Qual
é o verdadeiro custo de não ter tarifa zero no Brasil?
O tema
da tarifa zero no transporte público conquista cada vez mais evidência no
debate público brasileiro, ao ponto de chegar nas rodas de conversa do mercado
financeiro e nas manchetes dos grandes veículos de comunicação. Nesses espaços,
dominados pela retórica fiscalista, as perguntas sempre são as mesmas quando se
trata de políticas que beneficiam os estratos mais pobres da população: “Qual é
o custo da tarifa zero para o Brasil?” e “Quem vai pagar a conta?”.
Via de
regra, esses discursos se concentram sempre no impacto fiscal que tal política
acarretaria. O problema das discussões orientadas por este argumento é que elas
se baseiam em cálculos que enxergam apenas a despesa primária do orçamento
público, e tratam qualquer política social como um peso intolerável sobre o
orçamento público, que, nessa visão, teria outras prioridades. O pagamento de
juros e as isenções para setores pouco produtivos são apenas algumas delas.
Esquece-se, contudo, de fazer a pergunta que realmente importa: qual é o custo
social, econômico e humano de não termos mobilidade pública gratuita e
universal em um país com níveis elevados de desigualdade, pobreza e
precariedade urbana como Brasil?
A
resposta curta é que a austeridade fiscal a qual a sociedade brasileira está
submetida sai infinitamente mais cara, em várias dimensões. Quando
transformamos o transporte público em mercadoria regulada pela tarifa – um
modelo de financiamento comprovadamente ultrapassado que estimula a
precarização do serviço – o país como um todo paga a conta. Isso em um contexto
no qual o setor de transporte coletivo no Brasil vive um estágio
particularmente grave de uma crise estrutural agravada com pandemia. Considerando
a última década, as maiores cidades do país perderam ao todo cerca de 30% dos
seus passageiros.
Resultados
do último Censo do IBGE mostram ainda que mais da metade dos municípios das
principais regiões metropolitanas do país já têm o automóvel ou a moto como
principais meios de transporte. Nessas regiões, são mais de 9 milhões de
pessoas que utilizam modos individuais para se deslocarem diariamente para o
local de trabalho, contra pouco mais de 8,7 milhões que utilizam ônibus. Em São
Paulo, maior e mais importante metrópole do país, o transporte motorizado
individual (carros e motos) superou pela primeira vez na história o uso de
ônibus, trens e metrôs.
Nesse
cenário, com uma tarifa cara e um serviço crescentemente ruim e precarizado, a
população acaba sendo empurrada para a informalidade ou para a aquisição
desesperada de motocicletas e carros velhos, o que amplia o endividamento das
famílias e produz resultados trágicos do ponto de vista da saúde pública e da
economia nacional, resumidos em números inéditos e assustadores em relação à
violência no trânsito.
Segundo
dados Observatório Nacional de Segurança Viária, em 73% dos municípios
brasileiros, o trânsito já mata mais do que armas de fogo. Vivemos uma
verdadeira tragédia urbana relacionada, principalmente, ao aumento no uso de
motos. No país com um todo, a frota desse tipo de veículo cresceu quase 8%
apenas entre 2023 e 2025, tornando-se o meio de deslocamento preponderante nas
regiões Norte e Nordeste. Em 2024, estimativas apontam que internações
envolvendo vítimas em ocorrências com motos custaram ao Sistema único de Saúde
(SUS) mais de R$ 257 milhões, sendo que o tratamento de um único paciente pode
custar até R$ 60 mil por mês. Para agravar a situação, devido a profundas
mudanças e reconfigurações no mundo do trabalho, cada vez mais jovens (em sua
maioria negros e periféricos) têm utilizado a moto como instrumento de trabalho
e como único meio de sustento para suas famílias, frente à falta de opções
satisfatórias no mercado formal.
Estudo
publicado pelo Centro de Liderança Pública, também em 2024, estimou que o
Brasil perde cerca de R$ 21 bilhões por ano com sinistros e ocorrências de
trânsito, o que significa que, em uma década, o custo total seria superior a R$
200 bilhões. Por sua vez, estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
(IPEA) mostraram que o impacto econômico de mortos e feridos no trânsito
alcança uma média estarrecedora de R$ 136 bilhões por ano, valor que equivale
praticamente à metade do orçamento atual do Ministério da Saúde. Nesse contexto
a pergunta que deve ser feita é: por qual razão estes valores são simplesmente
esquecidos quando debatemos o custo de uma política como a tarifa zero?
Em
suma, a ausência de mobilidade universal e o abandono crescente do transporte
público destrói vidas, satura o SUS e degrada a produtividade da economia
nacional, tornando os congestionamentos e os acidentes fatais algo rotineiro no
cotidiano da vida urbana brasileira. É inquestionável que a precarização do
transporte público combinada à expansão desenfreada do transporte individual
gera perdas significativas para o país. É, ao mesmo tempo, inevitável a
conclusão de que o que de fato custa caro para o Brasil não é implementar uma
política de tarifa zero em âmbito nacional, mas sim continuar apostando no
atual modelo, centrado na perspectiva do transporte individual, com seus custos
econômicos, sociais e humanos.
Em
termos estritamente orçamentários, os dados mostram que a tarifa zero universal
é plenamente viável. O estudo Caminhos para a Tarifa Zero, publicado em outubro
de 2025, revelou que garantir transporte gratuito e de qualidade para 124
milhões de pessoas que vivem nas 706 cidades brasileiras com mais de 50 mil
habitantes custaria cerca de R$ 78 bilhões por ano. Esse cálculo já prevê um
acréscimo de 20% nos custos operacionais para expandir a oferta e absorver o
aumento inevitável da demanda.
Mas de
onde viria o dinheiro? Em geral, quando se argumenta em favor da tarifa zero, a
pergunta que surge é, sim, quem vai pagar a conta. Nesse quesito, vale lembrar
que a população trabalhadora já está pagando há muito tempo e, dado o
esgotamento do modelo tarifário, é preciso pensar em outras alternativas.
Segundo o modelo proposto pelo referido estudo, não seria necessário criar
novos impostos sobre o cidadão comum e nem mesmo onerar o Orçamento Geral da
União (OGU). Basta reformular o ultrapassado Vale-Transporte, inspirando-se no
modelo francês do Versement Mobilité. A criação da Contribuição para a
Disponibilização do Transporte Público (CTP), cobrada das empresas com mais de
nove funcionários (isentando 83% das micro e pequenas empresas do país), permitiria
arrecadar R$ 80 bilhões por ano.
Com
base nessa arrecadação, seria possível oferecer serviço gratuito no momento do
uso e retirar as catracas dos ônibus do sistema de transporte público. Essa
solução é orientada pela aplicação do conceito de financiamento indireto do
transporte público, que inspirou, por exemplo, um Projeto de Lei que visava
garantir gratuidade nos ônibus de Belo Horizonte, e que foi votado na Câmara
Municipal da cidade em outubro de 2025. Embora não tenha sido aprovado, a
cidade esteve prestes a se tornar a primeira capital – e cidade de grande porte
– a oferecer transporte coletivo gratuito para toda a população.
Além de
mostrar que há viabilidade real em termos de financiamento, o cenário eleitoral
é também um momento oportuno para lembrar eleitores e candidatos aos diversos
cargos, que os benefícios da tarifa zero sem catracas em muito supera seus
custos. Mais do que isso, trata-se de uma política capaz de promover a inclusão
social ao contribuir para remover ao mesmo tempo as barreiras econômicas,
sociais e geográficas que separam as pessoas das oportunidades de vida nas
cidades.
Pensar
a partir dessa dimensão é ainda mais relevante no contexto das metrópoles
brasileiras, onde a desigualdade de renda é acentuada e moradores de periferias
e favelas enfrentam dificuldades básicas para acessar a rede de transporte
público. É possível pensar uma realidade onde a eliminação dos custos diretos
das passagens permitiria que muitas pessoas que atualmente estão excluídas do
mercado de trabalho ou das oportunidades educacionais, culturais e recreativas
devido ao alto custo das passagens melhorem suas condições de acessibilidade,
garantindo que todos, independentemente de seus estratos socioeconômicos,
tenham acesso igualitário a direitos fundamentais.
Fonte:
Por Juciano Rodrigues e Thiago Trindade, em Le Monde

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