quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Valter Pomar: Lula e os ricos

Duvido que as estatísticas e a “ciência” política respaldem esse aspecto do que ele diz, mas, apesar ou por causa disso, Lula é reincidente em se apresentar como alguém que teria sido generoso com os ricos.

Sua frase clássica a respeito parece ter sido publicada pela revista Veja, em setembro de 2006: “A única frustração que eu tenho é que os ricos não estejam votando em mim. Porque eles ganharam dinheiro como ninguém no meu governo”.

Outra frase, sobre os banqueiros, foi publicada pela Folha de S. Paulo, em agosto de 2007: “Posso garantir que foram os que ganharam muito dinheiro neste país, no meu governo. Aliás, a parte mais pobre é que deveria estar mais zangada, porque ela teve menos do que eles tiveram”. 

Quase vinte anos depois, em setembro de 2026, num comício em Florianópolis, Lula perguntou: “Por que o agro é contra nós? Só pode ser uma questão de eu ser nordestino, porque se fosse por dinheiro, deveriam se ajoelhar para mim, já que nunca houve tanto dinheiro para o agro como agora”.

É provável que estas perguntas de Lula sejam exclusivamente retóricas, assim como é possível que alguém já tenha alertado o presidente sobre a impossibilidade estatística dele – em três mandatos presidenciais, aos quais se deve somar os de Dilma – ter feito mais pelos de cima do que fizeram os demais presidentes do Brasil, absolutamente todos vinculados, direta ou indiretamente, à classe dominante.

Mesmo assim, as frases citadas de Lula são uma excelente demonstração da contradição mortal existente, tanto na estratégia da tendência atualmente majoritária no nosso Partido dos Trabalhadores, quanto na estratégia que prevaleceu no movimento comunista brasileiro, pelo menos entre 1922 e 1990.

A saber: a ideia de que caberia à classe trabalhadora ajudar a desenvolver o “capitalismo brasileiro”, contribuindo para eliminar seus excessos, defeitos e obstáculos.

Os partidos comunistas nunca tiveram força suficiente para tentar levar à prática esta tese. 

Já nós petistas conseguimos conquistar, por cinco e logo mais por seis vezes, a presidência da República. E colocamos o governo federal a serviço, ao menos parcialmente, daquela tese.

Qual foi o resultado disso? 

Entre muitas outras coisas, descobrimos – embora a ficha ainda não tenha caído para boa parte da “cúpula” – que o maior obstáculo para reformar o capitalismo brasileiro é… o grande empresariado capitalista.

Podemos entupir essa gente de dinheiro. Eles não mudam. E não mudam porque – ao menos na época em que vivemos – o capitalismo realmente existente é isso aí que conhecemos. Portanto, inconciliável com a ampliação do bem estar, das liberdades, do desenvolvimento e da soberania de um país como o Brasil.

Podemos fazer ou falar o que quisermos. Os grandes capitalistas sempre darão um jeito de fazer com que nossa sociedade continue dependente, uma das mais desiguais do mundo, com pouca soberania e muita plutocracia política.

E os grandes capitalistas não se contentam com receber – palavras de Lula – muito dinheiro de nossos governos. Eles querem sempre mais, eles querem tudo.

Por isso o golpe e o governo golpista de 2016-2018, por isso o governo do cavernícola pai, por isso o ilegal parlamentarismo-de-emendas e o Banco Central independente, por isso a candidatura do cavernícola filho tendo o apoio que tem.

Sendo assim as coisas, precisamos escolher: ou o masoquismo que insiste nessa relação tóxica ou um divórcio litigioso que nos emancipe dessa lógica que leva o ministro Durigan a se sentir no direito e na obrigação de “justificar” que o recente aumento do Bolsa Família não foi “real”, foi apenas um reajuste para compensar a inflação.

Ouvindo tamanha merda, um velho anarquista espanhol provavelmente diria que “o Brasil só será realmente livre quando o último banqueiro privado tiver sido enforcado nas tripas do último latifundiário”.

A preços de hoje, me contentaria com um pacote de reformas estruturais que faça os capitalistas perderem bastante e faça o povo ganhar muito. E poderia começar, já, pelas Bets. Afinal de contas, gentileza com gentileza se paga. 

¨      Campanha Lula deve manter a iniciativa. Por Valérrio Arcary

Tudo se decidirá em duas semanas. Mas quem tem iniciativa tática conquista vantagem. Prevaleceu, finalmente, no comando da campanha, o sentido de máxima urgência diante de uma eleição indefinida. As decisões de aumentar o valor do Bolsa Família, de assumir o acesso às canetas emagrecedoras, gratuitamente, pelo SUS, e enfrentar a epidemia de endividamento pelas bets como uma tragédia de saúde pública vieram atrasadas, mas ainda a tempo de incidir na disputa da pauta das eleições, ao lado do fim da jornada 6×1. A apresentação da biografia de Lula e, mais importante, a defesa do legado do governo, em especial diante da inescapável comparação com as calamidades da gestão Bolsonaro, foram necessárias nas primeiras semanas de campanha. Foi, também, uma decisão justa fazer a defesa da soberania, diante da interferência de Trump, e da democracia, diante do perigo autoritário do retorno do bolsonarismo ao poder, ambicionando uma maioria absoluta no Congresso, em especial no Senado, e o controle do STF (Supremo Tribunal Federal) com a nomeação de ministros “terrivelmente” reacionários. 

Mas a dinâmica da disputa exigia um reposicionamento emergencial, assumindo novos compromissos para o futuro, porque esta eleição é diferente da campanha de 2022. Um giro era necessário, e oxalá se mantenha. O que não avança, recua. Propostas como a defesa da regulamentação de imposto sobre as grandes fortunas e o passe livre, como exemplos de compromissos para o quarto mandato, mereceriam ser, também, consideradas. Não só têm audiência de massas e podem energizar a mobilização da militância que será indispensável, mas respondem a expectativas adiadas por décadas que podem fazer a diferença em uma eleição que será definida por uma margem de votos dramaticamente estreita. A resposta ao medo deve ser a agitação da esperança de que dias melhores virão.  

A sessão do STF foi um escarcéu, confirmando que não havia remédio jurídico para um julgamento político. Mas o desfecho permitiu ganhar tempo. Foi evitado que as duas últimas semanas de campanha eleitoral tivessem como pauta a corrupção. Devemos ter sentido de perspectiva considerando a correlação de forças no Tribunal e na sociedade. Pior teria sido se fosse iniciada a investigação somente contra Xandão, porque este desenlace iria eletrizar o núcleo duro bolsonarista associando Lula a Alexandre de Moraes em um amálgama manipulador e desonesto. Melhor teria sido, evidentemente, se tivesse vencido a questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes, e todos os ministros suspeitos de envolvimento com favores de Vorcaro – todos, sem exceções –, fossem investigados. Mas isso era impossível. A solução do impasse pelo pedido de vistas de Dino foi um mal menor. Impasse é muito melhor do que derrota. O objetivo de Fachin era abrir a investigação contra Alexandre de Moraes antes do primeiro turno, o que turbinaria, inevitavelmente, a campanha “Fora Xandão, Fora Lula”. Ninguém deveria se surpreender que tenha sido apoiado por Fux o ministro que absolveu Bolsonaro no julgamento por golpismo. Mas é bom lembrar que foi por um triz. Felizmente, as informações disponibilizadas no celular de Vorcaro, na véspera e sob intensa pressão, provocaram pânico em Nunes Marques, que se declarou impedido. Mas estão equivocados aqueles que, na esquerda, se uniram à louvação de Carmem Lúcia, deixando-se “hipnotizar” pela defesa da “dignidade” do Supremo. O voto dela contra um julgamento unificado de todos os envolvidos em relações suspeitas com Vorcaro favoreceu a manobra de Mendonça, e revelou uma completa incompreensão do perigo neofascista colocado por uma possível volta do bolsonarismo ao poder.

A fração liberal da classe dominante apoiou, irresponsavelmente, a manobra de Mendonça de manipular a eleição associando Lula a Alexandre de Moraes como denúncia de um “sistema podre de corrupção”. Facilitaram a tentativa de subverter a pauta do debate eleitoral para elevar o nível de exigências à candidatura Lula. Não têm muitos votos além da classe média abastada, mas têm peso político-social. Ninguém pode desconhecer que a pauta da corrupção favorece a extrema direita. Este paradoxo é escabroso porque é um fato inescapável que o candidato Flávio Bolsonaro manteve relações indefensáveis com o banqueiro preso Vorcaro. Mas grandes grupos capitalistas que se expressam através da Rede Globo e Folha de São Paulo, além de outras empresas de comunicação social, estão fazendo, despudoradamente, um ultimato para que Lula se comprometa com um ajuste fiscal que garanta pelo menos entre 2% e 3% de superávit fiscal. Encontraram acolhida em setores do governo, como o ministro da Fazenda Dario Durigan, que sinalizou até a desvinculação do salário mínimo como piso da remuneração dos benefícios da Previdência Social. A grande mídia comercial está flertando com a catástrofe: o perigo de uma nona vitória da extrema direita (Argentina, El Salvador, Equador, Chile, Bolívia, Honduras, Colômbia e Peru), desde que Trump voltou ao poder é real e imediato. A chantagem da Casa Branca vai ficar mais ameaçadora nas próximas duas semanas, a pretexto do discurso de Lula na abertura da Assembleia das Nações Unidas. Já ficou demonstrado que a agitação de represálias contra o Brasil para disseminar o medo é funcional. Devemos estar conscientes de que a interferência dos EUA, que começou há um ano em julho de 2025 com o tarifaço, pode ser decisiva. 

O resultado da campanha eleitoral está imprevisível. Tanto podemos vencer quanto perder. A mais recente pesquisa Datafolha revelou, pela terceira semana seguida, apesar do tumulto no STF, que se mantém um empate técnico no segundo turno de Lula (46%) contra 44% de Flávio Bolsonaro, e rejeição de ambos em 47%. Confirmou, também, que é muitíssimo provável que haja um segundo turno, e que a diferença a favor de Lula no primeiro turno veio diminuindo. Mas sinaliza um aumento da aprovação do governo, e esta é a informação mais animadora. Todas as oscilações são nos limites da margem de erro. Dados desagregados mais relevantes são que Lula mantém maioria entre os mais pobres (46% a 29%) que representam gigantescos 49% do eleitorado, no Nordeste (56% a 26%) que correspondem a 27%, defende um empate técnico, ainda que numericamente atrás, no Sudeste que concentra 42% da população (35% a 37%), vantagem entre os menos instruídos (47% a 30%), que são 28% do da sociedade, e católicos (43% a 34%) que são metade do povo. Bolsonaro mantém vantagem entre os remediados (41% a 33%) que ganham entre 2 e 5 salários-mínimos, e são 34% da classe trabalhadora e, sobretudo, na classe média acima de 7,5 mil reais (44% a 28%), que são 12% do eleitorado, embora a margem de erro da pesquisa nos dois segmentos seja de 6 pontos. Mantém vantagem no Sul (45% a 27%), que são 15% dos eleitores. A extrema-direita tem maioria entre os brancos e quem tem escolaridade média, além de diminuir a desvantagem entre as mulheres. Mas Lula tem 35% na pesquisa espontânea, menos 4% que na estimulada, e Flávio 26%, menos 10% que na estimulada: uma adesão menos consolidada, em um contexto em que 21% não fizeram sua escolha. Isso significa que há ainda um espaço grande de disputa. Onde a votação de Lula pode crescer? O que a história dos últimos dez anos nos sugere é que será entre os trabalhadores, negros e mulheres, considerando que na classe média se consolidou um anti-lulismo ressentido. Devemos esperar, também, que uma parte dos 15% de preferências que se distribuem entre Cury, Caiado, Renan e Zema se deslocarão para Bolsonaro já no primeiro turno.

<><> BTG/Nexus mede pela primeira vez a expectativa da vitória de Lula

A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (21) trouxe um indicador novo na série: a expectativa dos próprios entrevistados sobre quem vai vencer a eleição, independentemente de seu voto pessoal. O resultado mostra 54% acreditando em vitória de Lula, contra 36% que esperam vitória de Flávio Bolsonaro. É uma métrica conceitualmente diferente de intenção de voto, e historicamente tende a ser mais estável e menos suscetível a efeito de desejo do entrevistado, o que a torna um termômetro complementar interessante à leitura pura de quem lidera hoje.

No cenário estimulado de primeiro turno, Lula tem 40% contra 37% de Flávio, distância de 3 pontos dentro da margem de erro de 2 pontos. É recuo em relação à rodada de 14 de setembro, quando Lula tinha 42% e Flávio, 37%. Na pesquisa espontânea, Lula lidera por 40% a 34%.

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No segundo turno, Lula aparece numericamente à frente de Flávio por 46% a 45%, dentro da margem de erro, e o quadro comparativo às rodadas recentes do próprio instituto mostra oscilação constante nesse patamar de empate técnico: 45% a 46% em 31 de agosto, 39% a 35% em 8 de setembro, 47% a 46% em 14 de setembro. Contra Ronaldo Caiado, o resultado é empate exato, 45% a 45%. Contra Augusto Cury, Lula tem 44% a 43%, também empate técnico. As distâncias mais confortáveis aparecem contra Zema (47% a 41%) e Renan Santos (47% a 39%).

A pesquisa ouviu eleitores entre 18 e 20 de setembro, com margem de erro de 2 pontos e 95% de confiança.

 

Fonte: Opera Mundi/O Cafezinho

 

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