quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Priscila Miranda: O futuro que eu vi nascer em 2003

O futuro que eu vi nascer começou em 2003, e eu vivi tudo isso. Vivi o que veio antes, vivi a transformação que começou ali, vivi as interrupções, os retrocessos, as perdas e cheguei até este presente, que talvez seja justamente o momento em que o país possa, finalmente, transformar aquele futuro iniciado lá atrás em um futuro mais sólido, mais amplo e mais adequado ao Brasil que nós ainda precisamos construir.

Tenho 45 anos e, portanto, tenho 45 anos de Brasil. Tenho memória do Plano Sarney, apesar de ser muito jovem naquele momento, vivi o Plano Real, vivi os anos 1990 e vivi a eleição de Lula em 2002. Quando eu era criança, eu tinha muito medo de crescer. Achava que o mundo das crianças era melhor, e não apenas porque era um mundo lúdico, porque eu era inventiva, criava coisas, inventava ideias, mas porque tinha uma convicção muito infantil e ao mesmo tempo muito séria de que as crianças percebiam algumas verdades que os adultos já não conseguiam perceber. Eu frequentava reuniões políticas com meu avô, ouvia as conversas dos adultos, via o que acontecia ao meu redor e cresci com a sensação de que o Brasil era um país permanentemente em dificuldade, permanentemente tentando sair de alguma coisa, e de que ser adulto significava entrar naquele mundo complicado, instável e com possibilidades muito limitadas.

Depois eu cresci e, como quase todo mundo, quis exatamente aquilo que antes me assustava: quis ser independente, quis trabalhar, ganhar meu dinheiro, construir alguma coisa, não depender da minha família. E é a partir daí que 2003 tem um significado muito concreto para mim. Eu não estou dizendo que naquele primeiro ano do governo Lula o Brasil acordou transformado nem que tudo começou magicamente no dia da posse. Estou dizendo que, olhando hoje para os vinte e três anos que separam aquele momento de 2026, consigo enxergar ali o início de uma ideia de futuro que, para uma parcela enorme da população brasileira, significava simplesmente poder participar de coisas das quais antes estava excluída.

No meu caso, essa transformação não veio por uma cota e não veio pelo acesso a um programa universitário. Eu sempre estudei em escola pública, fiz vestibulares, passei e ingressei numa universidade pública. Quando programas como o ProUni foram criados, eu já estava em outra fase da minha vida. O que mudou a minha trajetória de uma maneira definitiva foi uma coisa muito mais simples e, olhando agora, talvez muito mais estratégica do que nós conseguíamos perceber naquele momento: eu consegui comprar meu primeiro computador. Em 2005, no primeiro governo Lula, foi instituído o projeto Computador para Todos, voltado à inclusão digital e à aquisição de computadores em condições facilitadas; o próprio decreto determinava um teto para o preço dos equipamentos incluídos no programa e previa linhas específicas de crédito dos bancos públicos federais.

Isso precisa ser colocado no contexto daquele Brasil. Hoje, em 2026, quando carregamos computadores no bolso e estamos discutindo inteligência artificial, pode parecer quase ridículo explicar por que ter um computador próprio era uma transformação. Mas não era. Eu dividia um computador. Minha tia, por exemplo, era digitadora. É importante lembrar até dessa profissão: depois da datilografia, havia pessoas cujo trabalho era fazer a digitação em computadores, porque o computador não era ainda uma ferramenta individual universalizada. A existência de uma profissão como a de digitadora ajuda a explicar o tamanho daquela mudança. Ter um computador na sua casa significava possuir uma ferramenta de informação, comunicação, produção e trabalho que estava começando a determinar quem poderia ou não entrar na economia do século XXI.

E ninguém me deu aquele computador. Eu comprei. Essa diferença, para mim, é essencial, porque existe uma maneira muito simplista de falar de política pública como se inclusão significasse simplesmente o Estado entregar alguma coisa gratuitamente a alguém. Não foi isso. Uma política pública criou condições para que eu tivesse acesso a um bem que até então era muito mais difícil de comprar. Eu paguei por ele, parcelei e usei aquela ferramenta para trabalhar. E foi com aquele computador que consegui dar continuidade aos negócios que já começava a construir. Pude pesquisar, escrever, me comunicar, estabelecer relações profissionais, organizar meu trabalho e, progressivamente, construir uma empresa. Aquele computador não era um prêmio e não era um objeto de consumo supérfluo. Era uma ferramenta de produção.

É talvez agora, vinte anos depois, que eu consiga compreender inteiramente o que aquilo significou. Hoje praticamente todo o meu trabalho acontece digitalmente. Trabalho com cinema, produzo, distribuo, negocio direitos, envio filmes e projetos, converso com pessoas em diferentes países, participo de mercados internacionais, construo parcerias e administro uma empresa através de um computador. E hoje utilizo inteligência artificial. Existe uma linha histórica entre essas duas coisas, entre o computador ao qual eu consegui ter acesso em 2005 e as ferramentas de inteligência artificial que utilizo em 2026. Não porque uma política de 2005 tenha criado a IA, evidentemente, mas porque antes de participar da próxima revolução tecnológica é preciso ter conseguido entrar na anterior.

Esse talvez seja o ponto central. O futuro não começa quando uma tecnologia é inventada. O futuro começa quando as pessoas conseguem ter acesso a ela. E o Brasil que começou a surgir em 2003 era, para mim, um Brasil que começava a discutir justamente quem poderia ter acesso às coisas: ao computador, à universidade, ao crédito, ao consumo, ao conhecimento, às viagens, ao trabalho e à possibilidade de construir uma vida que não estivesse predeterminada pelo lugar social de onde cada pessoa tinha vindo. O ProUni, por exemplo, foi instituído em 2005 para conceder bolsas integrais e parciais no ensino superior privado. Eu não fui beneficiária dele, mas anos depois, já como empresária, empreguei pessoas que haviam sido.

E é aí que, para mim, aparece uma dimensão das políticas públicas que raramente cabe na discussão imediata de uma eleição. Uma política pode chegar a uma pessoa de uma maneira relativamente pequena e continuar produzindo consequências durante vinte anos. No meu caso, tive acesso a uma ferramenta, transformei aquela ferramenta em trabalho, o trabalho se transformou num negócio, o negócio cresceu e me permitiu empregar pessoas mais jovens do que eu, algumas delas provenientes de uma geração que, por sua vez, havia tido acesso a outras políticas de inclusão. Uma oportunidade começou a produzir outra. E isso, para mim, é muito mais importante do que a ideia infantilizada de que um governo “dá” alguma coisa. Um país se transforma quando cria condições para que as pessoas possam construir e, depois, multiplicar aquilo que conseguiram construir.

Talvez por isso me incomode tanto a facilidade com que essa história inteira é apagada e substituída por duas ou três palavras repetidas infinitamente. Eu conheço isso dentro da minha própria família. Conheço a repetição do “ladrão”, do “corrupto”, como se essas palavras, repetidas suficientemente, dispensassem qualquer análise sobre o que efetivamente aconteceu na vida de milhões de pessoas. Corrupção deve ser investigada, julgada e punida; governo algum está acima de crítica. Mas uma sociedade que transforma sua história política numa coleção de rótulos perde a capacidade de compreender o que produziu resultado, o que fracassou, o que precisa ser corrigido e, sobretudo, aquilo que precisa de continuidade para amadurecer.

Porque então vieram as interrupções. Veio a crise política, veio o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, decidido pelo Senado por 61 votos a 20, veio o governo Bolsonaro, veio a pandemia e veio uma sucessão de rupturas que atingiu também a maneira como o país trabalhava, produzia e imaginava seu próprio futuro. E eu acho que este é um ponto que ainda não conseguimos compreender suficientemente: não dá para continuar normalmente depois de tudo o que aconteceu. Não dá para fingir que atravessamos apenas mais uma alternância comum de governos e que, passados três ou quatro anos, tudo deveria estar novamente funcionando como antes.

Na cultura isso é muito evidente para mim porque é o meu campo de trabalho. Não se desmonta uma cadeia cultural e depois se liga tudo novamente apertando um botão. Pessoas deixam o setor, empresas fecham, estruturas desaparecem, relações profissionais e internacionais são interrompidas, projetos deixam de existir, conhecimento se perde. Destruir pode ser rápido; reconstruir não é. E o mesmo raciocínio vale para educação, ciência, tecnologia, cidades, empresas e para a própria confiança de uma geração na possibilidade de construir alguma coisa neste país.

Talvez o Brasil precise compreender que algumas transformações exigem vinte anos. Não vinte anos sem oposição, não vinte anos sem crítica, não vinte anos de um mesmo presidente ou de uma democracia suspensa, porque não é disso que estou falando. Estou falando de continuidade de um projeto de país, da capacidade de decidir que determinadas coisas são estruturais e não podem ser desmontadas a cada ciclo político. Educação precisa de tempo, ciência precisa de tempo, tecnologia precisa de tempo, cultura precisa de tempo, empresas precisam de tempo, instituições precisam de tempo e uma geração precisa de tempo para receber uma oportunidade, construir alguma coisa a partir dela e entregá-la ampliada para a geração seguinte.

O Brasil, no entanto, parece viver preso ao hábito de começar novamente. Constrói e interrompe, avança e recua, cria e desmonta, e depois passa anos reconstruindo aquilo que já poderia estar consolidado. Talvez seja por isso que, aos 45 anos, eu tenha a sensação de ter vivido vários países diferentes dentro do mesmo Brasil. Vi um país em que as possibilidades eram extremamente limitadas, vi um país começar a abrir possibilidades, vi o que consegui fazer quando uma dessas possibilidades chegou até mim e vi, depois, uma parte desse processo ser interrompida.

É desse lugar que olho para Lula em 2026. Não de um lugar de santificação, porque não acredito que político seja santo e não acredito que governo deva ser protegido da crítica. Também não quero voltar para 2003, nem para 2005. Não tenho nenhuma nostalgia de um passado idealizado. O que me interessa é exatamente o contrário: quero saber se o Brasil conseguirá finalmente ir adiante. Quero saber se conseguiremos pegar aquilo que começou a ser construído, corrigir os erros, atualizar o que envelheceu, preservar aquilo que funcionou e chegar a uma nova etapa em vez de destruir tudo outra vez e retornar ao ponto de partida.

E talvez a inteligência artificial seja justamente uma boa maneira de pensar essa questão. Em 2005, a pergunta era quem conseguiria ter um computador. Em 2026, estamos diante de outra transformação que pode reorganizar profundamente trabalho, conhecimento, educação, cultura e produção. A pergunta continua sendo praticamente a mesma: quem terá acesso? Quem poderá usar essas ferramentas para produzir, criar, aprender, empreender e participar da economia que está surgindo, e quem ficará novamente do lado de fora? Se o Brasil não compreender essa questão, corremos o risco de repetir em escala muito maior a desigualdade tecnológica que existia quando um computador ainda era um objeto inacessível para grande parte da população.

Por isso digo que o futuro que eu vi nascer começou em 2003. Não porque tudo tenha começado com um homem, não porque tudo o que veio depois tenha sido perfeito e não porque todos os problemas do país tenham sido resolvidos. Digo isso porque foi naquele momento que eu, olhando a partir da minha própria experiência e da geração a que pertenço, comecei a perceber um país em que o acesso poderia se transformar numa política de desenvolvimento e em que pessoas que historicamente estiveram fora poderiam começar a entrar.

É também a partir dessa experiência que se explica o meu voto em Lula. É uma escolha minha, construída pela memória de 45 anos de Brasil, pelo que vi antes, pelo que vi mudar e pelo que vi ser interrompido. Eu sei o que uma política aparentemente pequena foi capaz de produzir na minha vida durante vinte anos. Sei também o que consegui multiplicar a partir dela. E por isso, quando penso no futuro, não penso apenas naquilo que o Brasil precisa inventar, mas naquilo que precisa ter tempo suficiente para consolidar.

Quando eu era criança, tinha medo de crescer porque achava que o mundo das crianças era melhor do que o mundo dos adultos. Hoje, depois de 45 anos vivendo este país, talvez eu pense justamente o contrário: precisamos finalmente conseguir crescer. Não apenas economicamente, mas crescer como país, acumular conhecimento, experiência, tecnologia, cultura e memória, em vez de voltar eternamente ao começo. Se em 2005 a minha porta para o futuro foi um computador e em 2026 trabalho com ferramentas que naquela época pertenceriam à ficção científica, a pergunta que me interessa agora é o que o Brasil será capaz de colocar nas mãos da próxima geração e o que essa geração poderá construir a partir disso.

O futuro que eu vi nascer começou em 2003. O que nós ainda não conseguimos fazer foi deixá-lo continuar.

 

Fonte: O Cafezinho

 

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