Votos
nulos, brancos e abstenções devem ser recorde este ano, aposta autor de livro
sobre eleições no Brasil
A
abstenção, que foi recorde nas eleições de 2022, pode voltar a crescer no
pleito deste ano e atingir o maior nível das últimas décadas, na avaliação do
cientista político Jairo Nicolau. Ele também acredita que o número de votos
brancos e nulos pode aumentar.
A cerca
de uma semana das eleições de 2026, o professor da Fundação Getúlio Vargas
(FGV) avalia que o eleitorado está frustrado com uma campanha marcada pela
repetição da polarização entre petismo e bolsonarismo e pelo pouco espaço
dedicado ao debate — ofuscado nas últimas semanas pela crise no Supremo
Tribunal Federal (STF).
"Essa
é uma eleição em que as pessoas estão desanimadas com os candidatos que estão
aí, e que tem grande chance de aumentar, num nível razoável, a abstenção e os
votos nulos e brancos", afirma.
"Talvez
a gente tenha a maior taxa de abstenção nas eleições gerais de 2002 para
cá."
Mas
Nicolau pondera que nem toda abstenção representa uma decisão deliberada de não
participar da política.
Em seu
livro O país dividido, publicado em junho pela editora Zahar, o cientista
político dedica um capítulo a analisar quem são os eleitores que deixaram de
comparecer às urnas nas seis eleições presidenciais entre 2002 e 2022.
Os
dados mostram que a abstenção não se distribui de maneira uniforme entre os
eleitores — o que também dificulta prever quem poderia ser mais afetado por uma
eventual alta neste ano.
"As
mulheres comparecem mais, então o comparecimento feminino favorece o Lula. Mas
as pessoas de baixa escolaridade comparecem menos. E isso prejudica o
Lula", afirma.
Nicolau
também chama atenção para outro fator: o custo de não votar ficou menor. Com a
facilidade para justificar a ausência e as consequências relativamente pequenas
de não comparecer às urnas, o Brasil estaria caminhando, na prática, para uma
espécie de voto facultativo.
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Confira a seguir os principais trechos da entrevista.
• Temos visto um aumento consistente da
abstenção nas últimas eleições. Houve um recorde no primeiro turno de 2022, 32
milhões de pessoas não votaram. A gente se acostumou a associar essa abstenção
ao desinteresse pela política. Nas suas pesquisas, esse é o principal fator que
explica as abstenções?
Jairo
Nicolau - Uma parte expressiva dessas abstenções é o voto de pessoas que já têm
a opção de não votar, ou seja, o voto é facultativo para pessoas com mais de 70
anos, e o número de pessoas com mais de 70 anos aumenta a cada eleição. O
envelhecimento é um fator que tem mudado o perfil do eleitorado brasileiro.
Então, o primeiro fator é esse: pessoas que não vão votar porque não são mais
obrigadas, já se descolaram, vamos dizer assim, da política.
Depois
da abstenção dos não obrigados, tem a das pessoas que estão fora do domicílio
eleitoral. Em geral, são pessoas que mudaram de cidade e não transferiram o
título. São milhões de pessoas nesse caso, seja um jovem que sai de uma cidade
para estudar em outra, uma pessoa que vai trabalhar em outro Estado e não
transfere o título. E claro, tem as pessoas que têm problemas no dia: adoecem,
são obrigadas a trabalhar fora de casa, enfim.
Mas tem
uma parte de pessoas que definitivamente toma uma decisão política, semelhante
à que existe em outros países, e pensa: "Todos os candidatos são iguais,
eu não me interesso, não acredito mais em ninguém, vou ficar em casa". A
questão é que nós não sabemos quanto desse total de 32 milhões de [pessoas que
deixaram de votar em] 2022 são de pessoas que, deliberadamente, praticam uma
abstenção política. A gente não sabe, não tem pesquisa sobre isso, nem uma
estimativa. Mas diria que não é o grupo mais expressivo.
Isso
não quer dizer que não venha a ser. Em uma eleição como a deste ano, em que o
interesse está baixo, a oferta de candidatos também está ruim, as pessoas vão
ficar em casa.
• O senhor acha que vamos ter um
crescimento e talvez até mesmo um recorde de abstenções nas eleições deste ano?
Nicolau
- Eu acho que vai ter sim um crescimento do número de eleitores que se
abstiveram. Agora, quanto é esse crescimento? Quantas pessoas já aprenderam que
a consequência do não voto é mínima para a vida delas? Sobretudo, se elas não
são de classe média para cima, não precisam do passaporte, não precisam fazer
um concurso, por exemplo, e pensam: "Ah, tem o e-Título, eu justifico no
meu computador, no meu celular aqui, e não vou precisar do título, de estar em
dia com as minhas obrigações junto à Justiça Eleitoral. Então pronto, vou ficar
em casa". Se um dia essa pessoa precisar de um comprovante para fazer um
concurso, ela vai lá na Justiça e resolve.
Essa é
uma eleição em que as pessoas estão desanimadas com os candidatos que estão aí,
e que tem grande chance de aumentar, num nível razoável, a abstenção e os votos
nulos e brancos. Mais nulo, que parece ser uma decisão mais enfática de
rejeição, você manda um recado.
• Então tem uma questão de desinteresse,
mas o próprio sistema tornou mais fácil não votar...
Jairo
Nicolau - As pessoas estão percebendo que hoje o custo de não votar, o custo no
sentido das implicações do ato, quanto também da multa, é risível. Se a Justiça
Eleitoral ou a elite política quisesse dar mais peso à obrigatoriedade, bastava
botar R$ 120 de multa. Ninguém ia faltar. Além disso, antes tinha que ir até a
seção eleitoral justificar, até uma agência dos Correios. Ou ir até à seção
eleitoral para votar e anular. Agora, o e-Título facilitou muito a abstenção.
Talvez a gente esteja caminhando para uma espécie de voto facultativo não dito.
• O senhor mencionou esse desânimo com os
candidatos. Pela terceira vez desde 2018, temos de um lado um Bolsonaro e, do
outro, um candidato do PT — com o Lula nas duas últimas eleições. Essa
repetição aumenta o desinteresse das pessoas em votar?
Nicolau
- É uma eleição que... digamos assim, o mercado eleitoral está pobre. O Lula,
pela primeira vez, não vai ter um adversário no campo progressista,
centro-esquerda. O outro lado aparece com quatro candidatos muito radicais à
direita, são direita inquestionável. E os eleitores centristas, de classe
média, querem algo mais moderado para o país, que não querem Lula nem
Bolsonaro, nem PT ou direita. E isso faz com que uma parte dos eleitores não
vote. É uma posição respeitável, é instinto: se é um ou outro, eu anulo. Então
acho que esse cenário de repetição dificulta sim, é uma espécie de terceiro
turno de 2022.
Mas eu
percebo, pelo menos até agora, que tem um clima diferente. Parece que houve um
cansaço, não só com os candidatos, mas de falar de política. Exauriu o Brasil.
Pela minha experiência, e eu tento não ficar muito enviesado com a minha
experiência, por isso tenho conversado com muita gente que faz pesquisa
qualitativa Brasil afora, militantes, quem faz campanha, é que tem alguma coisa
diferente nessa eleição, e não é só na conversa e interesse para a
presidencial.
A
presença de propaganda na rua demorou, está começando agora, mas está
acontecendo num momento muito mais tardio comparado com eleições anteriores.
Acho que talvez aquele ciclo de uma década, digamos assim, do começo dos anos
10 até começo dos anos 20, a gente tenha tido uma década de hipermobilização
política. A explosão das redes sociais possibilitou essa comunicação fácil
entre as pessoas, e pode estar havendo um recuo. Este ano, as pessoas estão num
grau inferior de conversa, ou até em silêncio. Ninguém está falando de
política, o que é estranho.
• Em 2022, a gente teve uma redução no
número de votos nulos e brancos. As pesquisas mostram que, este ano, esse grupo
está em cerca de 7%, junto com aqueles que já disseram que não vão votar para
presidente. Existe uma diferença entre esse eleitor que decide não ir votar e o
que vai, mas vota em nulo ou branco?
Nicolau
- Do ponto de vista de pesquisa, eu desconheço. O fato é que, por muito tempo,
como a taxa de votos nulos e brancos no Brasil era muito alta, a gente
especulava que isso era uma espécie de resposta ao voto obrigatório. Se eu sou
obrigado a votar, mas eu não tenho interesse em política, eu não quero ir
votar, eu vou lá e anulo o voto.
Muita
gente diz que, se nós não tivéssemos o voto obrigatório, talvez nós tivéssemos
um número de votos brancos e nulos menor. Essa foi uma teoria vigente há muito
tempo. Mas, na última eleição, caiu muito o número de votos nulos e brancos
para presidente. Será que caiu porque as pessoas estavam mais satisfeitas com a
política? Não é o que me parece.
• Pensando nesse mercado eleitoral, a
gente tem, entre os candidatos, o Augusto Cury, que ascendeu após o primeiro
debate eleitoral e que hoje aparece em terceiro lugar nas pesquisas. Como o
senhor avalia esse movimento e o que isso revela sobre o eleitor em 2026?
Nicolau-
O Cury ocupa um espaço de um eleitor menos politizado, que não vê nas duas
opções [Lula e Flávio Bolsonaro] algo, digamos assim, muito animador. E não tem
nessa eleição candidato dos partidos tradicionais ocupando esse lugar — o PSD
optou por um candidato muito à direita; o Novo, um candidato muito à direita; o
Renan Santos, que é uma novidade também por ser jovem, mas que também assumiu
uma pauta muito à direita. Ou seja, ninguém se moveu para o centro.
Então o
Cury acaba sendo quase a última possibilidade de alguém moderado, centrista,
que foge da polarização, ou que não tem um discurso radical à direita como os
outros, que não fala de políticas duras. Mas não acho que ele tenha muito
espaço mais para se apresentar para o Brasil e crescer. O tempo de TV dele em
horário eleitoral é quase nada, ele ainda é desconhecido de grande parte dos
eleitores, e a gente não está tendo tantos debates entre os candidatos nesta
eleição. O espaço dele fica nas redes sociais, e acho que ele atingiu o teto do
público atingível para o tipo de perfil que ele tem para prosperar.
Para
mim, ele seria um fenômeno se chegar ali próximo de 10% dos votos válidos. Ele
se tornaria ali a figura central do segundo turno e sinalizaria para uma parte
dos partidos tradicionais, que tem um mercado no Brasil não preenchido por
pessoas que estão cansadas de PT e PL, direita e esquerda. Vamos ver até onde
vai.
• O mês de setembro tem sido tomado pela
crise no STF e, como o senhor mesmo mencionou, isso sequestrou o debate sobre
as eleições. Essa crise também pode influenciar no número de abstenções?
Nicolau
- A crise do STF pode ter piorado um pouco o interesse das pessoas na política,
aumentado a descrença, o ranço. Para mim, o pior que essa crise fez foi
reforçar essa ideia de descolamento de uma parte do Brasil da sua elite, e o
pensamento de muitas pessoas de que a elite política brasileira é toda igual.
Então, é plausível apostar no aumento da abstenção política, essa que a gente
sabe que é pequena, mas ela pode se alargar. Talvez a gente tenha a maior taxa
de abstenção nas eleições gerais de 2002 para cá.
Apostaria
que a crise no STF ajuda num certo enfado. Foram 15 dias, talvez até mais, em
que o país só conversou sobre isso. Uma campanha eleitoral que já é curta, de
50 dias, em um terço dela, a atenção das pessoas foi consumida para olhar para
isso, para dez ministros e deixar de pensar em questões de política pública.
Então, assim, independentemente do efeito sobre a decisão do eleitor, ela teve
um efeito sobre a campanha, atrapalhou muito. Ficamos numa espécie de não
campanha, talvez a maior não campanha da história das eleições presidenciais
desde a redemocratização. Não houve campanha. Primeiro porque as pessoas não se
interessavam, depois porque entrou o Supremo e, terceiro, que o tempo ficou
curto. Enfim, é uma eleição muito pobre.
• Um aumento da abstenção pode prejudicar
mais um candidato do que outro?
Nicolau
- Há um lado dizendo que é a direita a mais prejudicada, e um outro lado,
dizendo que é a esquerda. A direita, porque as mulheres comparecem mais, então
o comparecimento feminino favorece o Lula. Mulheres vão votar numa taxa bem
maior, sobretudo as mulheres de média para alta escolaridade. Por outro lado,
as pessoas de baixa escolaridade comparecem menos para votar. Isso prejudica o
Lula.
Isso a
gente só vai saber, a geografia da abstenção, se pega a grande cidade, se pega
redutos do Lula depois da eleição, mas previamente não tem ninguém que eu
poderia cravar que a abstenção vai prejudicar ou favorecer. Os candidatos estão
trabalhando para levar os seus nichos eleitorais para as urnas, eles são
inteligentes, os estrategistas estão mirando nesses grupos.
• As pesquisas de intenção de voto mostram
que esta pode ser uma eleição bem apertada, com Flávio e Lula alternando aí na
liderança do segundo turno. Nesse cenário, um aumento da abstenção pode ser
decisivo?
Nicolau
- Não diria que decisiva. Se ela for igual, o mesmo padrão, se ela não inclinar
para um dos lados... Se crescer entre os pobres e crescer entre as mulheres, um
anula o outro. O que afeta o candidato é se a abstenção no Nordeste for
altíssima, se a abstenção em São Gonçalo for altíssima. Se, por alguma razão,
os eleitores de média escolaridade não forem — isso afeta grupos em detrimento
de outros.
Mas a
gente não sabe previamente onde estão esses segmentos. Eu não diria que a
abstenção é decisiva porque eu não sei como ela vai se concentrar. Ela vai ser
certamente um sinal que os eleitores mandam lá para Brasília de "Chega,
estamos cansados". Ou não. Pode ser que, de última hora, os eleitores vão
lá e votem. Mas a minha intuição é que a abstenção deve subir.
• E é possível reduzir a abstenção dos
eleitores?
Nicolau
- Não vejo como. As campanhas já foram feitas, campanhas cívicas, do TSE, dos
partidos. O que eu acho que a gente tem que aprender é que, em todas as
democracias, há um contingente de pessoas que não gostam de política, que não
querem participar, que não têm interesse em acompanhar a política, e isso se
traduz, nos países que têm voto facultativo, nas pessoas que ficam em casa
porque acham que política não faz diferença para a vida delas. Isso é muito
grande em muitos países, como Estados Unidos, Inglaterra. Agora, no Brasil, a
gente não sabe o tamanho desse contingente porque nós obrigamos as pessoas a se
registrarem para votar, porque nós usamos o voto compulsório.
Sempre
vamos ter, seja com voto compulsório, seja com voto facultativo, um contingente
de pessoas que não quer participar. Isso não significa que os partidos, que os
órgãos de comunicação, que as escolas não devam incentivar e estimular as
pessoas a acompanharem política e a votar, mas a participação plena, a
participação maior do que a gente tem hoje, eu acho difícil.
Inclusive,
o Brasil tem uma das taxas de comparecimento mais altas no mundo. Se oito de
cada dez inscritos forem votar, isso já é bastante comparado a outros países.
Então, eu não tenho muita ilusão de que a gente vá mudar isso. Pelo contrário,
acho que a tendência é que, à medida que os eleitores vão percebendo que o voto
facultativo está se impondo na prática no Brasil, eles fiquem em casa.
Fonte:
BBC News Brasil

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