terça-feira, 22 de setembro de 2026

O peso do voto dos brasileiros no exterior

O crescimento recorde dos brasileiros aptos a votar no exterior pode fazer a diferença na eleição presidencial de outubro. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 918.876 imigrantes se registraram para participar do pleito — aumento de 31,8% em relação a 2022, seguindo a tendência de alta dos últimos anos.

Os votantes da zona eleitoral ZZ, que abrange a comunidade que vive fora do Brasil, são agora mais numerosos do que três estados da região Norte: Acre (614,3 mil), Amapá (577,5 mil) e Roraima (401,5 mil). A alta nos registros eleitorais acompanhou o crescimento da população no exterior, que se consolidou desde 2016, passando de 3 milhões para 4,9 milhões em 2023 — aumento de 63%, de acordo com o Itamaraty.

<><> Peso do voto do exterior

Assim como em 2022, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) superou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno por uma diferença de 2,1 milhões de votos — uma margem de 1,8% de vantagem —, a perspectiva para o pleito de 2026 é de uma votação apertada.

É o que sugerem as últimas pesquisas de intenção de voto. A mais recente delas, divulgadas pelo Instituto Datafolha nesta quinta-feira (17/09), aponta que Lula detém 39% da preferência no primeiro turno, e o senador Flávio Bolsonaro, 36%. Para o segundo turno, os dois aparecem em empate técnico, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais: Lula tem 46% e Flávio, 44%.

"Ambos atingiram o núcleo duro de mobilização de eleitores", afirma o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Bruno Schaefer. "Quem conseguir mobilizar mais eleitores vai sair vitorioso. O espaço para isso está no meio dos indecisos que não estão satisfeitos com essas duas candidaturas. Por isso, o voto do brasileiro no exterior é interessante."

Teresa Schneider, pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), reforça que todo voto conta. "É um público com grande potencial para fazer mais diferença no processo eleitoral, porque a gente tem quase um milhão de votos aí. Isoladamente, o voto do exterior não decide o processo eleitoral, mas pode sim ser um peso relevante, pois são votos a serem disputados".

Para Schneider, ainda que haja uma tendência entre os colégios eleitorais espalhados por 134 países de que os eleitores nos Estados Unidos e no Japão, por exemplo, votem no campo da direita, e os que vivem na Europa prefiram a esquerda, essa predileção não está consolidada.

"É um eleitorado que pode ser muito móvel, porque o perfil de imigrante pode mudar de geração para geração. Isso pode servir como incentivo para que os partidos políticos disputem mais o voto dessa comunidade." 

A pesquisadora lembra que, entre 2010 e 2018, os candidatos à direita do espectro político venceram no exterior: José Serra, Aécio Neves e Jair Bolsonaro. No entanto, em 2022, Lula recebeu 51,28% dos votos vindos de fora do Brasil.

<><> Relações bilaterais e voto

As campanhas perceberam a relevância dessa parcela do eleitorado e apostam na mobilização no exterior para convencer a base de apoio a ir às urnas. O PT tem núcleos em 13 países. Em Paris, por exemplo, militantes ofereciam ajuda a eleitores para navegarem na plataforma e-título e se regularizarem para votar. Foi na Europa, aliás, onde Lula teve a maior votação em 2022: 67,2%.

Por lá, Lula mantém boas relações diplomáticas com líderes como Emmanuel Macron (França) e Pedro Sánchez (Espanha). A percepção dessa relação bilateral influencia o voto do eleitorado.

Daniele Bresser, 43 anos, está há 13 anos na Alemanha e diz que se beneficia dos acordos entre Brasília e Berlim. "Eu colho os frutos porque tenho acesso ao que considero serem privilégios que só são possíveis graças ao bom relacionamento entre os dois países. Desde os consulados brasileiros nos principais estados alemães, até o reconhecimento de diplomas brasileiros, e a possibilidade de se candidatar a vagas em órgãos públicos federais", relata.

Já Gero Bonini, que tem 44 anos e vive há dois nos EUA, diz que sua experiência no exterior o levou a comparar a segurança, infraestrutura, serviços públicos e o funcionamento das instituições entre os dois países. "Não significa que quero que seja copiado o modelo, mas a experiência daqui é um critério para avaliar o Brasil", diz. Ele acrescenta a essa conta a relação diplomática. "O próximo governante tem que ter essa responsabilidade".

O plano de governo apresentado por Lula menciona a comunidade no exterior e promete fortalecer "a assistência e a proteção consular, ampliando os mecanismos de participação da diáspora". Já Flávio Bolsonaro sustenta que, se eleito, irá reaproximar o Brasil dos Estados Unidos, Argentina e Israel, mas não menciona os residentes fora do país.

Nos Estados Unidos, maior colégio eleitoral no exterior, onde votam 265,4 mil brasileiros, 65,3% optaram por Jair Bolsonaro em 2022. Por isso, é nesse país que o bolsonarismo investe seus esforços. O irmão de Flávio, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que é secretário de Relações Internacionais do PL, orienta os conterrâneos no país a votar. "A gente pretende ir lá e fazer campanhas para regularização de título de eleitor”, disse durante a posse do cargo no partido. Ele também promove encontros da direita com apoiadores pelo país.

<><> Soberania em debate

Além do trabalho dos partidos e da militância, os candidatos também mencionam a pauta da política externa. No pronunciamento pelo Dia da Independência, Lula reiterou que "precisamos nos manter fortes e altivos, sem baixar a cabeça, para não deixarmos que o Brasil se transforme, novamente, em colônia de outras potências estrangeiras".

O Brasil é alvo de tarifas comerciais impostas pelos EUA, que também questionam o Pix. Flávio Bolsonaro chegou a agradecer ao presidente americano Donald Trump pelas tarifas. Depois, voltou atrás e disse que a declaração foi um erro. Em visita aos EUA, ele se encontrou com o chefe da Casa Branca para, segundo o senador, sensibilizá-lo.

Bruno Schaefer ressalta que a política externa se tornou uma das principais preocupações do eleitorado em 2026. "Essa não era uma questão que mobiliza eleitores, mas isso está se modificando  pelas posições adotadas pelos Estados Unidos."

Já Teresa Schneider assinala que "a comunidade no exterior tem uma carência de identidade nacional. Então, as forças políticas que mobilizam o nacionalismo podem ter mais força perante essa comunidade. Isso ajuda a entender por que populistas que mobilizam o nacionalismo têm mais vitória no exterior. É uma comunidade que tem interesse em reafirmar a sua identidade nacional."

<><> Reverter a abstenção

Essas estratégias das campanhas visam reverter a abstenção entre os brasileiros no exterior, que historicamente se mantém em patamares acima de 50%. "Combater a abstenção com mobilização vai ser central", frisa Bruno Schaefer. "Em 2022 a abstenção foi menor do que nos anos anteriores, porque foi uma eleição que mobilizou mais gente. O que são 1 milhão de votos, pode se tornar 500 mil votos válidos".

As distâncias até os locais de votação e longas filas costumam afugentar os eleitores. A família de Yuka Kacuta mora na província de Saitama, no Japão, e vai ter que viajar para Tóquio para votar. "De carro, leva uma hora e meia, e o custo total dá pelo menos 10 mil ienes, porque tem que pagar pedágio, estacionamento, gasolina. Metade da família diz que prefere pagar a multa, que é mais barato, mas a outra metade vem mesmo assim."

Teresa Schneider explica que quando os eleitores percebem seu voto como decisivo, tendem a comparecer mais às urnas. No pleito de 2022, a abstenção caiu 4,3 pontos percentuais na comparação com 2018. "Era uma eleição entre democracia e ditadura, os dois lados faziam esse entendimento do processo eleitoral", afirma.

<><> Ida às urnas

Mas essa parcela do eleitorado se interessa também por propostas de políticas públicas voltadas ao Brasil, quanto à saúde, educação e economia. "Mesmo morando aqui nos EUA, continuo tendo família, amigos, projetos, negócios, é uma ligação muito forte. O que acontece no Brasil ainda tem um impacto na minha vida. Então, olho a capacidade que o candidato tem de entregar essas propostas", argumenta Gero Bonini.

O primeiro turno será em 4 de outubro e neste ano ocorre em 186 cidades fora do Brasil. Daniele Bresser já faz planos para a data e promete ser uma das primeiras na fila de votação. "Se eu estivesse no Brasil, eu iria desanimada. Mas como sou expatriada, é o contrário: vou com alegria, tocando hino nacional no carro, e faço meu namorado vir e cantar junto. É um momento que me emociona, de conexão com a minha terra."

¨      Medo do ICE prejudica votação de eleitores brasileiros em Nova York

A duas semanas das eleições presidenciais brasileiras, os Estados Unidos se preparam para receber o maior contingente de eleitores brasileiros fora do país. Cerca de 265 mil estão registrados para votar em território norte-americano, contra quase 183 mil em 2022. O número representa um crescimento de aproximadamente 45% em quatro anos, segundo dados da Justiça Eleitoral.

Boston concentra o maior eleitorado brasileiro nos Estados Unidos, com 53,4 mil pessoas aptas a votar. Em seguida aparecem Miami (40.109) e Nova York (39.026).

O aumento ocorre, porém, em um momento de apreensão para parte da comunidade brasileira, devido ao endurecimento da política migratória do governo Donald Trump e à intensificação das operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, por sua sigla em inglês).

Por isso, para organizações que trabalham diretamente com imigrantes brasileiros, a eleição não é a principal preocupação de parte da comunidade neste momento. A Opera Mundi, Rodrigo Godoi, da entidade Mantena, afirmou que o medo das operações migratórias passou a interferir em atividades básicas do cotidiano.

“O clima aqui é de sobrevivência, ninguém está nem pensando nas eleições nesse momento”, afirmou. Segundo Godoi, há pessoas com receio de ir ao supermercado, levar os filhos à escola ou até mesmo circular pelas ruas.

Solange Paizante, também da Mantena, afirmou que algumas famílias reduziram drasticamente suas atividades fora de casa. Ela cita o caso de uma mulher que estaria há cerca de um ano sem trabalhar, enquanto apenas o marido sai para garantir a renda básica da família. “As pessoas nem estão pensando ainda nas eleições, para dizer a verdade”, afirmou.

<><> Mudança do local de votação provoca críticas

Em Nova York, a apreensão com as operações migratórias se soma a outro fator: a mudança do local de votação. Nas eleições de 2022, os brasileiros votaram em Manhattan. Neste ano, o Consulado-Geral do Brasil transferiu a votação para uma instituição de ensino no Queens, distrito que concentra uma grande população imigrante e onde operações do ICE têm provocado preocupação entre organizações e moradores.

O novo local fica a cerca de 16 quilômetros da sede do Consulado, em Manhattan, e não tem acesso direto por metrô. A distância pode representar um obstáculo ainda maior para eleitores que vivem fora da cidade de Nova York: a jurisdição consular também atende brasileiros de Nova Jersey e da região da Filadélfia.

Representante legal da ONG Imigra Foundation, Kelly Fontoura pretende votar, mas considera a escolha do novo local mais complicada.

“O brasileiro precisa votar. O voto no Brasil é obrigatório e eu acho realmente importante participar das eleições. Acho que nunca deixei de votar em nenhuma eleição, mesmo morando fora”, afirmou.

Fontoura calcula que precisará pegar dois trens e um ônibus para chegar ao local de votação, mas disse compreender a justificativa apresentada pelo Consulado de que o espaço deste ano permite que os eleitores aguardem dentro do prédio, sem a formação de filas na rua. Ela, porém, questiona o trajeto necessário para chegar até lá.

Para ela, a localização também pode aumentar a sensação de insegurança entre eleitores preocupados com possíveis operações migratórias.

A professora Renata Ross também reclama da dificuldade de acesso. Ela lembra que os locais utilizados anteriormente em Manhattan eram mais convenientes, especialmente para brasileiros que chegam de Nova Jersey e dependem do transporte público.

Apesar disso, Ross diz que pretende comparecer. “Eu vou encontrar uma forma, porque eu vou votar, eu não vou deixar de votar. Eu acho que é uma necessidade. Mas realmente dificulta muito e poderiam ter facilitado”, afirmou.

<><> Organizações pedem esclarecimentos ao Consulado

De acordo com Natalia de Campos, do Comitê Defend Democracy in Brazil (DDB), diferentes organizações iniciaram um diálogo com o Consulado sobre as condições de acesso ao novo espaço.

Os grupos realizaram uma pesquisa com eleitores para comparar a experiência de eleições anteriores e estimar os obstáculos adicionais neste ano. Entre os pontos analisados estão tempo de deslocamento, facilidade de acesso, custos e necessidade de utilizar diferentes meios de transporte.

“Temos essa preocupação não só da dificuldade das pessoas votarem, mas, mais importante do que isso, [há a preocupação com] a ação significativa do ICE. A preocupação é não expor as pessoas à ação dos agentes migratórios”, afirmou.

Campos disse que as organizações pretendem entregar uma carta ao Consulado pedindo esclarecimentos e discutindo “as possibilidades de qualquer tipo de mudança”. Ela ressaltou que o diálogo com a Prefeitura de Nova York é uma iniciativa paralela, liderada pelo DDB, e não deve ser confundido com a articulação dos diferentes grupos que conversam diretamente com o Consulado.

<><> Estrutura interna como vantagem

Entre as justificativas apresentadas para a escolha do espaço está a possibilidade de acomodar os eleitores dentro do prédio, evitando filas externas. O mesmo local também foi utilizado nas eleições presidenciais do Peru, realizadas em abril.

Para a representante do DDB, outros campi universitários poderiam oferecer características semelhantes, mas com acesso mais fácil por transporte público.

“Sabemos que o Queens College é amplo, as pessoas não precisariam esperar fora, tem a própria segurança da universidade”, disse Campos. Ela ressaltou, porém, que não dispõe de informações específicas sobre como a segurança será organizada no domingo da eleição.

 

Fonte: DW Brasil/Opera Mundi

 

Nenhum comentário: