Mineradora
dos EUA que explora terras raras no Brasil vê eleições como ‘risco’
UM DIA
ANTES de o presidente Lula sancionar na semana passada a Política Nacional de
Minerais Críticos e Estratégicos, a empresa norte-americana que assumiu o
controle da Serra Verde — única produtora comercial de terras raras do Brasil —
incluiu as eleições deste ano e as novas regras para minerais críticos entre os
fatores que podem prejudicar seus negócios no país.
As
preocupações da USA Rare Earth constam de um documento de 43 páginas
apresentado em 15 de setembro à SEC, órgão que regula o mercado de capitais dos
Estados Unidos. No relatório, a empresa —
que tem o governo norte-americano como sócio minoritário — detalha aos
investidores os riscos decorrentes da incorporação da Serra Verde, operadora da
mina Pela Ema, em Minaçu, norte de Goiás.
A
companhia concluiu a aquisição da Serra Verde em 3 de setembro, em operação que
envolveu o pagamento de US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão) e a emissão de 126,8
milhões de ações da USA Rare Earth.
A
companhia apresenta a Serra Verde como a única produtora fora da Ásia, em
escala relevante, dos quatro elementos de terras raras magnéticas — neodímio,
praseodímio, térbio e disprósio — usados em motores elétricos, turbinas e
equipamentos militares, entre outras aplicações.
No
documento aos investidores, a empresa diz que a aquisição a expõe a “riscos
políticos, econômicos, regulatórios, tributários, cambiais e outros”
relacionados às operações no Brasil.
Entre
eles, a USA Rare Earth menciona o processo eleitoral brasileiro.
“Como
resultado da conclusão da aquisição da Serra Verde, estamos sujeitos a uma
série de riscos inerentes à operação internacional, incluindo […] instabilidade
e perturbações políticas, sociais e econômicas no Brasil e em outras regiões
aplicáveis, inclusive em relação às eleições brasileiras e mudanças de governo
ou de prioridades legislativas.”
A
análise da USA Rare Earth não detalha quais resultados eleitorais, governos ou
eventuais mudanças políticas são mais arriscados para a operação.
Com a
segunda maior reserva mundial de terras raras, o Brasil ganhou importância na
disputa global por esses elementos e passou a atrair o interesse de empresas e
governos estrangeiros. Levantamento da Repórter Brasil em parceria com a
Associated Press revelou que 42% dos requerimentos de terras raras no Brasil
estão sob controle de empresas estrangeiras, principalmente da Austrália e dos
Estados Unidos.
O
avanço ocorre em meio à guerra comercial entre China e Estados Unidos. Em 2025,
Pequim impôs restrições à exportação de terras raras e produtos derivados, em
retaliação às tarifas impostas pelo governo de Donald Trump. Um acordo entre os
dois países suspendeu parte das medidas por um ano, com validade até novembro.
Nesse
período, os Estados Unidos têm feito investimentos públicos para auxiliar
empresas norte-americanas a comprar minas de terras raras e fábricas de ligas
metálicas e ímãs permanentes, a fim de reduzir a dependência da China, que
concentra a maior parte da cadeia produtiva.
<><>
Conselho de minerais críticos vai monitorar investimentos estrangeiros
Um dos
pontos de preocupação da USA Rare Earth, segundo o comunicado aos investidores,
é a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada em 16 de
setembro por Lula, mas que ainda carece de regulamentação.
A nova
legislação determina que as atividades do setor estejam “subordinadas” aos
princípios da “soberania nacional” e da “supremacia do interesse público”.
Também criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e
Estratégicos, ligado à Presidência da República. Entre suas atribuições está a
homologação de possíveis mudanças no controle societário de empresas, como
aconteceu com a Serra Verde.
A nova
legislação não proíbe a presença de empresas estrangeiras no setor, mas
institui instrumentos para que o governo analise mudanças de controle,
participação estrangeira e contratos internacionais envolvendo minerais
estratégicos.
A lei
obriga as empresas a aplicar anualmente uma parcela de sua receita no setor.
Nos primeiros seis anos após a regulamentação, ao menos 0,3% deverão ir para
pesquisa, desenvolvimento e inovação e 0,2%, para o Fundo Garantidor da
Atividade Mineral. Depois desse período, o percentual mínimo destinado à
pesquisa e inovação será de 0,5%.
Criado
para oferecer garantias a empreendimentos, o fundo poderá receber até R$ 2
bilhões da União.
Durante
a abertura da Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) nesta
terça-feira (22), o presidente Lula destacou o assunto e defendeu que a
exploração esteja associada à industrialização do país. “O acesso a nossos
minerais terá como contrapartida obrigatória a geração de valor em nosso
território, a transferência de tecnologia e o suprimento de setores
estratégicos nacionais.”
No
relatório apresentado à SEC na semana passada, a USA Rare Earth apontou as
novas regras como um fator de risco.
“Se
promulgada, essa lei e seus regulamentos, que ainda não foram finalizados,
poderão impor novas exigências à nossa subsidiária brasileira e às suas
operações de mineração, que podem incluir restrições aos nossos negócios,
obrigações de divulgação e contribuições obrigatórias para um fundo setorial
apoiado pelo governo.”
A
Repórter Brasil questionou a Serra Verde sobre o documento e a respeito de
quais pontos da nova lei causam mais preocupação, mas não houve retorno até o
momento.
<><>
Possíveis interferência do governo também aparecem entre riscos
A USA
Rare Earth também apresenta possíveis intervenções do governo brasileiro na
economia como risco à operação. “Intervenções pelo governo brasileiro na
economia local podem ter um efeito adverso relevante sobre nossos negócios”,
diz o relatório.
“O
governo brasileiro tem, de tempos em tempos, intervindo na economia brasileira
por meio de mudanças nas políticas monetária, tributária, de crédito e
tarifária para influenciar os rumos da economia brasileira”, continua o
documento.
Entre
os exemplos listados pela USA Rare Earth estão congelamento de preços e
salários, políticas de câmbio, controles de capital e restrições às
importações.
O
relatório afirma que a legislação brasileira permite ao governo impor
restrições à remessa de capitais para investidores estrangeiros, “em situações
de grave desequilíbrio no balanço de pagamentos”.
Contudo,
a própria empresa ressalta que “não existem atualmente restrições desse tipo”.
A USA
Rare Earth também listou riscos relacionados à legislação trabalhista
brasileira. Segundo a companhia, a operação da Serra Verde pode ser afetada por
ações judiciais ou administrativas movidas por funcionários ou órgãos
governamentais.
“Historicamente,
os tribunais trabalhistas brasileiros tendem a favorecer os funcionários, o que
serve de incentivo para que funcionários demitidos ajuízem ações na Justiça do
Trabalho.”
<><>
Venda da Serra Verde é alvo de questionamentos
A
compra da Serra Verde pela USA Rare Earth foi diretamente financiada pelo
governo dos Estados Unidos. Em janeiro, o Departamento de Comércio anunciou
aporte de 1,6 bilhão de dólares à USA Rare Earth, em acordo que previa a
participação acionária do governo na empresa.
Já em
fevereiro, o governo Trump anunciou financiamento de 565 milhões de dólares
para a Serra Verde, por meio do DFC (banco de desenvolvimento dos EUA). O
acordo incluía uma opção para que o governo norte-americano adquirisse
participação minoritária na operação.
O
negócio foi fechado rapidamente. Em abril, a USA Rare Earth anunciou a compra
da Serra Verde por cerca de 2,8 bilhões de dólares (em torno de R$ 14 bilhões),
dos quais 300 milhões de dólares em dinheiro e o restante com a emissão de
126,8 milhões de ações aos acionistas anteriores — um consórcio internacional
de fundo de investimento. A operação foi selada no início do mês.
A Serra
Verde já tem um contrato de longo prazo que prevê destinar 100% da produção dos
quatro elementos magnéticos da mina Pela Ema a uma empresa de propósito
específico capitalizada pelo governo dos Estados Unidos e por investidores
privados.
O
objetivo da USA Rare Earth é controlar toda a cadeia produtiva — da mineração à
fabricação de metais e ímãs —, na qual a Serra Verde responderá pela fase
inicial, o fornecimento de matéria-prima. Outras companhias da Europa e dos
Estados Unidos também foram adquiridas para atuarem nas etapas mais complexas.
Nos
últimos meses, o controle estrangeiro da Serra Verde provocou questionamentos
no STF (Supremo Tribunal Federal), no Congresso e em órgãos reguladores.
Em
abril, a Rede Sustentabilidade entrou no Supremo com ação que questiona a venda
da mineradora. Para o partido, a operação pode “deslocar o poder de decisão
sobre a exploração de terras raras, recurso estratégico da União, para um grupo
estrangeiro, sem análise prévia e aprofundada do Estado sobre os impactos para
o interesse nacional”.
No
Congresso, parlamentares também cobraram explicações do Ministério de Minas e
Energia sobre o negócio e também a respeito de um memorando firmado entre Goiás
e o Departamento de Estado norte-americano sobre terras raras.
No
documento aos investidores, a USA Rare Earth cita essas movimentações políticas
e aponta o possível aumento da pressão política e regulatória sobre a operação.
“A
fusão da Serra Verde e nossas operações brasileiras podem estar sujeitas a
maior escrutínio por parte de partidos políticos, autoridades governamentais,
organizações não governamentais, grupos comunitários e outras partes
interessadas, inclusive por meio de litígios, iniciativas legislativas ou
regulatórias ou outras ações relacionadas ao controle estrangeiro de ativos
minerais estratégicos brasileiros.”
Segundo
a companhia, essas ações podem gerar “exigências de conformidade adicionais ou
mais onerosas, aumento das despesas jurídicas e administrativas, danos à
reputação e outros desafios operacionais.”
<><>
Negócio depende de boa e relações com a
comunidade
A USA
Rare Earth cita ainda a dificuldade em contratar e manter funcionários de alta
qualificação e afirma que a continuidade da mina Pela Ema depende da manutenção
de relações positivas com moradores de Minaçu e dos municípios vizinhos. A
empresa coloca protestos, conflitos sociais e disputas fundiárias entre os
fatores capazes de interromper a produção.
“Os
riscos associados às relações comunitárias incluem protestos, distúrbios,
greves, perda de apoio da comunidade, ações judiciais, interrupções
operacionais, atrasos nos projetos e necessidade de indenização por danos.”
O
documento cita também riscos relacionados a disputas pelo uso da terra e
impactos ambientais não previstos.
“A
presença de um grande número de empregados nas áreas locais, combinada com um
influxo de pessoas à procura de trabalho e expectativas de benefícios
econômicos e sociais, poderia afetar negativamente a saúde, a paz social e a
coesão das comunidades vizinhas, potencialmente levando a conflitos sociais e à
perda da licença social para operar.”
Fonte:
Repórter Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário