O
peso do voto dos brasileiros no exterior
O
crescimento recorde dos brasileiros aptos a votar no exterior pode fazer a
diferença na eleição presidencial de outubro. Segundo o
Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 918.876 imigrantes se registraram para
participar do pleito — aumento de 31,8% em relação a 2022, seguindo a
tendência de alta dos últimos anos.
Os
votantes da zona eleitoral ZZ, que abrange a comunidade que vive fora do
Brasil, são agora mais numerosos do que três estados da região Norte: Acre
(614,3 mil), Amapá (577,5 mil) e Roraima (401,5 mil). A alta nos registros
eleitorais acompanhou o crescimento da população no exterior, que se consolidou
desde 2016, passando de 3 milhões para 4,9 milhões em 2023 — aumento de 63%, de
acordo com o Itamaraty.
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Peso do voto do exterior
Assim
como em 2022, quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) superou o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno por uma diferença de
2,1 milhões de votos — uma margem de 1,8% de vantagem —, a
perspectiva para o pleito de 2026 é de uma votação apertada.
É o que
sugerem as últimas pesquisas de intenção de voto. A mais recente delas,
divulgadas pelo Instituto Datafolha nesta quinta-feira
(17/09), aponta que Lula detém 39% da preferência no primeiro turno,
e o senador Flávio Bolsonaro, 36%. Para o segundo
turno, os dois aparecem em empate técnico, dentro da margem de erro de dois
pontos percentuais: Lula tem 46% e Flávio, 44%.
"Ambos
atingiram o núcleo duro de mobilização de eleitores", afirma o professor
da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Bruno
Schaefer. "Quem conseguir mobilizar mais eleitores vai sair
vitorioso. O espaço para isso está no meio dos indecisos que não estão
satisfeitos com essas duas candidaturas. Por isso, o voto do brasileiro no
exterior é interessante."
Teresa
Schneider, pesquisadora da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul (PUCRS), reforça que todo voto conta. "É um público com grande
potencial para fazer mais diferença no processo eleitoral, porque a gente tem
quase um milhão de votos aí. Isoladamente, o voto do exterior não decide o
processo eleitoral, mas pode sim ser um peso relevante, pois são votos a serem
disputados".
Para
Schneider, ainda que haja uma tendência entre os colégios eleitorais espalhados
por 134 países de que os eleitores nos Estados Unidos e no Japão, por exemplo,
votem no campo da direita, e os que vivem na Europa prefiram a esquerda, essa
predileção não está consolidada.
"É
um eleitorado que pode ser muito móvel, porque o perfil de imigrante pode mudar
de geração para geração. Isso pode servir como incentivo para que os partidos
políticos disputem mais o voto dessa comunidade."
A
pesquisadora lembra que, entre 2010 e 2018, os candidatos à direita do espectro
político venceram no exterior: José Serra, Aécio Neves e Jair Bolsonaro. No
entanto, em 2022, Lula recebeu 51,28% dos votos vindos de fora do Brasil.
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Relações bilaterais e voto
As
campanhas perceberam a relevância dessa parcela do eleitorado e apostam na
mobilização no exterior para convencer a base de apoio a ir às urnas. O PT tem
núcleos em 13 países. Em Paris, por exemplo, militantes ofereciam ajuda a
eleitores para navegarem na plataforma e-título e se regularizarem para votar.
Foi na Europa, aliás, onde Lula teve a maior votação em 2022: 67,2%.
Por lá,
Lula mantém boas relações diplomáticas com líderes como Emmanuel Macron
(França) e Pedro Sánchez (Espanha). A percepção dessa relação bilateral
influencia o voto do eleitorado.
Daniele
Bresser, 43 anos, está há 13 anos na Alemanha e diz que se beneficia dos
acordos entre Brasília e Berlim. "Eu colho os frutos porque tenho acesso
ao que considero serem privilégios que só são possíveis graças ao bom
relacionamento entre os dois países. Desde os consulados brasileiros nos
principais estados alemães, até o reconhecimento de diplomas brasileiros, e a
possibilidade de se candidatar a vagas em órgãos públicos federais",
relata.
Já Gero
Bonini, que tem 44 anos e vive há dois nos EUA, diz que sua experiência no
exterior o levou a comparar a segurança, infraestrutura, serviços públicos
e o funcionamento das instituições entre os dois países. "Não significa
que quero que seja copiado o modelo, mas a experiência daqui é um critério para
avaliar o Brasil", diz. Ele acrescenta a essa conta a relação diplomática.
"O próximo governante tem que ter essa responsabilidade".
O plano
de governo apresentado por Lula menciona a comunidade no exterior e promete
fortalecer "a assistência e a proteção consular, ampliando os mecanismos
de participação da diáspora". Já Flávio Bolsonaro sustenta que, se eleito,
irá reaproximar o Brasil dos Estados Unidos, Argentina e Israel, mas não
menciona os residentes fora do país.
Nos
Estados Unidos, maior colégio eleitoral no exterior, onde votam 265,4 mil
brasileiros, 65,3% optaram por Jair Bolsonaro em 2022. Por isso, é nesse país
que o bolsonarismo investe seus esforços. O irmão de Flávio, o ex-deputado
federal Eduardo Bolsonaro, que é secretário de
Relações Internacionais do PL, orienta os conterrâneos no país a votar. "A
gente pretende ir lá e fazer campanhas para regularização de título de
eleitor”, disse durante a posse do cargo no partido. Ele também promove
encontros da direita com apoiadores pelo país.
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Soberania em debate
Além do
trabalho dos partidos e da militância, os candidatos também mencionam a pauta
da política externa. No pronunciamento
pelo Dia da Independência, Lula reiterou que "precisamos nos manter fortes
e altivos, sem baixar a cabeça, para não deixarmos que o Brasil se transforme,
novamente, em colônia de outras potências estrangeiras".
O
Brasil é alvo de tarifas comerciais impostas pelos EUA,
que também questionam o Pix. Flávio Bolsonaro
chegou a agradecer ao presidente americano Donald Trump pelas tarifas. Depois,
voltou atrás e disse que a declaração foi um erro. Em visita aos EUA, ele se encontrou com o chefe da Casa Branca para, segundo o
senador, sensibilizá-lo.
Bruno
Schaefer ressalta que a política externa se tornou uma das principais
preocupações do eleitorado em 2026. "Essa não era uma questão que mobiliza
eleitores, mas isso está se modificando pelas posições adotadas pelos
Estados Unidos."
Já
Teresa Schneider assinala que "a comunidade no exterior tem uma carência
de identidade nacional. Então, as forças políticas que mobilizam o nacionalismo
podem ter mais força perante essa comunidade. Isso ajuda a entender por que
populistas que mobilizam o nacionalismo têm mais vitória no exterior. É uma
comunidade que tem interesse em reafirmar a sua identidade nacional."
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Reverter a abstenção
Essas
estratégias das campanhas visam reverter a abstenção entre os brasileiros no
exterior, que historicamente se mantém em patamares acima de 50%.
"Combater a abstenção com mobilização vai ser central", frisa Bruno
Schaefer. "Em 2022 a abstenção foi menor do que nos anos anteriores,
porque foi uma eleição que mobilizou mais gente. O que são 1 milhão de votos,
pode se tornar 500 mil votos válidos".
As
distâncias até os locais de votação e longas filas costumam afugentar os
eleitores. A família de Yuka Kacuta mora na província de Saitama, no Japão, e
vai ter que viajar para Tóquio para votar. "De carro, leva uma hora e
meia, e o custo total dá pelo menos 10 mil ienes, porque tem que pagar pedágio,
estacionamento, gasolina. Metade da família diz que prefere pagar a multa, que
é mais barato, mas a outra metade vem mesmo assim."
Teresa
Schneider explica que quando os eleitores percebem seu voto como decisivo,
tendem a comparecer mais às urnas. No pleito de 2022, a abstenção caiu 4,3
pontos percentuais na comparação com 2018. "Era uma eleição entre
democracia e ditadura, os dois lados faziam esse entendimento do processo
eleitoral", afirma.
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Ida às urnas
Mas
essa parcela do eleitorado se interessa também por propostas de políticas
públicas voltadas ao Brasil, quanto à saúde, educação e economia. "Mesmo
morando aqui nos EUA, continuo tendo família, amigos, projetos, negócios, é uma
ligação muito forte. O que acontece no Brasil ainda tem um impacto na minha
vida. Então, olho a capacidade que o candidato tem de entregar essas
propostas", argumenta Gero Bonini.
O
primeiro turno será em 4 de outubro e neste ano ocorre em 186 cidades fora do
Brasil. Daniele Bresser já faz planos para a data e promete ser uma das
primeiras na fila de votação. "Se eu estivesse no Brasil, eu iria
desanimada. Mas como sou expatriada, é o contrário: vou com alegria, tocando
hino nacional no carro, e faço meu namorado vir e cantar junto. É um momento
que me emociona, de conexão com a minha terra."
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Medo do ICE prejudica votação de eleitores brasileiros em
Nova York
A duas
semanas das eleições presidenciais brasileiras, os Estados Unidos se preparam
para receber o maior contingente de eleitores brasileiros fora do país. Cerca
de 265 mil estão registrados para votar em território norte-americano, contra
quase 183 mil em 2022. O número representa um crescimento de aproximadamente
45% em quatro anos, segundo dados da Justiça Eleitoral.
Boston
concentra o maior eleitorado brasileiro nos Estados
Unidos,
com 53,4 mil pessoas aptas a votar. Em seguida aparecem Miami (40.109) e Nova
York (39.026).
O
aumento ocorre, porém, em um momento de apreensão para parte da comunidade
brasileira, devido ao endurecimento da política migratória do governo Donald
Trump e à intensificação das operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos
Estados Unidos (ICE, por sua sigla em inglês).
Por
isso, para organizações que trabalham diretamente com imigrantes brasileiros, a
eleição não é a principal preocupação de parte da comunidade neste momento. A
Opera Mundi, Rodrigo Godoi, da entidade Mantena, afirmou que o medo das
operações migratórias passou a interferir em atividades básicas do cotidiano.
“O
clima aqui é de sobrevivência, ninguém está nem pensando nas eleições nesse
momento”, afirmou. Segundo Godoi, há pessoas com receio de ir ao supermercado,
levar os filhos à escola ou até mesmo circular pelas ruas.
Solange
Paizante, também da Mantena, afirmou que algumas famílias reduziram
drasticamente suas atividades fora de casa. Ela cita o caso de uma mulher que
estaria há cerca de um ano sem trabalhar, enquanto apenas o marido sai para
garantir a renda básica da família. “As pessoas nem estão pensando ainda nas
eleições, para dizer a verdade”, afirmou.
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Mudança do local de votação provoca críticas
Em Nova York, a apreensão com as
operações migratórias se soma a outro fator: a mudança do local de votação. Nas
eleições de 2022, os brasileiros votaram em Manhattan. Neste ano, o
Consulado-Geral do Brasil transferiu a votação para uma instituição de ensino
no Queens, distrito que concentra uma grande população imigrante e onde
operações do ICE têm provocado preocupação entre organizações e moradores.
O novo
local fica a cerca de 16 quilômetros da sede do Consulado, em Manhattan, e não
tem acesso direto por metrô. A distância pode representar um obstáculo ainda
maior para eleitores que vivem fora da cidade de Nova York: a jurisdição
consular também atende brasileiros de Nova Jersey e da região da Filadélfia.
Representante
legal da ONG Imigra Foundation, Kelly Fontoura pretende votar, mas considera a
escolha do novo local mais complicada.
“O
brasileiro precisa votar. O voto no Brasil é obrigatório e eu acho realmente
importante participar das eleições. Acho que nunca deixei de votar em nenhuma
eleição, mesmo morando fora”, afirmou.
Fontoura
calcula que precisará pegar dois trens e um ônibus para chegar ao local de
votação, mas disse compreender a justificativa apresentada pelo Consulado de
que o espaço deste ano permite que os eleitores aguardem dentro do prédio, sem
a formação de filas na rua. Ela, porém, questiona o trajeto necessário para
chegar até lá.
Para
ela, a localização também pode aumentar a sensação de insegurança entre
eleitores preocupados com possíveis operações migratórias.
A
professora Renata Ross também reclama da dificuldade de acesso. Ela lembra que
os locais utilizados anteriormente em Manhattan eram mais convenientes,
especialmente para brasileiros que chegam de Nova Jersey e dependem do
transporte público.
Apesar
disso, Ross diz que pretende comparecer. “Eu vou encontrar uma forma, porque eu
vou votar, eu não vou deixar de votar. Eu acho que é uma necessidade. Mas
realmente dificulta muito e poderiam ter facilitado”, afirmou.
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Organizações pedem esclarecimentos ao Consulado
De
acordo com Natalia de Campos, do Comitê Defend Democracy in Brazil (DDB),
diferentes organizações iniciaram um diálogo com o Consulado sobre as condições
de acesso ao novo espaço.
Os
grupos realizaram uma pesquisa com eleitores para comparar a experiência de
eleições anteriores e estimar os obstáculos adicionais neste ano. Entre os
pontos analisados estão tempo de deslocamento, facilidade de acesso, custos e
necessidade de utilizar diferentes meios de transporte.
“Temos
essa preocupação não só da dificuldade das pessoas votarem, mas, mais
importante do que isso, [há a preocupação com] a ação significativa do ICE. A
preocupação é não expor as pessoas à ação dos agentes migratórios”, afirmou.
Campos
disse que as organizações pretendem entregar uma carta ao Consulado pedindo
esclarecimentos e discutindo “as possibilidades de qualquer tipo de mudança”.
Ela ressaltou que o diálogo com a Prefeitura de Nova York é uma iniciativa
paralela, liderada pelo DDB, e não deve ser confundido com a articulação dos
diferentes grupos que conversam diretamente com o Consulado.
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Estrutura interna como vantagem
Entre
as justificativas apresentadas para a escolha do espaço está a possibilidade de
acomodar os eleitores dentro do prédio, evitando filas externas. O mesmo local
também foi utilizado nas eleições presidenciais do Peru, realizadas em abril.
Para a
representante do DDB, outros campi universitários poderiam oferecer
características semelhantes, mas com acesso mais fácil por transporte público.
“Sabemos
que o Queens College é amplo, as pessoas não precisariam esperar fora, tem a
própria segurança da universidade”, disse Campos. Ela ressaltou, porém, que não
dispõe de informações específicas sobre como a segurança será organizada no
domingo da eleição.
Fonte:
DW Brasil/Opera Mundi

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