Na
ONU, Lula critica ação dos EUA na região: 'Brasil não cabe no quintal de
ninguém'
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) usou o púlpito da
abertura da 81ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, para criticar
a interferência dos Estados Unidos na América Latina.
Esta
foi a 11ª vez que Lula discursou na Assembleia. Ele foi o primeiro a falar, em uma tradição mantida desde 1955.
"Na
América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar
do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações
hegemônicas", disse o presidente brasileiro.
"O
Brasil não cabe no quintal de ninguém", afirmou sob aplausos.
"Precisamos de parceiros com uma agenda positiva, que fomentem o
desenvolvimento. Diferenças ideológicas não devem ser obstáculos para maior
integração entre vizinhos."
Lula e
o presidente dos EUA, Donald Trump, não se encontraram nos bastidores da
Assembleia Geral da ONU, segundo fontes próximas ao presidente brasileiro.
Havia a
expectativa de que os dois líderes se cruzassem na saída de Lula do plenário da
ONU, quando Trump estaria entrando para seu próprio discurso. Foi nesse momento
que eles se encontraram rapidamente em 2025.
Naquele
momento, o governo brasileiro tentava uma saída diplomática para o primeiro
tarifaço aplicado por Donald Trump ao país. Também se discutia a aplicação da
Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, sob a acusação de o ministro do STF
ter agido politicamente na condenação de Jair Bolsonaro.
O
episódio foi um ponto de virada na relação entre os dois chefes de Estado, que
passaram a dialogar e até tiveram um encontro presencial, que resultou na
retirada de tarifas e sanções ao Brasil.
Mas a
relação entre os presidentes voltou a desandar nos últimos meses.
O
momento atual é particularmente delicado: a duas semanas das eleições
brasileiras, com uma disputa comercial ainda sem solução e sob o risco de uma
nova rodada de sanções do governo Donald Trump contra autoridades brasileiras.
Lula
fez referências às cobranças dos EUA para combate ao crime organizado no Brasil
e afirmou que seu país não vai "terceirizar a responsabilidade" de
defender suas fronteiras e de "garantir à população o direito de viver sem
medo".
"Não
precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas", disse o presidente
brasileiro, "precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de
dinheiro que abastece o crime organizado".
Segundo
Lula, esse é o ponto central da proposta sobre combate ao crime enviada pelo
seu governo ao presidente norte-americano Donald Trump.
Em maio
deste ano, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a classificação das facções
brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como
organizações terroristas.
O
secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que o CV e o PCC "são duas das
organizações criminosas mais violentas do Brasil", o que marcou a maior
derrota do governo Lula na sua relação com o governo Trump desde a imposição do
tarifaço, em 2025.
Foi uma
batalha vencida pelo grupo político agora liderado pelo senador e candidato à
Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
O
anúncio ocorreu um dia após Flávio se reunir com Rubio, e na mesma semana em
que ele pediu que o presidente Trump designasse as facções brasileiras como
organizações terroristas, durante encontro na Casa Branca.
Na ONU,
o presidente brasileiro ressaltou que o país está preparado para o desafio de
enfrentar as organizações criminosas e listou algumas ações que seu governo
realizou no combate às facções.
"Batemos
recorde de apreensão de drogas, de bens e recursos ilícitos. Estamos
enfrentando todos os escalões da criminalidade, inclusive os magnatas do crime.
A lei antifacção, que acabamos de aprovar, impõe ao crime organizado penas
superiores às previstas para o terrorismo. Crime organizado e corrupção andam
juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém
está acima da lei."
"O
Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado. Estamos
preparados para enfrentar as organizações criminosas que aterrorizam nossas
comunidades. Trabalhadores são roubados, mães perdem seus filhos, policiais não
voltaram para as suas casas. As pessoas estão cansadas da violência",
disse.
Próximo
às eleições gerais no Brasil, em 4 de outubro, o petista também falou sobre o
pleito e disse que a votação não servirá apenas para eleger o presidente,
governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo, mas para
"decidir entre democracia e negacionismo".
Segundo
o presidente brasileiro, a eleição vai definir "se o Brasil vai avançar
rumo a um futuro de mais oportunidades ou regressar a um passado de
exclusão".
No agregador de pesquisas para
presidente da BBC News Brasil, Flávio Bolsonaro voltou a aparecer à frente
de Lula no 2º turno nesta semana.
Lula
ressaltou que o pleito é "transparente e competitivo" e que todos os
candidatos "desfrutam da mais ampla liberdade de expressão".
O
presidente afirmou, porém, que "interesses estrangeiros contrários ao
país" têm abusado dessa liberdade.
"Não
subestimamos o desafio da rede de desinformação que pretende desvirtuar o
debate público durante a campanha. Mas possuímos um sistema eleitoral moderno e
robusto, sob olhar atento de cidadania plural e de uma imprensa livre",
disse.
Outro
ponto do discurso de Lula foi a soberania do Brasil, tema que ele explorou
durante o tarifaço dos Estados Unidos contra o país e também tem explorado em
sua campanha eleitoral.
"Não
permitiremos que inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a
vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil
continuará sendo um país soberano. Ninguém nos afastará deste caminho".
Lula
também usou seu discurso para falar sobre resultados da economia brasileira.
"Apesar do tarifaço contra nossa economia, este ano bateremos novo recorde
de exportações", disse.
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Lula critica Netanyahu e diz que guerra é a 'falência total da política'
Lula
iniciou sua fala afirmando que este é o momento mais crítico das Nações Unidas
desde 2003, quando se tornou presidente pela primeira vez.
Segundo
o presidente brasileiro, o Conselho de Segurança, seus membros e o mundo estão
falhando em proteger a população das guerras.
"A
ONU está falhando em uma de suas missões mais elevadas. A de livrar a
humanidade do flagelo da guerra. Sua credibilidade nunca esteve tão baixa. Sua
capacidade de proteger os mais vulneráveis, os que não têm exército nem
arsenais nunca foi tão pequena. Somos todos reféns do imobilismo de um conselho
de segurança que não cumpre seu papel", disse Lula.
Em seu
discurso, Lula defendeu o sistema eleitoral brasileiro e o Pix e pediu a
regulamentação internacional de big techs.
Também
fez contrapontos à política externa dos Estados Unidos. Ele afirmou que o povo
venezuelano merece decidir sobre seu destino, em referência a Delcy Rodríguez
na presidência da Venezuela após Nicolás Maduro ser preso pelos Estados Unidos
em janeiro deste ano.
Trump,
por sua vez, usou seu discurso na ONU para falar sobre as ações americanas na
Venezuela e o combate a organizações criminosas na América Latina e Caribe.
"Nossas
ações na Venezuela são prova de que os Estados Unidos não vão mais permitir que
ameaças à América ganhem posição de destaque no hemisfério ocidental e, se
necessário, usaremos nosso poderio militar incomparável para garantir os
interesses nacionais vitais dos EUA", disse.
Lula
também criticou a decisão do governo de Daniel Ortega, na Nicarágua, de não
realizar eleições.
O
presidente brasileiro também foi aplaudido ao elogiar a resolução histórica
adotada pela Assembleia Geral da ONU em março de 2026, que reconhece o tráfico
transatlântico de africanos escravizados como "o crime mais grave contra a
humanidade".
"Essa
assembleia corrigiu recentemente distorções históricas. Reconheceu o tráfico de
africanos escravizados como o mais grave crime contra a humanidade",
disse, sendo aplaudido.
"Aprovou
a representação mais precisa do mapa-múndi. Agora, deve se debruçar sobre temas
determinantes para o futuro da humanidade. Somos chamados a optar entre o
multilateralismo e o unilateralismo. Democracia e extremismo. Soberania ou
subordinação. Essas escolhas demandam coragem, vontade política e clareza de
objetivos", disse.
Também
no início de seu discurso, o presidente falou também sobre a guerra em Gaza, o
"genocídio praticado pelo governo Netanyahu" e "os atos
terroristas do Hamas".
"Gerações
de palestinos carregarão a dor e o trauma deixado pelo genocídio praticado pelo
governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza. Civis israelenses pagaram
o preço do radicalismo e da intolerância dos atos terroristas do Hamas", criticou
o presidente brasileiro.
O
presidente brasileiro disse ainda que é um representante de uma nação que
defende a paz e a liberdade. Segundo Lula, a guerra é a "falência total da
política".
"O
ano de 2025 registrou o maior número de conflitos armados desde a Segunda
Guerra Mundial. Trilhões de dólares financiam uma nova corrida armamentista.
Tensões geopolíticas ameaçam transformar confrontos regionais em uma
conflagração de proporções globais. Os que detêm as rédeas das decisões
cruciais devem atuar com responsabilidade e sentido de urgência. Os líderes dos
países que integram o Conselho de Segurança precisam se reunir", afirmou.
"As
concessões à lei do mais forte já passaram dos limites", diz Lula.
O
presidente encerrou seu pronunciamento com "que Deus nos abençoe a todos e
muito obrigado".
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Trump, na ONU, ameaça usar poder militar dos EUA para
garantir 'interesses' na América Latina
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta
terça-feira, 22/09, que os EUA usarão "poderio militar incomparável"
na América Latina para garantir segurança contra cartéis de drogas.
Ele foi
o segundo líder a discursar na Assembleia Geral da ONU, em Nova York, depois do
discurso do presidente Lula.
Trump
usou seu discurso para falar sobre as ações americanas na Venezuela e o combate
a organizações criminosas na América Latina e no Caribe.
Em sua
fala, ele comparou as gangues latino-americanas ao grupo terrorista Estado
Islâmico.
"Nossas
ações na Venezuela são prova de que os
Estados Unidos não vão mais permitir que ameaças à América ganhem posição de
destaque no hemisfério ocidental e, se necessário, usaremos nosso poderio
militar incomparável para garantir os interesses nacionais vitais dos
EUA", disse.
"Depois
de chegar ao cargo, eu designei os cartéis de drogas como organizações
terroristas estrangeiras e desencadeei uma operação com as Forças Armadas
Americanas para eliminá-los. Os cartéis são o Estado Islâmico do hemisfério
ocidental".
Ao
falar sobre a relação dos EUA com a América Latina, Trump afirmou ainda que o
regime de Cuba "está sob a maior pressão até hoje".
"Estamos
pensando também numa mudança radical em Cuba, onde o regime comunista está sob
a maior pressão que jamais esteve. É um regime absolutamente falido, um Estado
falido. E vai cair", disse.
O
presidente americano também afirmou que seu secretário de Estado, Marco Rubio,
está conduzindo negociações com o governo cubano. "Nós não vamos deixar
que haja um porto seguro para o terror na nossa porta", disse.
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Lula e Trump não se encontraram nos bastidores
Lula e
Donald Trump não se encontraram nos bastidores da Assembleia Geral da ONU,
segundo fontes próximas ao presidente brasileiro informaram à BBC News Brasil.
Havia a
expectativa de que os dois líderes se cruzassem na saída de Lula do plenário da
ONU, quando Trump estivesse entrando para seu próprio discurso. Foi nesse momento que eles se
encontraram rapidamente em 2025.
Naquele
momento, o governo brasileiro tentava uma saída diplomática para o primeiro
tarifaço aplicado por Donald Trump ao país. Também se discutia a aplicação da
Lei Magnitsky contra Alexandre de Moraes, sob a acusação de o ministro do STF
ter agido politicamente na condenação de Jair Bolsonaro.
O
episódio foi um ponto de virada na relação entre os dois chefes de Estado, que
passaram a dialogar e até tiveram um encontro presencial, que resultou na
retirada de tarifas e sanções ao Brasil.
A
relação voltou a desandar nos últimos meses, contudo.
O
momento atual é particularmente delicado: a duas semanas das eleições
brasileiras, com uma disputa comercial ainda sem solução e sob o risco de uma
nova rodada de sanções do governo Trump contra autoridades brasileiras.
Fonte:
BBC News Brasil

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