Edivaldo
Ramos de Oliveira: Master Tribunal Federal
Quando
se alimenta grandes expectativas em relação a determinado evento com
possibilidade de ocorrência e ele de fato ocorre, a descarga emocional liberada
no exato momento de sua confirmação tende a ser menor do que talvez se
imaginasse no início do processo, uma vez que o correr do tempo desenvolve uma
espécie de diluição que, a depender de alguns fatores, resulta em algo próximo
de um alívio ou de uma libertação daquele estado de tensão.
No
entanto, a evolução das investigações referentes às relações entre o Banco
Master e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) apresentaram um desfecho
momentâneo surpreendentemente distinto do que o “roteiro” poderia supor.
O
Brasil reagiu com um misto de incredulidade e indignação, no início do ano,
diante da divulgação das informações sobre o envolvimento do ministro Dias
Toffoli com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, e os escabrosos
detalhes das tratativas havidas entre eles. Naquele momento, no calor da hora,
chegou-se a cogitar como altamente provável a possibilidade de afastamento do
ministro, seja por um inédito processo de impeachment ou por uma espontânea
renúncia, no entanto, nada disso ocorreu e ele apenas foi substituído da
relatoria da investigação de cometimento de fraudes financeiras envolvendo o
banco.
A
suprema ironia é que os desdobramentos recentes se deram exatamente porque
graves suspeitas recaíam sobre os bastidores da própria apuração, gerando uma
espiral de perda de credibilidade. O relator do caso no tribunal, o ministro
André Mendonça, atraiu os holofotes ao retirar o sigilo do processo, tornando
público os relatórios que descortinaram indícios estarrecedores e arrastaram
para o epicentro das suspeitas um outro ministro, há tempos eleito pela mídia
como “herói da defesa da nossa democracia”, o ministro Alexandre de Moraes.
Diante
disso, mesmo após a enorme quantidade de dados divulgados alusivos a ministros
do STF com eventual envolvimento direto ou indireto com a rede de contatos de
Daniel Vorcaro – além de Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, menções a Gilmar
Mendes, Alexandre de Moraes, Luiz Fux, Kássio Nunes Marques e o próprio André
Mendonça, equivalente a mais da metade do total de ministros –, ainda assim as
informações extraídas pela Polícia Federal sugerindo que o ministro Alexandre
de Moraes atuaria informalmente em favor dos interesses do banqueiro causaram
uma hecatombe no meio político, com severas repercussões no próprio processo
eleitoral em curso, a menos de um mês do primeiro turno do pleito.
Do que
se sabe até o momento, os possíveis envolvimentos de ministros com o banco ou
mais propriamente com o ex-banqueiro ocorreram de forma diversa. Houve
investidas indiretas que evidenciam alguma forma de relação, ainda que não se
tenha registros de contatos diretos e que, em algum momento, os ministros
tenham proferido votos contrários aos interesses de Daniel Vorcaro.
São os
casos de Gilmar Mendes (citações a apoios institucionais ao chamado “Gilmar
Palooza”, o Fórum Jurídico de Lisboa, organizado pelo ministro, ou a eventos
que em torno dele), Kassio Nunes Marques (repasses mapeados para a empresa de
consultoria de seu filho, além de voo em jatinho de propriedade de um advogado
do banco) e Luiz Fux (frequente participação de um filho seu em eventos sociais
promovidos por Daniel Vorcaro, inclusive no exterior).
Nos
outros casos (envolvendo Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e André Mendonça),
os relatórios de inteligência identificaram contatos diretos, em maior ou menor
grau.
A crise
que se abateu sobre o STF tem múltiplas dimensões, mas talvez a mais grave de
todas as consequências seja o déficit de legitimidade que desperta na
sociedade, pela combinação de vários elementos articulados ao longo dos últimos
anos, na onda da crescente judicialização da política, ocasião em que respondeu
a esse fluxo de desvirtuação de seu papel constitucional com sucessivas
investidas de uma estratégia oportunistica de politização da justiça.
Acumulando
crescentes episódios de condutas inadequadas de ministros, notadamente em
relações suspeitas associadas a lobbies políticos e econômicos, excessiva
concentração de poder monocrático, expansão unilateral de seu efetivo papel
definido pela Constituição, obsessão pela presença na mídia e desenvolvimento
de uma cultura corporativa de inatingibilidade e imunidade plenas, operou-se
uma mudança de paradigma na concepção de nossa Suprema Corte.
Desenhado
pela Constituição de 1988 como uma instância judicial isolada dos embates
políticos que perpassam as estruturas do Estado brasileiro, ao Supremo Tribunal
Federal o constituinte originário atribuiu a função de Corte Constitucional,
portanto, a cúpula do Poder Judiciário, com a incumbência de ser o guardião da
florescente democracia que emergia do recente processo de redemocratização do
país, devendo ser uma instituição de Estado imune às pressões externas.
Contudo, as dinâmicas que desenvolveu para atuar em cenários de elevado teor
político e o perfil peculiar de muitos de seus ministros, o transformaram em
uma verdadeira vitrine de egos inflados e de interesses difusos e pouco
republicanos.
Dessa
forma, o desejado distanciamento das controvérsias da sociedade e a necessária
submissão à liturgia do cargo foram progressivamente substituídos por posturas
e comportamentos flexíveis, expressos pela crescente presença de ministros em
eventos sociais e corporativos representativos de lobbies diversos, estreitando
laços com o poder econômico e cedendo espaço a um indesejável pragmatismo de
mercado, alimentando um clima amplamente favorável a desfazer a tênue linha de
separação entre o interesse público e a volúpia privada por se assenhorar das
estruturas estatais de poder.
O caso
Master, potencializado pela enorme repercussão que gerou, não esgota as
possibilidades de avanço indevido dos interesses privados sobre o espaço
estatal do cumprimento da função pública da magistratura e não é resultado de
um simples vácuo institucional circunstancial.
Ele
resulta da convergência de um conjunto de fatores que se desenvolveram no
rastro de sucessivas rupturas de parâmetros de contenção de excessos,
empreendidas isoladamente tanto com o propósito de expandir a atuação do
judiciário enquanto poder constituído inserido no concorrido ambiente de
disputa política do país quanto estruturadas para o fortalecimento individual
do titular da toga com assento no tribunal.
Impotente
ou omisso na tarefa de delimitar essa excepcionalidade comportamental no âmbito
de sua atuação, o STF viu os poderes de seus ministros serem artificialmente
expandidos e de forma monocrática, tornando o exercício da magistratura nesse
nível um ato extremamente blindado por privilégios e prerrogativas de elevado
poder, praticamente sem limites de ação.
Nesse
ambiente, notícias sobre extravagâncias e envolvimento de ministros em
operações de idoneidade duvidosa tornaram-se recorrentes, vulnerabilizando a
instituição e dissolvendo a sua credibilidade, na medida em que suspeitas foram
se avolumando e minando de forma indissociável a imagem da corte.
Assim,
o combo de excessos que incluiu contratos milionários, relações apontadas como
de promiscuidade institucional, vazamento de informações processuais,
autoblindagem judicial, salários elevados (teto do poder público), privilégios
exorbitantes, leniência com ilegalidades, extrapolação de poderes e
superexposição midiática construiu uma simbologia muito forte de que os
ministros seriam, por direito, cidadãos de primeiríssima qualidade, acima de
tudo e de todos, portanto, fora dos limites da lei.
Essa
representação do que seria um ministro do STF, respaldada pelas evidências
trazidas a público, obteve intensa penetração no imaginário popular e se
consolidou como um fato abominável, tamanho o descompasso entre o estilo de
vida descrito e o cotidiano do cidadão comum médio, gerando uma onda de repúdio
e de distanciamento da população daquela instituição à qual se atribuía a
manutenção da democracia, da cidadania e da liberdade, situações também
distantes da realidade das ruas.
A
perspectiva de uma justiça cega e impessoal, paradigmática do mundo civilizado,
ruíra tão logo descobriu-se uma contabilidade peculiar que orbitava a cúpula do
Poder Judiciário: quanto mais poder se consegue concentrar e exercer, maiores
serão os privilégios gozados e os benefícios recebidos, muitas vezes expressos
em cifras na casa dos nove dígitos.
E isso
ocorreu com impressionante desenvoltura no âmbito da instituição
constitucionalmente designada para aplicar as leis no sentido de reduzir as
desigualdades e assimetrias da sociedade. Rompeu-se um ciclo de confiança da
população para com a justiça e o STF passou a ser alvo da indignação popular.
Portanto,
a essa altura dos acontecimentos, não deveria causar espanto o fato de o Banco
Master e seu então controlador conseguirem arrastar o STF para o epicentro do
escândalo financeiro, afinal aquela corte, por meio de vários de seus ministros
e em diversos momentos, esteve muito próxima desse redemoinho movido a
impropriedades e ilegalidades.
O STF
foi a ponta do iceberg da penetração do “esquema Master” nas estruturas
federais do Estado brasileiro, cujos tentáculos alcançaram os domínios dos
poderes Executivo e Legislativo, além do Banco Central, de políticos de esferas
estaduais – como Tarcísio de Freitas, governador do estado de São Paulo, e
Gilberto Kassab, então secretário de Governo e Relações Institucionais, além de
presidente do PSD –, lobistas e ex-ministros.
As
investigações trouxeram à tona a dimensão estratosférica das fraudes
financeiras e das carteiras de crédito hiperinfladas, alertando para as
fragilidades do sistema de controle.
O Banco
Central também esteve sob escrutínio por conta de sua atuação fiscalizatória
tardia, diante do acúmulo de irregularidades na governança do banco que operava
com lastros fictícios não detectáveis pelas dinâmicas tradicionais de
monitoramento.
A
presença do Banco Master no segmento de crédito consignado, deu tração aos
episódios de ilegalidade que foram descobertos apenas quase três anos depois do
início do mandato do presidente Lula, lançando luzes sobre as fragilidades do
sistema de controle e fortes suspeitas sobre os gestores públicos das áreas
envolvidas. O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, foi
mencionado em várias conversas interceptadas pelas investigações, dando conta
de que se relacionaria com o banqueiro, além de ter participado de evento
organizado pelo banco em Londres, com todas as despesas pagas.
O Banco
Central também fez vistas grossas, em diversos momentos, aos deslizes e
irregularidades cometidas pelo Banco Master, ensejando a suspeição de que
haveria conluio diante do fato de que as estratégias de mercado do banco, ainda
que eloquentemente fora da realidade, jamais resultaram na adoção de sanções
até a liquidação do banco.
No
Congresso, o deputado Nikolas Ferreira e o senador Flávio Bolsonaro tiveram
conversas vazadas denotando envolvimento e ratificando o beneficiamento, além
de questões havidas com Hugo Motta e Davi Alcolumbre, dentre os eventos tidos
como mais significativos no âmbito do legislativo, mas não apenas esses.
Na
Procuradoria-Geral da República, o PGR Paulo Gonet participou de distintos
eventos de alto luxo promovidos pelo banco e um filho seu mostrou desenvoltura
incomum no trânsito entre juristas e magistrados em meio aos mais prestigiados
e pomposos eventos promovidos pelo banco no exterior. Jamais se cogitou a
recusa de participação em eventos claramente ostentatórios.
Isso
tudo denota o quanto a influência de Daniel Vorcaro esteve presente nas
entranhas do Estado brasileiro e o nível de debilitação que causou nos
processos de gestão do espaço público, de tal sorte que o desfecho das
investigações, ainda que provisório, nos permite identificar um saldo
institucional dramático, em que a Suprema Corte do país se viu exposta a uma
rede de conexões que potencialmente interferia no encaminhamento de decisões
judiciais alusivas a pautas bilionárias, tornando a Suprema Corte um verdadeiro
balcão de negócios.
A
percepção que emerge de todo esse cenário remete à reflexão sobre o que nos
aguarda enquanto cidadãos quando ministros integrantes da mais alta instância
da justiça brasileira aparecem em relatórios de investigação que os identifica
como conselheiros informais de um fraudador acusado de causar rombos
bilionários em carteiras de crédito hiperinfladas e lastros fictícios não
identificados a tempo pelas auditorias do Banco Central.
A crise
deflagrada pelas investigações, em seus detalhes mais aterradores, demonstra
que os mecanismos de captura do Estado se disseminaram intensamente pelas
estruturas do Poder Público, atingindo os escalões mais elevados dos poderes
constituídos, denotando uma informal privatização do espaço público e das
instâncias de decisão.
Os
magistrados que aderiram ou foram condescendentes com os esquemas nebulosos,
não apenas transpassaram a linha vermelha da ética pública como se instalaram
em um lugar de clara ilegalidade criminal, assumindo a mesma condição de
criminalidade atribuída aos réus identificados nos processos conduzidos pela
própria corte, revelando uma incontroversa cumplicidade.
Como
elemento positivo de toda essa jornada, restou a certeza de que o colapso do
Banco Master e a prisão de seu ex-presidente tiveram o condão de abrir a caixa
de Pandora das entranhas do Estado brasileiro, tornando pública a complexa teia
informal e clandestina das relações indevidas que pautam as ações de seus
integrantes, dinamizam os fluxos financeiros criminosos, asseguram a realização
dos interesses privados e se eximem do desempenho da função pública para a qual
foram designados.
A
decisão do presidente do STF, ministro Edson Fachin de não se furtar a
enfrentar esse escândalo de imediato soa acertada, sinalizando a possibilidade
de mudanças estruturais no funcionamento da Casa, trazendo para o centro das
discussões uma proposta sua anteriormente torpedeada, mas que agora assume um
outro patamar de relevância: a adoção de um código de conduta e comportamento.
Associada
à modernização do sistema de justiça, à rediscussão do papel da Corte
Constitucional e ao redesenho da estrutura de poder atribuída aos ministros,
pode-se vislumbrar soluções efetivas para a contenção de egos e interesses
particulares dos titulares das togas do STF.
A
síntese de todo o noticiário sobre o caso e o destaque dado ao STF em razão da
corrosão ética que revelou, ratifica o trocadilho utilizado no título deste
artigo como mais do que um mero recurso retórico ou estilístico, definindo
nossa Corte Constitucional como a instituição histórica que, pressionada pelo
poder do capital, não hesitou em abandonar a toga ritualística diante da
sedução do balcão de negócios.
Ao
final de tudo, constata-se que a corte se apequenou como nunca ao não oferecer
resistência às tentativas de servidão a que a foi submetida, permitindo que o
banco reafirmasse sua condição de master.
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário