'A
próxima etapa que veremos é ação militar direta dos EUA em diferentes países',
diz jornalista americano
Para o
jornalista Jon Lee Anderson — um dos mais experientes repórteres americanos em
coberturas sobre a América Latina — o maior dano à democracia hoje é feito e
"liderado por ninguém menos que Donald Trump, o presidente dos Estados
Unidos".
Nesta
segunda parte da entrevista do jornalista à BBC News Brasil, Anderson fala
sobre os perigos que o continente americano enfrenta com Trump à frente da Casa
Branca, na sua opinião.
Na
primeira parte da entrevista — que você pode conferir aqui — Anderson falou
sobre a crise no Supremo Tribunal Federal e o ministro Alexandre de Moraes, que
foi tema de um perfil escrito por ele para a revista New Yorker no ano passado.
O
jornalista diz que todo o continente americano vive em uma espécie de limbo —
por causa da "dinâmica de um homem que chegou à Casa Branca e efetivamente
colocou a própria personalidade e os próprios interesses à frente dos da
nação".
"A
próxima coisa que veremos é ação militar americana direta em diferentes países,
supostamente contra o narcotráfico. Tudo isso é preocupante em termos do
respeito à soberania entre as nações."
Anderson
diz que não é só o Brasil que está sob ameaça constante de Trump.
"Até
o Canadá está sendo tratado como se fosse a Coreia do Norte."
Ele diz
que esse estilo de Trump está moldando líderes no continente — muitos deles em
busca da aprovação do presidente americano.
"Vivemos
um momento perverso, e toda a América Latina também. Certos políticos usaram a
relação com os EUA de forma oportunista, para se beneficiarem", afirma
Anderson.
"Deus
os livre de cair no lado errado de Trump: ele poderia fazer qualquer coisa para
se livrar deles."
Jon Lee
Anderson é repórter da revista The New Yorker desde 1998, biógrafo de Che
Guevara e autor de perfis de Hugo Chávez, Fidel Castro e Gabriel García
Márquez. Ele reporta do continente desde os anos 1980, com um método que virou
marca: mergulhar por meses no terreno e conviver de perto com quem retrata.
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Confira abaixo trechos da segunda parte da entrevista:
• Depois da operação contra Nicolás
Maduro, os Estados Unidos concentram a pressão em Cuba, o bloqueio. Você acha
que há, finalmente, uma possibilidade real de ruptura na ilha?
Jon Lee
Anderson – Nunca diria "nunca", mas não estou vendo isso. Os cubanos
estão singularmente acostumados a aguentar privações. Já fizeram isso depois do
colapso da União Soviética, durante cinco ou seis longos anos, o chamado
período especial, quando Fidel ainda estava vivo, e foi terrível na ilha. Eu
vivi lá nessa época.
Depois
veio Chávez, com o dinheiro do petróleo, a troca de médicos e assessores por
petróleo, e a ilha conseguiu reconstruir a infraestrutura. Desde então, houve
uma alternância de aberturas e fechamentos, tanto do regime cubano quanto do
vizinho poderoso, os americanos.
Agora
estamos na pior dessas fases, um bloqueio explícito para asfixiar a ilha e
provocar algum tipo de mudança. Estamos há nove meses nisso, e tem sido
terrível para os cubanos.
Raúl
Castro ainda está vivo, tem 95 anos, frágil. Não há propriamente um presidente
forte: Miguel Díaz-Canel é uma figura apagada, um homem de partido, sem os
plenos poderes que Fidel teve, um indicado, na prática. Enquanto Raúl vive, é
ele quem funciona como líder supremo.
Pensando
no contexto iraniano, Raúl é uma espécie de guia supremo, com uma aura quase
espiritual, por causa da dimensão maior que a vida da Revolução Cubana, que tem
67 anos. Isso pesa sobretudo entre os cubanos mais velhos, digamos acima dos
50, muito mais do que na geração jovem, que mal conheceu o auge da revolução.
A ilha
está num estado extremamente vulnerável, porque quase todos os seus alimentos,
todo o seu combustível e o dinheiro vêm dos Estados Unidos, seja por remessas
levadas por parentes, seja pelos alimentos que os americanos permitem importar,
e até o petróleo.
Há
petróleo entrando, mas só para empreendedores do setor privado, que não podem
partilhá-lo com o Estado, com o propósito explícito de minar o regime, de
fazê-lo parecer ainda mais fraco. O regime comunista está atolado na areia
movediça, não consegue fazer nada, porque não tem meios. Você esperaria que
alguém apertasse um botão de pânico.
Houve
negociações entre os EUA e um neto de Raúl, mas isso parece ter parado, por
causa da oposição dos políticos cubano-americanos linha-dura de Miami, que
querem ditar os termos.
Pela
minha compreensão, tendo estado há pouco em Washington, nada vai mudar de
imediato, até depois das eleições de meio de mandato americanas. Os americanos
chegaram a uma espécie de fundo do poço: não sabem com quem tratar. O neto de
Raúl, o Raulito, parecia um novo tipo de cubano, disposto a fazer negócios. Mas
não tem respaldo institucional.
• Esse neto de Raúl tem um diálogo aberto
de negociação com os EUA. O que você acha?
Anderson
– Ele teve. Diálogo aberto, encontrou-se com emissários, incluindo Marco Rubio.
Mas a posição dele na ilha foi enfraquecida, porque os leais mais linha-dura
dentro do regime deixaram claro que ele não tem o respaldo deles.
E, do
lado americano, os linha-dura cubano-americanos de Miami também deixaram claro
que não vão negociar com um Castro. Isso, na prática, algemou o pessoal de
Trump.
Mas não
acabou. Neste momento, eles estão deixando quieto, porque não há o que fazer, e
têm a própria sobrevivência política em jogo nas eleições de meio de mandato.
Depois disso, veremos ou um aprofundamento, ou a continuidade da mesma
política.
O que
eu ia dizer sobre Raúl é que sempre achei que, quando ele morrer, o que é
inevitável, como se dizia de Fidel, a inevitabilidade biológica, haverá maior
possibilidade de mudança, porque remove uma figura extraordinária, por mais
velha e fraca que esteja.
Remove
a qualidade espiritual, com "e" minúsculo, mas ainda assim, a última
figura icônica da revolução sai do tabuleiro. E isso libera os jogadores
menores para competir. Seria de fato o fim da era Castro. Há um neto, há um
filho de Raúl, nenhum dos filhos de Fidel está no jogo.
E há
uma sensação de que os EUA têm hoje mais influência sobre o destino de Cuba do
que nunca. Então o jogo, como se diz no esporte, está aberto. Veremos como se
desenrola no próximo ano.
• Os partidos de direita radical no Brasil
vêm dizendo que talvez Maduro faça um acordo, uma delação, envolvendo Lula.
Você ouviu falar disso?
Anderson
– Não ouvi falar disso. E não sei se isso o ajudaria. Não consigo vê-lo fazendo
isso. Qualquer coisa é possível neste mundo, já vimos gente mudar de lado. Mas
Maduro, para salvar a própria pele e a da mulher, delatando abertamente todo
mundo da esquerda, assim?
Isso
seria bastante chocante, nunca vimos algo assim. Nem Noriega, que enfrentava
prisão perpétua e efetivamente a cumpriu, fez isso. E, sem dúvida, ele estava
mais diretamente envolvido com o narcotráfico do que qualquer evidência que eu
tenha visto sobre Maduro.
Entrevistei
Noriega perto do fim da vida dele, na prisão, e conversamos sobre tudo.
Ele
disse que tinha um único arrependimento: ter falado com tanta força contra os
EUA, porque a certa altura ele brandiu um facão, "venham para cima",
e eles vieram. Disse que não deveria ter feito aquilo. Riu, um riso amargo, mas
riu, depois de 30 anos preso.
Perguntei
se estava amargurado com os americanos, a CIA. Ele disse que não, que eles
estavam fazendo o trabalho deles. Um sujeito curioso, mas não entregou ninguém.
Manteve seus álibis até o fim.
Maduro
é o mesmo tipo de homem? Não sei. Talvez amanhã eu me surpreenda, mas não
consigo vê-lo tentando usar Lula para se salvar.
• Você acompanha a América Latina há tanto
tempo. Como se sente em relação à direção que o continente está tomando,
Argentina, Colômbia, Chile, Venezuela, Equador, e talvez o Brasil?
Anderson
– Acho um período muito preocupante. O que eu disse no começo, sobre o Brasil
estar no limbo, vale para toda a América Latina agora. Está sob o efeito Trump.
Há esse personagem detestável no Pentágono, Pete Hegseth [secretário de Defesa
dos EUA], que parece querer explodir tudo em todo lugar.
A
próxima coisa que veremos é ação militar americana direta em diferentes países,
supostamente contra o narcotráfico. Tudo isso é preocupante em termos do
respeito à soberania entre as nações.
Essa
ideia de igualdade entre as nações, seja qual for o tamanho delas, foi jogada
de lado em favor de um desenho hegemônico do país mais forte da vizinhança, que
por acaso são os EUA sob Trump. Até o Canadá está sendo tratado como se fosse a
Coreia do Norte.
Vivemos
um momento perverso, e toda a América Latina também. Certos políticos usaram a
relação com os EUA de forma oportunista, para se beneficiarem.
Deus os
livre de cair no lado errado de Trump: ele poderia fazer qualquer coisa para se
livrar deles. Poderia decidir que são narcotraficantes e vir buscá-los.
Poderia, através do amigo Elon Musk, dar centenas de milhões de dólares para
afetar a eleição que enfrentam.
Podem
instrumentalizar os sistemas de telecomunicação, as redes sociais, contra eles.
Estão realmente sob o domínio, agora mais do que nunca, de uma potência
hegemônica que já mostrou ter, em alguns casos, impulsos perversos.
Dito
isso, é válido também perguntar: o que aconteceu com a esquerda? Com a esquerda
progressista, iluminista, liberal, sem falar da mais radical? Como permitiram
que isso acontecesse? Como a extrema direita populista está tomando conta de
todos esses países? Que erros cometeram?
É uma
discussão longa, para outra hora, mas tem muito a ver com prestar reverência a
homens fortes supostamente de esquerda, Ortega, os Castro, Maduro, Chávez antes
dele, como as figuras máximas da esquerda, sem criticá-los pelos excessos,
alguns muito maiores que outros, em liberdades civis e na própria corrupção.
A
esquerda se juntou em torno deles, não evoluiu, e permitiu que essa esquerda
extrema retórica e grandiloquente persistisse, sem construir as próprias
alternativas social-democratas, que é o que a maioria das pessoas mais quer.
O que a
maioria de nós quer para a família? Boas escolas para os filhos, ruas seguras,
saúde decente e acessível, e um teto.
Isso é
a matéria da social-democracia. Onde você a consegue sem ter de lutar por ela?
Na Escandinávia, que tem um mix de pilares socialistas e capitalistas. O resto
de nós nunca acertou bem a mão.
Você
não precisa ir e matar todo mundo de óculos, como o Khmer Vermelho no Camboja,
e voltar ao Ano Zero para construir uma vida nova e utópica. E, mesmo que não
faça isso na prática, também não precisa fazê-lo na retórica.
Lula é,
provavelmente, o líder. Eu diria que Pepe Mujica antes dele. Dos líderes de
esquerda que mais representaram essa ideia de uma esquerda pragmática, que
inclui o capitalismo, mas insiste num Estado grande que cuida dos mais
necessitados, Lula e Mujica, cada um na sua dimensão, são os que mais chegaram
perto.
Eu ia
mencionar Claudia Sheinbaum, mas ela está numa posição difícil, no México,
fazendo fronteira com os EUA, o que é outra história. Boric, no Chile, fez uma
tentativa valente nos seus quatro anos como jovem líder. Mas foram tentativas
dispersas e separadas, que nunca se aglutinaram. Petro, na Colômbia, na minha
visão, desperdiçou as próprias possibilidades pelo próprio comportamento.
Vemos o
começo de uma tentativa de reconstruir a noção de progressismo na América
Latina, assim como nos EYA, mas ainda não chegou lá.
Quem
vai substituir Trump, se for um democrata? Será Gavin Newsom, alguém que parece
ter saído de Hollywood, mas talvez um sujeito completamente decente? Ou será
alguém como Alexandria Ocasio-Cortez, uma protegida do tipo Bernie Sanders,
socialista democrata, um personagem como o Zohran Mamdani?
Não
sabemos.
Mas o
que sabemos é que nem nos EUA, nem no Brasil pós-Lula, nem em nenhum outro
lugar da América Latina se vê uma esquerda liberal democrática coesa,
unificada, forte, fácil de visualizar, um político ou um movimento. Enquanto na
direita isso existe.
É
Trump, é o MAGA, é reacionário e antielitista. Mas, neste caso, a direita é
reacionária e antielitista também contra a elite intelectual, a elite educada,
e é isso que é assustador no que vem da extrema direita. Temos muita coisa pela
frente, João. Vai ser um tempo interessante e muito preocupante.
Fonte:
BBC News Brasil

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