quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Caso Master: Grande imprensa repete erros da Lava Jato e aposta em vazamentos seletivos

Em 16 de março de 2016, por volta das 17h, o então juiz Sergio Moro levantou o sigilo de interceptações telefônicas e liberou à imprensa o áudio de uma conversa entre a então presidente Dilma Rousseff e o hoje presidente Lula. Em minutos, o país lia variações da mesma manchete:

Todas essas manchetes têm uma coisa em comum – e não é o assunto, mas a origem. Nenhuma nasceu de uma apuração própria do jornalismo. Todas vieram de um único gesto: um vazamento. Melhor dizendo: de um único e muito interessado gesto.

Três anos depois daquele ruidoso março de 2016, acontecia a histórica série de reportagens do Intercept Brasil que ficaria conhecida como Vaza Jato: ela mostraria que as informações passadas para a imprensa foram combinadas entre Moro e o então procurador Deltan Dallagnol, e que a Globo divulgou o áudio antes de o restante da imprensa seguir atrás.  A emissora, aliás, tinha um apreço muito, mas muito especial pelo “pessoal de Curitiba”, como mostra essa reportagem publicada pelo Intercept naquele momento.

A conversa entre Dilma e Lula foi captada depois de o próprio Moro ter mandado a Polícia Federal interromper as escutas. Era, portanto, ilegal. E o seu conteúdo (Dilma avisando que mandava o termo de posse “em caso de necessidade”) foi vendido dramaticamente como prova de obstrução.

No mesmo mês, depois de levar uma prensa do Supremo Tribunal Federal por atos ilegais, o super ativista juiz pediria desculpas – escusas, para ficar no termo que ele ajudou a popularizar.

Dois dias depois do vazamento, o Supremo – sem dúvida o ator mais famoso do Brasil nas últimas semanas – suspendeu a posse de Lula. As ruas se encheram.

Uma década se passou e, como sabemos, ainda vivemos a ressaca daquilo. Boa parte do caldo que deixou a extrema direita bem fortinha no Brasil foi cozinhado ali.

(E ele está sendo cozinhado de novo, como vocês sabem).

<><> Lava Jato e dez anos depois o mesmo filme

A Lava Jato começou como algo que parecia virtuoso: expôs corrupção real, prendeu poderosos, alimentou a sensação de que a lei valia para todos. Mas o método pelo qual foi narrada – o gotejamento seletivo de informação sigilosa, sempre mirando o mesmo lado – fez um estrago que não estava no roteiro oficial: corroeu a confiança do país na política como um todo e transformou o PT, Lula e as esquerdas em vilões quase eternos de um enredo escrito por quem detinha o sigilo. Volto a dizer: na produção de “vilões” e “mocinhos”, saímos perdendo feio como sociedade.

A imprensa, de maneira quase sempre ciente, foi a super plataforma desse storying teller.  Não perguntou diversas vezes ali o que seria essencial para o interesse público: quem me deu essa informação, com que fim e o que essa pessoa quer ao me entregar isto?

Assim, de maneira muito “objetiva”, “só relatando a verdade doa a quem doer”, reproduziu e amplificou um sem-número de acusações. Virou, também de maneira ciente, o alto-falante do vazador. A jornalista Cristina Serra escreveu de maneira muito clara sobre como o lava-jatismo tornou-se uma praga no jornalismo brasileiro.

Dez anos depois, estamos assistindo ao mesmo filme, só que com novos projecionistas. No caso do Banco Master, o relator André Mendonça retirou o sigilo de parte da investigação (a poucos dias do sete de setembro, uma questão eloquente). Durante dias, pipocaram as manchetes:

Também aqui as chamadas têm uma origem comum, e, novamente, não é o assunto, mas sim a mão que abriu – parcialmente – o envelope. É importante frisar esse aspecto, uma vez que a parcialidade faz com que o jogo já chegue devidamente filtrado e desequilibrado à redação.

E a redação, na maior parte das vezes, joga do jeito que o vazador quer que se jogue (e que pode ser o jogo de quem comanda a redação).

A entrada de André Mendonça na corte foi extensamente publicizada, uma vez que ele chegou ao cargo após o ex-terrivelmente presidente Jair Bolsonaro anunciar que escolheria um “terrivelmente evangélico” para o STF.

Mendonça enfrentou diversos chás de cadeira até ser aceito pela maioria no Senado, e durante todo seu périplo teve a ex-primeira dama Michelle Bolsonaro como fiel escudeira.

Vamos, assim, combinar: o fato de André Mendonça ter sido considerado, até há pouco tempo, muito discreto e “equilibrado” (como Moro outrora também foi), não deveria tê-lo blindado de ser visto com um pouco mais de ceticismo pela imprensa. Ceticismo, aliás, é algo que cai muito bem ao jornalismo, recomendo.

Vazamentos, seja de quem quer for, devem ser considerados dentro de contextos mais expandidos do que as informações em si. Vazamentos são armas políticas e devem ser tratados como tais. Desconsiderar isso é coisa de cúmplice.

<><> Don Juan de Marco

Os gravíssimos fatos sobre Moraes – a começar pelo já sabido contrato firmado pelo escritório de sua mulher, Viviane Barci, e o Master – não devem ficar na escuridão (ainda me impressiono com o fato de um ministro que teve um papel importante na vida democrática brasileira esteja nessa situação. Ingenuidade minha? Possivelmente. Mas prefiro estabelecer um limite para meu próprio cinismo).

Mas, igualmente, não deveriam ser colocados nas sombras os outros contatos que ministros do STF sabidamente tiveram com Vorcaro, o presidiário e ex-estrela da Faria Lima.

Desde o ano passado, por exemplo, soube-se primeiro que Dias Toffoli tinha ligações meio Tayayá-Tayaô (desculpa, Wando) com Vorcaro. Moraes também. Na esteira, já este ano, soubemos que Kassio Nunes Marques, Luiz Fux e André Mendonça também estiveram ao lado deste homem que deveria ser incluído urgentemente em alguma montagem do clássico Don Juan de Marco (categoria ladrão de velhinhos e banqueiros), de tão gigante que é seu poder de atração.

Mas é isso: apesar das tantas e jornalisticamente apetitosas relações entre ministros e o ex-banqueiro e atual presidiário, parte dos veículos de imprensa nacionais preferiram  sobreviver das revelações de Mendonça.

Na Folha de S.Paulo, foram semanas de notícias sobre Fábio Luís da Silva, filho do presidente, algo que provocou espécie em muita gente e foi comentado pela própria ombudsman do jornal após provocação dos leitores (link no fim deste texto).  Adivinhem quem é o ministro que está com o caso nas mãos? Isso mesmo, o “equilibrado” Mendonça.

É preciso dizer (e seguir, e compartilhar) veículos como a revista piauí, este Intercept, o Noites Húngaras, ICL Notícias e a Agência Pública não se contentaram com o pinga-pinga e estão fazendo o jornalismo necessário em tempos de tentativa de quebra da nossa já estropiada democracia.

Lava Jato e o Caso Master possuem os vazamentos como similaridade jurídico-jornalística, mas há uma enorme diferença entre eles após tomarem manchetes (e as ruas): o primeiro só foi colocado em devido escrutínio público anos depois, quando o Intercept revelou conversas e dados que tornaram mais sublinhada a ação parcial da Justiça (Moro) e Ministério Público (Dallagnol) em relação a Lula e o PT.

Com o Master, não: o próprio STF, conflagrado, tornou-se uma grande fonte vazando dados antes protegidos por sigilos para todos os lados. O resultado é uma guerra de informação que em muito pode beneficiar a extrema direita que em um passado recente o STF ajudou a combater.

<><> Briga interna

A diferença entre Lava Jato e Caso Master ilumina um ponto que deveria envergonhar a nossa profissão: parte relevante da cobertura só começou a olhar para outros cantos quando outros ministros se mexeram. Foi Moraes denunciando a “escolha seletiva”, foi a PGR (Gonet também citado no escândalo) cobrando a abertura total, foi Fachin dando 24 horas para o sigilo cair inteiro. Ou seja, foi a briga interna do tribunal que empurrou colegas da imprensa a procurarem o que faltava.

A “independência” apareceu como efeito colateral de uma disputa alheia, não como fruto do faro investigativo. Uma imprensa reativa ao poder, e não uma imprensa que pauta o poder.

Publicar informação de interesse público vinda de um vazamento é dever do jornalismo, não pecado. Mendonça nega ter agido com seletividade: sustenta que “jamais poderia publicizar” a totalidade dos autos porque parte envolve dados bancários e fiscais e investigações em curso, e que liberou tudo o que se referia ao julgamento em pauta.

A questão é que o problema nunca foi publicar, mas deixar de tornar visível, ao leitor (e eleitor), que ele está vendo uma fatia precisamente escolhida de toda história.

Um vazamento é uma lanterna: ele ilumina apenas um ponto com precisão, justamente para manter todo o resto na sombra. Uma imprensa que não pergunta quem está segurando a lanterna acaba virando a lanterna (ou, como eu disse antes, cúmplice). Aprendemos isso do jeito mais duro em 2016. Ou melhor: a pergunta que fica, agora, é se realmente aprendemos alguma coisa.

Para saber mais: a “instrumentalização” da imprensa (pessoalmente acredito que há mais cumplicidade do que instrumentalização) foi analisada por Alexandra Moraes, ombudsman da Folha, neste texto. No podcast Calma, Urgente, Alessandra Orofino também tocou no assunto.

•        Vera Magalhães e o ódio de classe que o lavajatismo e o bolsonarismo fizeram crescer no Brasil. Por Ricardo Nêggo Tom

Desde 1500, as elites do país expressaram cordialmente o seu ódio contra os mais pobres, os menos brancos e todos aqueles que, de alguma forma, não as refletem no espelho. Porém, no meio do caminho pavimentado para que seus herdeiros fossem eternamente privilegiados pela estrutura desigual de sociedade criada por elas, havia uma pedra. Um obstáculo sindicalista oriundo das camadas mais pobres da população brasileira. Justamente da classe social estabelecida para servir e agradecer pela oportunidade de fazer, com o seu árduo e mal remunerado trabalho, esta elite ficar cada vez mais rica. Essa pedra se chamava Lula. E ela continua no sapato dessa elite, porque se tornou um símbolo de resistência contra ela.

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Voltemos ao Nordeste dos anos 1970 e 1980. Lá, encontramos a fome, a seca, a morte e a incerteza da sobrevivência por parte daqueles que ainda resistiam. Entre 1979 e 1984, a região foi vítima de uma estiagem que gerou uma crise famélica sem precedentes no sertão do país. Sem água, o pasto secava, o gado morria e os pequenos agricultores não tinham de onde tirar o sustento. A mortalidade infantil era extrema. Não apenas no Nordeste, mas também em todo o país. Dados da década de 1970 registravam o número assustador de 120 óbitos para cada mil crianças que nasciam vivas. Uma em cada oito crianças não ultrapassava o primeiro ano de vida. Não havia programas de transferência de renda, políticas de combate à fome ou projetos sociais voltados para a assistência aos mais vulneráveis. O desespero levou a população nordestina a promover saques em mercados, feiras livres e redes de abastecimento alimentício para ter o mínimo para sobreviver.

Diversas eram as causas dessas mortes de crianças e dos altos índices de pobreza que afetavam o país. Falta de saneamento básico, baixa cobertura vacinal e, sobretudo, a insegurança alimentar. A fome era endêmica. Mas a estrutura política e social permanecia intocável, privilegiando os herdeiros das capitanias. Famílias muito conhecidas hoje no meio político já davam as cartas no Nordeste. E nunca se preocuparam em mudar aquela situação. Porque tudo fazia parte do projeto de sociedade elaborado meticulosamente para matar os mais pobres de fome, de raiva e de sede. Tudo em forma de gestos naturais, como escreveu Caetano Veloso em “Podres Poderes”. E não dava para cantar afinado com eles. Muito menos silenciar em respeito a um transe social que só provocava êxtase nos mais favorecidos. Seria indecente. E Lula não foi, não é e nunca será. É daí que surge o ódio à sua figura política, à luta dos trabalhadores através do partido que ele ajudou a criar e a tudo o que ele representa de ruim para uma elite escravocrata, rancorosa e violadora dos direitos fundamentais de todo cidadão.

Desde que Lula assumiu a presidência, em 2002, o Brasil passou por diversas transformações sociais e econômicas. O Nordeste e os mais pobres, que antes eram vistos como “problemas” para os governos anteriores, passaram a ser a solução para a reconstrução do país. Incluir o pobre no orçamento da União retirou o Brasil do mapa da fome e fomentou políticas de inclusão social e educacional. Promoveu a criação de moradias populares através do Minha Casa, Minha Vida, acabou com a insegurança alimentar por meio do Bolsa Família, melhorou o acesso à saúde por meio de mais investimentos no SUS e aumentou o poder de compra do cidadão comum. Obviamente, em função dos expressivos números negativos herdados de gestões passadas, Lula e, posteriormente, a presidenta Dilma não acabaram com a pobreza no país. Ela ainda persiste. Em menor número, mas ainda é grande. Graças a uma pedra que a elite colocou no meio do caminho do avanço social da população mais pobre: a Lava Jato.

Interromper os governos do PT sob a égide do combate à corrupção foi a missão recebida por Sérgio Moro e companhia jurídica limitada. Foram sete anos de ações ilegais, prisões sem provas, abusos de autoridade, lawfare e sabotagem política contra o país. Dilma Rousseff foi impichada, mas Lula era o alvo. Criminalizar aquele que ousou desafiar a estrutura montada para que os mais ricos mantivessem os mais pobres sob opressão infinita era uma questão de honra movida por ódio. E a jornalista Vera Magalhães, a mesma que hoje tenta passar a imagem da nova namoradinha do Brasil no jornalismo, estava entre aqueles que abraçaram esta causa com unhas, dentes e muito ódio. Ódio porque tinha pobre e preto nas universidades criadas exclusivamente para brancos e ricos. Ódio por dividir o mesmo assento no avião com pessoas que deveriam estar viajando de ônibus. Ódio porque tinha pobre se formando, conseguindo um emprego melhor e deixando o subemprego que a elite burguesa reservou para ele como destino.

Não adianta Vera Magalhães fazer um mea-culpa sob a forma de análise política, chamando a atenção para o ódio de classe contra Lula, a esquerda e o PT, quando ela colaborou com o surgimento do bolsonarismo que ela agora critica. Sim. Existe um ódio de classe contra Lula. Sempre existiu. E Vera, quando apoiou a Lava Jato e seus desmandos jurídicos, também alimentou esse ódio. Reconhecer o crescimento econômico e a redução da desigualdade no país durante os governos do PT é reconhecer o óbvio. De fato, a maioria que votou em Bolsonaro e votará no seu filho mais corrupto nas próximas eleições não o faz por convicção política nem por querer um país melhor. Até porque o país ficou melhor com Lula na presidência. O faz por ódio ao que Lula representa. Não por acaso, a maior parte do eleitorado bolsonarista é branca e de classe média alta.

O bolsonarismo avoca para si a condição de falar pelo verdadeiro povo brasileiro no combate à corrupção. É a reprodução do discurso lavajatista e hipócrita que politizou o Judiciário nacional. É a resposta da elite burguesa que apostou numa família de milicianos, rachadores, trapaceiros e mamadores do dinheiro público como a sua tábua de salvação contra a inclusão social que Lula promoveu no país. O caráter bolsonarista é o mesmo da elite burguesa brasileira. É o mesmo da Lava Jato. É o mesmo daqueles que querem o seu país de volta. Um país onde a fome matava crianças recém-nascidas e onde a seca castigava o povo do Nordeste. Um país onde os preconceitos eram naturalizados e suas vítimas não tinham o direito de se defender. Um país perfeito que foi “destruído” por um pobre operário nordestino e “analfabeto”, que “roubou” o que era da elite para tentar fazer justiça social. Esse “ladrão” destruiu o país que queríamos deixar para os nossos netos. Que ódio!

O mais grave de tudo isso é que o poder social, econômico e político das elites brasileiras, que permite que elas moldem e manipulem subjetividades, é capaz de fazer com que até mesmo os mais pobres e os menos favorecidos absorvam esse ódio de classe. É daí que surge o pobre aporofóbico, o preto racista, o favelado elitista, o gay homofóbico, a mulher machista, o cristão diabólico. A ausência de consciência de classe também é um projeto. Vejo com tristeza pessoas que foram beneficiadas com as políticas implementadas pelos governos Lula e Dilma se aliando a um projeto de poder que gostaria que elas tivessem permanecido onde estavam. No mapa da fome, da seca, da falta de dignidade e da inexistência. Na mira da morte. É puro ódio.

 

Fonte: Por Fabiana Moraes, em Intercept Brasil/Brasi 247

 

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