quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A remota ilha onde hackers se preparam para nos defender de uma guerra invisível

Harald Hauglin é um homem de estatura imponente, barba grisalha, óculos de armação fina e um sorriso travesso.

Quando o conheci, em setembro de 2024, ele carregava no bolso de seu colete de alta visibilidade, de uso obrigatório, um patch com a imagem de um coelho branco correndo com um relógio, como o de "Alice no País das Maravilhas".

Hauglin é o engenheiro-chefe de metrologia de tempo e frequência do Serviço de Metrologia da Noruega, ou seja, a entidade governamental responsável por garantir a precisão das medições no país.

Mas Hauglin também é conhecido como o "nerd da aurora boreal", um apelido que surgiu há dois anos, no evento Jammertest.

Organizado anualmente pelas autoridades norueguesas, o Jammertest é um festival de hacking ao ar livre realizado em uma ilha remota, 300 km ao norte do Círculo Polar Ártico.

Seu objetivo é simples, mas impressionante: usar sinais de satélite para alterar o próprio tempo e verificar se receptores de dispositivos tão diversos quanto relógios e drones conseguem resistir à pressão.

No centro desse experimento está uma tecnologia que sustenta grande parte do nosso mundo digital moderno: o sistema global de navegação por satélite (ou GNSS, na sigla em inglês).

<><> Marcando o tempo

Tendemos a pensar nas redes de satélites, como o GPS, principalmente como ferramentas de navegação.

No entanto, elas desempenham outra função igualmente importante: transmitem sinais de tempo de altíssima precisão.

As redes elétricas, as infraestruturas de telecomunicações, os mercados de ações, os serviços de transporte e muitos outros setores dependem da sincronização fornecida pelo GNSS.

Mas essa dependência das infraestruturas em relação ao GNSS também cria um "calcanhar de Aquiles".

Os sinais dos satélites são fracos e podem ser anulados ou sequestrados por outros sinais mais potentes e de natureza maliciosa.

Desde que a Rússia lançou sua invasão em larga escala da Ucrânia, esse tipo de interferência aumentou drasticamente.

Os efeitos mais evidentes foram observados na aviação.

Em maio deste ano, um avião da Real Força Aérea do Reino Unido sofreu interferência no sinal de GPS perto da fronteira russa.

Em setembro de 2025, a Agência de Transportes da Suécia afirmou que esse tipo de interferência havia se tornado algo cotidiano.

O governo da Noruega é agora um dos muitos que se preparam para um cenário em que o GNSS poderia se transformar em uma vulnerabilidade estratégica.

É possível, então, preparar-se para um ataque dirigido contra nossa própria percepção do tempo e do espaço?

Todos os anos, dezenas de engenheiros, físicos e funcionários públicos viajam para o Círculo Polar Ártico para descobrir.

<><> Jammertest, o maior teste

O cenário do Jammertest é o vilarejo de Bleik, em Andøya, uma ilha minúscula e remota que costuma ser usada para estudar a aurora boreal.

Esse lugar pitoresco lembra um acampamento de verão de engenharia. A impressionante paisagem ártica e o bufê diário de waffles contribuem para seu charme. No entanto, seu propósito é extremamente sério.

Quando visitei o Jammertest, o evento estava apenas em seu terceiro ano oficial, embora a ideia de testar receptores GNSS comerciais para observar sua reação a interferências intensas — ainda que artificiais — não seja nova.

Durante anos, o Exército dos EUA realizou testes no Campo de Mísseis de White Sands (Novo México) para analisar como os receptores respondem quando o GNSS é manipulado.

Mas esses testes são estritamente controlados, inclusive no que diz respeito aos dados que podem ser divulgados depois que acontecem.

A Noruega adota uma abordagem diferente: baseia o evento nas competições de hacking ético tão populares no setor de tecnologia, nas quais especialistas procuram vulnerabilidades na segurança da informática para melhorar o sistema.

Um aspecto fundamental é que esses testes são realizados abertamente, à vista de qualquer visitante de Andøya, e os participantes compartilham os resultados com outros presentes — tanto representantes do governo quanto do setor comercial — durante a última noite do evento.

Uma montagem mostrando, à esquerda, um helicóptero voando sobre um campo esportivo e, à direita, um patch com o logotipo do coelho correndo com o relógio na mão.

Durante os dias em que participei do Jammertest 2024, sentei-me ao lado de Hauglin no Centro Comunitário de Bleik, tentando não derramar café sobre o caro equipamento eletrônico enquanto ele e seus colegas lançavam ataques simulados.

A tarefa consistia em enviar informações falsas para receptores instalados em todo tipo de dispositivo, de aviões e carros a máquinas industriais, indicando onde eles estavam e, muitas vezes, em que momento.

Imagine da seguinte maneira: se eu estivesse lendo este artigo em Londres em setembro de 2026, a manipulação do GNSS forneceria informações falsas, indicando, por exemplo, que você está em Lima e que é setembro de 2017.

<><> As principais ameaças

Existem dois tipos principais de interferência no GNSS.

O primeiro é o jamming, que consiste em saturar os sinais até deixar o serviço inoperante.

O segundo é o spoofing, que envolve o sequestro das ondas de rádio para fornecer uma localização e um horário falsos a um receptor GNSS.

Os ataques mais perigosos ao GNSS ocorrem em duas circunstâncias.

O primeiro grande risco é o jamming prolongado, uma anulação total e sustentada do sinal GNSS, longa o suficiente para esgotar os sistemas de backup de tempo e, com isso, provocar uma cascata de problemas à medida que a sincronização digital que articula nosso mundo moderno começa a entrar em colapso.

O tempo que uma rede elétrica — ou qualquer sistema digital moderno — consegue permanecer sincronizada sem acesso ao GNSS depende de quanto dinheiro um governo ou uma empresa esteve disposto a investir na instalação da infraestrutura física que, de outra forma, seria desnecessária graças ao GNSS.

Em grande medida, essa infraestrutura consiste em uma combinação de relógios terrestres e cabos de fibra óptica para transmitir o sinal de tempo com extrema precisão.

O segundo cenário, ainda mais grave, é um ataque de spoofing sofisticado e de desenvolvimento lento que passa despercebido e não é contido. Consequentemente, impede que os sistemas de backup sejam ativados.

Trata-se, essencialmente, de um ataque furtivo baseado na manipulação do tempo, que poderia desestabilizar os sistemas digitais de uma só vez.

Ambos os tipos de ataque têm como alvo o sinal horário do GPS e envolvem níveis de manipulação ou interferência extremamente sofisticados e potentes, comparáveis aos ataques cibernéticos mais complexos.

Também são esses os tipos de ataques que Hauglin e o Serviço de Metrologia — juntamente com numerosas empresas que oferecem serviços de sincronização de tempo industrial — se reúnem em Andøya para testar.

O objetivo é analisar como os grandes sistemas digitais poderiam resistir no curto prazo após um ataque, segundo me disseram várias pessoas.

Por exemplo, determinando quanto tempo as redes elétricas e as redes móveis têm antes que a situação comece a falhar gravemente.

<><> Enganando o tempo e o espaço

Durante a primeira tarde do Jammertest 2024, foram realizados dois voos de teste: um com um helicóptero de resgate norueguês e outro com um avião de pequeno porte pilotado por um integrante da Eurocontrol, o organismo europeu de segurança aérea.

Pude ver como a manipulação dos sinais GNSS fornecia informações falsas aos receptores das duas aeronaves, gerando trajetórias que não correspondiam à rota real seguida pelos pilotos.

Mais tarde, o sistema mostrou como o avião de teste da Eurocontrol traçava no céu figuras estranhas, repletas de curvas bruscas e violentas.

Mas, na realidade, a aeronave descrevia círculos amplos e elegantes sobre a localidade.

Na manhã seguinte, vi Hauglin realizar uma interferência mais sofisticada.

Durante 40 minutos, ele e seus colegas aumentaram gradualmente a potência do equipamento de falsificação de sinal, reforçando o sinal-isca: o equivalente eletromagnético de saturar lentamente um sistema antes que ele detecte qualquer anomalia.

Como cozinhar um sapo em fogo baixo.

À medida que a transmissão da antena furtiva se intensificava, uma tela montada na parede acima de nós mostrava a região no Google Maps.

Pouco a pouco, o indicador que apontava nossa localização se deslocava de forma enganosa em direção ao mar da Noruega.

<><> O tempo como arma

O impacto nos relógios era difícil de perceber sem equipamentos complexos.

Para acompanhar o "deslocamento" causado pelas interferências (a maneira como um relógio sincronizado por GNSS pode se afastar gradualmente do horário real), era necessário comparar o horário do GPS com uma referência temporal ininterrupta.

Essa referência chegava por meio de cabos de fibra óptica estendidos até um receptor GNSS localizado do outro lado de uma montanha, onde estava protegido contra interferências.

Olhei por cima do ombro de Hauglin enquanto ele me mostrava um gráfico que registrava o desvio do relógio manipulado em relação ao horário de referência, tudo medido em nanossegundos.

Como disse Hauglin, o problema é que tendemos a dar o tempo como algo garantido e certamente não gostamos de pensar nele como uma arma.

<><> É possível impedir os ataques hackers?

Novas opções são constantemente propostas ou desenvolvidas para substituir ou reforçar os sistemas GNSS.

Lembra do coelho na camiseta de Hauglin? Além de ser uma referência ao personagem de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, ele também representa o White Rabbit (Coelho Branco), um sistema de sincronização de precisão desenvolvido no CERN (Suíça), capaz de fornecer uma precisão temporal inferior a um nanossegundo.

Esse e outros sistemas de sincronização costumam substituir a dependência dos satélites por cabos de fibra óptica e relógios atômicos de referência.

Além disso, são muito mais difíceis de hackear.

No entanto, quase todas as pessoas com quem conversei concordam que não existe um único sistema alternativo capaz de igualar todos os serviços oferecidos atualmente pelos sistemas GNSS.

"Não existe uma solução mágica. Por isso, é necessária uma combinação de sistemas", afirma Dana Goward, que, como cofundador da Resilient Timing and Navigation Foundation, defende desde 2013 políticas de proteção do GPS.

Em 2024, Goward me disse que, em sua opinião, o spoofing só vai piorar ("é barato e fácil", disse) e que um dos maiores riscos poderia vir dos próprios sistemas GNSS.

Em junho de 2026, esses temores se concretizaram quando um grupo de especialistas alertou que satélites russos haviam emitido interferências a partir do espaço, perturbando os sinais de GPS em toda a Europa durante breves períodos.

No passado, as interferências nos sistemas GNSS ficavam limitadas a uma região ou a uma área de fronteira, já que os sinais de rádio provenientes da Terra têm alcance limitado.

Agora, como as interferências também vêm de cima, nenhum lugar nem nada estará fora de seu alcance.

Como grande parte do evento Jammertest para os escandinavos consistia, implicitamente, em se preparar para o risco de algum tipo de ataque por parte da Rússia, achei um tanto curioso que a edição de 2024 tenha sido realizada de forma tão aberta.

O nível de segurança e a presença dos serviços de inteligência noruegueses foram discretos.

No entanto, essa abertura também faz parte de seu propósito.

"Isso também se trata de demonstrar que eles estão se tornando mais resilientes e enfrentando a situação?", perguntei a Tomas Levin, engenheiro sênior da administração rodoviária e um dos organizadores do Jammertest.

"É claro", respondeu. "Então, venha, Rússia, pode vir."

¨      Agenda da China para a ONU será sobre paz, desenvolvimento e equidade tecnológica, diz mídia

Com o início da sessão anual da Assembleia Geral da ONU, a mídia asiática argumenta que o fórum deveria ouvir as demandas prioritárias das nações do Sul Global, em vez de servir como uma plataforma dominada por potências ocidentais.

De acordo com um artigo do Global Times, o tratamento dado às delegações na sede da ONU em Nova York reflete desigualdades estruturais. O jornal critica as restrições impostas a certos países e cita a exclusão de representantes palestinos em comparação com a admissão de Israel, o que, em sua visão, demonstra como as regras internacionais são aplicadas de forma tendenciosa para favorecer o Norte Global e seus aliados.

O jornal chinês enfatiza que a demanda mais urgente que a comunidade internacional deve atender é um cessar-fogo imediato na Faixa de Gaza, denunciando a grave crise humanitária sofrida pelos civis palestinos. Nesse contexto, o artigo reitera que a posição de Pequim exige o fim do bloqueio, o acesso à ajuda humanitária e a implementação efetiva de uma solução de dois Estados como o único caminho para uma paz duradoura.

Em relação à agenda climática, a publicação argumenta que os países mais ricos devem cumprir seus compromissos de financiamento com as nações em desenvolvimento, destacando os esforços da China na transição energética e no reflorestamento, e posicionando o gigante asiático como um parceiro disposto a compartilhar tecnologia limpa para enfrentar conjuntamente a crise climática.

Além disso, o Global Times argumenta que o Sul Global, apesar de representar a maioria da população mundial e do crescimento econômico atual, permanece sub-representado em importantes organizações multilaterais, como o Conselho de Segurança da ONU (CSNU), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Nesse sentido, a publicação denuncia a politização do comércio e a instrumentalização do sistema financeiro, defendendo, em vez disso, cadeias de suprimentos estáveis e acesso equitativo aos mercados.

Na área de tecnologia, o artigo alerta para o risco de a inteligência artificial (IA) exacerbar as desigualdades globais, caso sua regulamentação e desenvolvimento sejam monopolizados por um pequeno grupo de corporações e países ocidentais. A esse respeito, a publicação observa que Pequim promove o princípio da "IA para o bem de todos", por meio de iniciativas de código aberto e programas de treinamento para evitar a marginalização das nações em desenvolvimento.

Por fim, a mídia resume a posição internacional da China em três pilares fundamentais — paz por meio do diálogo, promoção do desenvolvimento com foco na Agenda 2030 e equidade na governança global — acrescentando que reformar a ordem internacional não implica destruir as instituições existentes, mas sim expandir o espaço multilateral para garantir que o crescimento econômico e tecnológico beneficie todos os Estados.

 

Fonte: BBC Future/Sputnik Brasil

 

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