Congresso
Nacional, comitê gestor da barbárie contra os povos indígenas
O
lançamento da plataforma digital Congresso Anti-Indígena no início de setembro
pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), resulta de um catálogo de mais de
500 iniciativas legislativas contra os direitos indígenas, assim como de um
raio-x de dezenas de milhares de listas de votação. Não deve ser tomado como
apenas uma lista estatística qualquer.
A
plataforma, de alto valor empírico, mostra, mais uma vez, que a hostilidade aos
povos indígenas não é uma ocorrência aleatória resultante de congressistas
folclóricos, nem uma loucura esporádica dentro de algum grupo regional
reacionário. É um método de Estado, uma rotina processual e uma estratégia de
classe. A lei, dentro das latitudes tropicais e agroexportadoras, atende a uma
versão refinada da barbárie colonial.
A
plataforma do Cimi revela, por trás da retórica grandiosa que apoia a produção
rural, a manipulação audaciosa da representação proporcional por uma
plutocracia ruralista. A representação política, que deveria espelhar a
diversidade demográfica do Brasil, hoje se torna uma ferramenta obcecada em
preservar os lucros da exploração capitalista da terra e uma fronteira mineral
em constante expansão sobre terras ancestrais, porque é direcionada e
influenciada por financiamento corporativo e emendas orçamentárias obrigatórias
e secretas.
As
entranhas do poder começam a ser expostas quando tocadas pelo rigor das
denúncias. O Cimi faz uma autêntica autópsia forense para examinar tudo o que
acontece nos gabinetes do parlamento brasileiro.
Ao
listar 525 proposições legislativas apresentadas nos últimos quarenta anos,
desde a redemocratização de 1988 até a legislatura atual, o levantamento mostra
que o ataque nunca arrefeceu, mas metastatizou.
Mais de
325 projetos de lei relacionados aos direitos dos povos indígenas estão em
tramitação no Senado e na Câmara dos Deputados. Deste montante, 272 prejudicam
frontalmente seus direitos, 53 atuam através de táticas indiretas, como o
ataque a licenças ambientais, o afrouxamento do controle de agrotóxicos e o
incentivo à venda de armas a proprietários rurais em áreas de conflito agrário.
Entre tal arsenal, mais da metade (52% no total, que correspondem a 54% dos
projetos com dano direto) possuem características explicitamente
anti-indígenas.
O alvo
desta avalanche de ataques não é oculto. A questão da terra é o alvo da
obsessão legislativa. Segundo o Cimi, 125 das proposições visam suprimir seus
direitos territoriais para inviabilizar novas demarcações, anular os processos
em andamento ou entregar seu território ancestral à ganância da exploração
econômica.
O
apetite dos grandes latifúndios acelerou nos últimos anos: Não menos que 77%
deste estoque de propostas hostis relacionadas à questão agrária – ou seja, 96
projetos – surgiram após 2019 para se somar à crescente consolidação da extrema
direita institucionalizada e ao empoderamento excessivo do agronegócio. 37
propostas semelhantes em tramitação para outros temas tentam facilitar o acesso
para megaprojetos de infraestrutura/transporte sobre terras indígenas, enquanto
17, de forma semelhante, tentam legalizar a exploração mineral naquelas terras
já demarcadas.
De 2019
a 2026, os dados do Cimi registraram 110 votações nominais contra direitos
indígenas nas duas casas e nas sessões conjuntas do Congresso.
O
resultado empírico final, 27.965 votos (67,6%) proferidos contra os direitos
dos indígenas, reduziu a sua defesa a um terço da casa (13.081 votos favoráveis
ou 31,6%); uma proporção diretamente refletida na derrota esmagadora de 88% de
todas as votações nominais (97 de 110 contra as populações indígenas).
Quando
a pauta tocava em demarcação ou integridade territorial, a proporção piorava
ainda mais, pois a população indígena era sumariamente rejeitada 90% das vezes
(69 rejeições em 76 sessões deliberativas).
Os
inimigos dos povos indígenas capturaram até 84% (27 votos) dos 32 votos em
manobras “processuais” durante os quais, ditadas burocraticamente por meio de
relatórios de urgência, manobras de adiamento e remoções da pauta.
A
velocidade do rolo compressor mostra que em 100% dos 18 votos regimentais que
visavam acelerar agendas relacionadas a licenciamento territorial ou ambiental,
o lobby anti-indígena foi capaz de exercer uma demonstração de poder
triunfante.
Quando
o tema dos licenciamentos entra em pauta, a situação tende piorar: 90% dos
votos (70 de 78) sepultaram seus direitos. O painel eletrônico registrava ali
uma hipocrisia paroquial, pois serviu de pretexto covarde, uma vez que o
plenário optou por um registro meramente simbólico.
Em maio
de 2025, quando a CCJ e o plenário do Senado aprovaram o PDL 717/2024 – de
autoria do senador Esperidião Amin (PP/SC), cujo propósito era revogar a
homologação de duas terras indígenas em Santa Catarina (Toldo Imbu e Morro dos
Cavalos) – não o fizeram em votação nominal. Houve uma conivência sem rosto com
o crime. Como ocorre em violações flagrantes de direitos coletivos, o silêncio
impõe que os líderes tirem suas próprias conclusões na surdina.
As
míseras 13 votações com desfecho favorável aos povos indígenas ao longo de
quase oito anos funcionaram quase sempre como maquiagem humanitária: seis delas
versaram sobre direitos sociais e culturais ou políticas afirmativas — como
reservas de vagas em concursos públicos (a exemplo da Lei nº 15.142/2025,
oriunda do PL 1958/2021) —, e outras seis limitaram-se a sustentar alguns vetos
presidenciais pontuais.
Ou
seja: a ordem burguesa parlamentar permite que o indígena seja tolerado como
estudante cotista ou servidor subalterno, mas veta categoricamente que ele
continue sendo o senhor de seu território ancestral.
O
relatório do Cimi aponta, ainda, as 14 vitórias do bloco anti-indígena por voto
de viva voz vieram como um verdadeiro estupro constitucional. A maior delas, na
zombaria nunca antes vista do período pós-Assembleia Constituinte, foi a célere
aprovação no Parlamento do PL 490/2007, depois sua conversão no Senado para PL
2.903/2023, para finalmente se tornar a malfadada Lei nº 14.701/2023 – a Lei do
Marco Temporal.
Em uma
vingança igualmente deliberada e revanchista contra o Supremo Tribunal Federal,
que havia determinado que o marco temporal não se encaixava na Constituição, o
Congresso legislou contra a Constituição, depois continuou com a violência
institucional, opondo-se ao governo 56 vezes consecutivas ao longo do
processamento da matéria e coroando o Golpe ao derrubar vetos presidenciais em
massa.
No
mesmo pacote de devastação organizada, o Parlamento havia legislado a Lei nº
15.190/2025 (originária do PL 2.159/2021), destruindo a autorização ambiental
no país, enquanto preservava no arsenal do Golpe as armas já engatilhadas na
forma da PEC 187/2016 e da PEC 48/2023, instrumentos destinados finalmente a
selar a lápide do Artigo 231 da CF 88.
Entre
os 28 Partidos que participaram dessas discussões, 19 solidificaram uma
orientação institucional hostil aos indígenas. Os elementos fundamentais desta
necropolítica corporativa envolvem a união de duas forças que podem ser
descritas juntas como o “Sexteto da Devastação”: PL, PP, União Brasil, PSD,
Republicanos e MDB foram diretamente responsáveis por 209 votos de desaprovação
– impressionantes 75% de todo o dejeto Anti-Indígena registrado no período.
Partidos satélites como PSDB, Podemos, Avante, Solidariedade e Cidadania
gravitam em torno deste núcleo e os descendentes das respectivas amalgamações
de DEM, PSL, PTB, Patriota e PSC.
No
entanto, nenhuma outra associação encarnou com rigor cartesiano um estilo de
liderança tão cínico e focado em classe quanto o Partido NOVO: ostentando a
bandeira de um discurso gerencialista, eficientista e liberal cosmopolita, seus
membros apresentariam inéditos 100% de votos de desaprovação aos direitos e
terras devidos aos indígenas.
A
reflexão da correlação de forças, espelhada na atual legislatura do Congresso
Nacional apresenta um cenário asfixiante onde 384 deputados federais (75% da
Câmara) e 63 senadores (78% do Senado) representam partidos claramente
anti-indígenas. Assim, o parlamento, em quase três quartos, se torna uma
promotoria privada de grileiros, agroexportadores e empresas de mineração
transnacionais.
No
outro extremo, minorias formam um movimento feroz, incluindo partidos como
Rede, PCdoB, PSOL e PT, que votaram quase por unanimidade a favor das pautas
indígenas, com forte apoio majoritário de PV, PDT e PSB. Essas legendas
funcionam como uma trincheira sitiada.
Diante
dos dados empiricamente observados do Cimi, a miragem de que o parlamento é um
terreno de mediação de conflitos desaparece. A Câmara dos Deputados e o Senado
Federal tornaram-se o maior comitê gestor de interesses coloniais do país, onde
vidas de centenas de etnias são negociadas em toneladas de sementes de soja e
de minerais metálicos. A barbárie que outrora usava carabinas e veneno agora
aprendeu a manusear o Regimento Interno, vestindo-se elegantemente e falando em
“pacificação do campo”; o massacre foi santificado.
O
Brasil oficial vende sua fantasia verde em encontros mundiais, a verdadeira
República nos plenários subterrâneos: três quartos de comissões parlamentares
com interesses corporativos que tornam a Constituição Cidadã letra morta.
Para
esses congressistas, o indígena só é suportável se permanecer desvinculado do
território, folclorizado ou se implorar por esquemas de compensação. Enquanto
ele possuir terra, proteger as matas ou restringir a transformação da biosfera
através de hipotecas, continuará a ser um inimigo social da burguesia deste
país – este parlamento não erra; ele simula ser errático e democrático, mas
persegue sistematicamente seu alvo.
Fonte: Por
Gustavo Guerreiro, em Viomundo

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