Interesses
difusos: o que querem Milei e Trump ao cooptar as Malvinas a seus discursos
políticos?
Com a
popularidade pressionada e as eleições se aproximando, Javier Milei endurece o
discurso sobre as Malvinas, uma das poucas causas capazes de produzir consenso
na Argentina. Para isso, conta com acenos do presidente dos EUA, Donald Trump,
que aparenta ter interesses difusos.
Após
uma virada histórica sobre a seleção inglesa na semifinal da Copa do Mundo de
futebol masculino, em julho deste ano, jogadores argentinos comemoraram a
classificação à final — que, em seguida, vieram a perder para a Espanha —
empunhando uma faixa com os seguintes dizeres: "As Malvinas são
argentinas".
Em
entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, Matheus de Oliveira,
professor de relações internacionais da Universidade Federal de Uberlândia
(UFU), explicou que a "disputa em torno da soberania das Malvinas é um dos
elementos mais importantes, talvez o mais central na formação da identidade
internacional da Argentina".
Quando
os jogadores se manifestaram dessa forma, o presidente argentino talvez não
tenha colocado o custo político doméstico em questão e afirmou que "a
política não deve se apropriar do futebol e da festa dos argentinos", em
um posicionamento contrário ao movimento dos atletas.
A
situação, entretanto, tomou outros rumos dois meses depois
dessa declaração. As motivações não vieram de dentro da própria Argentina, mas
de discursos proferidos dos EUA, mais especificamente do presidente
norte-americano. Em um gesto de retaliação ao governo britânico pela decisão de
não apoiar a guerra dos EUA no Irã, restringindo o uso de suas bases por tropas
de Washington, Trump sinalizou que poderia abandonar a neutralidade adotada
pelos EUA desde 1982.
Consequentemente,
Milei adota uma ofensiva diplomática que reacende um assunto que há mais de 30
anos não é tratado por viés militar. Desde a Constituição de 1994, foi
estabelecido que as Malvinas são causa perpétua e irrenunciável do Estado
argentino e que serão buscadas por meios exclusivamente pacíficos.
"Nos
últimos meses, a gente tem visto essa escalada alimentada pela retórica do
Trump, mais uma vez, tentando usar o apoio norte-americano ao Reino Unido nas
Malvinas como uma forma de pressionar o governo em Londres para fazer o que o
Trump quer", avalia Oliveira.
De
acordo com o especialista, a discussão em torno das Malvinas dificilmente
gerará oposição quanto à recuperação do arquipélago, mas algo efetivo feito
pelos Estados Unidos nessa situação é vista como difícil. "Tenho muita
dificuldade de ver isso além da bravata", pondera.
Conforme
explica, os Estados Unidos teriam dificuldades de explicar à própria opinião
pública e seus cidadãos um engajamento militar no Atlântico Sul por uma suposta
desobediência do governo britânico ao presidente Trump no que diz respeito ao
conflito iraniano.
Sobre
as declarações, "há uma carga simbólica importante, isso preenche o
noticiário, ocupa a nossa atenção, mas eu acho que muda pouco, do ponto de
vista da posição da Argentina, perante o Reino Unido em torno da questão das
ilhas", completa.
Na
avaliação de Juan Agulló, professor e pesquisador de economia, sociedade e
política da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), a reviravolta dada por
Milei
tem "um ponto de oportunismo", tanto que foi cobrado pela oposição.
Mas Trump também faz seu jogo ao dar declarações polêmicas para descobrir o que
pode ganhar. Nesse caso, segundo o analista, após a fala do líder
norte-americano, a posição britânica enfraquece. Com isso, ele pode aproveitar,
por exemplo, "a exploração de petróleo" ou a própria "posição
estratégica das Malvinas".
Ademais,
o especialista aponta que outros interesses dos Estados Unidos podem estar
indexados nesse contexto, como a Antártica — cuja as Malvinas são a porta de
entrada —, e o estreito de Magalhães, que permite a conexão entre Atlântico Sul
e o Pacífico.
É
importante ressaltar que Milei prometeu a construção de uma base naval na Terra
do Fogo, o que pode significar tropas norte-americanas no Atlântico Sul.
"Seria uma possibilidade lógica pela aliança que o Javier Milei está
tentando estabelecer", acrescenta.
Agulló
relembra que movimentos de presença militar norte-americana no continente vem
acontecendo recentemente, como o acordo assinado entre EUA e Colômbia, que
permite ações militares conjuntas e integra Bogotá ao "Escudo das
Américas",
além da construção de uma base militar de Washington em El Callao, no Peru.
"A
gente precisa considerar o contexto", destaca, incluindo neste mote o
enfraquecimento do Reino Unido enquanto potência mundial pós-Brexit. Nessa lógica, Trump
usa a posição assimétrica dos EUA em relação a Londres e Buenos Aires para
tentar obter algum ganho. Ao fim e ao cabo, conforme os analistas, o cenário
mostra um Trump articulista e agindo em prol dos interesses que considera
conveniente aos Estados Unidos.
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Milei na ONU
Durante
discurso na 81ª Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta
quarta-feira (23/09), o presidente da Argentina, Javier Milei, enfatizou a
questão das Ilhas Malvinas, reforçando uma mudança de posição do seu governo,
que passou a colocar a reivindicação de soberania sobre o arquipélago em
primeiro plano.
Segundo
o mandatário, as Malvinas “são uma causa nacional para nós”. Em seguida, pediu
ao governo do Reino Unido, que exerce atualmente o controle do território, que
retome as negociações sobre o conflito, para “uma solução pacífica, em linha
com o que estabelece o direito internacional”.
Por
outro lado, Milei criticou a ONU por ser “uma instituição que não consegue
fazer suas palavras se transformem em atos”, já que “os que não cumprem suas
decisões não recebem a menor represália”, e, por isso, “perde toda a sua
autoridade”.
O
presidente da Argentina disse que o próprio caso do conflito nas Malvivas seria
um exemplo do que chamou de “inércia da ONU”.
A
declaração de Milei em favor da soberania argentina sobre as Ilhas Malvinas
destoa da posição que o presidente manteve em seus primeiros anos de governo,
período em que evitou fazer críticas ao governo do Reino Unido, chegando a
ignorar o tema em discursos anteriores na Assembleia-Geral.
Durante
a Copa do Mundo, após a partida entre Argentina e
Inglaterra
pelas semifinais do torneio – vencida pelos sul-americanos pelo placar de 2×1
–, um grupo de jogadores exibiu uma faixa dizendo “As Malvinas são argentinas”,
gesto que foi criticado pelo mandatário, com a alegação de que “a política não
deve se apropriar do futebol e da festa dos argentinos”.
Na
declaração feita horas após a partida, Milei chamou de “miseráveis” os que se
expressam politicamente usando o futebol, embora evitando atribuir o comentário
aos jogadores. Dias depois, diante da repercussão negativa, afirmou que o gesto
dos atletas foi “válido e lícito”.
A
repercussão negativa também foi fruto de que a reprimenda aos jogadores
aconteceu durante a tramitação de um projeto governista
que previa facilitar a aquisição de terras por estrangeiros, que provocou fortes
protestos por grupos opositores – a proposta acabou sendo rechaçada no
Congresso, embora a Casa Rosada afirme estar trabalhando em um novo texto.
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Resposta do Reino Unido
Também
nesta quarta, o primeiro-ministro britânico Andy Burnham disse que seu país
estará “firme diante de qualquer ameaça” com respeito a questão das Malvinas.
“Nos
manteremos firmes contra qualquer ameaça ao Estado de Direito, não apenas da
Rússia, mas também de outros países, inclusive quando ameaçarem o direito dos
territórios britânicos de permanecerem britânicos, como é o caso das Ilhas
Malvinas”, acrescentou o premiê do Reino Unido.
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Argentina não planeja retomar Ilhas Malvinas por via militar, garante
presidente Javier Milei
Nas
últimas semanas, o líder argentino anunciou diversas medidas para reforçar a
defesa da soberania do país sobre a região, em resposta ao avanço do projeto de
exploração de petróleo Sea Lion, que estaria sendo conduzido sem autorização do
governo argentino. Já o Reino Unido voltou a reforçar a autoridade sob o
território.
A
Argentina não planeja usar métodos militares para retomar as
disputadas Ilhas Malvinas, afirmou nesta segunda-feira (21) o presidente do país,
Javier Milei. Anteriormente, Milei enviou ao Congresso um projeto de lei para
proteger a soberania sobre a região.
O
projeto prevê punições para aqueles que explorarem
ilegalmente os recursos naturais, a criação de incentivos para interromper
esse tipo de atividade e o fornecimento ao país de instrumentos para se
proteger de ameaças externas.
"Nenhuma
guerra. Nós não estamos falando de guerra de forma alguma. Estamos falando em
recuperar essas ilhas por meio da diplomacia", afirmou Milei em entrevista ao canal de TV francês
LCI, ao responder a uma pergunta sobre o tema.
O texto
enviado pelo governo argentino ao Congresso previu, ainda, o endurecimento das
sanções contra companhias não autorizadas do setor petroleiro que avançarem na
região. No documento, a Casa Rosada ressaltou que recuperar a
soberania argentina
sobre as Malvinas, como entende a Сonstituição do país, é um objetivo
irrenunciável do povo.
"O
Estado argentino tem a obrigação de utilizar todas as ferramentas diplomáticas,
econômicas, judiciais e legais disponíveis para defender nossa soberania e
nossos recursos", pontua.
Os
governos da Argentina e do Reino Unido mantêm uma antiga disputa pela soberania
sobre as ilhas no Atlântico Sul. Em 1982, os dois países entraram em guerra,
que durou várias semanas e terminou com a derrota de Buenos Aires.
Em
2013, foi realizado um referendo nas ilhas, no qual a esmagadora maioria dos
moradores votou pela manutenção do status de território
ultramarino britânico.
O governo argentino afirmou, na época, que o resultado do referendo não
afetaria as reivindicações territoriais da Argentina sobre as ilhas.
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Argentina enfrenta 'revisão crucial' do acordo alcançado
com FMI, diz analista
Uma
missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) chegou a Buenos Aires para a
terceira revisão do programa vigente com a Argentina, da qual depende um
desembolso de US$ 900 milhões (R$ 4,59 bilhões).
Representantes
do banco estão auditando a economia do governo do presidente Javier
Milei,
na terceira revisão do programa vigente. A delegação não contou com a presença
do ministro da Economia, Luis Caputo, que viajou a Nova York com Milei para a Assembleia Geral da
ONU.
O
empréstimo em revisão é um Acordo de Facilidades Estendidas de R$ 20 bilhões
(R$ 102 bilhões) aprovado pelo Diretório Executivo do FMI em abril de 2025.
Desde então, duas revisões sucessivas, em julho de 2025 e abril de 2026,
habilitaram desembolsos
adicionais
que elevaram a cerca de US$ 15 bilhões (R$ 76,5 bilhões) o montante já liberado
sobre o total acordado.
A
missão avalia o cumprimento das metas do programa com dados consolidados ao
fechamento do segundo trimestre do ano, com especial atenção em duas frentes: o
resultado fiscal e o nível de reservas internacionais do Banco Central.
Concluída a etapa técnica, a revisão deverá ser aprovada pelo Diretório
Executivo do organismo em Washington para que se concretize um novo desembolso
de 900 milhões (R$ 4,59 bilhões), cifra crucial para enfrentar vencimentos de
dívida com o próprio organismo.
O
Ministério da Economia já havia antecipado que descumpriria o compromisso do
superávit previsto para o ano: 1,3% do PIB que estima fica abaixo do 1,4%
assumido na assinatura do entendimento.
A
situação inverte o padrão das duas revisões anteriores, nas quais a Argentina
cumpriu a meta fiscal, mas não a de acumulação de reservas. O governo confia
que o desvio fiscal seja aceito mediante uma dispensa, dado que o considera
limitado diante do objetivo original.
No fim
de setembro, a Argentina enfrenta um vencimento com o FMI de US$ 803 milhões.
Restam ainda US$ 840 milhões no início de novembro e US$ 344 milhões em
dezembro, compromissos que o Tesouro afirma poder cobrir.
A
revisão chega em paralelo ao debate no Congresso pelo Orçamento 2027, que
mantém como eixo central a mesma âncora fiscal que Washington audita. O projeto
prevê ajuste do gasto público de 26,7% diante do empenhado em 2023, quando o
governo assumiu.
Esse
ajuste sustentado tem correlação nos indicadores de consumo e renda. As
percepções privadas registradas acumulam queda real de 3,6% desde novembro de
2023, e o salário mínimo perdeu 40,8% de poder aquisitivo.
O consumo massivo fechou o primeiro
semestre com baixa acumulada de 2,9% no ano, segundo a consultoria Scentia,
após ter despencado 13,9% em 2024.
Enquanto
o FMI define se concede a dispensa fiscal, o Orçamento 2027 fixa o teto de
gasto que deverá administrar o próximo governo, com uma inflação oficial
projetada em 18% ao ano, um crescimento do PIB de 4% e um dólar sem
sobressaltos, apesar da incerteza própria dos anos eleitorais na Argentina.
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O aval de Washington
Em
entrevista à Sputnik, o economista Miguel Ponce avaliou que o desembolso não
deve sofrer obstáculos:
"Em
nenhuma das revisões anteriores todas as metas foram cumpridas, e nem sequer
mencionaram a questão de um 'perdão': não vejo que haja perigo de entraves ou
de crise no vínculo", disse ele. "O governo não deveria ter problema,
dadas as condições dos preços internacionais que favorecem países como o nosso,
e que alimentam expectativas favoráveis: estamos tendo recorde de preço da soja
e recorde de preço do milho."
Consultado
pela Sputnik, o economista Martín Pollera relativizou o peso político do
desembolso:
"O
Fundo Monetário está comprometido com este governo: houve sinais fortes de
Washington de acompanhar Javier Milei, e acredito que isso vai continuar [...].
Inclusive o próprio Fundo Monetário está colocando a lupa sobre o aumento da
inadimplência, do aumento da dívida. O Fundo o toma como sintoma de um modelo
que se esgota: quando as famílias contraem seus níveis de consumo, a produção
se reduz e as capacidades tributárias diminuem, e isso põe em risco o
equilíbrio fiscal", explicou.
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Os condicionamentos do Fundo
"Milei
quer falar com o dono do circo, em vez de escutar os animadores", resumiu
Ponce. "O governo quer se antecipar e falar sobre a possível necessidade
de dólares para trazer calma, e por isso busca uma nova cúpula com Trump e o
secretário do Tesouro Scott Bessent."
De
acordo com Ponce, o debate sobre o modelo está centrado no atraso cambial, e a
busca de que se acumulem reservas segue sendo uma reivindicação, "por isso
é fundamental mostrar maiores apoios nesse sentido", destacou.
Pollera
acrescentou outro condicionamento para o futuro, ligado ao cronograma da
dívida:
"Há
um cronograma de vencimentos onde no ano que vem, entre credores privados e o
Fundo Monetário, haverá que desembolsar cerca de 25 bilhões de dólares, e no
ano seguinte, em 2028, outros 25 bilhões; por isso o papel do FMI como respaldo
de última instância é crucial."
Fonte:
Sputnik Brasil

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