país,
replicando métodos adotados por Jair Bolsonaro (PL) em 2022, mas contando agora
com o respaldo direto de integrantes do governo do presidente norte-americano
Donald Trump.
Além de
submeter o pedido de visto para os dois altos funcionários do Departamento de
Estado, a administração dos Estados Unidos fez sondagens para agendar reuniões
formais com autoridades do próprio TSE. As tratativas contemplavam ainda um
encontro presencial dos enviados de Washington com Flávio Bolsonaro durante o
período da missão.
Diante
do quadro apresentado e do risco de instrumentalização da presença estrangeira
no debate político nacional, o governo brasileiro agiu rapidamente para
indeferir a entrada dos diplomatas. Ficou estabelecido no diagnóstico oficial
que a missão norte-americana tinha como finalidade central dar respaldo e
reforçar a campanha de questionamento público sobre o processo eleitoral do
Brasil.
Fonte:
Por José Reinaldo Carvalho, em Brasil 247

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