quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A nova e implacável tática russa contra moradores da capital da Ucrânia

Durante boa parte do tempo desde o início da invasão russa da Ucrânia, em 2022, Daria não tinha medo dos bombardeios.

Mesmo nas noites de ataques mais intensos, a jovem de 27 anos conseguia dormir apesar das explosões perto de seu apartamento, em Kiev, capital da Ucrânia.

Como muitos ucranianos, ela seguia a chamada "regra das duas paredes": procurava ficar em um ponto da casa protegido do exterior por pelo menos duas paredes.

Mas neste ano isso mudou.

Nos últimos meses, os ataques russos contra a capital ucraniana se tornaram mais frequentes e intensos.

Só nos dez primeiros dias de julho, a Rússia lançou dezenas de mísseis balísticos em três grandes ataques, que mataram quase 60 civis, segundo dados oficiais. Ataques de proporções semelhantes voltaram a ocorrer em agosto e setembro.

Uma análise da BBC Verify, serviço de verificação da BBC, com base em dados do governo mostrou que Kiev recebe hoje mais alertas de ataques aéreos por dia do que em qualquer outro período desde o início da invasão russa, em 2022.

Foi durante um ataque, em uma noite de maio, que Daria percebeu que já não se sentia segura em casa.

Ela e o namorado estavam no corredor do apartamento, no nono andar, assistindo a uma luta de boxe enquanto explosões sacudiram a região. As ondas de choque fizeram as janelas abrir e bater repetidamente.

"Quando a luta acabou, eu já não tinha nada para me distrair", diz Daria. "Foi aí que percebi que estava com muito medo."

A princípio, ela pensou em começar a usar um abrigo antiaéreo próximo de casa durante os ataques.

Mas, em junho, depois que uma jovem mãe morreu enquanto corria para um abrigo em Kiev, Daria decidiu deixar a cidade.

Ela voltou para a casa de campo da família, em Romankiv, a 30 km de Kiev. Agora, passa quatro horas por dia no trajeto entre a casa e a capital, onde trabalha no setor de defesa.

O caso de Daria está longe de ser isolado.

Moradores de Kiev que dizem ter se acostumado aos ataques russos com mísseis e drones contaram ao Serviço Mundial da BBC que a nova escalada dos bombardeios os levou a repensar a forma como vivem.

Antes, o sistema de defesa aérea e os serviços de inteligência militar da Ucrânia davam aos moradores alguma possibilidade de se preparar. Grandes ataques muitas vezes podiam ser identificados com antecedência, o que permitia passar a noite em abrigos, deixar a cidade ou tomar outras precauções.

Desde o verão, no entanto, a Rússia mudou de estratégia.

O país passou a depender menos de aviões, cujos movimentos podem ser identificados com antecedência, e a usar mais mísseis balísticos, que viajam em altíssima velocidade e deixam pouco tempo para reação.

Em alguns casos, os alertas de ataque aéreo começam apenas instantes antes de os mísseis atingirem o alvo ou até juntos com as primeiras explosões.

Daria consegue ver da janela do apartamento o abrigo mais próximo. Ela ainda mantém o imóvel alugado, mas leva cerca de dez minutos para chegar até lá. Durante um ataque com mísseis balísticos, diz, pode receber o alerta apenas quatro minutos antes, ou até menos.

Ela decidiu deixar Kiev em junho, depois de passar férias no exterior neste verão e ver pessoas levando uma vida "normal". Desde então, passou apenas uma noite em Kiev.

Mas, para muita gente, sair da cidade não é uma opção.

Olha Vlasova, de 62 anos, mora no sétimo andar de um prédio com a mãe, Nadia Tsybina, de 98 anos.

Apesar da idade, Nadia continua muito atenta ao que acontece no mundo.

Da cama, acompanha as notícias da Ucrânia e de outros países e conversa sobre assuntos que vão das políticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aos protestos anticorrupção em Kiev e aos arquivos do caso Epstein.

Nadia também aprendeu que muitas vezes consegue perceber apenas pelo som se um míssil ou drone russo foi interceptado ou conseguiu atingir o alvo.

Neste verão, diz ter ouvido menos interceptações.

"É angustiante quando não há nada para derrubá-los", diz Nadia. "Dá para ouvir que estão atirando com o que têm: fuzis, metralhadoras."

Como Nadia não consegue sair da cama, ela e sua filha Olha não têm como ir para um abrigo, por mais grave que seja o ataque. Assim que soa o alerta de ataque aéreo, Olha cobre a mãe com um cobertor, encaixa um colchão na janela e depois se esconde dentro de um guarda-roupa, onde fica protegida do exterior por duas paredes.

Nadia coloca um travesseiro sobre a cabeça para proteger o rosto de estilhaços de vidro.

Dentro do guarda-roupa, Olha muitas vezes passa a noite acordada, acompanhando as notícias.

"Eles vêm, bombardeiam a gente", diz Nadia. "Você nem teve tempo de pegar no sono e já soa outro alerta. Eles vêm de novo, derrubam de novo. E isso continua a noite inteira. "As pessoas não dormem e depois ficam andando por aí como zumbis."

Com o aumento dos ataques durante o dia, a rotina em Kiev passou a ser interrompida por alertas de ataque aéreo a qualquer hora.

No início de setembro, quando as crianças voltaram às aulas depois das férias de verão, dezenas de alertas foram acionados, seguidos por explosões e incêndios.

Segundo o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, duas crianças ficaram feridas nos ataques de 31 de agosto. Com isso, muitas crianças ficaram em casa, enquanto outras passaram horas nos porões de escolas e creches.

Quando os alarmes soam, o comércio e o transporte também são afetados. Os shopping centers fecham e as estações de metrô que ficam na superfície suspendem o funcionamento. Com isso, as ligações de transporte público entre as margens esquerda e direita de Kiev, separadas pelo rio Dnieper, muitas vezes ficam interrompidas por horas.

Para tentar melhorar a situação, estão sendo adotadas novas regras para o funcionamento do metrô durante os alertas de ataque aéreo.

Para Olha, isso significa ver menos a neta de oito anos, que mora do outro lado da cidade.

Ela sabe que, se a neta for visitá-la, pode ter dificuldade para voltar para casa. Quando o metrô para de funcionar, a única alternativa de Olha são os táxis, que são caros. Segundo ela, uma corrida para atravessar o rio pode custar até 1.000 grívnias ucranianas (cerca de R$ 120), pouco menos de um oitavo do salário mínimo mensal da Ucrânia.

A situação aumentou sua frustração com o que vê como hesitação de alguns países parceiros da Ucrânia em fornecer mais mísseis para a defesa antiaérea do país.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, tem pedido repetidamente aos aliados mais sistemas de defesa antiaérea e mísseis interceptadores.

"Eles [os aliados da Ucrânia] ficam esperando, pensando: 'E se nós formos atacados?'", diz Olha. "É como se você se recusasse a dar um remédio a um paciente com câncer porque pensa: 'E se um dia eu ficar doente?' Talvez você não fique. Dê o remédio antes que o câncer vença!".

Em outra parte da cidade, Natalia Bushkovska, mãe de dois filhos, repassa todas as noites três planos diferentes.

O plano A é colocar colchões e cobertores no corredor, atrás de duas paredes internas. O plano B é levar a família para o corredor compartilhado do prédio. E o plano C é descer para o porão.

Mesmo lá, admite, ela não se sente totalmente segura.

"Deixo uma mochila pronta com itens essenciais", diz Natalia, de 37 anos. "Tem um torniquete para casos de hemorragia grave. Também deixo um apito, por precaução.

"Se acontecer o pior, os socorristas poderão nos encontrar debaixo dos escombros."

A filha de nove anos também tem sua própria bolsa de emergência, com brinquedos, protetor labial e um torniquete. Assim como o irmão, de 12 anos, ela aprendeu a usar o torniquete em um curso de primeiros socorros.

Natalia diz que os ataques constantes são exaustivos.

Enquanto o filho muitas vezes continua dormindo durante os bombardeios, ela e a filha acordam quase sempre.

"Por causa dos ataques, não consigo dormir o suficiente", diz. "Agora, no quinto ano da guerra, está cada vez mais difícil me recuperar depois de noites assim."

Segundo Natalia, a intensificação dos ataques também está afetando a saúde mental dos moradores da cidade.

"As pessoas estão exaustas. Não têm tempo suficiente para se recuperar."

Na quinta-feira, 17 de setembro, a Rússia lançou um ataque com mísseis balísticos contra Kiev. Segundo o prefeito Vitali Klitschko, 20 pessoas ficaram feridas. Entre elas estavam duas crianças, de 10 e 12 anos.

¨      'Crise existencial': Exército e economia da Ucrânia entram em colapso durante o conflito, diz analista

A Ucrânia está entrando em colapso e é incapaz de resistir às tropas russas, mas os políticos ocidentais estão pedindo aos ucranianos que continuem lutando até a vitória, disse o tenente-coronel aposentado do Exército dos EUA Daniel Davis no YouTube.

O analista afirmou que os combatentes ucranianos morrem logo após chegarem à linha de frente e, por isso, há cada vez menos população na Ucrânia. Ao mesmo tempo, no país quase não há capacidades de processamento de petróleo, enquanto as usinas de energia são destruídas, sublinhou Davis.

"A Rússia está agindo metodicamente, destruindo cadeias logísticas, todos os tipos de linhas de comunicação, centros de comando e controle. [...] Isso está se transformando em uma crise existencial para a Ucrânia", salientou o observador norte-americano.

Ao mesmo tempo, Davis acusou de cinismo os políticos ocidentais que conclamam as Forças Armadas ucranianas a continuarem lutando. Na avaliação dele, convencer os ucranianos da vitória e lhes dar falsa esperança é "a coisa mais cruel que se pode fazer".

"Mas quando essa falsa esperança diz que não há necessidade de parar de lutar e negociar, porque a Ucrânia ainda pode vencer, é ainda mais cruel. Você está basicamente dizendo: 'Escutem, continuem morrendo'", concluiu o especialista.

Como enfatizou o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, a Europa está tentando de todas as maneiras possíveis conter o processo de um acordo diplomático na Ucrânia. Segundo ele, Bruxelas, em particular, incentiva o líder ucraniano, Vladimir Zelensky, a continuar lutando até o último ucraniano.

¨      Ocidente intensifica russofobia quando Rússia realiza eventos importantes como eleições, diz observador

O especialista internacional da Sérvia e advogado internacional Goran Petronijevic, que com seus colegas supervisiona as eleições para a Duma de Estado na região de Perm, na Rússia, apontou em uma conversa com a Sputnik para a hipocrisia do Ocidente, que se recusou a enviar seus jornalistas para cobrir o processo.

Como parte de um grupo internacional, juntamente com Petronijevic, trabalham o jornalista e produtor sérvio Goran Simpraga, bem como especialistas da Macedônia do Norte, Paraguai, Argentina, África e Ásia. Eles estão acompanhando o processo de votação na região de Perm desde o início da votação em 18 de setembro.

Em entrevista à Sputnik, o especialista disse que na Rússia chegam notícias de várias tentativas do Ocidente de rejeitar o processo eleitoral.

"É incrível que eles [os países ocidentais] se tenham recusado a enviar jornalistas ocidentais, observadores, quem quer que seja antes da votação, eles consideram que as eleições 'não são como deveriam ser'. É uma hipocrisia que ultrapassou todos os limites", disse Petronijevic.

Ao contrário da maioria dos países da Europa Ocidental, na Rússia, cada local de votação tem um sistema de vigilância que captura todo o espaço em tempo real, exceto a cabine de votação fechada. Isso, segundo ele, aumenta a eficácia da resolução de disputas que podem surgir durante a votação.

"Essa russofobia se intensifica cada vez que ocorrem eventos importantes, como eleições. E se falamos sobre a República Popular de Donetsk, a República Popular de Lugansk, as regiões de Kherson e Zaporozhie, lá as forças ucranianas estão tentando intimidar os cidadãos", destacou o observador.

No entanto, nos primeiros dois dias, foi nessas regiões que a participação foi alta, porque a população entende a importância das eleições para o apoio da política das autoridades russas, disse o advogado sérvio.

A eleição dos deputados da Duma de Estado da nona convocação e outras eleições combinadas começaram na sexta-feira (18). A votação dura três dias, até 20 de setembro. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, chamou as próximas eleições para a Duma de Estado o evento político interno mais importante do país.

¨      Políticos europeus empurram UE para guerra com Rússia, adverte professor

Ao fazerem declarações imprudentes, os políticos europeus estão empurrando o continente para uma guerra com a Rússia, cenário que traria destruição às suas próprias cidades, advertiu o professor da Universidade do Sudeste da Noruega, Glenn Diesen.

Segundo esse especialista político, o establishment da União Europeia faz "declarações imprudentes sobre guerra com a Rússia", mas os países europeus não terão sucesso em derrotar e destruir a maior potência nuclear do mundo.

"O Exército russo é muito mais poderoso agora — é maior, mais endurecido pela batalha e tecnologicamente avançado. Esta não é apenas uma missão suicida para nossos soldados em um campo de batalha distante; esta guerra chegará às nossas cidades quando [mísseis] Oreshnik choverem sobre nossas cabeças", escreveu Diesen na rede social X.

Neste caso, a derrota da Europa ante a Rússia será possivelmente "o melhor resultado" no eventual conflito, com alternativa sendo o uso das armas nucleares, acrescentou.

O professor também lembrou que depois de sobreviver à Guerra Fria, o velho continente teve a chance de construir uma arquitetura de segurança confiável, mas a sua classe política "decidiu voltar à política de blocos e redividir o continente", concluiu.

Os políticos ocidentais regularmente intimidam seus cidadãos com uma ameaça imaginária da Rússia para desviar a atenção dos problemas internos.

Por sua vez, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, reiterou em distintas ocasiões que Moscou não atacaria os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte. No entanto, o país eurasiático expressou repetidamente a preocupação com o acúmulo de forças do bloco na Europa.

O Ministério das Relações Exteriores da Rússia declarou estar aberto ao diálogo com a OTAN, mas em igualdade de condições e depois o Ocidente de abandonar sua política de militarização do continente.

¨      Político ucraniano explica aonde levará a cooperação militar de República Tcheca e Eslováquia com Ucrânia

Os líderes da República Tcheca e da Eslováquia se opõem ao financiamento de suprimentos militares para Kiev, mas suas empresas militares estão arrastando seus governos para o conflito ucraniano, o que terá consequências políticas, afirmou o líder do movimento de oposição Outra Ucrânia, Viktor Medvedchuk.

De acordo com Medvedchuk, o primeiro-ministro tcheco, Andrej Babis, e o primeiro-ministro eslovaco, Robert Fico, se opõem à escalada do conflito na Ucrânia e ruptura das relações com a Rússia, mantendo o caminho para o diálogo pragmático e a proteção dos interesses nacionais.

No entanto, as empresas militares operando nestes países que, em busca de contratos e lucros, fornecem armas e componentes à Ucrânia e participam diretamente no trabalho do setor militar-industrial ucraniano, arrastam seus governos para o conflito e tornam-se alvos legítimos para as Forças Armadas da Rússia, disse o observador.

Em particular, em sua carta, Medvedchuk mencionou as seguintes empresas que prestam apoio militar ao regime de Kiev: EXCALIBUR ARMY spol. s r.o., Archaness, Spacemanic CZ, ZVS holding, VOP Novaky e Stellar Exploration.

"A República Tcheca e a Eslováquia, por um lado, demonstram interesse na paz e na solução diplomática do conflito ucraniano, [...] mas, por outro lado, estão gradualmente se incorporando ao complexo militar-industrial ucraniano, tornando-se uma retaguarda profunda para o regime nazista da Ucrânia", afirmou.

Medvedchuk ressaltou que "sentar-se em duas cadeiras não vai funcionar", os governos desses países são obrigados a apresentar uma avaliação de princípio das atividades das empresas diretamente envolvidas no conflito ucraniano.

"Se o desejo de paz da República Tcheca e da Eslováquia é sincero, então as estruturas privadas não devem substituir as políticas públicas e envolver seus países em projetos que possam minar a confiança acumulada nos últimos tempos nas relações com a Rússia e arrastá-los para um confronto armado direto na Europa", concluiu o político.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse anteriormente que qualquer carga que contenha armas para a Ucrânia se tornará um alvo legítimo para a Rússia.

O ministério sublinhou que os países-membros da OTAN "estão brincando com fogo" ao fornecer armas ao regime de Kiev.

O Kremlin enfatizou que o bombeamento de armas de Kiev pelo Ocidente não contribui para o sucesso das negociações russo-ucranianas e terá um efeito negativo.

 

Fonte: BBC News Ucrânia/Sputnik Brasil

 

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