'STF
está em ponto de não retorno', diz pesquisadora sobre crise de credibilidade da
Corte
Os
acontecimentos envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) foram destaques de
notícias nos últimos dias, dentro e fora do Brasil. A sessão extraordinária da
Corte, realizada na última terça-feira (15), deveria definir os rumos da
investigação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes no caso Banco Master,
mas terminou com um pedido de vista, com prazo de até 90 dias para a retomada.
Para
analisar o atual cenário e as perspectivas para o futuro da Corte, o Pauta
Pública desta semana recebe Eloísa Machado de Almeida, coordenadora do grupo de
pesquisa Supremo em Pauta e professora de direito da Fundação Getúlio Vargas.
Para
Eloísa, a crise chegou a um ponto em que não há saída rápida ou fácil para que
o órgão recupere sua capacidade de tomar decisões e volte a ser respeitado no
Brasil. “Essa crise já passou de um ponto de não retorno […] A fase que o
Supremo está é de contenção de danos. E qualquer cenário que se olhe daqui para
frente parece muito ruim”, afirma.
Almeida
também reforça a importância do jornalismo para esclarecer os acontecimentos
envolvendo os ministros, mas alerta para os impactos que a imprensa pode causar
na democracia quando adota interesses partidários, principalmente em ano
eleitoral.
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Leia os principais pontos da conversa
• Na última terça (15), a esperada sessão
do STF que decidiria se haveria investigação do ministro Alexandre de Moraes,
acabou suspensa após pedido de vista do ministro Flávio Dino. Qual seu balanço
sobre o que aconteceu nessa sessão e as possíveis consequências dessa nova
decisão e os caminhos que essa crise pode tomar?
Dada a
amplitude da crise no Supremo Tribunal Federal, que envolve vários ministros de
uma só vez, era esperado que um dos pontos centrais fosse o debate sobre quem
poderia votar e participar dessa sessão de julgamento. E ainda que a gente
tenha Flávio Dino e Alexandre de Moraes como ministros que se declararam ali
suspeitos para participar da sessão, me parece bastante inadequado Mendonça e
Moraes deliberarem sobre um caso que é diretamente de seus interesses.
Acredito
que teria sido melhor se a sessão tivesse dedicado um tempo para debater esse
caso em razão das mensagens envolverem vários dos ministros diretamente ou
indiretamente através dos seus familiares. Na minha avaliação, a sessão
aprofundou a crise no STF, mostrou que não estão claros os caminhos que o
tribunal vai adotar para lidar com essas denúncias – que envolvem supostos
crimes e impropriedades de seus ministros –, bem como a instrumentalização
política da investigação.
O que a
gente viu foi uma sessão sem uma capacidade de resolver o problema e até mesmo
de encaminhar quais seriam os próximos passos. E nós vimos um desgaste ali
muito grande entre os ministros. Nesse sentido, o pedido de vista do ministro
Flávio Dino me pareceu adequado, capaz de amenizar os ânimos e impedir que às
vésperas do período eleitoral a gente tenha qualquer utilização indevida dessas
informações.
• O tema dessa temporada do Pauta é
“diálogos para entender o que é real”. Eu acho que essa é uma boa pergunta
nesse momento do Brasil: o que é real no meio disso tudo? No que o ouvinte
precisa prestar mais atenção no meio da bagunça desse momento?
O fato
de ainda estarmos numa fase muito inicial de investigação traz essa sensação
também de que a gente tem documento sobre tudo, com essa dificuldade de
selecionar o que importa ou não importa.
Acho
que isso é bem o retrato do momento dessa investigação no Supremo Tribunal
Federal, porque é só com o avanço das investigações, é só com os relatórios
finais da Polícia Federal que vão promover indiciamentos e, eventualmente, com
o oferecimento de denúncias pelo Ministério Público, que a gente consegue
entender como é que essas esses documentos, essas mensagens, essas reuniões,
essas festas, se articulam, eventualmente, em alguma prática criminosa.
Que é o
que a gente chama de uma narrativa, né? De uma explicação, de uma historinha
que vai contar o que aconteceu em relação ao Banco Master, se houve ou não
participação de ministros e de outros poderosos, e como essas provas, às quais
a gente teve acesso, agora de maneira bastante ampla e desenfreada, vão servir
para corroborar essa história ou eventualmente para também derrubar algumas
impressões que têm sido feitas.
Então,
acho que a primeira coisa é: não é à toa que a gente está confuso. É porque
essa informação bruta raramente é revelada para todo mundo. O que vem à tona é
a maneira como os órgãos de acusação e de persecução penal, e de investigação,
constroem uma narrativa. E essa narrativa ainda não foi construída em razão de
um estágio muito inicial das investigações.
Então,
se eu puder dar um alerta aqui para as ouvintes e para os ouvintes, é de olhar
sempre com bastante desconfiança para essas informações que têm aparecido, não
por eventualmente elas terem algum tipo de viés, mas pelo fato de parte delas
estar sendo usada para corroborar uma narrativa quando a avaliação toda ainda
não foi feita.
• Quais são os caminhos para a Corte
retomar e ganhar a credibilidade da população como capaz de aplicar a lei com
base na constituição e não em preferências partidárias? Como a Corte vai sair
disso tudo?
Eu
tenho dito e escrito que essa crise já passou de um ponto de não retorno, que
não tem saída rápida, não tem saída fácil. Essa crise chegou, se instalou e
ainda vai piorar. Me parece que os danos serão profundos e alguns deles talvez
permanentes. E aí, nesse cenário, o que o tribunal pode fazer talvez seja
conter danos. Para dentro do tribunal, em relação à sua capacidade de tomar
decisões, de julgar, de ter sessões plenárias, de conseguir resolver os casos
que são relevantes que estão lá, mas também da porta para fora, de que sejam
decisões respeitadas e observadas pelos demais poderes.
A fase
que o Supremo está na minha avaliação é de contenção de danos. E qualquer
cenário que você olhar daqui para frente parece muito ruim. É, então, caso não
aconteça nada em relação à sessão e à investigação de ministros, isso será um
problema. Na hipótese de ser aberta uma investigação, isso também vai gerar um
dano, vai ser um problema, na hipótese de ministros serem afastados, alguns ou
todos, isso também vai gerar um problema.
Então
nesse ponto de não retorno, me parece que o Supremo vai ter um caminho muito
árduo para recuperar a sua capacidade de tomar decisões e de ser respeitado, e
que talvez ele não recupere isso tão logo e que talvez, inclusive, ele sofra
restrições e reformas vindas de outros poderes.
A minha
sensação, desculpa dizer, é bem pessimista. Eu acho que um tribunal mais
enfraquecido sai de tudo isso e não será bom ter um tribunal enfraquecido na
atual conjuntura brasileira com tantas promessas constitucionais ainda a serem
realizadas.
• Pixuleco e boneco eleitoral: Mendonça
foi quem buscou a humilhação sofrida no STF. Por Henrique Rodrigues
Analisar
a crise em que o Supremo Tribunal Federal se meteu após os movimentos
desastrados de André Mendonça não é um exercício de torcida política, mas de
diagnóstico institucional. O que se viu na sessão que chocou o país não foi um
mero entrevero regimental, tampouco uma divergência hermenêutica de alto nível
teórico. Foi a consumação de um desgaste anunciado: Mendonça foi quem buscou a
humilhação sofrida no STF.
Com um
comportamento que, desde sua indicação, revela uma inadequação flagrante ao
rito e à liturgia do cargo, o ministro apresentou uma atuação marcada por uma
submissão constrangedora aos interesses da família Bolsonaro. A manobra
perpetrada às vésperas do processo eleitoral teve um objetivo tão simplório
quanto límpido: instrumentalizar o peso da Corte para atacar Alexandre de
Moraes, buscando criar um desgaste artificial baseado em supostas conexões de
relações com o presidente Lula, e, com isso, empurrar uma boia salva-vidas à
candidatura de Flávio Bolsonaro.
O erro
de cálculo, contudo, foi absoluto. Mendonça agiu de forma liminarmente ilegal,
arrombou os limites do regimento interno do STF e optou por uma seletividade
grosseira. Ao mirar de maneira obsessiva um único colega e tentar blindar ou
poupar outros pares, como Kassio Nunes Marques, Dias Toffoli e Luiz Fux, o
ex-advogado-geral da União atropelou a prudência processual. O resultado foi um
tiro no pé de proporções históricas, uma conduta kamikaze que conseguiu o feito
de desagradar inclusive os setores mais conservadores e a própria ala aliada,
que viram o STF ser tragado para o olho do furacão.
A
jogada foi tão tosca na forma e infantil na concepção que acabou trazendo para
a vitrine os podres e as vulnerabilidades de quase todo o colegiado.
Desenterraram-se os fantasmas de Dias Toffoli, a quem Mendonça parecia proteger
há meses, expôs-se o desconforto velado de Fux e resgatou-se o nome de Kassio
no centro do escândalo do banco Master, arrastando para a superfície até
episódios da vida privada do magistrado que envolvem escândalos de foro íntimo,
sobre supostas situações envolvendo uma garota de programa. A evasão de uns e a
participação tímida de outros na sessão revelaram o tamanho do estrago: todos
se sentiram atingidos por uma manobra desprovida de estratégia que acabou,
inevitavelmente, expondo o próprio Mendonça.
Na
plenária, o espetáculo foi avassalador. Diante da investida contra a Polícia
Federal e contra a própria estrutura da Corte, o troco veio com peso
devastador. Quando o ministro Alexandre de Moraes interpelou a mesa com a
pergunta fatal “Quem tem medo da Polícia Federal?”, Mendonça tentou esboçar uma
reação atabalhoada, atalhando com um vacilante “Não é questão de medo, não”. A
resposta de Moraes veio como uma lâmina: “Eu não estou perguntando a vossa
excelência”.
A
partir dali, o que se assistiu foi o desmantelamento ao vivo de uma autoridade
judicial. Com uma oratória capenga e visível lentidão de raciocínio, Mendonça
postou-se como um adolescente apanhado em erro, tentando rebater em tom de
birra as broncas dos adultos da Casa. Gilmar Mendes, no papel de decano
intransigente, não poupou adjetivos nem conceitos para qualificar a aventura.
“Quem é
o vazador-geral da República? Interessante que nos nossos gabinetes não vaza
nada”, disparou Gilmar contra Mendonça, antes de ir ao núcleo da intenção
política do colega: “Evidente que se trata de um pixuleco, de um boneco
eleitoral”.
Gilmar
expôs a gravidade do viés seletivo que guiou a canetada de Mendonça,
denunciando o perigo de aparelhar a jurisdição a favor de um grupo politico:
“Não é admissível que de um conjunto de fatos se destaque em alguns para exame
e se relegue em outros ao silêncio, um jogo de Omertà, de máfia, como se a
gravidade na notícia variasse conforme o nome do magistrado a que se refere ou
conforme o tribunal que ele integra”, acusou enfurecido, arrematando que “as
pessoas estão submetidas, submissas, entregues a esse tipo de vilipêndio”.
A
tentativa de Mendonça de atropelar instituições de Estado e afastar dirigentes
para criar um clima de comoção eleitoral foi dissecada por Gilmar com ironia
impiedosa: “Qualquer cidadão que tenha um mínimo de noção do que significa a
Polícia Federal, que é um órgão armado, submetido à hierarquia, não faria
afastamento de um diretor-geral da Polícia… É como afastar o diretor-presidente
da Nasa. Ou tirar o comandante do Exército. Não se faz isso. Um vexame… O
sujeito tem que se algemar antes de fazer esse tipo de coisa. Quando ele tiver
a tentação, tem que pedir que Deus interceda. E não faça”.
O
quadro final é de uma contaminação severa para a própria instituição.
Independentemente dos desdobramentos regimentais ou das medidas que venham a
ser tomadas nos próximos meses, André Mendonça produziu uma ferida incurável na
sua própria biografia e no seu trânsito interno. Tornou-se um pária no
plenário.
Ficou
exposto para todo o país como uma figura desprovida das condições jurídicas,
intelectuais e éticas fundamentais para ocupar a cadeira que ocupa. Ao agir com
o desespero de um militante e com a ingenuidade de quem desconhece o peso e a
dinâmica da Praça dos Três Poderes, Mendonça tentou criar um “boneco
eleitoral”, mas acabou convertendo a si mesmo na imagem acabada da pequenez
institucional.
Fonte:
Por Andrea DiP, Ricardo Terto, Stela Diogo, Sofia Amaral e Natália Perez, da
Agencia Pública/JB

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